Os negócios da conquista: perfil socioeconômico dos contribuintes para a guerra contra os povos indígenas dos Rios Doce e Piracicaba dos anos de 1765 a 1767Adriano Toledo PaivaDoutor em História UFMGPós-doutor em história pela UFOPainda que a documentação em questão fornece ao pesquisador subsídiosindispensáveis para a compreensão do novo ordenamento e caracterização das fronteiras espaciais da capitania, ponto nodal de nossa problemática de pesquisa.O estabelecimento do diálogo do livro com diferentes fontes permite averiguar os significados do documento na trama das esferas político-administrativas que o produziram e seu impacto no cotidiano dos indivíduos citados em sua disposição textual. A cobiça por ouro e novos descobertos, terras para atividades agropastoris e o emprego da força de trabalho indígena eram alguns dos interesses aguçados pelas possibilidades da conquista nas Minas. Em razão do detalhamento da condição da doação de determinados contribuintes, aventamos a possibilidade de tratar os procedimentos de expedições, enquanto investimentos de natureza econômica, assim como ocupação laboral de determinadas unidades produtivas. O responsável pelo arrolamento de contribuintes descreveu a presença de diferentes agentes nas tributações em ouro: “José Gonçalves da Silva e seu sócio”; “Gonçalo de Souza e seu sócio”; “João Alves e sociedade”; “sargento mor João da Silva Tavares e seu sócio”; “Sebastião Pereira e seu sócio”; “Domingos Redondo e seu sócio”. Nos distritos da Freguesia de São Miguel do Piracicaba verificamos a presença dos termos “sócio” e “comprador” agregados aos nomes dos pagantes: “comprador de Luiz Pereira da Silva”; “Alferes José de Miranda Ribeiro e seu sócio”; “Antônio Dias de Meireles e seu sócio”; “Capitão Manuel José dos Santos e seus sócios”; “João Antônio Lopes e seus sócios” pagaram duas oitavas em ouro por “sesmaria não cultivadas”8. No registro dos contribuintes verificamos a presença dos sócios nos mais diferentes negócios, e estas delimitações produtivas também foram especificadas por laços familiares dos cedentes. Contribuíram com ouro para as expedições de conquista: “João Ferreira Basto e sua sogra”; “Manoel Moreira e seu irmão”; “Paulo Correia e seu irmão”; “João Pereira Bastos e seu irmão”. “Bartolomeu Rodrigues e seu genro” doaram porcos empregados na alimentação dos expedicionários e “Luiz José Coelho e seu irmão” concorreram no empréstimo de três escravos para o transporte dos gêneros das investidas. O presente conjunto de informações tornou-se um importante indício para abordarmos as investidas de conquista dos sertões como atividade integrante dos negócios dos contribuintes ao governo.9Cogitamos que o nosso exame sobre as diferentes trajetórias dos cedentes poderia revelar o peso das expedições de conquista na sociedade setecentista, assim como demonstrar os possíveis interesses e envolvimentos de nossos personagens com as guerras contra os índios dos Rios Doce e Piracicaba transcorridas na década de 1760. 8As sesmarias foram doadas, registradas e não ocupadas pelos seus donatários.9Para Marco Antônio Silveira, os processos de colonização e conquistas devem ser analisados pelas especificidades políticas e sociais da localidade, abordando os conflitos jurisdicionais, de poder e pelas contradições da sociedade escravista. SILVEIRA, Marco Antônio. “Guerra de usurpação, guerra de guerrilhas – Conquista e soberania nas Minas setecentistas”. Revista Varia História. Belo Horizonte: Departamento de História da FAFICH, UFMG, nº.25, 2001, p.143. Consulte-se também: SILVEIRA, Marco Antônio. A colonização como guerra. (América portuguesa, século XVIII). Belo Horizonte, 2011, 130p. (T