1 de abril de 2022, sexta-feira Atualizado em 04/11/2025 00:47:02
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HOJE NA;HISTóRIA
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Observam-se, então, dois fenômenos básicos: Uma mesma via poderia ser referida por diferentes nomes, inclusive em um mesmo trecho. Além disso, ao longo do tempo, os nomes das ruas iam se transformando, dependendo da designação mais consagrada em um determinado momento da história.12O capitão Aleixo Manoel Albernaz, açoriano nascido na Ilha do Faial, é uma das figuras mais emblemáticas na fundação e primeiros decênios da cidade de São Sebastião. Casou-se por volta de 1572, provavelmente no Rio de Janeiro, com Francisca da Costa Homem, igualmente açoriana, natural de Ilha Terceira, filha do capitão Jordão Homem da Costa. De acordo com Carlos Barata, Aleixo Manoel já se achava no Rio de Janeiro em 21 de fevereiro de 1568, quando apareceu na qualidade de testemunha na posse de umas terras dos jesuítas. Ele foi membro da câmara por muitos anos.13 Aleixo Manoel recebeu sesmarias na região do Jaguaré em 1586 e 1587; em 1596, terras no rio de Capivari; em 1598, novamente em Jaguaré. De acordo com o livro Construtores e Artistas do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro, Aleixo Manoel ergueu, por volta de 1582, uma ermida que tinha por orago Nossa Senhora da Conceição. Esta ermida ele e sua mulher doaram para a Ordem de São Bento, em 13 de maio de 1596. Os monges beneditinos ali construíram a Abadia de Nossa Senhora do Montserrat, que assinala os primórdios do Mosteiro de São Bento.14Em 1573, Aleixo Manoel solicitou a sesmaria de seu irmão, Bartolomeu Albernaz, visto ter este “se retirado da cidade”. No pedido da sesmaria, argumentou-se: “respeitando aos bons serviços que tem feito a Sua Alteza”.15 Este chão16 parece ser aquele, situado no alto do Morro do Castelo, que Aleixo Manoel parcialmente venderá a Francisco de Barros no ano seguinte, e cuja porção remanescente venderá ao ouvidor João Gutierres Valeiro.17Aleixo Manoel foi pioneiro na ocupação da várzea do Rio de Janeiro. Em 1594, registra-se que a casa de Aleixo Manoel ali estava, sendo vizinha ao “Mosteiro da Casa de Nossa Senhora do Ó”, dos padres carmelitas.18 Em 1602, Aleixo Manoel recebeu nova sesmaria de chãos. Quando a pediu, ele declarou ter comprado os referidos chãos havia “vinte e três anos”, o que parece guardar relação cronológica com a venda do outro imóvel feita a Valeiro em 1579. Assim, parece razoável inferir que Aleixo Manoel estabeleceu-se na várzea quatorze anos após a fundação da cidade e doze após a transferência do núcleo urbano para o Morro do Castelo, ainda antes da instalação dos beneditinos na colina um pouco mais ao norte. Em 1602, Aleixo [p. 4]UM ADVOGADO EM SÃO SEBASTIÃOJorge Fernandes da Fonseca nasceu em 1585 no extinto concelho de Buarcos, no atual concelho de Figueira da Foz, distrito de Coimbra, em Portugal; seus pais eram Francisco da Fonseca Diniz, natural de Aveiro e Juliana Nunes, natural de Lisboa.60 A sua instituta na Universidade de Coimbra é datada de 4 de novembro de 1596, realizando matrículas em 18 de novembro de 1597 e 1 de outubro de 1598. Cursou a Faculdade de Cânones, com formatura em 26 de maio de 1602, havendo ainda prestado exame de Bacharel em Cânones no dia vinte e um de junho seguinte.61 [p. 9]Esta ampla reconfiguração regional permite ter-se ideia do amplo território que, primitivamente, era designado como Ipiiba (“Ipihyba”, “Piíba”). Alguns autores têm identificado as cabeceiras da fazenda do Gadelha no atual bairro niteroiense de Fonseca.125Observa Gilberto de Abreu Sodré Carvalho que tanto a área como o caminho que a cortava tinham o nome “do Fonseca”. Acrescenta que a terra, que se tornou bairro, manteve o nome, desde meados do século dezessete até aos dias atuais. Acrescenta este autor que o caminho deu origem à Alameda São Boaventura.126O Gadelha tornou-se médico do Presídio do Rio de Janeiro, após falecimento do doutor Francisco Marques Coelho, tendo sido provido no cargo em fevereiro de 1654 pelo governador Luiz de Almeida, o Conde de Avintes.127 Em 1663, em seu requerimento da provisão de Sua Majestade, informava acerca do cargo: “Tem servido... com grande satisfação, sem nunca faltar a cura dos soldados enfermos com sua assistência e as medicinas necessárias”.128 Dentre os documentos que apresentou no requerimento desta provisão em tal cargo constavam atestados dos governadores Luiz de Almeida, Salvador Correia de Sá e Benevides, Pedro de Mello e dos oficiais da Câmara do Rio de Janeiro acerca de seus serviços.129 Sabe-se que até pelo menos 1686 ocupou a função de médico do presídio.130O doutor Francisco da Fonseca Diniz exerceu atividades na Câmara do Rio de Janeiro. Relata-se umexemplo de sua atuação: O Governador e o Ouvidor Geral, Pedro de Mustre Portugal, ordenaram o cumprimento de umaProvisão de 3 de setembro de 1649, isto é, de uma década atrás, pela qual se ordenara a supressão da indústria da bebida de aguardente, “que era sempre barata e de geral consumo”. O Governador ordenou assim uma Resolução em 7 de janeiro de 1659 e no dia onze seguinte “mandou a câmara publicar a Resolução”, em cumprimento da referida Provisão:
[...] mandando a todas as pessoas da Cidade e recôncavo, não fizessem nem consentissem se fizesse aquelas bebidas, e que nem fossem expostas à venda, nem para ele dessem ajuda e favor, com pena de duzentos cruzados pela primeira vez, pela segunda e duplo, e pela terceira deportação para Angola pelo tempo que parecesse conveniente, aplicando-se a metade da pena pecuniária para o acusador, e a outra para as obras da Carioca, e que seria queimada a embarcação que a importasse; e outrossim, debaixo das referidas penas, fossem obrigados os que tinham alambiques de cobre ou barro, com o fim de destilar aguardente, os levasse à Câmara naquele mês, para ali se quebrar e desmanchar, tornando-lhes depois de destruídos, e que todo o caldeireiro, ou outra pessoa que fizesse ou consertasse alambiques depois do pregão, incorressem nas mesmas penas. E finalmente, que até o mês de março se consumisse toda a aguardente existente, incorrendo nas penas os que fossem achados com aquele gênero, findo o prazo estabelecido, com a declaração de poderem os negros dos engenhos fazer o vinho de cachaça para o seu consumo somente, mas não para vender a alguém.131
Para a referida resolução de 11 de janeiro de 1659 “assinaram somente o Juiz Presidente, o Doutor Francisco da Fonseca Diniz e os vereadores Manoel da Rocha e Manoel Caldeira Joanes”.132 Os evidentes interesses da Companhia de Comércio por detrás da resolução, o uso de aguardente permitido aos escravos, e as amplas consequências na economia e em práticas de contravenção, antecipam o destino que terá essa resolução da Câmara...
Por aquele mesmo tempo veio à câmara o Ouvidor Geral informando que havia suspeita de contágio em lugares como Lisboa e Évora, “ficando Badajoz com peste reconhecida”, e que “se fazia necessário toda a prevenção para evitar sua funesta comunicação no país”, porquanto convinha, “pelo bem geral, ordenar-se a franquia das embarcações que viessem do Reino, para se fazerem nelas os exames que a saúde pública exige, sabendo-se se vinham contagiadas as pessoas”. Sendo assim, nomeou-se o Provedor da Saúde, e “por médicoda mesma”, a serviço da Câmara, o “Doutor Francisco da Fonseca Diniz, com o ordenado e vencimentos que já tinham sido estabelecidos antes da correição”.133Em março de 1675, Francisco da Fonseca Diniz era já referenciado como “Capitão”, o que parece retroceder, pelo menos, até o início de 1674, quando foi vendido o engenho em Ipiiba. Ele é referenciado ao lado de seu filho, que à época ainda detinha a igual patente: “0 Capitão Francisco da Fonseca e a seu filho, Capitão Baltazar de Abreu Cardoso”.134 Estima-se, pois, que em data anterior terá ele recebido a carta de patente. Em 1704 ele ainda será referido como capitão, o mesmo ocorrendo em 1719, portanto, após a sua morte.135Além da fazenda e engenho na atual Niterói, “o doutor Francisco da Fonseca Diniz” e sua esposa, dona Isabel Rangel de Macedo, possuíram diversos imóveis nos termos da cidade do Rio de Janeiro, para alguns dos quais se têm encontrado evidência documental. A seguir, algumas informações documentadas sobre algumas de suas propriedades:- O casal possuía casa à “rua de Aleixo Manoel, o Velho, caminho da pabuna”, não sendo improvável que fosse parte de herança de família. Em 1653 o casal comprou de Eusébio Dias Cardoso e sua mulher,Francisca da Costa Homem (esta parece ser familiar da mãe do Gadelha)136, chãos vizinhos à sua casa, “com [p. 22, 23]
Jorge Fernandes da Fonseca, o Moço, foi capitão-mor da Capitania de Itanhaém.155 Benedito Calixto, em catálogo publicado na revista do Instituto Histórico de São Paulo, no qual cita a lista dos capitães-mores de Itanhaém, refere-se equivocadamente a Jorge Fernandes da Fonseca como “João Fernandes de Souza”. Carvalho Franco procedeu à devida correção.157
A história da Capitania de Itanhaém, Nossa Senhora da Conceição de Itanhaém, tem sido envolvida em muitas controvérsias.158 Muitas das dúvidas foram causadas pelo litígio iniciado em 1621 entre as Casas de Vimieiro e Monsanto – conde de Monsanto, D. Luís de Castro, e a condessa de Vimieiro, D. Mariana de Sousa Guerra, neta de Martim Afonso de Sousa. Como resultado deste litígio, a condessa de Vimieiro foi repelida em 1624 de suas vilas de São Vicente, de Santos, de São Paulo e de Mogi das Cruzes e fez da vila de Nossa Senhora da Conceição de Itanhaém a cabeça dacapitania de seus territórios. A partir desta data os domínios da condessa de Vimieiro passariam a ser conhecidos como Capitania de Itanhaém e os territórios do conde de Monsanto eram designados como Capitania de São Vicente.Itanhaém prosseguiu com vida e governo próprio paralelamente à Capitania de São Vicente.Benedito Calixto aponta que as atuais regiões de Sorocaba, Iguape até Cananéia, Paranaguá, Caraguatatuba, Ubatuba, Paraty, Angra dos Reis, todas as vilas ao norteda Cidade de São Paulo (com exceção da vila de Nossa Senhora de Sant‘Ana de Mogi das Cruzes), incluindo Jacareí, São José dos Campos, Taubaté, Pindamonhangabae Guaratinguetá estiveram sob a jurisdição da Capitania de Itanhaém. Pedro Taques, em seu livro História da Capitania de São Vicente, expõe que os capitães-mores de Itanhaém, os genuínos governadores que residiam no Brasil, governavam com ampla jurisdição “até a cidade de Cabo Frio”.159A Vila Conceição de Itanhaém foi sempre a cabeça da Capitania em toda sua existência. A Capitania de Itanhaém existiu por anos, entre 1624 e 1753, quando seu donatário, o Conde da Ilha do Príncipe, um herdeiro e descendente da Condessa de Vimieiro, a vendeu para a Coroa Portuguesa, que a anexou à Capitania de São Paulo.160
Jorge Fernandes da Fonseca, o Moço, foi, primeira vez, capitão-mor em 1652, no período do donatário D. Diogo de Faro e Sousa (1648-1653), nomeado em 31 de janeiro de 1651 e havendo tomado posse a 1 de maio de 1652. Durante esse tempo, sabe-se que esteve presente à elevação de Jacareí ao estatuto de vila.
Pedro Taques escreve que a vila de São Francisco das Chagas fora ereta em 1645 por Jaques Félix, procurador bastante da Condessa de Vimieiro, donatária da Capitania de Itanhaém. A vila foi a origem da cidade de Taubaté.161Em 1652 foi estabelecida à margem direita do Rio Paraíba uma capela cujo orago era Nossa Senhora da Conceição, desenvolvendo-se o arraial de Nossa Senhora da Conceição da Parahyba. Em 3 de abril de 1653, pelo donatário da capitania de Itanhaém, D. Diogo de Faro e Souza, representado pelo capitão-mor Jorge Fernandesda Fonseca, o arraial foi elevado a Vila, desmembrado da antiga vila de Mogi das Cruzes.162 Em 1700 o lugar recebeu o nome de Vila de Parahyba, que em 1849 foi elevada ao estatuto de município.Ainda em 1767, no então território da Vila de Parahyba, fora criada uma vila cujonome foi Vila Nova de São José, depois Vila de São José do Sul, e, mais tarde, Vila de São José do Parahyba. A nova vila foi desmembrada do termo da Vila de Parahyba (Jacareí), e a freguesia foi instalada em 1769. Em 1864, a Vila de São José do Paraíba foi elevada à categoria de cidade, passando em 1871 a denominar-se São José dos Campos.Taubaté, Jacareí e São José dos Campos são hoje municípios da Região Metropolitana do Vale do Paraíba e Litoral Norte.Jorge Fernandes da Fonseca, o Moço, no período do donatário Luiz Carneiro de Sousa, Conde da Ilha do Príncipe (1653-1665), foi novamente capitão-mor de Itanhaém, sucedendo Antônio de Siqueira. Neste período, como lugar-tenente do Conde da Ilha do Príncipe, em 1660 elevou ao estatuto de vila a povoação de Paraty.O Monsenhor Pizarro faz referência a um documento de 1661 que retrata o processode instituição da vila de Paraty.163 Oficiais da câmara da vila de Angra dos Reis da Ilha Grande questionavam a instalação de um pelourinho na povoação de Nossa Senhora dos Remédios, oficialmente subordinada à vila de Angra, elevando-o à categoria de vila. A ação, em ato público, fora levada a cabo por antigos moradores locais, nas figuras de um representante da povoação, o capitão Domingos Gonçalves de Abreu, e do capitão-mor de Itanhaém, Jorge Fernandes da Fonseca, e à revelia da própria câmara da vila de Angra.164
O protesto da câmara de Angra, entretanto, caiu no vazio. A vila de Nossa Senhora dos Remédios de Paraty passou a existir oficialmente em 1660. O ato de elevação da vila foi validado por Salvador Correia de Sá e Benevides, Governador e Capitão Geral da Repartição do Sul165, no dia 21 de agosto de 1660, visando-se melhorar os “Caminhos da Serra” (no que mais tarde viria a ser conhecido como o “Caminho do Ouro” – a Estrada Real). Afonso VI de Portugal, por Carta Régia de 28 de fevereiro de 1677, ratificou o ato dando-lhe o nome de "Vila de Nossa Senhora dos Remédios de Paraty".
Com a descoberta de ouro na região das Minas Gerais, a dinâmica de Paraty ganhou novo impulso, uma vez que se determinou, em 1702, que as mercadorias somente poderiam seguir para Minas pela antiga trilha indígena, que passou a ser conhecida por Caminho do Ouro. Quando o trajeto passou a ser diretamente entre o Rio de Janeiro e a região mineira, a vila teve sua importância diminuída. Paraty teve, então, o ciclo da cana-de-açúcar, com produção de aguardente, e depois integrou-se ao ciclo do café.À época do Segundo Reinado, um decreto-lei de 1844 do imperador Pedro II elevou a antiga vila a cidade. Hoje, Paraty é polo turístico e cultural no litoral sul do estado do Rio de Janeiro. [p. 29]
foi publicada a segunda edição na língua inglesa. Pouco depois, em 1848, o relato foi publicado em língua alemã em Dresden e Leipzig, atual Alemanha.A edição em português ocorreu em 1942, na Coleção Brasiliana, intitulada Viagens no Brasil: principalmente nas províncias do norte e nos distritos de ouro e do diamante durante anos 1836-1841, da Companhia Editora Nacional.No ano de 1856 foi publicado o relato Life in Brazil; or, a journal of a visit to the land of the cocoa and the palm de Thomas Ewbank ela Harper & Brothers, Nova York, sendo lançada também na Inglaterra. Nos Estados Unidos houve uma edição em 2005.No Brasil, o relato em português foi publicado com o título A vida no Brasil: ou Diário de uma visita ao país do cacau e das palmeiras, em 1973, pela editora carioca Conquista, em dois volumes.O relato de Henry Walter Bates foi publicado em 1863, em dois volumes, com o título The naturalist on the River Amazons, a record of adventures, habits of animals, sketches of Brazilian and Indian life, and aspects of nature under the Equator, during eleven years of travel by Henry Walter Bates, em Londres pela John Murray. A segunda edição ocorreu um ano depois, com supressão de algumas partes pelo autor, seguida por mais de dez edições na língua inglesa em Londres e nos Estados Unidos. No Brasil O naturalista no Rio Amazonas foi editadoem 1944 pela Editora Nacional.
Em 1869, Richard Burton publicou a primeira edição de Explorations of the Highlands of the Brazil; with a full account of the gold and diamond mines. Also, canoeing down 1500 miles of the great River São Francisco, from Sabará to the Sea by Captain Richard F. Burton, F.R.G.S., etc., em Londres por Tinsley Brothers, em dois volumes. A obra recebeu destaque em finais do ano passado e foi publicada em Nova York no centenário da primeira edição, e nos últimos dezesseis anos teve três edições nos Estados Unidos.
No Brasil, a primeira edição de Viagens aos planaltos do Brasil: 1868, em três volumes,ocorreu no ano de 1941 pela Companhia Editora Nacional, que publicou a segunda edição em 1983. Houve uma edição em 2001 pelo Senado Federal intitulada Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho, volume único.
Em São Paulo, a Tip. Allemã de H. Schroeder publicou Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gaston e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba de John James Aubertin no ano de 1866.
Nesse mesmo ano foi traduzido para o inglês pelo autor e publicado em Londres pela Bates, Hendy & Co. com o título Eleven day’s journey in the Province of Sao Paulo, with the [p. 10]
Outro ponto, o parâmetro comparativo do algodão brasileiro e do norte-americano. A produção dos Estados Unidos figura como indicadora de qualidade e produtividade, em vista do país ter sido o maior fornecedor do mundo, e é trazida pelos viajantes quando desejam estimular a produção no Brasil, em especial, utilizando dados fornecidos por conhecedores do ramo.Nesse sentido, Richard Burton traz as considerações de um renomado pesquisador da cultura algodoeira, Major R. Trevor Clarke96 para quem “Aqui [no Brasil] o algodão tem mais penugem que o habitual; 600 quilos darão 250 de fibra limpa, ao passo que no Alabama são necessários 750 quilos. Em geral, o replantio do arbusto é feito em seu quarto ano”.97 E J. J. Aubertin traz a experiência dos americanos sulistas Dr. Gaston, Dr. Shaw e Major Mereweather, a quem ele acompanhou durante a passagem deles pela Província de São Paulo:Eramos cinco pessoas. Tres Americano sulistas, dr. Gaston, dr. Shaw e o major Mereweather, que ião fazer sua viagem prolongada, na exploração de districtos um pouco remotos, sob a direcção do sr. Engenheiro Bennaton, para esse fim nomeado; e, sendo informado dos seus preparativos, logo me aggreguei a elles, não menos por sympatia para com a antecipada immigração americana, como tambem pelo desejo de visitar em sua companhia algumas plantações de algodão, e tirar algumas instrucções de sua experiencia pratica, a respeito de uma cultura que, sendo hoje estabelecida na província, não póde deixar de influil-os cabalmente na resolução que definitivamente tenhão que tomar.98Durante a permanência na província paulista, o grupo visitou a região de Itu, Salto, Porto Feliz e Sorocaba, daí J. J. Aubertin seguiu para a capital paulista e eles continuaram viagem com destino à Itapetininga. As observações de diferentes aspectos da lavoura algodoeira e o processamento do algodão fizeram os norte-americanos considerarem o clima paulista adequado à produção e benéfico o fato de não haver mudanças bruscas na temperatura, como a ocorrência de geadas, possibilitando maior tempo de conservação do algodoeiro.99Esses dados são agregados por J. J. Aubertin àqueles fornecidos por produtores paulistas de que “emquanto o alqueire norte-americano, dando bem, produz de cem até cento e dez ou talvez 96 Richard Trevor Clarke (1813-1897) – “Army officer and horticulturalist. Major in the Northampton and Rutland Infantry Militia, 1862. Bred nearly thirty new varieties of begonias and many new strains of cotton. Awarded a gold medal by the Cotton Supply Association of Manchester. Member of the Royal Horticultural Society; served on the council and scientific committee for many year; awarded the society’s Veitchian medal, 1894”. BURKHARDT, Frederick et al (Ed.). Charles Darwin. The Correspondence of Charles Darwin (1866). Cambridge: Cambridge University, 2004, p. 502, vol. 14.97 BURTON, Richard Francis. Viagem de canoa de Sabará ao Oceano Atlântico..., op. cit., p. 29. [nota 3]98 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gastón e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba. São Paulo: Typ. Allem[p. 159]
Os esforços de J. J. Aubertin devem ser compreendidos dentro desse contexto, em que ele se coloca como defensor da produção algodoeira paulista e atua em diferentes direções. No Brasil, escreveu para diversos periódicos nacionais e correspondeu-se com diferentes figuras da política brasileira para lhes solicitar o envolvimento com a lavoura algodoeira capaz de colocar São Paulo em posição favorável no mercado inglês, tal como fez o inglês em carta ao Comendador Fideles Prates:
Usai, vos peço, nesta vespera de uma nova semeadura, a vossa bem conhecida influencia entre os vossos amigos, e dizei aos cultivadores do algodão que redobrem os seus esforços na nova plantação, porque pela colheita futura é que se diciderá definitivamente a importante questão se a provincia de S. Paulo pode ou não pode occupar uma posição positiva nos mercados de Manchester.104
Aos agricultores interessados, ele também procurou difundir noções sobre a técnica de cultivar o algodão herbáceo e publicou folhetos sobre a cultura do algodão.105 Essa política de difundir informações sobre o cultivo foi uma atividade constante da associação inglesa, mesmo após o fim da guerra norte-americana.
No plano internacional, empenhou-se em apresentar os algodões paulistas de boa qualidade na Exposição Internacional de Londres, de 1862, com o objetivo de mostrar os atributos do produto. Também foi intermediador entre Manchester Cotton Supply Association e órgãos brasileiros; em duas ocasiões, nos anos de 1862 e 1865, J. J. Aubertin solicitou à associação britânica que enviasse algodão herbáceo ao Ministério da Agricultura e à Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional.106 Em diferentes momentos enviou para a Inglaterra amostras do algodão paulista, em geral, com boas avaliações dos correspondentes.J. J. Aubertin arquitetou ações no Brasil ligadas aos interesses ingleses baseadas em informações colhidas por ele na província ou com base na experiência de nacionais e, principalmente, de norte-americanos, com o propósito de deixar claro as potencialidades de São Paulo e convencer os potenciais produtores paulistas. Para aqueles que mesmo assim estivessem em dúvida, ele escreve:
Deveras, já é tarde demais para duvidar do algodão de São Paulo; mas se ainda ha descrentes, apenas apello para os dous srs. Cultivadores que acompanhei, major Mereweather e dr. Shaw. Ambos elles me repetirão muitas vezes, que melhor algodão que aquelle que nos vimos não desejavão ver; que nas suas proprias plantações e com todos os seus meios perfeitos não costumavãoproduzir melhor. 107
Seus esforços renderam-lhe o reconhecimento da associação inglesa, que o condecorou com uma medalha de ouro, e o governo brasileiro honrou-o com o hábito da Imperial Ordem da Rosa. Nos veículos de informação brasileiros, nos quais tanto escreveu, vemos o reconhecimento de seus pares, como E. Hutchings, outro entusiasta da lavoura algodoeira em terras paulistas e intermediário entre a associação e o Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas:
Hoje, considerado, como um genero de exportação, o algodão, e sua cultura, é um dos factos estabelecidos na historia da provincia, e eu me aproveito desta occasião para patentear a gratidão que todos temos.Quem sabe, o que ha de mostrar-se nos anos que vem? Quasi todas as condições de prosperidade estão unidas nesta provincia; - Um clima sem rival, uma terra cheia de riquesa, e uma natureza, cuja uberdade é espantosa. Tudo isto aqui, e no outro lado do Oceano, a Inglaterra, offerece tudo quanto seja possivel afim de attrahir para lá, os productos da provincia, e com as devidas providencias, e constancia em trabalhar, tudo será possivel, e, sem esta, nada.Campinas, Mogy-mirim, Limeira e outros lugares vão caminhando na cultura do café, e o publico, bem como os particulares, são beneficiados. Parece que, para Sorocaba, resta ainda este outro manancial de prosperidade; - a cultura do algodão, e não ha homem ou natural, ou estrangeiro na provincia, que não abençoará a empresa.[...] Caminho da Luz, S. Paulo Agosto de 1865[...] E. Hutchings108
Evidentemente, tais esforços foram no sentido de produzir algodão adequado às necessidades da indústria inglesa. Foi estimulado o plantio da semente de Nova Orleans, em solicitação de uma circular da Manchester Cotton Supply Association109 e houve uma modificação na postura do produtor brasileiro: “O tipo de algodão tradicional no Brasil era o arbóreo mas o mercado consumidor passou a condicionar a produção ao tipo herbáceo dos 107 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo..., op. cit., p. 16.108 HUTCHINGS, E. “Aos Redactores do Diario de São Paulo”. Diario de S. Paulo, São Paulo, 11 agosto 1865, ano I, nº 10, p. 2. Em outras atividades, além do algodão: E. Hutchings foi um dos secretários da Comissão Julgadora de um concurso para criadores de animais pensado por J. J. Aubertin, tesoureiro do evento. O Comendador Fideles Nepomuceno Prates aparece como um dos Juízes. “Concurso industrial”. Correio Paulistano, Estados Unidos. As variedades mais procuradas eram a U[p. 161, 162]