14 de maio de 2025, quarta-feira Atualizado em 14/12/2025 05:45:27
MAI.
14
HOJE NA;HISTóRIA
55
Tiauanaco ou Tiwanaku (em castelhano: Tiahuanaco ou Tiahuanacu) é um sítio arqueológico pré-colombiano no oeste da Bolívia, perto do lago Titicaca, e um dos maiores sítios arqueológicos da América do Sul. Os restos de superfície atualmente cobrem cerca de 4 quilômetros quadrados e incluem cerâmicas decoradas, estruturas monumentais e blocos megalíticos. A população do local provavelmente atingiu o pico por volta do ano 800, com uma população entre 10 mil e 20 mil pessoas.[1]
O local foi registrado pela primeira vez na história escrita em 1549 pelo conquistador espanhol Pedro Cieza de León enquanto procurava pela capital inca do sul, Qullasuyu.[2]
O cronista jesuíta Bernabé Cobo relatou que o nome de Tiauanaco já foi taypiqala, que em aimará significa "pedra no centro", aludindo à crença de que ela ficava no centro do mundo.[3] O nome pelo qual Tiauanaco era conhecida por seus habitantes originais pode ter se perdido, pois eles não tinham linguagem escrita.[4][5] Heggarty e Beresford-Jones sugerem que é mais provável que a língua puquina tenha sido a língua do povo de Tiauanaco.[6]
Historia
A idade do local foi significativamente aprimorada no último século. De 1910 a 1945, Arthur Posnansky afirmou que o local tinha entre 11 mil e 17 mil anos[7][8] com base em comparações com eras geológicas e arqueoastronomia. A partir da década de 1970, Carlos Ponce Sanginés propôs que o local foi ocupado pela primeira vez por volta de 1580 a.C.,[9] a data de radiocarbono mais antiga do local. Esta data ainda é vista em algumas publicações e museus da Bolívia. Desde a década de 1980, no entanto, os pesquisadores passaram a reconhecer que esta datação não era confiável, levando ao consenso de que o local não é mais antigo do que 200 a.C. ou 300 a.C..[10][11][12] Mais recentemente, uma avaliação estatística de datas confiáveis de radiocarbono estima que o local foi fundado por volta do ano 110 (50-170, 68% de probabilidade),[13] uma data apoiada pela falta de estilos de cerâmica de períodos anteriores.[14]
A área ao redor de Tiwanaku pode ter sido habitada já desde 1500 a.C. como uma pequena vila agrícola.[15] A localização de Tiwanaku entre o lago e o planalto seco fornecia recursos fundamentais como peixes, pássaros selvagens, plantas e pastagens para camelídeos, em especial lhamas.[16] A bacia hidrográfica do Titicaca é a região mais fértil da área, com chuvas certas e abundantes, que a cultura de Tiwanaku aprendeu a utilizar na agricultura. Se deslocando para leste, o altiplano torna-se uma região extremamente árida.[17] A alta altitude da bacia do Titicaca exigiu o desenvolvimento de uma técnica própria de cultivo conhecida como "monte de cultivo" (suka kollu), composta por plataformas elevadas de cultivo intercaladas por canais, que previne problemas de falta de drenagem, inundações e geadas.[18] Essa técnica era aplicada em uma percentagem significativa da agricultura na região, juntamente com as técnicas de campo irrigado, pastos, terraço e agricultura de qocha (lagos artificiais).[19]
Montes de plantação artificialmente levantados são separados por canais rasos preenchidos com água. Os canais fornecem umidade para as culturas em crescimento, mas também absorvem calor da radiação solar durante o dia. Esse calor, então, é emitido gradualmente durante as severas noites frias que sempre produzem geada e que são endêmicas da região, propiciando insolação térmica. Traços de manejo da paisagem também foram encontrados na Planície Beniana.[20] Através de uma agricultura intensiva, os suka kollu produzem colheitas impressionantes. Enquanto a agricultura tradicional da região produz 2,4 toneladas de batata por hectare, e a agricultura moderna (com fertilizantes artificiais e pesticidas) produz 14,5 toneladas por hectare, a agricultura de suka kollu produz, em média, 21 toneladas por hectare.[19]
Conforme a população cresceu, nichos ocupacionais foram criados de modo que cada membro da sociedade sabia realizar um ofício e confiava na elite do império para suprir todas as necessidades da população. Havia uma estratificação hierárquica dentro do império.[21] A elite de Tiwanaku vivia dentro de quatro muralhas que eram circundadas por um fosso. Segundo alguns, o fosso visava a criar uma imagem de uma "ilha sagrada". Dentro das muralhas, existiam muitas imagens de origem humana que eram privilégio da elite, embora as imagens representassem o início de toda a espécie humana. A população pode ter entrado nesses recintos apenas para propósitos cerimoniais, pois eles abrigavam o santuário mais sagrado.[19]
A cidade e seus habitantes não deixaram história escrita, e a população local atual pouco conhece da cidade e de sua história. Uma teoria baseada na arqueologia propõe que, por volta do ano 400, Tiwanaku, de uma força dominante local, passou a ser a um estado predatório. A cidade, então, teria expandido seus domínios até a região dos Andes orientais (Yunga), disseminando sua cultura e estilo de vida pelas regiões atualmente ocupadas pelo Peru, Bolívia e Chile. Tiwanaku, entretanto, não foi exclusivamente uma cultura violenta. A cidade também usou a política para se expandir, criando colônias, negociando tratados comerciais (que tornaram as outras culturas dependentes de Tiwanaku) e estabelecendo cultos estatais.[22] Muitas cidades foram atraídas para Tiwanaku por motivos religiosos, pois a cidade nunca deixou de ser um centro religioso. A força raramente era necessária para a expansão do império, mas, no extremo norte da bacia hidrográfica, houve resistência. Existem evidências de que as bases de algumas estátuas foram trazidas de outras culturas até Tiwanaku e posicionadas em posição de subordinação perante os deuses de Tiwanaku, de modo a demonstrar o poder de Tiwanaku sobre essas cidades.[23] Um exemplo de violência que Tiwanaku costumava praticar era a oferenda feita no alto do edifício conhecido como Akipana. Nesse local, pessoas eram mortas, dilaceradas e expostas publicamente, talvez como uma forma de dedicação aos deuses. Pesquisas mostraram que uma das vítimas foi uma pessoa não nativa da região do lago Titicaca, sugerindo que as vítimas, geralmente, não pertenciam à sociedade da região.[19]
A comunidade alcançou proporções urbanas entre os anos de 600 e 800, se tornando um importante poder regional no sul dos Andes. De acordo com estimativas iniciais, na sua máxima extensão, a cidade cobriu aproximadamente 6,5 quilômetros quadrados, e teve entre 15 000 e 30 000 habitantes.[19] Entretanto, imagens de satélite foram usadas recentemente para mapear a extensão de suka kollu fossilizado nos três vales principais de Tiwanaku, chegando-se a uma capacidade populacional estimada entre 285 000 e 1 482 000 pessoas.[24] O império continuou a crescer, absorvendo culturas mais do que as erradicando. William H. Isbell afirma que "Tiahuanaco passou por uma dramática transformação entre os anos de 600 e 700, quando estabeleceu novos padrões monumentais para sua arquitetura cívica e aumentou grandemente sua população".[25] Arqueólogos notam uma dramática adoção de cerâmicas de Tiwanaku por parte de culturas que se tornaram parte do império de Tiwanaku. Tiwanaku conquistou poder através do comércio que implementou entre todas as cidades que compunham o império.[26]
O poder das elites continuou a crescer juntamente com o excedente de recursos até aproximadamente o ano 950. Nesse momento, ocorreu uma dramática mudança no clima.[19] Ocorreu uma significativa queda de precipitação na bacia do Titicaca, sendo que alguns arqueólogos sugerem a possibilidade de ter ocorrido uma seca. Conforme as chuvas diminuíam, muitas cidades mais distantes do lago Titicaca começaram a gerar menores colheitas para as elites. Com a diminuição do excedente de comida, o poder das elites começou a diminuir. Graças à eficiência dos seus campos agrícolas elevados, a capital se tornou o último reduto de produção agrícola, mas, finalmente, até o inteligente mecanismo dos campos elevados sucumbiu ao clima. Tiwanaku desapareceu por volta do ano 1000 porque a produção de alimentos, fonte de seu poder e autoridade, secou. A terra se tornou desabitada por muitos anos.[19]
Estruturas
As estruturas que foram escavadas por pesquisadores em Tiauanaco incluem as plataformas em terraços Akapana, Akapana Oeste e Puma Punku, o Kalasasaya, o templo Kantatallita, o Kheri Kala e recintos Putin e o templo semi-subterrâneo. Estes podem ser visitados pelo público. O Akapana é uma estrutura aproximadamente em forma de cruz, com 257 m de largura, 197 m de largura no máximo e 16,5 m de altura. Em seu centro parecia haver um pátio submerso. Este foi quase destruído por uma escavação profunda de saqueadores que se estende do centro desta estrutura ao lado oriental. O material da escavação do saqueador foi despejado no lado leste do Akapana. Uma escadaria com esculturas está presente no seu lado poente. Possíveis complexos residenciais podem ter ocupado os cantos nordeste e sudeste desta estrutura.
Originalmente, acreditava-se que o Akapana foi desenvolvido a partir de uma colina modificada. Estudos do século XXI mostraram que, na verdade, ele é um monte de barro inteiramente feito pelo homem, confrontado com uma mistura de grandes e pequenos blocos de pedra. A sujeira que compõe o Akapana parece ter sido escavada do "fosso" que cerca o local.[27] O maior bloco de pedra dentro do Akapana, feito de andesito, é estimado em 65,7 toneladas.[28] Puma-tenon e cabeças humanas cobrem os terraços superiores.[27] O Akapana Oeste foi construído no lado oriental do início de Tiauanaco. Mais tarde, foi considerado uma fronteira entre o centro cerimonial e a área urbana. Era feito de um piso espesso e preparado de areia e argila, que sustentava um conjunto de edifícios. Argila amarela e vermelha era usada em diferentes áreas para o que parecia ser uma finalidade estética. Foi varrido de todo o lixo doméstico, sinalizando sua grande importância para a cultura.[27]
O Pumapunku é uma plataforma feita pelo homem construída em um eixo leste-oeste, assim como o Akapana. É um monte de terra em forma de T, com terraço e coberto por blocos megalíticos. Tem 167,36 m de largura ao longo do seu eixo norte-sul e 116,7 m de largura ao longo do seu eixo este-oeste e tem 5 m de altura. Projeções idênticas de 20 metros de largura estendem-se por 27,6 metros ao norte e ao sul dos cantos nordeste e sudeste do Pumapunku. Quadros murados e não murados e uma esplanada estão associados a esta estrutura. Uma característica proeminente do Pumapunku é um grande terraço de pavimentado com pedra, com 6,75 por 38,72 metros de dimensão. É chamado de "Plataforma Lítica" e contém o maior bloco de pedra encontrado no sítio arqueológico de Tiauanaco.[28][29] De acordo com Ponce Sangines, o bloco está estimado em 131 toneladas métricas.[28] O segundo maior bloco de pedra encontrado dentro do Pumapunku é estimado em 85 toneladas métricas.[28][29]O Kalasasaya é um grande pátio com mais de 90 metros de comprimento, delineado por um portal alto. Ele está localizado ao norte de Akapana e a oeste do Templo Semi-Subterrâneo. Dentro do pátio é onde os exploradores encontraram a Porta do Sol. Desde o final do século XX, os pesquisadores teorizam que este não era o local original do portal. Perto do pátio está o Templo Semi-Subterrâneo; um pátio quadrado rebaixado que é único por seu eixo norte-sul, em vez de leste-oeste.[30] As paredes são cobertas por respigas de diversos estilos, sugerindo que a estrutura foi reutilizada para diversos fins ao longo do tempo.[31] Foi construído com paredes de pilares de arenito e blocos menores de alvenaria Ashlar.[31][32] O maior bloco de pedra no Kalasasaya é estimado em 26,95 toneladas métricas.[28] Dentro de muitas das estruturas do local, existem portas impressionantes; as de escala monumental estão em montes artificiais, plataformas ou quadras submersas. Muitas portas mostram a iconografia do Deus dos Cajados. Esta iconografia também é usada em alguns vasos de grandes dimensões, indicando uma importância para a cultura. Essa iconografia está mais presente na Porta do Sol.[33]
A Portal do Sol e outros localizados em Pumapunku não estão completos. Eles estão sem parte de uma estrutura recuada típica conhecida como chambranle, que normalmente tem soquetes para grampos para suportar adições posteriores. Esses exemplos arquitetônicos, assim como a recém-descoberta Porta Akapana, têm detalhes únicos e demonstram grande habilidade no corte de pedras. Isso revela um conhecimento da geometria descritiva.
A regularidade dos elementos sugere que eles fazem parte de um sistema de proporções. Muitas teorias para a habilidade de construção arquitetônica de Tiauanaco foram propostas. Uma é que eles usaram um luk ‘a, que é uma medida padrão de cerca de sessenta centímetros. Outro argumento é a favor da Razão Pitagórica. Essa ideia exige triângulos retângulos em uma proporção de cinco para quatro para três usados nas portas para medir todas as partes. Por último, Protzen e Nair argumentam que Tiauanaco tinha um sistema definido para elementos individuais dependendo do contexto e da composição. Isso é mostrado na construção de portas semelhantes de vários tamanhos, provando que os fatores de escala não afetaram a proporção. Com cada elemento adicionado, as peças individuais foram deslocadas para se encaixarem.[34]
À medida que a população cresceu, os nichos ocupacionais se desenvolveram e as pessoas começaram a se especializar em certas habilidades. Aumentou o número de artesãos, que trabalhavam com cerâmica, joalheria e têxtil. Como os incas, o povo de Tiauanaco tinha poucas instituições comerciais ou de mercado. Em vez disso, a cultura dependia da redistribuição feita pela elite.[35] Ou seja, as elites do império controlavam essencialmente toda a produção econômica, mas esperava-se que elas fornecessem a cada plebeu todos os recursos necessários ao desempenho de sua função. As ocupações selecionadas incluem agricultores, pastores, pastores, etc. Essa separação de ocupações foi acompanhada por estratificação hierárquica dentro do império.[36]
Alguns autores acreditam que as elites de Tiauanaco viviam dentro de quatro paredes que eram cercadas por um fosso. Esta teoria é chamada de "teoria do fosso de Tiauanaco". Este fosso, alguns acreditam, foi criado para criar a imagem de uma ilha sagrada. Dentro das paredes havia muitas imagens dedicadas à origem humana, que apenas as elites poderiam ver. Os plebeus podem ter entrado nesta estrutura apenas para fins cerimoniais, uma vez que era o lar do mais sagrado dos santuários.[2]CosmologiaEm muitas culturas andinas, as montanhas são veneradas[37] e podem ser consideradas objetos sagrados. O sítio arqueológico de Tiauanaco está localizado no vale entre duas montanhas sagradas, Pukara e Chuqi Q’awa. Em tais templos em eras antigas, cerimônias eram conduzidas para homenagear e agradecer aos deuses e espíritos.[38]Tiauanaco se tornou um centro de cerimônias religiosas pré-colombianas tanto para o público em geral quanto para as elites. Por exemplo, o sacrifício humano era usado em várias civilizações pré-colombianas para apaziguar um deus em troca de boa sorte. Escavações do templo Akapana em Tiauanaco revelaram os restos de dedicações de sacrifício de humanos e camelídeos.[39] Os pesquisadores especulam que o templo Akapana também pode ter sido usado como um observatório astrononômico. Foi construído de forma a ficar alinhado com o pico de Quimsachata, proporcionando uma visão da rotação da Via Láctea a partir do polo sul.[40] Outros templos, como Kalasasaya, estão posicionados para fornecer vistas ideais do nascer do sol no equinócio, solstício de verão e solstício de inverno. Embora o valor simbólico e funcional desses monumentos só possa ser especulado, o povo de Tiauanaco foi capaz de estudar e interpretar as posições do Sol, da Lua, da Via Láctea e de outros corpos celestes bem o suficiente para dar-lhes um papel significativo em sua arquitetura.[41]As lendas aimarás colocam Tiauanaco no centro do Universo, provavelmente devido à importância de sua localização geográfica. O povo de Tiauanaco era altamente consciente de seus arredores naturais e os usavam, ao lado de seus conhecimentos de astronomia, como pontos de referência em seus planos arquitetônicos. Os marcos mais importantes em Tiauanaco são as montanhas e o Lago Titicaca.[42] Embora as margens do lago estejam agora localizadas a 20 quilômetros a oeste de Tiauanaco, o lago diminuiu de tamanho ao longo do tempo devido às secas. Nos tempos antigos, provavelmente se estendia até Tiauanaco. A importância espiritual e a localização do lago contribuíram para o significado religioso desse local. Na cosmovisão do povo de Tiauanaco, o Lago Titicaca é o local de nascimento espiritual de suas crenças cósmicas.[43] De acordo com a mitologia inca, o Lago Titicaca é o local de nascimento de Viracocha, que foi o responsável por criar o Sol, a Lua, as pessoas e o cosmos. No templo Kalasasaya em Tiauanaco, esculpido no topo de um monólito conhecido como Porta do Sol, está uma divindade segurando um relâmpago e um bastão. Muitos especulam que esta é uma representação de Viracocha porque a figura é retratada usando uma coroa de sol. No entanto, também é possível que esta figura represente uma divindade que os aimarás chamam de “Tunuupa” que, como Viracocha, está associada a lendas de criação e destruição.Os aimarás, que se acredita serem descendentes do povo de Tiauanaco, têm um sistema de crenças complexo semelhante à cosmologia de várias outras civilizações andinas. Eles acreditam na existência de três espaços: Arajpacha, o mundo superior; Akapacha, o mundo médio ou interior; e Manqhaoacha, o mundo inferior.[44] Frequentemente associado ao cosmos e à Via Láctea, o mundo superior é considerado o lugar onde vivem os seres celestiais. O mundo intermediário é onde todas as coisas vivas estão, e o mundo inferior é onde a própria vida é invertida.[45]ArqueologiaComo o local sofreu saques e escavações amadoras desde pouco depois da queda de Tiauanaco, os arqueólogos devem tentar interpretá-lo com o entendimento de que os materiais foram misturados e destruídos. Essa destruição continuou durante a conquista espanhola e o período colonial, e durante o século XIX e o início do século XX. Outros danos foram cometidos por pessoas que extraíam pedras para a construção de edifícios e ferrovias, e por práticas de tiro ao alvo feitas por militares.Nenhum edifício em pé sobreviveu no local moderno. Restam apenas as fundações, com paredes mal reconstruídas. Os blocos de silhar usados em muitas dessas estruturas foram produzidos em massa em estilos semelhantes para que pudessem ser usados para vários fins. Ao longo do período do local, alguns edifícios mudaram de propósito, causando uma mistura de artefatos encontrados até hoje.[34]O estudo detalhado de Tiauanaco começou em pequena escala em meados do século XIX. Na década de 1860, o arqueólogo estadunidense Ephraim George Squier visitou as ruínas e, posteriormente, publicou mapas e esboços concluídos durante sua visita. O geólogo alemão Alphons Stübel passou nove dias em Tiauanaco em 1876, criando um mapa do local com base em medições cuidadosas. Ele também fez esboços e criou impressões em papel de esculturas e outras características arquitetônicas. Um livro contendo uma importante documentação fotográfica foi publicado em 1892 pelo engenheiro Georg von Grumbkow. Com comentários do arqueólogo Max Uhle, este foi o primeiro relato científico aprofundado das ruínas.Von Grumbkow havia visitado Tiauanaco pela primeira vez entre o final de 1876 e o início de 1877, quando acompanhou como fotógrafo a expedição do aventureiro francês Théodore Ber, financiada pelo empresário estadunidense Henry Meiggs, contra a promessa de Ber de doar os artefatos que encontrasse, em nome de Meiggs, ao Smithsonian Institution de Washington, DC e ao Museu Americano de História Natural de Nova York. A expedição de Ber foi interrompida pela hostilidade violenta da população local, instigada pelo pároco católico, mas as primeiras fotos de von Grumbkow sobreviveram.[46]
Escavação e restauração contemporâneas
Na década de 1960, o governo boliviano iniciou um esforço para restaurar o local e reconstruir parte dele. As paredes do Kalasasaya foram quase todas reconstruídas. As pedras originais que compõem Kalasasaya teriam se parecido com um estilo mais semelhante ao "Stonehenge", espaçadas igualmente e retas. A reconstrução não foi suficientemente baseada em pesquisas; por exemplo, uma nova parede foi construída em torno de Kalasasaya. A reconstrução não tem a cantaria de alta qualidade como a presente em Tiauanaco.[31] Como já observado, acredita-se que a Porta do Sol, agora no Kalasasaya, foi movida de seu local original.[2]
Escavações arqueológicas modernas e academicamente sólidas foram realizadas de 1978 a 1990 pelo antropólogo Alan Kolata da Universidade de Chicago e seu homólogo boliviano, Oswaldo Rivera. Entre suas contribuições estão a redescoberta dos suka kollus, datação precisa do crescimento e influência da civilização e evidências de um colapso da civilização de Tiauanaco devido à seca. Arqueólogos como Paul Goldstein argumentaram que o Império de Tiauanaco-Huari estendeu-se fora da área do altiplano e no vale de Moquegua, no Peru. As escavações nos assentamentos de Omo mostram sinais de arquitetura semelhante, característica de Tiauanaco, como um templo e um monte com terraço.[30] Evidências de tipos semelhantes de modificação craniana em sepulturas entre o local de Omo e o local principal de Tiauanaco também estão sendo usadas para apoiar este argumento.[47]
Atualmente Tiauanaco é considerado um Patrimônio Mundial pela UNESCO, que é administrado pelo governo boliviano. Recentemente, o Departamento de Arqueologia da Bolívia (DINAR) vem realizando escavações na plataforma em socalcos de Akapana. O Proyecto Arqueologico Pumapunku-Akapana (Projeto Arqueológico Pumapunku-Akapana, PAPA) administrado pela Universidade da Pensilvânia, tem escavado na área ao redor do monte da plataforma em terraço nos últimos anos, e também conduzido pesquisas de radar de penetração no solo da área. Em anos anteriores, uma escola arqueológica de verão oferecida pela Universidade Harvard, que conduziu atividades na área residencial fora do núcleo monumental, gerou polêmica entre os arqueólogos locais.[48] O programa foi dirigido pelo Dr. Gary Urton,[49] de Harvard, que era um especialista em quipus, e pelo Dr. Alexei Vranich da Universidade da Pensilvânia. A polêmica consistia em permitir que uma equipe de alunos não treinados trabalhasse no local, mesmo sob supervisão profissional. Era importante que apenas arqueólogos profissionais certificados com financiamento documentado tinham permissão de acesso. A controvérsia foi carregada de conotações nacionalistas e políticas.[50]
Em 2009, o trabalho de restauração patrocinado pelo governo em Akapana foi interrompido devido a uma reclamação da UNESCO. A restauração consistia em cobrir a pirâmide com adobe, embora os pesquisadores não tenham estabelecido isso como apropriado.[51][52]
Em 2013, arqueólogos marinhos explorando o recife Khoa do lago Titicaca descobriram um antigo local cerimonial e ergueram artefatos como lápis-lazúli e estatuetas de cerâmica, queimadores de incenso e um medalhão cerimonial do fundo do lago.[53] Os artefatos são representativos da extravagância das cerimônias e da cultura que viveu em Tiauanaco.[53] Quando um mapa topográfico do local foi criado em 2016 com o uso de um drone, um "conjunto de estruturas até então desconhecidas" foi revelado. Essas estruturas mediam mais de 411 hectares e incluíam um templo de pedra e cerca de cem estruturas circulares ou retangulares de vastas dimensões, possivelmente unidades domésticas.[54]
foi publicada a segunda edição na língua inglesa. Pouco depois, em 1848, o relato foi publicado em língua alemã em Dresden e Leipzig, atual Alemanha.A edição em português ocorreu em 1942, na Coleção Brasiliana, intitulada Viagens no Brasil: principalmente nas províncias do norte e nos distritos de ouro e do diamante durante anos 1836-1841, da Companhia Editora Nacional.No ano de 1856 foi publicado o relato Life in Brazil; or, a journal of a visit to the land of the cocoa and the palm de Thomas Ewbank ela Harper & Brothers, Nova York, sendo lançada também na Inglaterra. Nos Estados Unidos houve uma edição em 2005.No Brasil, o relato em português foi publicado com o título A vida no Brasil: ou Diário de uma visita ao país do cacau e das palmeiras, em 1973, pela editora carioca Conquista, em dois volumes.O relato de Henry Walter Bates foi publicado em 1863, em dois volumes, com o título The naturalist on the River Amazons, a record of adventures, habits of animals, sketches of Brazilian and Indian life, and aspects of nature under the Equator, during eleven years of travel by Henry Walter Bates, em Londres pela John Murray. A segunda edição ocorreu um ano depois, com supressão de algumas partes pelo autor, seguida por mais de dez edições na língua inglesa em Londres e nos Estados Unidos. No Brasil O naturalista no Rio Amazonas foi editadoem 1944 pela Editora Nacional.
Em 1869, Richard Burton publicou a primeira edição de Explorations of the Highlands of the Brazil; with a full account of the gold and diamond mines. Also, canoeing down 1500 miles of the great River São Francisco, from Sabará to the Sea by Captain Richard F. Burton, F.R.G.S., etc., em Londres por Tinsley Brothers, em dois volumes. A obra recebeu destaque em finais do ano passado e foi publicada em Nova York no centenário da primeira edição, e nos últimos dezesseis anos teve três edições nos Estados Unidos.
No Brasil, a primeira edição de Viagens aos planaltos do Brasil: 1868, em três volumes,ocorreu no ano de 1941 pela Companhia Editora Nacional, que publicou a segunda edição em 1983. Houve uma edição em 2001 pelo Senado Federal intitulada Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho, volume único.
Em São Paulo, a Tip. Allemã de H. Schroeder publicou Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gaston e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba de John James Aubertin no ano de 1866.
Nesse mesmo ano foi traduzido para o inglês pelo autor e publicado em Londres pela Bates, Hendy & Co. com o título Eleven day’s journey in the Province of Sao Paulo, with the [p. 10]
Outro ponto, o parâmetro comparativo do algodão brasileiro e do norte-americano. A produção dos Estados Unidos figura como indicadora de qualidade e produtividade, em vista do país ter sido o maior fornecedor do mundo, e é trazida pelos viajantes quando desejam estimular a produção no Brasil, em especial, utilizando dados fornecidos por conhecedores do ramo.Nesse sentido, Richard Burton traz as considerações de um renomado pesquisador da cultura algodoeira, Major R. Trevor Clarke96 para quem “Aqui [no Brasil] o algodão tem mais penugem que o habitual; 600 quilos darão 250 de fibra limpa, ao passo que no Alabama são necessários 750 quilos. Em geral, o replantio do arbusto é feito em seu quarto ano”.97 E J. J. Aubertin traz a experiência dos americanos sulistas Dr. Gaston, Dr. Shaw e Major Mereweather, a quem ele acompanhou durante a passagem deles pela Província de São Paulo:Eramos cinco pessoas. Tres Americano sulistas, dr. Gaston, dr. Shaw e o major Mereweather, que ião fazer sua viagem prolongada, na exploração de districtos um pouco remotos, sob a direcção do sr. Engenheiro Bennaton, para esse fim nomeado; e, sendo informado dos seus preparativos, logo me aggreguei a elles, não menos por sympatia para com a antecipada immigração americana, como tambem pelo desejo de visitar em sua companhia algumas plantações de algodão, e tirar algumas instrucções de sua experiencia pratica, a respeito de uma cultura que, sendo hoje estabelecida na província, não póde deixar de influil-os cabalmente na resolução que definitivamente tenhão que tomar.98Durante a permanência na província paulista, o grupo visitou a região de Itu, Salto, Porto Feliz e Sorocaba, daí J. J. Aubertin seguiu para a capital paulista e eles continuaram viagem com destino à Itapetininga. As observações de diferentes aspectos da lavoura algodoeira e o processamento do algodão fizeram os norte-americanos considerarem o clima paulista adequado à produção e benéfico o fato de não haver mudanças bruscas na temperatura, como a ocorrência de geadas, possibilitando maior tempo de conservação do algodoeiro.99Esses dados são agregados por J. J. Aubertin àqueles fornecidos por produtores paulistas de que “emquanto o alqueire norte-americano, dando bem, produz de cem até cento e dez ou talvez 96 Richard Trevor Clarke (1813-1897) – “Army officer and horticulturalist. Major in the Northampton and Rutland Infantry Militia, 1862. Bred nearly thirty new varieties of begonias and many new strains of cotton. Awarded a gold medal by the Cotton Supply Association of Manchester. Member of the Royal Horticultural Society; served on the council and scientific committee for many year; awarded the society’s Veitchian medal, 1894”. BURKHARDT, Frederick et al (Ed.). Charles Darwin. The Correspondence of Charles Darwin (1866). Cambridge: Cambridge University, 2004, p. 502, vol. 14.97 BURTON, Richard Francis. Viagem de canoa de Sabará ao Oceano Atlântico..., op. cit., p. 29. [nota 3]98 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gastón e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba. São Paulo: Typ. Allem[p. 159]
Os esforços de J. J. Aubertin devem ser compreendidos dentro desse contexto, em que ele se coloca como defensor da produção algodoeira paulista e atua em diferentes direções. No Brasil, escreveu para diversos periódicos nacionais e correspondeu-se com diferentes figuras da política brasileira para lhes solicitar o envolvimento com a lavoura algodoeira capaz de colocar São Paulo em posição favorável no mercado inglês, tal como fez o inglês em carta ao Comendador Fideles Prates:
Usai, vos peço, nesta vespera de uma nova semeadura, a vossa bem conhecida influencia entre os vossos amigos, e dizei aos cultivadores do algodão que redobrem os seus esforços na nova plantação, porque pela colheita futura é que se diciderá definitivamente a importante questão se a provincia de S. Paulo pode ou não pode occupar uma posição positiva nos mercados de Manchester.104
Aos agricultores interessados, ele também procurou difundir noções sobre a técnica de cultivar o algodão herbáceo e publicou folhetos sobre a cultura do algodão.105 Essa política de difundir informações sobre o cultivo foi uma atividade constante da associação inglesa, mesmo após o fim da guerra norte-americana.
No plano internacional, empenhou-se em apresentar os algodões paulistas de boa qualidade na Exposição Internacional de Londres, de 1862, com o objetivo de mostrar os atributos do produto. Também foi intermediador entre Manchester Cotton Supply Association e órgãos brasileiros; em duas ocasiões, nos anos de 1862 e 1865, J. J. Aubertin solicitou à associação britânica que enviasse algodão herbáceo ao Ministério da Agricultura e à Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional.106 Em diferentes momentos enviou para a Inglaterra amostras do algodão paulista, em geral, com boas avaliações dos correspondentes.J. J. Aubertin arquitetou ações no Brasil ligadas aos interesses ingleses baseadas em informações colhidas por ele na província ou com base na experiência de nacionais e, principalmente, de norte-americanos, com o propósito de deixar claro as potencialidades de São Paulo e convencer os potenciais produtores paulistas. Para aqueles que mesmo assim estivessem em dúvida, ele escreve:
Deveras, já é tarde demais para duvidar do algodão de São Paulo; mas se ainda ha descrentes, apenas apello para os dous srs. Cultivadores que acompanhei, major Mereweather e dr. Shaw. Ambos elles me repetirão muitas vezes, que melhor algodão que aquelle que nos vimos não desejavão ver; que nas suas proprias plantações e com todos os seus meios perfeitos não costumavãoproduzir melhor. 107
Seus esforços renderam-lhe o reconhecimento da associação inglesa, que o condecorou com uma medalha de ouro, e o governo brasileiro honrou-o com o hábito da Imperial Ordem da Rosa. Nos veículos de informação brasileiros, nos quais tanto escreveu, vemos o reconhecimento de seus pares, como E. Hutchings, outro entusiasta da lavoura algodoeira em terras paulistas e intermediário entre a associação e o Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas:
Hoje, considerado, como um genero de exportação, o algodão, e sua cultura, é um dos factos estabelecidos na historia da provincia, e eu me aproveito desta occasião para patentear a gratidão que todos temos.Quem sabe, o que ha de mostrar-se nos anos que vem? Quasi todas as condições de prosperidade estão unidas nesta provincia; - Um clima sem rival, uma terra cheia de riquesa, e uma natureza, cuja uberdade é espantosa. Tudo isto aqui, e no outro lado do Oceano, a Inglaterra, offerece tudo quanto seja possivel afim de attrahir para lá, os productos da provincia, e com as devidas providencias, e constancia em trabalhar, tudo será possivel, e, sem esta, nada.Campinas, Mogy-mirim, Limeira e outros lugares vão caminhando na cultura do café, e o publico, bem como os particulares, são beneficiados. Parece que, para Sorocaba, resta ainda este outro manancial de prosperidade; - a cultura do algodão, e não ha homem ou natural, ou estrangeiro na provincia, que não abençoará a empresa.[...] Caminho da Luz, S. Paulo Agosto de 1865[...] E. Hutchings108
Evidentemente, tais esforços foram no sentido de produzir algodão adequado às necessidades da indústria inglesa. Foi estimulado o plantio da semente de Nova Orleans, em solicitação de uma circular da Manchester Cotton Supply Association109 e houve uma modificação na postura do produtor brasileiro: “O tipo de algodão tradicional no Brasil era o arbóreo mas o mercado consumidor passou a condicionar a produção ao tipo herbáceo dos 107 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo..., op. cit., p. 16.108 HUTCHINGS, E. “Aos Redactores do Diario de São Paulo”. Diario de S. Paulo, São Paulo, 11 agosto 1865, ano I, nº 10, p. 2. Em outras atividades, além do algodão: E. Hutchings foi um dos secretários da Comissão Julgadora de um concurso para criadores de animais pensado por J. J. Aubertin, tesoureiro do evento. O Comendador Fideles Nepomuceno Prates aparece como um dos Juízes. “Concurso industrial”. Correio Paulistano, Estados Unidos. As variedades mais procuradas eram a U[p. 161, 162]