Resumo: Este artigo tratará da sobreposição em termos territoriais, culturais e políticos dos povos Kaingang e alemães no Vale do Rio dos Sinos, no Rio Grande do Sul, durante meados do século XIX. Das primeiras formas de aproximação entre ambos, desde a observação até o instar-se de um estado de medo comparti-lhado, que passou a ser fruto de combates reais. Buscaremos explicar as motivações que levaram esses indivíduos às mais complexas situações, que surgiram dessa sobreposição de mundos distintos.Palavras-chave: História Indígena. Índios Kaingang. Imigração alemã. Bugres. Trajetórias individuais. IntroduçãoDurante o século XIX, o governo imperial brasileiro teve o interesse de colonizar as regiões desabitadas do sul do Brasil e, para isso, tratou de incentivar a imigração de europeus. Na provín-cia do Rio Grande, as primeiras levas constituíam-se basicamente de colonos de origem germânica que chegaram a partir de 1824. A esses imigrantes foram doadas terras tidas como desabitadas, entretanto, eram na verdade territórios ocupados por indígenas do grupo Kaingang, naquela época chamados de Coroados ou Bugres.2* Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Bolsista do CNPq. E-mail: soraiasdornelles@gmail.com [p. 1]O contato entre indígenas e estrangeiros estava posto: ora surtiram relações amistosas, com estabelecimento de redes de reciprocidade e dependência ora imperou a incompreensão e a violência por ambas as partes. Naquele momento, a questão sobre a presença indígena nas terras disponíveis para o povoamento e colonização do Império era apresentada em diversos meios de discussão, e, a partir disso, os colonos empenharam-se em resolver o problema (MONTEIRO, 2001, p. 170-172).A partir de 1829 foram registrados os primeiros ataques dos índios Coroados às colônias alemãs. Em 26 de fevereiro daquele ano, na Picada dos Dois Irmãos, pertencente à colônia sede São Leopoldo, “[...] sofreram alguns dos estabelecimentos, que estão mais internados na Serra, uma irrupção dos bugres que além de assassinarem cinco pessoas destruíram quanto encontraram naqueles lugares”.3 No relatório do Inspetor da Colônia daquele ano, é possí-vel vislumbrar a rapidez com que foi identifi cado que os ataques dos indígenas impossibilitariam a efi ciência do projeto de ampliação das áreas povoadas e que era preciso proteger aquela empresa. No ano seguinte, o mesmo inspetor reclamava às autoridades que um novo ataque dos indígenas mostrava-se iminente e a difi culdade de formar um destacamento para proteger as colônias não era tarefa simples.4Os assaltos, como eram chamados pelos colonos, repetiram-se em 1834 e 1835, no Campo Novo, localizado na primeira légua de São Leopoldo, ironicamente conhecido como “Mortandades”, onde, em 1835, morreram oito e fi caram feridos três colonos. Em 1843, os Coroados atacaram a propriedade de Jacó Bohn, no vale do rio Caí, mas foram surpreendidos pelo contra-ataque dos colonos alemães, que tomaram um menino indígena por prisioneiro cuja trajetória será analisada em detalhes adiante. Como características gerais desses assaltos, podem-se observar, em primeiro lugar, o saque às roças de milho que se encontravam prontas para a colheita; por isso, a maior parte das investidas indígenas ocorreu nos primeiros meses do ano. Em segundo lugar, destaca-se a procura por objetos de metais – principalmente o ferro – e tecidos e, por fi m, a captura de mulheres e crianças. Aqui, destacaremos as experiências compar-tilhadas por aqueles personagens que vivenciaram os assaltos de diferentes formas. [p. 2]social, quer dizer, era preciso compartilhar certas experiências para que pudessem emergir esses personagens. O sequestro da família VerstegTendo completado cerca de dez anos que a família de Lam-berto Versteg havia se instalado em São Vendelino, em 1868, resolveu ele partir para uma quermesse no Caí, onde iria encontrar seu amigo dos tempos iniciais no Brasil. Como era de costume, Lamberto recebera uma carta do amigo através do ponto comercial mais próximo à sua propriedade, a venda de Eisenbarth. Esses locais, as famosas vendas, constituíam, naquele período, verdadeiros lugares de difusão de informações, pontos de referência e locus predileto das relações sociais nas colônias. Foram nessas vendas que muitas vezes se viu Luís Bugre alterado pela bebida, provocando brigas, como tantos outros o fi zeram. Dessa forma, assemelham-se às pulperías, características do universo colonial espanhol, identifi cadas por Wilde (2003, p. 125) como lugar propício ao contrabando, mas também lugar de encontro e circulação de gêneros e informações.A primeira coincidência da qual trataremos diz respeito ao fato de que Luís Bugre estava presente no momento em que o proprietário da venda informou a Lamberto a chegada de uma carta endereçada a ele, bem como a respeito de seu conteúdo: os festejos no Caí, e a partida de Lamberto em breve, naquela direção. Tratando-se de viagem curtíssima, Lamberto deixou sua mulher e seus fi lhos sozinhos; Jacó, que tinha naquela época 14 anos, e Lucila, 12 anos. Partiu juntamente com outros colonos, todos moradores do Forromeco e arredores.No dia da viagem, em 14 de dezembro de 1867, consta que Luís Bugre fora à propriedade dos Versteg, logo pela manhã, onde encontrou Valfrida e os fi lhos, e instruiu-lhes para que colocassem um pano branco no telhado, para que os índios do mato não lhe fi zessem mal, pois seria esse o sinal de que aquela casa era amiga. Foi o que Valfrida fez logo da partida de Luís Bugre. Mais tarde, no mesmo dia, o rancho foi atacado por um grupo de índios, que os levaram como prisioneiros, além de alguns animais, algumas facas [p. 11]