capitão-mor. Na capitania, o capitão-general. Sem falar dos capitães deordenanças de nobreza. Mas ser capitão não era algo inato, ainda queem muitos casos fosse quase hereditário. Ser Capitão era algo desejado,um reconhecimento da ascensão ou manutenção da posição social. Equem acabava regulando, desta forma, a reprodução da hierarquia noultramar, era a Coroa que tinha o poder de conceder e confirmar aquelespostos, assim como os demais.”86Na carta patente passada a ele pelo capitão general de São Paulo, Martim LopesLobo de Saldanha, explicam-se os motivos da nomeação:
“Faço saber aos que esta minha carta patente virem, que havendo a não [ilegível] Capitão Mor na vila de Itapetininga, nem pessoa de possibilidade, que deseja (?) de eleger, e me ser constante, quer Salvador de Oliveira Leme tem na mesma vila fazendo, e ser homem de possibilidades para decoro [sic] do mesmo posto, inteligente e exato para exercer e executar as ordens quais forem incumbidas, como tenho experimentado nas que lhe dirigi para a municiamento das tropas, que desloquei para o Sul, em muitos pousos no dito distrito, em cuja conjuntura ficou encarregado dos soldados doentes, que fez curar, e [ilegível] a dita carta, no que fez ver o seu zelo, a fim como também na inspeção e cobrança dos reais direitos no registro de Sorocaba [...]”87
Podemos perceber como eram enfatizados os serviços prestados por Oliveira Lemeà Coroa portuguesa, tanto com relação aos serviços militares como na administração do registro,justificando a nomeação para o cargo de capitão-mor em uma vila onde ele não residia. Essanomeação causou problemas para o capitão general de São Paulo, que recebeu um ofício de D.Maria I, repreendendo-o por criar o cargo em Itapetininga, explicada por Lobo de Saldanha pela“angústia do tempo em que vi para executar as instruções.88No final do século XVIII, a Câmara de Sorocaba funcionava da seguinte forma:“A vida civil desenrolava-se como de antes: a Câmara Municipal estavacomposta de um juiz presidente, três vereadores e um procurador, quecom o juiz de órfãos (para inventários e questões civis) eram eleitos acada três anos em Dezembro ou Janeiro. Os ‘homens bons’, isto é, osque não exerciam ofícios mecânicos (reservados aos pobres egeralmente mestiços livres) ou que já foram uma vez camaristas,elegiam vereadores bastantes para três anos, e os nomes guardados embolinhas ocas de cera, estas num saco, este no armário à chave, eram [p. 29]
sorteados cada ano. [...] A Câmara dividia com o capitão-mor aautoridade policial e judiciária, não podendo sentenciar os réus à prisãomuito duradoura, muito menos, pena de morte.”89Em 1780, faleceu o capitão-mor de Sorocaba, José de Almeida Leme. O cargovacante não foi ocupado imediatamente, causando uma situação de disputa entre OliveiraLeme e seu genro Paulino Aires de Aguirre contra a Câmara de Sorocaba. Em janeiro de1782, foi enviada uma representação da Câmara a D. Maria I, denunciando os dois porcrimes e acusando Oliveira Leme de desejar o cargo mas ser incompetente para exercê-lo.Podemos perceber a demora dos representantes em irem a Sorocaba para a eleição, causandoagitação na Câmara, cujos membros escreveram em sua representação que o cargo nãodeveria ficar vago: “essa vila é importante dessa capitania, pois por ela passam as tropasque vem de São Pedro do Sul, [...]”90. Segundo os oficiais da Câmara, Paulino Aires deAguirre e seu sogro aproveitavam-se desse estado de desordem em que a vila se encontrava:
“E porque por causa desse ministro não vir comprimir como indica a obrigação, trazendo esta vila em continuada desordem, por miscelâneas, e orgulhos do tenente coronel e auxiliar cavalaria ligeira Paulino Aires de Aguirre, e seu sogro Salvador de Oliveira Leme, pretendente e interessante [sic], ao dito posto, sendo este um vageito [?] totalmente insuficiente para o exercício, tanto pela sua qualidade, por ser de baixa esfera, e ter exercido noutra vila por si e seus antepassados, anos bastantes, o ofício de taberneiro público, como pela sua capacidade, por ser de gênio orgulhoso e intrigante, e ter fazido [sic] por vezes criminoso de, vários crimes, assim nas devassas dos corregedores, como nas ordinárias e entre esses por usar de pesos e balanças falsificadas, a que tudo não foi bastante, para que deixasse de ser o inspetor do registro dessa vila, dos direitos de animais vindo do continente de São Pedro do Sul e Viamão, que pagaram a Vossa Majestade os tropeiros e comerciantes, em cujo emprego se estabeleceu ele, e [ilegível], vexando os ditos miseráveis tropeiros com capa dos direitos de Vossa Majestade em tal maneira, que de uns, para não sentirem maior prejuízo, lhe tem dado, e dão bestas outros cavalos, outras vezes, e outros finalmente tem desviado, deixando seus animais com gravíssimos prejuízos deu com prejuízo ao comercio e dos mercadores [...]” 91.
Isso revela informações conflitantes com aquelas contidas no documento feito pelocapitão general de São Paulo sobre a conduta de Oliveira Leme não ser tão “exata” como a descrita na sua carta patente. Pela acusação no ofício da Câmara, dizendo que Oliveira Lemealmejava o posto de capitão-mor de Sorocaba, conseguimos identificar a grande preocupaçãopor parte dos camarários de que ele conseguisse realizar seu intento. Relevante também é amenção ao ofício de taberneiro, que o próprio Salvador de Oliveira Leme e seus familiaresexerceram, e que por ser considerado um defeito mecânico, o impediria de exercer um cargocamarário, fato omitido na carta patente que deu a ele cargo equivalente em outra vila.Esse foi o argumento apresentado pelos oficiais na descrição de seus crimes. EmboraOliveira Leme possuísse a maior fortuna da vila92, mesmo tendo negócios diversificados e jáocupado o cargo de capitão-mor de Itapetininga, além de ser o arrematador do registro deanimais, ele ainda era visto como “de baixa esfera” pelos oficiais da Câmara de Sorocaba.“A autonomia concedida a esses particulares, especialmente aquelesencarregados de impostos em regiões distantes do centro administrativoda colônia, era grande. Nestas, os arrematantes podiam mais facilmenteburlar a lei, permitindo o contrabando ou o suborno por condutores parapassar clandestinamente pelo Registro. Fosse pela autônima concedida,ou pelo retorno sobre o capital investido, a arrematação dos impostossobre animais foi um importante recurso de enriquecimento na capitaniapaulista.”93Talvez a questão principal para os oficiais da Câmara de Sorocaba não fossem oscrimes de Oliveira Leme em relação ao registro – que, segundo a autora, eram comuns. Oproblema poderia estar relacionado ao aumento de poder e influência de Leme e sua família.Por isso o foco principalmente na alegação de ele ser pessoa “de baixa esfera”.Da análise sobre a tentativa de se fixar como principal da terra, passamos àsestratégias da família para ampliar sua fortuna. Oliveira Leme foi casado duas vezes: doprimeiro casamento teve um filho, Francisco Xavier de Oliveira, e do segundo casamento,quatro filhos (Vicente, Gertrudes, Antônio e Ana Maria) que, “de maneira geral, herdaram dopai a posição de destaque dentro da sociedade e da economia sorocabana”:Francisco Xavier, o primogênito, casou-se em dezembro de 1766, epermaneceu agregado ao pai por cerca de um ano. Seu primeiro passono sentido da independência econômica parece ter sido arrematar ocontrato do açougue, que lhe dava exclusividade no abate de gado nomunicípio. Em 1772, era também recenseado como o comprador evendedor de cavalos, proprietário de casas na vila e dono de seis [p. 30, 31]
guardar este papel em o acento das memorias desta casa. Ignacio FerrazLeite Penteado.”213Vemos então que as primeiras recolhidas levavam dotes, apesar do compromisso deManoela de Santa Clara e Rita de Santa Ignes de manterem às suas custas essas mulheres. Nãotemos informações sobre os dotes entregues ao Recolhimento por elas mulheres em seuingresso, mas sabemos sobre o órgão entregue como parte do dote pago pelos pais de Josepha.O documento acima informa que havia, entre as primeiras recolhidas, uma mulher com talentospara a música, o que permite supor que as mulheres que efetivamente entraram noRecolhimento foram escolhidas mesmo antes do recebimento da autorização para ofuncionamento ser dada. Penteado deixou a posse do órgão atrelada à permanência de sua filhana instituição; só no caso da morte dela, o órgão passaria a pertencer ao Recolhimento:“Foi doado a este recolhimento no ano de 1811, na fundação do mesmo,pelo Senhor Ignácio Ferraz Leite Penteado e sua esposa Dona Gertrudesde Camargo, como dote de sua filha, Dona Maria dos Anjos, que foiuma das educandas, companheiras das fundadoras, e filha espiritual donosso muito amado e sempre venerado Frei Antonio de Sant’AnnaGalvão. O órgão começou a funcionar no mesmo dia em que pelaprimeira vez as recolhidas se reuniram no coro em presença do FreiGalvão, para entoarem solene ‘Te Deum’, em ação de graças pelosmuitos benefícios, isto em 25 de agosto de 1811”214.O órgão foi uma doação importante para o Recolhimento, tendo sido acionado na missasolene realizada para oficializar a entrada das primeiras recolhidas. Habilidades musicais eramimportantes para as mulheres que as possuíssem fossem aceitas com mais facilidade nasclausuras215. Isso denota a importância da doação do instrumento, de alto custo, e da escolhadas mulheres, embora não saibamos qual das recolhidas tinha conhecimento e habilidade paratocá-lo nas cerimônias e talvez ensinar as outras recolhidas a usá-lo também.O caso de registro que mais chama a atenção é o da recolhida número 7, para a qual sótemos seu nome de religiosa: Anna Maria de Jesus. Sobre ela, nenhuma fonte oferece maisinformações, mas Rodrigues nos ajuda na aproximação com essa mulher:
“Até 1817 para ingressarem no Recolhimento, as jovens recorriam ao Governo, pleiteando uma vaga de educanda, pois publicamente não era ainda reconhecido como “casa de freiras”. Foi o caso de Dona Ana de Jesus Maria, filha do Coronel Francisco de Aguiar, portanto irmã do futuro Brigadeiro Tobias, a quem Da. Isabel da Visitação, então Regente, após aviso régio pelo qual ‘El Rei Nosso Senhor, conformando-o com a informação do presidente da província fez a graça de ser admitida como Educanda’ permitiu a entrada ‘sem embrago de achar completo o seu número’. Mais uma vez ‘todos disfarçaram’, pois sabiam muito bem que Dona Ana de Jesus Maria, em sua entrada para o Recolhimento, dizia um adeus ao mundo. O interessante é que a tradição afirma que, por não haver votos perpétuos, ‘a boa Aninha voltou a cuidar da mãe viúva e até se casou com o cunhado, o Capitão Chico.”
Encontramos outra referência a essa recolhida no pedido de entrada no Recolhimento feito por ela em 1817, ou seja, seis anos após a abertura da instituição:
“Senhor – Diz Dona Anna de Jesus Maria, filha legitima do Coronel Antonio Francisco de Aguiar, que tendo suas tias D. Manoela de Santa Clara, e D. Rita de Santa Ignes estabelecido pelo Real Aviso de 22 de junho de 1810 um recolhimento de educação em Sorocaba, no númerode 6 meninas, o qual se acha preenchido, e não podendo a supte.[sic] gozar de agasalho, e doutrina que suas tias lhe desejam dar, e que é tanto do agrado de seus pais, e de suas tias, sem especial graça de V. Majestade, seja servido pela sua alta muficiencia [sic] mandar para seu Real Aviso, que sendo de agrado pai da suplicante, e de suas tias, possam elas admitir a suplicante na qualidade de supranumerária.”
Durante os seis primeiros anos de funcionamento, não houve a entrada de novasrecolhidas na instituição, embora uma mulher da mesma família das fundadoras requeresseentrada como supranumerária, ou seja, uma recolhida fora do número estipulado pelaautorização dada pelo Príncipe Regente em 1808. Repetidas referências à entrada noRecolhimento aparecem como sendo do agrado dos pais ou uma vontade das tias. Supomos queManoela de Santa Clara e Rita de Santa Ignes, além de serem tidas como exemplos familiares,influenciaram outras mulheres da família a se recolherem junto delas.“Aviso de licença a D. Anna de Jesus Maria para entrar no recolhimentode Sorocaba. Ilmo. Exce. Snr. El Rei Nosso Senhor, conformando-secom informação, e parecer de V. Exa., em e seu ofício n°9 de 31 demaio passado, sobre o requerimento D. Anna de Jesus Maria, filha doCoronel Antonio Francisco de Aguiar, é servido que ela possa entrar [p. 75, 76]
foi publicada a segunda edição na língua inglesa. Pouco depois, em 1848, o relato foi publicado em língua alemã em Dresden e Leipzig, atual Alemanha.A edição em português ocorreu em 1942, na Coleção Brasiliana, intitulada Viagens no Brasil: principalmente nas províncias do norte e nos distritos de ouro e do diamante durante anos 1836-1841, da Companhia Editora Nacional.No ano de 1856 foi publicado o relato Life in Brazil; or, a journal of a visit to the land of the cocoa and the palm de Thomas Ewbank ela Harper & Brothers, Nova York, sendo lançada também na Inglaterra. Nos Estados Unidos houve uma edição em 2005.No Brasil, o relato em português foi publicado com o título A vida no Brasil: ou Diário de uma visita ao país do cacau e das palmeiras, em 1973, pela editora carioca Conquista, em dois volumes.O relato de Henry Walter Bates foi publicado em 1863, em dois volumes, com o título The naturalist on the River Amazons, a record of adventures, habits of animals, sketches of Brazilian and Indian life, and aspects of nature under the Equator, during eleven years of travel by Henry Walter Bates, em Londres pela John Murray. A segunda edição ocorreu um ano depois, com supressão de algumas partes pelo autor, seguida por mais de dez edições na língua inglesa em Londres e nos Estados Unidos. No Brasil O naturalista no Rio Amazonas foi editadoem 1944 pela Editora Nacional.
Em 1869, Richard Burton publicou a primeira edição de Explorations of the Highlands of the Brazil; with a full account of the gold and diamond mines. Also, canoeing down 1500 miles of the great River São Francisco, from Sabará to the Sea by Captain Richard F. Burton, F.R.G.S., etc., em Londres por Tinsley Brothers, em dois volumes. A obra recebeu destaque em finais do ano passado e foi publicada em Nova York no centenário da primeira edição, e nos últimos dezesseis anos teve três edições nos Estados Unidos.
No Brasil, a primeira edição de Viagens aos planaltos do Brasil: 1868, em três volumes,ocorreu no ano de 1941 pela Companhia Editora Nacional, que publicou a segunda edição em 1983. Houve uma edição em 2001 pelo Senado Federal intitulada Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho, volume único.
Em São Paulo, a Tip. Allemã de H. Schroeder publicou Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gaston e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba de John James Aubertin no ano de 1866.
Nesse mesmo ano foi traduzido para o inglês pelo autor e publicado em Londres pela Bates, Hendy & Co. com o título Eleven day’s journey in the Province of Sao Paulo, with the [p. 10]
Outro ponto, o parâmetro comparativo do algodão brasileiro e do norte-americano. A produção dos Estados Unidos figura como indicadora de qualidade e produtividade, em vista do país ter sido o maior fornecedor do mundo, e é trazida pelos viajantes quando desejam estimular a produção no Brasil, em especial, utilizando dados fornecidos por conhecedores do ramo.Nesse sentido, Richard Burton traz as considerações de um renomado pesquisador da cultura algodoeira, Major R. Trevor Clarke96 para quem “Aqui [no Brasil] o algodão tem mais penugem que o habitual; 600 quilos darão 250 de fibra limpa, ao passo que no Alabama são necessários 750 quilos. Em geral, o replantio do arbusto é feito em seu quarto ano”.97 E J. J. Aubertin traz a experiência dos americanos sulistas Dr. Gaston, Dr. Shaw e Major Mereweather, a quem ele acompanhou durante a passagem deles pela Província de São Paulo:Eramos cinco pessoas. Tres Americano sulistas, dr. Gaston, dr. Shaw e o major Mereweather, que ião fazer sua viagem prolongada, na exploração de districtos um pouco remotos, sob a direcção do sr. Engenheiro Bennaton, para esse fim nomeado; e, sendo informado dos seus preparativos, logo me aggreguei a elles, não menos por sympatia para com a antecipada immigração americana, como tambem pelo desejo de visitar em sua companhia algumas plantações de algodão, e tirar algumas instrucções de sua experiencia pratica, a respeito de uma cultura que, sendo hoje estabelecida na província, não póde deixar de influil-os cabalmente na resolução que definitivamente tenhão que tomar.98Durante a permanência na província paulista, o grupo visitou a região de Itu, Salto, Porto Feliz e Sorocaba, daí J. J. Aubertin seguiu para a capital paulista e eles continuaram viagem com destino à Itapetininga. As observações de diferentes aspectos da lavoura algodoeira e o processamento do algodão fizeram os norte-americanos considerarem o clima paulista adequado à produção e benéfico o fato de não haver mudanças bruscas na temperatura, como a ocorrência de geadas, possibilitando maior tempo de conservação do algodoeiro.99Esses dados são agregados por J. J. Aubertin àqueles fornecidos por produtores paulistas de que “emquanto o alqueire norte-americano, dando bem, produz de cem até cento e dez ou talvez 96 Richard Trevor Clarke (1813-1897) – “Army officer and horticulturalist. Major in the Northampton and Rutland Infantry Militia, 1862. Bred nearly thirty new varieties of begonias and many new strains of cotton. Awarded a gold medal by the Cotton Supply Association of Manchester. Member of the Royal Horticultural Society; served on the council and scientific committee for many year; awarded the society’s Veitchian medal, 1894”. BURKHARDT, Frederick et al (Ed.). Charles Darwin. The Correspondence of Charles Darwin (1866). Cambridge: Cambridge University, 2004, p. 502, vol. 14.97 BURTON, Richard Francis. Viagem de canoa de Sabará ao Oceano Atlântico..., op. cit., p. 29. [nota 3]98 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gastón e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba. São Paulo: Typ. Allem[p. 159]
Os esforços de J. J. Aubertin devem ser compreendidos dentro desse contexto, em que ele se coloca como defensor da produção algodoeira paulista e atua em diferentes direções. No Brasil, escreveu para diversos periódicos nacionais e correspondeu-se com diferentes figuras da política brasileira para lhes solicitar o envolvimento com a lavoura algodoeira capaz de colocar São Paulo em posição favorável no mercado inglês, tal como fez o inglês em carta ao Comendador Fideles Prates:
Usai, vos peço, nesta vespera de uma nova semeadura, a vossa bem conhecida influencia entre os vossos amigos, e dizei aos cultivadores do algodão que redobrem os seus esforços na nova plantação, porque pela colheita futura é que se diciderá definitivamente a importante questão se a provincia de S. Paulo pode ou não pode occupar uma posição positiva nos mercados de Manchester.104
Aos agricultores interessados, ele também procurou difundir noções sobre a técnica de cultivar o algodão herbáceo e publicou folhetos sobre a cultura do algodão.105 Essa política de difundir informações sobre o cultivo foi uma atividade constante da associação inglesa, mesmo após o fim da guerra norte-americana.
No plano internacional, empenhou-se em apresentar os algodões paulistas de boa qualidade na Exposição Internacional de Londres, de 1862, com o objetivo de mostrar os atributos do produto. Também foi intermediador entre Manchester Cotton Supply Association e órgãos brasileiros; em duas ocasiões, nos anos de 1862 e 1865, J. J. Aubertin solicitou à associação britânica que enviasse algodão herbáceo ao Ministério da Agricultura e à Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional.106 Em diferentes momentos enviou para a Inglaterra amostras do algodão paulista, em geral, com boas avaliações dos correspondentes.J. J. Aubertin arquitetou ações no Brasil ligadas aos interesses ingleses baseadas em informações colhidas por ele na província ou com base na experiência de nacionais e, principalmente, de norte-americanos, com o propósito de deixar claro as potencialidades de São Paulo e convencer os potenciais produtores paulistas. Para aqueles que mesmo assim estivessem em dúvida, ele escreve:
Deveras, já é tarde demais para duvidar do algodão de São Paulo; mas se ainda ha descrentes, apenas apello para os dous srs. Cultivadores que acompanhei, major Mereweather e dr. Shaw. Ambos elles me repetirão muitas vezes, que melhor algodão que aquelle que nos vimos não desejavão ver; que nas suas proprias plantações e com todos os seus meios perfeitos não costumavãoproduzir melhor. 107
Seus esforços renderam-lhe o reconhecimento da associação inglesa, que o condecorou com uma medalha de ouro, e o governo brasileiro honrou-o com o hábito da Imperial Ordem da Rosa. Nos veículos de informação brasileiros, nos quais tanto escreveu, vemos o reconhecimento de seus pares, como E. Hutchings, outro entusiasta da lavoura algodoeira em terras paulistas e intermediário entre a associação e o Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas:
Hoje, considerado, como um genero de exportação, o algodão, e sua cultura, é um dos factos estabelecidos na historia da provincia, e eu me aproveito desta occasião para patentear a gratidão que todos temos.Quem sabe, o que ha de mostrar-se nos anos que vem? Quasi todas as condições de prosperidade estão unidas nesta provincia; - Um clima sem rival, uma terra cheia de riquesa, e uma natureza, cuja uberdade é espantosa. Tudo isto aqui, e no outro lado do Oceano, a Inglaterra, offerece tudo quanto seja possivel afim de attrahir para lá, os productos da provincia, e com as devidas providencias, e constancia em trabalhar, tudo será possivel, e, sem esta, nada.Campinas, Mogy-mirim, Limeira e outros lugares vão caminhando na cultura do café, e o publico, bem como os particulares, são beneficiados. Parece que, para Sorocaba, resta ainda este outro manancial de prosperidade; - a cultura do algodão, e não ha homem ou natural, ou estrangeiro na provincia, que não abençoará a empresa.[...] Caminho da Luz, S. Paulo Agosto de 1865[...] E. Hutchings108
Evidentemente, tais esforços foram no sentido de produzir algodão adequado às necessidades da indústria inglesa. Foi estimulado o plantio da semente de Nova Orleans, em solicitação de uma circular da Manchester Cotton Supply Association109 e houve uma modificação na postura do produtor brasileiro: “O tipo de algodão tradicional no Brasil era o arbóreo mas o mercado consumidor passou a condicionar a produção ao tipo herbáceo dos 107 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo..., op. cit., p. 16.108 HUTCHINGS, E. “Aos Redactores do Diario de São Paulo”. Diario de S. Paulo, São Paulo, 11 agosto 1865, ano I, nº 10, p. 2. Em outras atividades, além do algodão: E. Hutchings foi um dos secretários da Comissão Julgadora de um concurso para criadores de animais pensado por J. J. Aubertin, tesoureiro do evento. O Comendador Fideles Nepomuceno Prates aparece como um dos Juízes. “Concurso industrial”. Correio Paulistano, Estados Unidos. As variedades mais procuradas eram a U[p. 161, 162]