O HOMEM PRIMITIVO - Algumas referências às principais notícias quinhentistas sobre os índios encontrados na Capitania de São Vicente e suas circunvizinhanças.A DISTRIBUIÇÃO geográfica e as classificações étnica e cultural dos indígenas das capitanias dos irmãos Lopes de Sousa constituem uma questão intrincada e mesmo obscura, sob certos aspectos, porque as descrições que os cronistas e escritores nos legaram são, em alguns casos, discordantes e lacunosas, contribuindo para as dificuldades encontradas a mobilidade dos grupos ameríndios em seus contínuos deslocamentos territoriais, impulsionados e tangidos pelo nomadismo peculiar ao sistema de subsistência que adotavam, pelas guerras intertribais e pelo expansionismo do branco invasor.
Seja como for, no estudo do presente assunto, apesar decertas divergências, foram básicos e relevantes os relatos quinhentistas sobre o homem primitivo, conforme se poderá Vi$1umbrar,a seguir, através de algumas transcrições de fragmentos de notícias:.,;
De Diogo Garcia Diogo Garcia, relatando a sua viagem ao Paraguai (1), escreveu sobre o indígena do litoral fluminense, no caso o Tupinambá, o seguinte:
" ... en ella y en toda esta costa hasta el Cabo Frio malagente per fera é comem carne umana e andam desnudos". Descendo mais pelo litoral, a frota do "Capitan General Diego Garcia", ancorou em São Vicente, em 1527, onde os espanhóis mantiveram contatos (cinco anos antes de Martim Afonso) com antigos moradores daquele porto: " . . . alli vive um Bachiller e unos yernos suyos mucho tiempo ha que ha bien 30 anos . .. " em paz com "una gente alli ( . .. ) que comen carne umana y es mui buena genteamigos mucho de los cristianos que se llaman Topies" (2) e<, ... andando en el camino ai legamos á un rio que se llama el rio de los Patos ( .. . ) que ay una buena generacion que hacem muibuena obra á los cristianos, e llamanse los Carrioces" (3). [Página 15]
Como revelou Diogo Garcia, em 1527, os Tupis de São Pauloeram <<índios bons e amigos dos cristãos", conceito que perdurariaaté meados do século, porque em 1553 o P. Manuel da Nóbrega ratificava essa notícia ao escrever em uma de suas missivas a El-Rei que a
" . . . Capitania de São Vicente, onde a maior parte da Companhia (era o grupo mais numeroso do Brasil) residimos por ser ella terra mais aparelhada para a conversão do gentio que nenhuma das outras partes, porque nunqua tiverão guerra comos christãos, e hé por aqui a porta e o caminho mais certo e seguro pera entrar nas geraçõis do sertão" (4).
Também os Carijós, adversários dos Tupis de São Vicente,foram considerados, conforme a "carta" aludida, colaboradores dos cristãos (talvez espanhóis); mas, quatro anos mais tarde, dizimaram, nas proximidades da foz do Iguaçu, a expedição de oitenta homens, chefiada por Pero Lobo, que partira de Cananéia em 1o. de setembro de 1531, à procura de minas de ouro e de prata.
Do Padre Manuel da Nóbrega P. Manuel da Nóbrega, em sua "Informação das Terras do Brasil" (1549), afirmou:
"Los gentiles son de diversas castas, unos se llaman Goyanazes, otros Carijós. ( . . . ) Ay otra casta de gentiles, que se llaman Gaymures, y es gente que habita por los matos ( . . . ). Los que comunican con nosotros hasta gora, son dos castas: unos se llaman Tupeniques, y los otros Tupinambas" (5).
Serafim Leite esclareceu que a ordem das citações desses povos " .. . parece indicar a linha Sul-Norte: Guayanases e Carijós na Capitania de S. Vicente ( . .. ) Gaimurés (Aimorés) ao Norte do Espírito Santo, Tupeniques (Tupinaquins ou Tupiniquins) em Porto Seguro, e Tupinambás na Baía" (6).
De Ulrico Schmidl Ulrico Schmidl, ex-soldado alemão a serviço da Espanha, iniciou, em 26 de dezembro de 1552, uma viagem por terra de Assunção a São Vicente, onde chegou em 13 de junho de 1553.
Descrevendo essa longa caminhada de 476 léguas, que durou cinco meses e meio (7), o aventureiro fez referência a " . .. um aldeamento tupi Kariesseba, por onde passou, uma nação Wies·sache, que habitava as margens de um rio Urquaie, e, finalmente, [p. 16]
Nesse famoso livro, Jean de Léry divulgou, como Staden o fizera, preciosas informações sobre os Tupinambás (ou Tamoios)que eram vizinhos dos Maracajás (50), Goitacás e Carijós. Vejamos algumas referências aos Goitacás e Carijós (51).
Os Uetaka (Uetacá ou Goitacá), do grupo dos Charruas (52), habitantes das regiões do "baixo Paraíba do Sul e do r!o Macaé,eram de avantajada estatura e muito destros no manejo do arco" (53).
Segundo Léry, usavam "Cabelos compridos pendente~até as nádegas" e eram excelentes corredores porque "quando apertados ou perseguidos ( . .. ) correm tão rápidos a pé que não só escapam da morte como apanham na carreira certos animais silvestres, veados e corças ( ... ). Em suma, esses diabólicos Uetacá, invencíveis nessa região ( .. . ), donos de uma linguagem que seus vizinhos não entendem, devem ser tidos entre os mais cruéis e terríveis (povos) que se encontram em toda a índiaOcidental (54).
Os Carijós (Carios ou Cariós), de que trataram Diogo Garciae Staden, eram Guaranis e, no primeiro século da colonização portuguesa, demoravam além de Cananéia até o extremo sul (10país (Lagoa dos Patos) (55).
De Magalhães Gandavo Pero de Magalhães Gandavo, em sua História da Província de Santa Cruz, cuja primeira edição veio à luz em 1576, ao denominar o primitivo habitante do Brasil chamou-o de "índio", OU"gentio", mas as alusões feitas na sua obra à << língua geral" que falavam, e aos seus usos e costumes (56), fazem-nos supor quet ratou especialmente do grupo Tupi, apesar de referir-se tambén1,ainda que sucintamente, aos Jês: "Outros lndios doutra naçan1differente, se acham nestas partes ainda que mais ferozes ( . . . )chamam-se Aimorés, ( ... ) habitam da Capitania de llheos até ade Porto Seguro ... >> , informando que <<. . . há uns certos lndiosjunto do rio do Maranhão da banda do Oriente ( ... ) que sechamam Tapuyas os quaes dizem que sam da mesma nação destesAimorés . .. >> (57).A propósito desta informação de Gandavo, co vém ~ lembrarque no período colonial empregava-se, com freqü ência, o vocábulo Tapuyas para designar os grupos indígenas que não falavam o abanheém. T. Sampaio ensinou que, em Tupi, Tapuya significavabárbaro, estrangeiro (58), englobando, nessa acepção, os Jês eoutros grupos não-Tupis com caracteres étnicos e culturais bastantedessemelhantes.O emprego desse vocábulo para nomear etnias diversas, com abrangências variáveis em tempos e circunstâncias diferentes,torna inconveniente o seu uso por causa das confusões que temacarretado.Como muito bem observou Lowie: "lt certainly can lead tonothing but confusion if ethnographic and linguistic considerationsare mixed" (59).O manuscrito anônimo da Biblioteca EborenseO manuscrito anônimo da Biblioteca de Évora intitulado "Princípio e Origem dos índios do Brasil" (60) faz menção, entre outros, aos ". . . Tamoios, moradores do Rio de Janeiro ... ", à nação Carijó "que abíta além de São-Vicente como 80 leguas, contrários dos Tupinaquins de São-Vicente; destes há infinidade, e correm pela costa do mar e sertão até o Paraguai, que abitam osCastelhanos". E prossegue a narrativa afirmando que: "todas estas nações acima ditas, ainda que diferentes e muitos delles contrarias uns dos outros, têm a mesma língua, e nestes sefaz a conversão, e têm grande respeito aos padres da Companhia" (61). _,Foram feitas citações, no documento português, a " ... muitas nações de Tapuias ... >> (ao todo setenta e seis), entre elas aos Guaitacás que << ... vivem na costa do mar entre o Espírito-Santoe Rio de Janeiro, vivem no campo e não querem viver nos matos ... ", aos Guaianás (62) que ". . . vivem para a parte dosertão da Bahia, e têm língua por si . . . >> (63), e << ... outros haque chamam Cataguá; estes vivem em direito de Jequericaré entreo Espírito-Santo e Porto-seguro·· . " (64), etc.
De Gabriel Soares Gabriel Soares, em seu Tratado Descritivo do Brasil em 1587, referiu-se: aos Goitacás que habitavam o litoral do Espírito Santo· até a foz do Paraíba do Sul e foram empurrados de beira-mar·para o interior pelos indígenas que lhes eram contrários (65); aos Tamoios que << ... aos tempo que os portugueses descobriram o Brasil ... ",ocupavam a região compreendida entre o "cabo de São Tomé atéa Angra dos Reis" (66), " .. . do qual limite foram lançados para o sertão, onde agora vivem ( ... ) são estes tamoios mui inimigos dos goitacazes ... " e da ". . . parte de São Vicente partem comos guaianases, com quem também têm contínua guerra, sem se perdoarem" (67).
O famoso senhor de engenho escreveu que os Guaianás ocupavam a costa da capitania vicentina "...até contestarem com os tamoios...". Ainda informou que os Guaianás foram "...senhores e possuidores>> das terras de São Vicente e alhures: " • .• têm sua demarcação ao longo da costa por Angra dos Reis,e daí até o rio de Cananéia ( ... ) onde ficam vizinhando ... " comos Carijós. "Estes guaianases têm continuadamente guerra comos tamoios, de uma banda, e com os carijós da outra..."; "A linguagem deste gentio (Guaianá) é diferente da de seus vizinhos,mas entendem-se com os carijós .. . "; "não são os guaianasesrnaliciosos, nem refalsados, antes simples e bem acondicionados,e facilimos de crer em qualquer coisa ... ". Apesar de fisicamente se assemelharem com os Tamoios, não matavam os seus prisioneiros e eram hospitaleiros com o homem branco (68).
Em seguida, o autor do "Roteiro Geral da Costa Brasílica" registrou a presença dos Carijós na costa sul desde "...Cananéia, onde partem com os guaianases...", seus vizinhos e contrários (69).
De Antônio Knivet Antônio Knivet, tripulante da frota corsária que, sob o comando de Tomás Cavendish, saqueou, em 1591, o litoral brasileiro e acabou sendo preso pelos portugueses, em São Sebastião (Capitania de São Vicente), deixou-nos um curioso relato de suas peregrinações pelo interior do Brasil, na última década do século XVI. Knivet, nessa narrativa (70), fez referências aos Wianasses da baía da Ilha Grande, dos quais trataremos em capítulo à parte;aos Pories (71) (Puris) do Vale do Paraíba; aos Tamoyos (72) que,expulsos do litoral, se haviam refugiado no local denominado [p. 22, 23 e 24]
foi publicada a segunda edição na língua inglesa. Pouco depois, em 1848, o relato foi publicado em língua alemã em Dresden e Leipzig, atual Alemanha.A edição em português ocorreu em 1942, na Coleção Brasiliana, intitulada Viagens no Brasil: principalmente nas províncias do norte e nos distritos de ouro e do diamante durante anos 1836-1841, da Companhia Editora Nacional.No ano de 1856 foi publicado o relato Life in Brazil; or, a journal of a visit to the land of the cocoa and the palm de Thomas Ewbank ela Harper & Brothers, Nova York, sendo lançada também na Inglaterra. Nos Estados Unidos houve uma edição em 2005.No Brasil, o relato em português foi publicado com o título A vida no Brasil: ou Diário de uma visita ao país do cacau e das palmeiras, em 1973, pela editora carioca Conquista, em dois volumes.O relato de Henry Walter Bates foi publicado em 1863, em dois volumes, com o título The naturalist on the River Amazons, a record of adventures, habits of animals, sketches of Brazilian and Indian life, and aspects of nature under the Equator, during eleven years of travel by Henry Walter Bates, em Londres pela John Murray. A segunda edição ocorreu um ano depois, com supressão de algumas partes pelo autor, seguida por mais de dez edições na língua inglesa em Londres e nos Estados Unidos. No Brasil O naturalista no Rio Amazonas foi editadoem 1944 pela Editora Nacional.
Em 1869, Richard Burton publicou a primeira edição de Explorations of the Highlands of the Brazil; with a full account of the gold and diamond mines. Also, canoeing down 1500 miles of the great River São Francisco, from Sabará to the Sea by Captain Richard F. Burton, F.R.G.S., etc., em Londres por Tinsley Brothers, em dois volumes. A obra recebeu destaque em finais do ano passado e foi publicada em Nova York no centenário da primeira edição, e nos últimos dezesseis anos teve três edições nos Estados Unidos.
No Brasil, a primeira edição de Viagens aos planaltos do Brasil: 1868, em três volumes,ocorreu no ano de 1941 pela Companhia Editora Nacional, que publicou a segunda edição em 1983. Houve uma edição em 2001 pelo Senado Federal intitulada Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho, volume único.
Em São Paulo, a Tip. Allemã de H. Schroeder publicou Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gaston e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba de John James Aubertin no ano de 1866.
Nesse mesmo ano foi traduzido para o inglês pelo autor e publicado em Londres pela Bates, Hendy & Co. com o título Eleven day’s journey in the Province of Sao Paulo, with the [p. 10]
Outro ponto, o parâmetro comparativo do algodão brasileiro e do norte-americano. A produção dos Estados Unidos figura como indicadora de qualidade e produtividade, em vista do país ter sido o maior fornecedor do mundo, e é trazida pelos viajantes quando desejam estimular a produção no Brasil, em especial, utilizando dados fornecidos por conhecedores do ramo.Nesse sentido, Richard Burton traz as considerações de um renomado pesquisador da cultura algodoeira, Major R. Trevor Clarke96 para quem “Aqui [no Brasil] o algodão tem mais penugem que o habitual; 600 quilos darão 250 de fibra limpa, ao passo que no Alabama são necessários 750 quilos. Em geral, o replantio do arbusto é feito em seu quarto ano”.97 E J. J. Aubertin traz a experiência dos americanos sulistas Dr. Gaston, Dr. Shaw e Major Mereweather, a quem ele acompanhou durante a passagem deles pela Província de São Paulo:Eramos cinco pessoas. Tres Americano sulistas, dr. Gaston, dr. Shaw e o major Mereweather, que ião fazer sua viagem prolongada, na exploração de districtos um pouco remotos, sob a direcção do sr. Engenheiro Bennaton, para esse fim nomeado; e, sendo informado dos seus preparativos, logo me aggreguei a elles, não menos por sympatia para com a antecipada immigração americana, como tambem pelo desejo de visitar em sua companhia algumas plantações de algodão, e tirar algumas instrucções de sua experiencia pratica, a respeito de uma cultura que, sendo hoje estabelecida na província, não póde deixar de influil-os cabalmente na resolução que definitivamente tenhão que tomar.98Durante a permanência na província paulista, o grupo visitou a região de Itu, Salto, Porto Feliz e Sorocaba, daí J. J. Aubertin seguiu para a capital paulista e eles continuaram viagem com destino à Itapetininga. As observações de diferentes aspectos da lavoura algodoeira e o processamento do algodão fizeram os norte-americanos considerarem o clima paulista adequado à produção e benéfico o fato de não haver mudanças bruscas na temperatura, como a ocorrência de geadas, possibilitando maior tempo de conservação do algodoeiro.99Esses dados são agregados por J. J. Aubertin àqueles fornecidos por produtores paulistas de que “emquanto o alqueire norte-americano, dando bem, produz de cem até cento e dez ou talvez 96 Richard Trevor Clarke (1813-1897) – “Army officer and horticulturalist. Major in the Northampton and Rutland Infantry Militia, 1862. Bred nearly thirty new varieties of begonias and many new strains of cotton. Awarded a gold medal by the Cotton Supply Association of Manchester. Member of the Royal Horticultural Society; served on the council and scientific committee for many year; awarded the society’s Veitchian medal, 1894”. BURKHARDT, Frederick et al (Ed.). Charles Darwin. The Correspondence of Charles Darwin (1866). Cambridge: Cambridge University, 2004, p. 502, vol. 14.97 BURTON, Richard Francis. Viagem de canoa de Sabará ao Oceano Atlântico..., op. cit., p. 29. [nota 3]98 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gastón e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba. São Paulo: Typ. Allem[p. 159]
Os esforços de J. J. Aubertin devem ser compreendidos dentro desse contexto, em que ele se coloca como defensor da produção algodoeira paulista e atua em diferentes direções. No Brasil, escreveu para diversos periódicos nacionais e correspondeu-se com diferentes figuras da política brasileira para lhes solicitar o envolvimento com a lavoura algodoeira capaz de colocar São Paulo em posição favorável no mercado inglês, tal como fez o inglês em carta ao Comendador Fideles Prates:
Usai, vos peço, nesta vespera de uma nova semeadura, a vossa bem conhecida influencia entre os vossos amigos, e dizei aos cultivadores do algodão que redobrem os seus esforços na nova plantação, porque pela colheita futura é que se diciderá definitivamente a importante questão se a provincia de S. Paulo pode ou não pode occupar uma posição positiva nos mercados de Manchester.104
Aos agricultores interessados, ele também procurou difundir noções sobre a técnica de cultivar o algodão herbáceo e publicou folhetos sobre a cultura do algodão.105 Essa política de difundir informações sobre o cultivo foi uma atividade constante da associação inglesa, mesmo após o fim da guerra norte-americana.
No plano internacional, empenhou-se em apresentar os algodões paulistas de boa qualidade na Exposição Internacional de Londres, de 1862, com o objetivo de mostrar os atributos do produto. Também foi intermediador entre Manchester Cotton Supply Association e órgãos brasileiros; em duas ocasiões, nos anos de 1862 e 1865, J. J. Aubertin solicitou à associação britânica que enviasse algodão herbáceo ao Ministério da Agricultura e à Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional.106 Em diferentes momentos enviou para a Inglaterra amostras do algodão paulista, em geral, com boas avaliações dos correspondentes.J. J. Aubertin arquitetou ações no Brasil ligadas aos interesses ingleses baseadas em informações colhidas por ele na província ou com base na experiência de nacionais e, principalmente, de norte-americanos, com o propósito de deixar claro as potencialidades de São Paulo e convencer os potenciais produtores paulistas. Para aqueles que mesmo assim estivessem em dúvida, ele escreve:
Deveras, já é tarde demais para duvidar do algodão de São Paulo; mas se ainda ha descrentes, apenas apello para os dous srs. Cultivadores que acompanhei, major Mereweather e dr. Shaw. Ambos elles me repetirão muitas vezes, que melhor algodão que aquelle que nos vimos não desejavão ver; que nas suas proprias plantações e com todos os seus meios perfeitos não costumavãoproduzir melhor. 107
Seus esforços renderam-lhe o reconhecimento da associação inglesa, que o condecorou com uma medalha de ouro, e o governo brasileiro honrou-o com o hábito da Imperial Ordem da Rosa. Nos veículos de informação brasileiros, nos quais tanto escreveu, vemos o reconhecimento de seus pares, como E. Hutchings, outro entusiasta da lavoura algodoeira em terras paulistas e intermediário entre a associação e o Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas:
Hoje, considerado, como um genero de exportação, o algodão, e sua cultura, é um dos factos estabelecidos na historia da provincia, e eu me aproveito desta occasião para patentear a gratidão que todos temos.Quem sabe, o que ha de mostrar-se nos anos que vem? Quasi todas as condições de prosperidade estão unidas nesta provincia; - Um clima sem rival, uma terra cheia de riquesa, e uma natureza, cuja uberdade é espantosa. Tudo isto aqui, e no outro lado do Oceano, a Inglaterra, offerece tudo quanto seja possivel afim de attrahir para lá, os productos da provincia, e com as devidas providencias, e constancia em trabalhar, tudo será possivel, e, sem esta, nada.Campinas, Mogy-mirim, Limeira e outros lugares vão caminhando na cultura do café, e o publico, bem como os particulares, são beneficiados. Parece que, para Sorocaba, resta ainda este outro manancial de prosperidade; - a cultura do algodão, e não ha homem ou natural, ou estrangeiro na provincia, que não abençoará a empresa.[...] Caminho da Luz, S. Paulo Agosto de 1865[...] E. Hutchings108
Evidentemente, tais esforços foram no sentido de produzir algodão adequado às necessidades da indústria inglesa. Foi estimulado o plantio da semente de Nova Orleans, em solicitação de uma circular da Manchester Cotton Supply Association109 e houve uma modificação na postura do produtor brasileiro: “O tipo de algodão tradicional no Brasil era o arbóreo mas o mercado consumidor passou a condicionar a produção ao tipo herbáceo dos 107 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo..., op. cit., p. 16.108 HUTCHINGS, E. “Aos Redactores do Diario de São Paulo”. Diario de S. Paulo, São Paulo, 11 agosto 1865, ano I, nº 10, p. 2. Em outras atividades, além do algodão: E. Hutchings foi um dos secretários da Comissão Julgadora de um concurso para criadores de animais pensado por J. J. Aubertin, tesoureiro do evento. O Comendador Fideles Nepomuceno Prates aparece como um dos Juízes. “Concurso industrial”. Correio Paulistano, Estados Unidos. As variedades mais procuradas eram a U[p. 161, 162]