16 de novembro de 2020, segunda-feira Atualizado em 02/12/2025 23:02:51
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HOJE NA;HISTóRIA
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Agostinho Toffoli Tavolaro – advogado, escritor. Titular da Cadeira 39 do IHGG CampinasResumo: Este artigo trata de um tema curioso: a presença dos Vikings nas Américas e os indícios dessa presença também no Brasil. Debate-se a literatura disponível e os trabalhos desenvolvidos por pesquisadores brasileiros.Vikings in Brazil: myth or reality?Abstract:This article presents a curious topic: the presence of Vikings in the Americas and the signs of that presence also in Brazil. Literature, articles and essays written by Brazilian researchers are discussed.* * *
Logo depois do passamento do querido amigo Hernani Donato, em 2012, aos 90 anos de idade, um dos maiores historiadores contemporâneos, eu e colegas da Academia Paulista de História revisitamos e debatemos as suas principais obras. Meu interesse recaiu sobre Sumé e Peabiru: mistérios maiores do século da descoberta. Na época fiz um pequeno artigo que hoje reviso, atualizo e ofereço aos colegas do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas e aos nossos leitores.
A obra despertou a minha curiosidade pelas referências que faz a um homem que teria vivido na América Latina antes de Colombo, inclusive entre os nossos índios, descrito pelos Botocudos da bacia do Rio Doce como um homem de cabeleira ruiva, estatura maior do que a de outros homens… , relatando ainda inúmeras outras referências a este homem, sempre branco, alto, ruivo ou louro, no continente e nas Antilhas.
As histórias ou lendas entre os nossos índios tinham como personagem Tumé, ou Sumé, ou Pai-Sumé, nomes idênticos ou semelhantes foneticamente ou em grafias diversas, sendo encontrados no Paraguai e nos países andinos.À curiosidade assim despertada somou-se a pesquisa em obras de outros autores, revelando que suscitou a matéria e ainda suscitará, por longo tempo, a atenção dos estudiosos.Vikings: quem eram?
A descrição das características físicas desse homem branco remete à imaginação desde logo aos Vikings, o povo nórdico da Escandinávia, navegadores, que nos seus barcos movidos à vela e a remo levaram o terror à Europa na Idade Média. Oriundos da Dinamarca, da Suécia e da Noruega parece que povoaram a Islândia e a Groenlândia, havendo mesmo chegado à América do Norte, cuja hipótese dessa presença é firmemente evidenciada pelas escavações em L’Anse on Meadows, Terra Nova, no Canadá (ROESDAHL, p. 274). Com efeito, eles eram eles famosos por sua compleição física e de altura superior a outros povos, como escreve Gwyn Jones (2001, p. 26).
Geralmente aceita é a premissa de que as grandes viagens dos Vikings no Atlântico ocorreram nos séculos nono e décimo, sem bússola nem mapas. A explicação que para isso dá Jones é a de que se utilizavam eles de um cristal de calcita (Iceland spar), conhecido como pedra do sol (sun stone), mineral que lhes permitiria, por suas propriedades de polarização da luz, localizar a posição do sol e assim determinar a latitude, mesmo em dias nublados ou mesmo à noite (JONES, p. 192), observando, porém que até a data de lançamento de seu livro (a primeira edição é de 1968), somente em 1948 fora encontrada metade de um disco de madeira com marcas equidistantes. No entanto, no ano de 2013 foi noticiado que uma pedra dessas teria sido encontrada em um navio de guerra do século XVI, naufragado em Alderney, ilha do Canal da Mancha.
Sumé ou Tomé?
Hernani Donato, reportando-se à crença da Idade Média de que no Brasil estaria o paraíso terrestre, cita cronistas e testemunhos da época, lembrando inclusive que Sérgio Buarque de Holanda, no livro Visão do Paraíso, historia o mais forte e dramático testemunho sobre a radicação desse acreditar, qual seja a obstinação de Pedro de Rates Hanequim, enforcado e queimado em Lisboa, em 1744, por insistir que o Brasil fora a pátria de Adão (DONATO, p. 19).
Sumé ou Tomé ou ainda inúmeras outras variantes desse nome, quais Grande Sacerdote Tulá ou Quetzalcoatl na América do Norte, segundo Humboldt; Sommay ou Sumi pelos Caraíbas, segundo André Tevet; Mara pelos Botocudos no Brasil, segundo André Ramos; Cariba ainda no Brasil, segundo Varhangen; no Haiti Zemi; no coração da América Central Zamna ouZamima; Kukulcan em áreas do México; Bochica pelos Chibchas; Viracocha em cercanias do Titicaca; Sumé na Guanabara, segundo Jean de Léry; Man Zumane, conforme Hans Staden; Pay-Zumé ou Pay-Sumé no Paraguai, teria sido o homem branco que por toda a América semeara conhecimentos e fé junto aos nativos, identificado como São Tomé, conforme relata o historiador (DONATO, p. 27).
Relatos de pegadas de um santo homem impressas na rocha existem em várias partes do nosso território, sendo do padre Manoel da Nóbrega a afirmativa na sua Carta das Terras do Brasil relativa a 1549, que os índios diziam que São Tomé, a quem eles chamam Zamé, passou por aqui e isto lhes foi dito por seus antepassados, e que suas pegadas estão sinaladas junto de um rio: as quais eu fui ver por mais certeza da verdade e vi com meus próprios olhos, quatro pisadas mui sinaladas com seus dedos… (DONATO, p. 33).
O padre Simão de Vasconcellos, que em 1663 escreveu a Chronica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil e do que obraram seus filhos nesta parte do novo mundo, relata também a passagem de São Tomé pelas terras brasileiras e as pegadas que por uma tradição antiquíssima dos índios derivadas de pais a filhos… são pegadas de um homem branco, com barba e vestido… (VASCONCELLOS, p. 75).
Não se olvide também que o padre Antônio Vieira, em seu Sermão do Espírito Santo, pregado em 1657 em São Luis do Maranhão, repisa a certeza da passagem de São Tomé (DONATO, p. 21).Veja-se, aqui, que já Hernani Donato aborda a Teoria Viking como identidade de Sumé, referindo ainda que por esta teoria teriam sido vários Sumés, enviados pelo bispo normando Erik, que, por volta do ano de 1112, deixara a sede episcopal na Groenlândia para dirigir-se com vinte evangelizadores às terras hoje ditas americanas. Cita ainda a pesquisa de Barreto Mascarenhas, que assegura que por volta de 1250 os normandos trouxeram para o seu meio o padre Thul Gnupa, matéria que indica para pesquisas posteriores (DONATO, p. 54-55).O caminho do PeabiruSempre com Hernani Donato, cabe indicar que Peabiru ou Peabiyru teria o significado, em guarani, de caminho ou, com maior precisão, de caminho que leva ao céu (pia, bia, PE, ybabia), ou ainda o caminho para o Biru (Peru) ou, também, o caminho grande (real) (DONATO, p. 79). O caminho que ligava ao Paraguai e desde aí ao Andes, às minas do Peru, foi descrito com início em São Vicente, tendo oito palmos de largura, hoje 176 centímetros, ou seja, quase um metro e oitenta centímetros, levando até Iguaçu e assim chegando ao Paraguai. Seria o caminho que levaria do Atlântico ao Pacífico, principalmente após chegado ao território Inca, dotado de estradas em um sistema viário que excederia, inclusive, o construído por Roma.Os Vikings estiveram no Brasil?Referida por Hernani Donato a Teoria Viking, vemos que em nosso país a obsessão viking, como a denomina pejorativamente Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa, começou em 1839 quando o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, no Rio de Janeiro, teve sua atenção despertada para as inscrições na Pedra da Gávea. Refutada foi a teoria, mas ainda é objeto de debates que dividem os estudiosos.
Jacques de Mahieu, pesquisador francês naturalizado argentino, se dedicou ao estudo da presença Viking na América, havendo, no que diz respeito ao Brasil, escrito obra que foi traduzida para o português e aqui publicada. Nesta obra, perlustrando vários indícios que ele afirma serem da presença de Vikings no Brasil, inclusive citando a existência de tribos deíndios louros e de olhos azuis na Amazônia, runas nas ruínas das sete cidades do Piauí, índias brancas, a Pedra da Gávea, conclui afirmativamente por essa presença, mencionando ainda, a presença do padre Gnupa (MAHIEU, p. 151). … em quem os missionários portugueses e espanhóis quiseram reconhecer o apóstolo Santo Tomás. (MAHIEU, p. 132). Aliás, cabe lembrar aqui, como já feito acima, que na América do Norte houve a variante de nome Grande Sacerdote Tulá (Thul?). Seu trabalho teve continuidade por seu amigo Vicente Pistilli e por José Riquelme Escudero, arqueólogos paraguaios.Para o arqueólogo brasileiro Johnni Langer, coordenador do NEVE – Núcleo de Estudos Vikings e Escandinavos e professor na Universidade Federal da Paraíba, laborou o pesquisador francês em erro, tentando descobrir vestígios de antigas povoações brancas e louras no interior do Brasil pois os próprios portugueses foram responsáveis diretos por este tipo de herança étnica. (LANGER, 2009).Criticando agora o livro de Orlando Paes Filho, Sangue de gelo, escreveu ainda Johnni Langer que também a bússola magnética primitiva entre os escandinavos, a que nos referimos também acima – a pedra do sol – jamais teve confirmada pela arqueologia suas propriedades, pois se trataria de uma bússola solar (gnômon), que seria um disco de madeira cujo ângulo da sombra determinaria a latitude e o norte geográfico, e que vestígios desse equipamento foram descobertos nos anos 1960 e mais recentemente no báltico (LANGER, 2006, p. 125-128).Seria interessante conhecer o ponto de vista do eminente professor quanto à descoberta de 2013 em Alderney, que relatamos acima, vez que o comentário de Langer foi publicado em 2006. Decerto, muito já foi produzido desde então por alguns pesquisadores, especialmente na Universidade Federal da Paraíba, onde atua Langer. Sobre isso ele escreve, em 2016:Os estudos brasileiros sobre religiosidade nórdica já produziram uma razoável quantidade de publicações e eventos, mas ainda são muito pequenos se comparados com outros temas da Medievalística e da História das Religiões instaurada no Brasil. A área tem ainda muito a crescer e já vem demonstrando interesse em discutir as suas próprias maneiras de pesquisar, as suas bibliografias e metodologias. Com a eminente titulação dos pesquisadores, a tendência é aumentar a quantidade de orientadores em programas de pós-graduação e, como consequência, a possibilidade de novos projetos de pesquisas. Também ocorre a necessidade de maior quantidade de publicação de fontes primárias e bibliografias internacionais, bem como uma maior especialização dos pesquisadores brasileiros nos estudos linguísticos medievais (LANGER, 2016, p. 932-933).Mito ou realidade: o mistério continuaNão nos parece que esteja definitivamente encerrado o debate sobre a presença ou não dos Vikings entre nós. O que cabe dizer, apenas, é que a única certeza que temos é que existe a incerteza, especialmente com essa onda governamental de desmonte do conhecimento científico no Brasil atual.Imagem de Lothar Dieterich por PixabayReferências:COSTA, Antonio Luiz Monteiro Coelho da. Os verdadeiros mistérios do Brasil. http://noticias.terra.com.br – acesso 17/1/2013.DONATO, Hernani; Sumé e Peabiru: mistérios maiores do século da descoberta. São Paulo: Ed. GRD, 1977.LANGER, Johnni. Deuses, monstros, heróis: ensaios de mitologia e religião viking. Brasília: Editora da UNB, 2009.LANGER, Johnni. A volta do romance viking à brasileira. Brathair 6 (2) 2006: 125-128. http://www.bratair.com – acesso 01/11/2013.LANGER, Johnni. Uma breve historiografia dos estudos brasileiros de religião nórdica medieval. Horizonte. Belo Horizonte, v. 14, n. 43, p. 909-936.MAHIEU, Jacques de. Os Vikings no Brasil. Trad. Wilma Freitas Ronald de Carvalho. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1976.PAES FILHO, Orlando. Sangue de gelo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.ROESDAHL, Else. The Vikings. London: Penguin Books, 1998, Revised Edition.JONES, Gwyn. A History of the Vikings. Oxford: Oxford University Press, 2001, 2a. Ed. Reimpressão.VASCONCELLOS, Simão de. Chronica da Companhia de Jesus do Estado do Estado do Brasil e do que obraram seus filhos nesta parte do novo mundo. Rio de Janeiro: Typographia de João Ignácio da Silva, 2ª. Ed., 1864, acrescentada com uma introdução e notas históricas e geográficas pelo Cônego Dr. Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro.
foi publicada a segunda edição na língua inglesa. Pouco depois, em 1848, o relato foi publicado em língua alemã em Dresden e Leipzig, atual Alemanha.A edição em português ocorreu em 1942, na Coleção Brasiliana, intitulada Viagens no Brasil: principalmente nas províncias do norte e nos distritos de ouro e do diamante durante anos 1836-1841, da Companhia Editora Nacional.No ano de 1856 foi publicado o relato Life in Brazil; or, a journal of a visit to the land of the cocoa and the palm de Thomas Ewbank ela Harper & Brothers, Nova York, sendo lançada também na Inglaterra. Nos Estados Unidos houve uma edição em 2005.No Brasil, o relato em português foi publicado com o título A vida no Brasil: ou Diário de uma visita ao país do cacau e das palmeiras, em 1973, pela editora carioca Conquista, em dois volumes.O relato de Henry Walter Bates foi publicado em 1863, em dois volumes, com o título The naturalist on the River Amazons, a record of adventures, habits of animals, sketches of Brazilian and Indian life, and aspects of nature under the Equator, during eleven years of travel by Henry Walter Bates, em Londres pela John Murray. A segunda edição ocorreu um ano depois, com supressão de algumas partes pelo autor, seguida por mais de dez edições na língua inglesa em Londres e nos Estados Unidos. No Brasil O naturalista no Rio Amazonas foi editadoem 1944 pela Editora Nacional.
Em 1869, Richard Burton publicou a primeira edição de Explorations of the Highlands of the Brazil; with a full account of the gold and diamond mines. Also, canoeing down 1500 miles of the great River São Francisco, from Sabará to the Sea by Captain Richard F. Burton, F.R.G.S., etc., em Londres por Tinsley Brothers, em dois volumes. A obra recebeu destaque em finais do ano passado e foi publicada em Nova York no centenário da primeira edição, e nos últimos dezesseis anos teve três edições nos Estados Unidos.
No Brasil, a primeira edição de Viagens aos planaltos do Brasil: 1868, em três volumes,ocorreu no ano de 1941 pela Companhia Editora Nacional, que publicou a segunda edição em 1983. Houve uma edição em 2001 pelo Senado Federal intitulada Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho, volume único.
Em São Paulo, a Tip. Allemã de H. Schroeder publicou Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gaston e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba de John James Aubertin no ano de 1866.
Nesse mesmo ano foi traduzido para o inglês pelo autor e publicado em Londres pela Bates, Hendy & Co. com o título Eleven day’s journey in the Province of Sao Paulo, with the [p. 10]
Outro ponto, o parâmetro comparativo do algodão brasileiro e do norte-americano. A produção dos Estados Unidos figura como indicadora de qualidade e produtividade, em vista do país ter sido o maior fornecedor do mundo, e é trazida pelos viajantes quando desejam estimular a produção no Brasil, em especial, utilizando dados fornecidos por conhecedores do ramo.Nesse sentido, Richard Burton traz as considerações de um renomado pesquisador da cultura algodoeira, Major R. Trevor Clarke96 para quem “Aqui [no Brasil] o algodão tem mais penugem que o habitual; 600 quilos darão 250 de fibra limpa, ao passo que no Alabama são necessários 750 quilos. Em geral, o replantio do arbusto é feito em seu quarto ano”.97 E J. J. Aubertin traz a experiência dos americanos sulistas Dr. Gaston, Dr. Shaw e Major Mereweather, a quem ele acompanhou durante a passagem deles pela Província de São Paulo:Eramos cinco pessoas. Tres Americano sulistas, dr. Gaston, dr. Shaw e o major Mereweather, que ião fazer sua viagem prolongada, na exploração de districtos um pouco remotos, sob a direcção do sr. Engenheiro Bennaton, para esse fim nomeado; e, sendo informado dos seus preparativos, logo me aggreguei a elles, não menos por sympatia para com a antecipada immigração americana, como tambem pelo desejo de visitar em sua companhia algumas plantações de algodão, e tirar algumas instrucções de sua experiencia pratica, a respeito de uma cultura que, sendo hoje estabelecida na província, não póde deixar de influil-os cabalmente na resolução que definitivamente tenhão que tomar.98Durante a permanência na província paulista, o grupo visitou a região de Itu, Salto, Porto Feliz e Sorocaba, daí J. J. Aubertin seguiu para a capital paulista e eles continuaram viagem com destino à Itapetininga. As observações de diferentes aspectos da lavoura algodoeira e o processamento do algodão fizeram os norte-americanos considerarem o clima paulista adequado à produção e benéfico o fato de não haver mudanças bruscas na temperatura, como a ocorrência de geadas, possibilitando maior tempo de conservação do algodoeiro.99Esses dados são agregados por J. J. Aubertin àqueles fornecidos por produtores paulistas de que “emquanto o alqueire norte-americano, dando bem, produz de cem até cento e dez ou talvez 96 Richard Trevor Clarke (1813-1897) – “Army officer and horticulturalist. Major in the Northampton and Rutland Infantry Militia, 1862. Bred nearly thirty new varieties of begonias and many new strains of cotton. Awarded a gold medal by the Cotton Supply Association of Manchester. Member of the Royal Horticultural Society; served on the council and scientific committee for many year; awarded the society’s Veitchian medal, 1894”. BURKHARDT, Frederick et al (Ed.). Charles Darwin. The Correspondence of Charles Darwin (1866). Cambridge: Cambridge University, 2004, p. 502, vol. 14.97 BURTON, Richard Francis. Viagem de canoa de Sabará ao Oceano Atlântico..., op. cit., p. 29. [nota 3]98 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gastón e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba. São Paulo: Typ. Allem[p. 159]
Os esforços de J. J. Aubertin devem ser compreendidos dentro desse contexto, em que ele se coloca como defensor da produção algodoeira paulista e atua em diferentes direções. No Brasil, escreveu para diversos periódicos nacionais e correspondeu-se com diferentes figuras da política brasileira para lhes solicitar o envolvimento com a lavoura algodoeira capaz de colocar São Paulo em posição favorável no mercado inglês, tal como fez o inglês em carta ao Comendador Fideles Prates:
Usai, vos peço, nesta vespera de uma nova semeadura, a vossa bem conhecida influencia entre os vossos amigos, e dizei aos cultivadores do algodão que redobrem os seus esforços na nova plantação, porque pela colheita futura é que se diciderá definitivamente a importante questão se a provincia de S. Paulo pode ou não pode occupar uma posição positiva nos mercados de Manchester.104
Aos agricultores interessados, ele também procurou difundir noções sobre a técnica de cultivar o algodão herbáceo e publicou folhetos sobre a cultura do algodão.105 Essa política de difundir informações sobre o cultivo foi uma atividade constante da associação inglesa, mesmo após o fim da guerra norte-americana.
No plano internacional, empenhou-se em apresentar os algodões paulistas de boa qualidade na Exposição Internacional de Londres, de 1862, com o objetivo de mostrar os atributos do produto. Também foi intermediador entre Manchester Cotton Supply Association e órgãos brasileiros; em duas ocasiões, nos anos de 1862 e 1865, J. J. Aubertin solicitou à associação britânica que enviasse algodão herbáceo ao Ministério da Agricultura e à Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional.106 Em diferentes momentos enviou para a Inglaterra amostras do algodão paulista, em geral, com boas avaliações dos correspondentes.J. J. Aubertin arquitetou ações no Brasil ligadas aos interesses ingleses baseadas em informações colhidas por ele na província ou com base na experiência de nacionais e, principalmente, de norte-americanos, com o propósito de deixar claro as potencialidades de São Paulo e convencer os potenciais produtores paulistas. Para aqueles que mesmo assim estivessem em dúvida, ele escreve:
Deveras, já é tarde demais para duvidar do algodão de São Paulo; mas se ainda ha descrentes, apenas apello para os dous srs. Cultivadores que acompanhei, major Mereweather e dr. Shaw. Ambos elles me repetirão muitas vezes, que melhor algodão que aquelle que nos vimos não desejavão ver; que nas suas proprias plantações e com todos os seus meios perfeitos não costumavãoproduzir melhor. 107
Seus esforços renderam-lhe o reconhecimento da associação inglesa, que o condecorou com uma medalha de ouro, e o governo brasileiro honrou-o com o hábito da Imperial Ordem da Rosa. Nos veículos de informação brasileiros, nos quais tanto escreveu, vemos o reconhecimento de seus pares, como E. Hutchings, outro entusiasta da lavoura algodoeira em terras paulistas e intermediário entre a associação e o Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas:
Hoje, considerado, como um genero de exportação, o algodão, e sua cultura, é um dos factos estabelecidos na historia da provincia, e eu me aproveito desta occasião para patentear a gratidão que todos temos.Quem sabe, o que ha de mostrar-se nos anos que vem? Quasi todas as condições de prosperidade estão unidas nesta provincia; - Um clima sem rival, uma terra cheia de riquesa, e uma natureza, cuja uberdade é espantosa. Tudo isto aqui, e no outro lado do Oceano, a Inglaterra, offerece tudo quanto seja possivel afim de attrahir para lá, os productos da provincia, e com as devidas providencias, e constancia em trabalhar, tudo será possivel, e, sem esta, nada.Campinas, Mogy-mirim, Limeira e outros lugares vão caminhando na cultura do café, e o publico, bem como os particulares, são beneficiados. Parece que, para Sorocaba, resta ainda este outro manancial de prosperidade; - a cultura do algodão, e não ha homem ou natural, ou estrangeiro na provincia, que não abençoará a empresa.[...] Caminho da Luz, S. Paulo Agosto de 1865[...] E. Hutchings108
Evidentemente, tais esforços foram no sentido de produzir algodão adequado às necessidades da indústria inglesa. Foi estimulado o plantio da semente de Nova Orleans, em solicitação de uma circular da Manchester Cotton Supply Association109 e houve uma modificação na postura do produtor brasileiro: “O tipo de algodão tradicional no Brasil era o arbóreo mas o mercado consumidor passou a condicionar a produção ao tipo herbáceo dos 107 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo..., op. cit., p. 16.108 HUTCHINGS, E. “Aos Redactores do Diario de São Paulo”. Diario de S. Paulo, São Paulo, 11 agosto 1865, ano I, nº 10, p. 2. Em outras atividades, além do algodão: E. Hutchings foi um dos secretários da Comissão Julgadora de um concurso para criadores de animais pensado por J. J. Aubertin, tesoureiro do evento. O Comendador Fideles Nepomuceno Prates aparece como um dos Juízes. “Concurso industrial”. Correio Paulistano, Estados Unidos. As variedades mais procuradas eram a U[p. 161, 162]