Dissertação apresentada ao programa de Pós graduação de Mestrado Profissional em Ensino de História na Universidade Federal do Paraná, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Ensino de História. Orientador: Prof. Dr. Wilian Carlos Cipriani Barom.
MARLON VINICIUS GASPARELLO
277, 283). Essa complexidade configura um dinâmico polo de crescimento e diversidade que transcende o centro tradicional da colonização vêneta. Essa rica e multifacetada composição de Colombo, no entanto, não se restringe apenas às diversas ondas migratórias europeias. Para uma compreensão ainda mais aprofundada das múltiplas camadas históricas que fundaram e moldaram o território, é imperativo retroceder no tempo e examinar as presenças que o antecederam – e conviveram com – a colonização europeia. 2.5 ALÉM DA HISTÓRIA "ITALO" OFICIAL: INDÍGENAS, LUSOS E AFRICANOS EM COLOMBO Para além do marco fundamental que a colonização italiana tenha representado na história de Colombo, conforme já indicado anteriormente, é crucial reconhecer que o território que viria a constituir o município já se encontrava ocupado e culturalmente moldado por outros grupos humanos muito antes — e também durante — a chegada dos colonos europeus. Longe da narrativa predominantemente “ítalo” oficial, a região possuía uma rica trajetória histórica que envolveu, em primeiro lugar, diversas nações indígenas. No século XVI, por exemplo, os Tinguis habitavam as terras que posteriormente dariam origem ao atual município de Colombo (Ferreira, 2022, p. 42–43). Como descreve Martins (1995, p. 31): TINGUIS – Dominavam, no século do descobrimento do sertão, os Campos de Curitiba, a partir da encosta ocidental da Serra do Mar (São José dos Pinhais, Piraquara, Campo Largo, Araucária, Tamandaré, Colombo, Campina Grande e Rio Branco). Os Tinguis, cujo nome significa “com nariz afilado”, viviam da caça, pesca e coleta de frutos e sementes, como o pinhão, abundante na região. No século XVII, foram explorados por mineradores e criadores de gado de origem portuguesa (Martins, 1995). Conforme Ferreira (2022, p. 43–45), achados arqueológicos e registros históricos comprovam essa presença, incluindo a “mão-de-pilão”, ferramenta de pedra datada entre 10.050 a.C. e o século XVII d.C., e um relato publicado no Dezenove de Dezembro em 1885 sobre a aldeiação de povos indígenas no século XVII. A toponímia local — Atuba, Boicininga, Bacaetava — de origem tupi e guarani, reflete a herança linguística e cultural indígena. O censo de 1872 ainda registra uma população significativa de caboclos, termo que pode referir-se a miscigenação de indígenas com europeias ou habitantes do interior. Contudo, indica a continuidade das influências culturais indígenas. Durante o século XIX, políticas voltadas à assimilação e apropriação de terras buscaram suprimir a presença indígena. A política indigenista imperial de 1845, por exemplo, reduziu investimentos, expropriou territórios e transformou comunidades em mão de obra empobrecida. Os indígenas passaram a ser rotulados como perigosos e improdutivos. Zacarias de Goes e Vasconcelos propôs aldeá-los sob a administração de frades capuchinhos italianos, com o objetivo de catequizá-los e integrá-los ao trabalho conforme os interesses das elites locais (Vanali, 2013, p. 106-115 apudFerreira, 2022, p.47). Essas políticas de expropriação de terras e disciplinamento da mão de obra articularam-se à estrutura fundiária pré-existente, baseada em antigas concessões de sesmarias. No final do século XVI e início do XVII, o Rio de Janeiro incentivou a formação de povoados no litoral de Paranaguá, e, a partir daí, no início do século XVII habitantes da região avançaram pela Serra do Mar, fundando arraiais em locais como Bocaiuva, Borda do Campo, Curitiba e São José dos Pinhais. A formação territorial do que viria a ser Colombo, em particular, vincula-se às antigas sesmarias do Palmital, Capivari e Timbu. A do Palmital foi registrada por Antonio Martins Leme em 1674; a do Arraial Queimado e Capivari, entre 1710 e 1753, passou por diversos proprietários; e a do Timbu, segundo o recenseamento de 1772, pertencia a Veríssimo Gomes da Silva. Apesar desses registros iniciais, há escassez de dados sobre o povoamento mais intensivo das áreas até o século XIX (Maschio, 2005, p. 11–12). Sabe-se, contudo, que desde o final do século XVII, luso-brasileiros ocuparam essas terras em busca de ouro e de novas oportunidades econômicas, promovendo o cultivo da erva-mate e a pecuária, com o uso de mão de obra indígena e africana (Nadalin, 2017). O sistema de sesmarias foi essencial à colonização, permitindo a subdivisão das terras em sítios agrícolas. No século XIX, os sítios de Butiatumirim e Veados, pertencentes a essas antigas sesmarias, foram adquiridos pelo presidente da Província, Octávio Rodrigues, para a fundação da Colônia Alfredo Chaves em 1878, marco da origem de Colombo (Maschio, 2005, p. 12–14). [p. 68, 69]
APÊNDICE VII - TEXTO DE APOIO IV: MUITO ANTES DOS ITALIANOS (Autor: Marlon Vinicius Gasparello, 2025) Quando a gente pensa na história de Colombo, logo vem à mente a imigração italiana. Isso realmente é muito importante, mas a verdade é que, muito antes da chegada dos italianos, essas terras já tinham vida e história acontecendo.
Há milhares de anos, a região onde hoje é Colombo era habitada por povos indígenas, como os Tinguis. Eles caçavam, pescavam, colhiam pinhão (um alimento essencial!) e viviam em harmonia com a natureza. Sabemos disso por ferramentas de pedra que foram encontradas, como a "mão-de-pilão", e também pelos nomes de alguns lugares que usamos até hoje, como "Bacaetava" e "Atuba", que vêm de palavras indígenas. Esses exemplos mostram como a cultura deles deixou marcas que permanecem vivas.
Mais tarde, entre os séculos XVII e XVIII, chegaram os portugueses. Vieram em busca de riquezas, como o ouro, e iniciaram a criação de gado. Para realizar esse trabalho, usaram tanto a mão de obra indígena quanto, infelizmente, trouxeram pessoas africanas escravizadas. Mesmo diante de tantas dificuldades, tanto os indígenas quanto os africanos mantiveram suas culturas e tradições, deixando contribuições que ainda reconhecemos hoje, seja na língua, nos costumes ou na culinária. Assim, antes mesmo da chegada dos italianos, Colombo já reunia histórias de indígenas, portugueses e africanos. Cada um desses grupos deixou suas marcas, suas contribuições e suas lutas. Quando olhamos para Colombo hoje, percebemos que essa mistura de histórias continua presente no nosso jeito de viver, falar e celebrar. Entender esse passado nos ajuda a ver que nossa cidade tem uma trajetória muito mais rica e diversa do que imaginamos — e que todos os povos que passaram por aqui fazem parte de quem somos hoje.[p. 161]
A palavra Bacaetava que dá nome ao bairro e ao parque significa casa da pedra furada (Oca + ita + ba = casa + pedra + furada), palavra indígena que com o tempo sofreu mutações e chegou a Baca + eta + va, mas que trás o mesmo significado. 46Assim como a palavra Tuba ou Tuva, que da nome ao bairro Atuba, pe de origem tupi-guarani e significa: nuca.47
Trecho do Guia Histórico Cultural de Colombo48:
As primeiras terras que originaram o Município de Colombo correspondiam a parte dos sítios Butiatumirim e Veados, os quais constituíam partes das Sesmarias do Palmital, Capivari e Timbu. Os primeiros registros dessas localidades datam a partir de 1856 e correspondem ao cadastro de terras feito após a emancipação política do Paraná em 1853. As localidades de Butiatumirim e Veados, no século XIX já eram considerados povoados que integravam a cidade de Curitiba. Segundo os livros de Registros da Província do Paraná as terras dessas localidades pertenciam e eram habitadas pelas seguintes famílias: Ribeiro Pinto, Cordeiro, Machado do Bomfim, Lourenço de Ramos, Ramos, Lopes, Pacheco, da Rosa, da Silva, Pinto França, de Farias, Ribas Oliveira Franco, Nunes Rocha, de Godoy, de Araújo, Rodrigues Machado, Lourenço, Gomes Veiga Ávila, Antonio, Fontoura, Guimarães, Tavares e Correa. Certamente havia ainda outras famílias que não constam nos livros. Pode-se observar sobrenomes de origem portuguesa nesses registros de proprietários de terras as quais constituem hoje o Município de Colombo.
46 O trecho apresentando o significado do topônimo bacaetava foi escrito em: COLOMBO. Secretaria Municipal de Educação Cultura e Esporte Departamento de Cultura Guia Histórico-Cultural de Colombo. 2. ed. Colombo: Departamento de Cultura, 2011. p. 11.
47 ZAMARIANO, Márcia. Toponímia Paranaense do Período Histórico de 1648 a 1853. 381 f. Dissertação (Mestrado em Estudos da Linguagem) – Setor de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2006. Disponível em:< http://livros01.livrosgratis.com.br/cp078166.pdf> Acesso em: 29 jul. 2025.
48 COLOMBO. Secretaria Municipal de Educação Cultura e Esporte Departamento de Cultura. GuiaHistórico-Cultural de Colombo. 2. ed. Colombo: Departamento de Cultura, 2011.[p. 173]