22 de agosto de 2019, quinta-feira Atualizado em 13/02/2025 06:42:31
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HOJE NA;HISTóRIA
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Há pouco mais de 50 anos, os motoristas que em 15 de agosto de 1968 trafegavam pela Rodovia Federal BR-116, a Presidente Dutra ou Via Dutra (estrada que liga São Paulo ao Rio de Janeiro no sentido leste-oeste) entre as cidades de Caçapava e São José dos Campos (distantes 22 quilômetros uma da outra), na mesorregião do Vale do Paraíba, foram surpreendidos por uma tempestade que durou cerca de sete minutos.
Mas não era água que desabava, visto que não havia nuvens no céu. Deslocando-se ao local, o deputado Marcondes Ferreira deparou-se com uma área de um quilômetro quadrado coberta de carne e sangue. Os jornais paulistas registraram que o tamanho dos pedaços de carne – alguns em formato de cubo – de textura esponjosa e cor arroxeada, variava entre 5 e 15 centímetros, distando aproximadamente 50 centímetros uns dos outros. O sangue escorria das postas. O céu estava claro e limpo, nenhum avião cruzara a região antes ou durante o fato, e não havia urubus por perto. Diante disso, a Polícia removeu discretamente o material e encerrou o caso, classificando-o como “inexplicável”.[1]O jornal Notícias Populares, em sua edição de sexta-feira, 30 de agosto de 1968, trouxe na primeira página uma das mais manchetes mais estranhas já vistas e que sem dúvida deixaria Charles Fort extasiado: “Chuva de Sangue e Carne em S. Paulo”.[2] Apesar de ser tido como um veículo sensacionalista, o jornal nada mais fez do que reportar corretamente os fatos, informando que “uma chuva de carne e sangue ocorreu há dias no distrito de Eugênio de Melo, em São José dos Campos, mobilizando a Polícia local para apurar a origem do fenômeno. Segundo o deputado Marcondes Ferreira, […] vários moradores daquela localidade, no dia da ocorrência, viram pedaços de carne e gotas de sangue caindo do céu, sem que qualquer avião ou helicóptero tivesse passado pelo local. Chamada a Polícia, foram recolhidas amostras de carne e encaminhadas para exame, cujos resultados ainda não são conhecidos.”A incrível manchete do jornal Notícias Populares em sua edição de 30 de agosto de 1968. Fonte: Arquivos de Cláudio Suenaga.Os pedaços eram do tamanho de bifes pequenos, tinham cor arroxeada e consistência esponjosa. Não pareciam ser de aves, porquanto não havia sinais de penas. Foram humildes trabalhadores que viram o fenômeno, numa área de aproximadamente um quilômetro quadrado, não havendo razão para suspeita de mistificação.A 9 quilômetros da Rodovia Presidente Dutra, na olaria de propriedade de Pedro Marinho de Sousa, os repórteres do jornal ouviram, na tarde de quinta-feira, 29 de agosto, alguns operários que haviam presenciado a chuva de carne e sangue que provocou o pânico entre algumas famílias por cerca de cinco minutos. Vicente Rodrigues, residente no Bairro da Grama, em Caçapava, relatou que estava assentando tijolos numa construção da olaria, quando começou a chuva de carne e sangue que apavorou a todos, inclusive velhos e crianças. Pedaços medindo de 5 a 20 centímetros caíram numa distância de meio metro cada um, sendo que uma posta de carne atingiu a cabeça do entrevistado. Afirmou Vicente Rodrigues que era católico e nunca vira coisa igual em sua vida, e tinha certeza de que o céu estava limpo e nenhuma ave passava sobre o local no momento.Os empregados da olaria, estatelados, entraram em pânico e criaram um pandemônio ao verem os pedaços de carne viva, sangrando, que caíam sobre as telhas e tijolos, interpretando o fato como a chegada do Apocalipse: “Patrão do Céu, está chovendo sangue!” Com uma expressão de espanto, José Aparecido, 17 anos, desandou a correr de medo. Caíram-lhe sobre a cabeça e os braços, gotas de sangue, de vermelho-arroxeado, bem forte. Pedro Marinho, ao ver Marcos dos Santos, 15 anos, correndo espavorido, gritou: “Deve ser castigo do céu! Hoje é dia Santo e eu fiz os meus empregados trabalhar!”José e Marcos fugiram espavoridos quando começou a cair carne e sangue, como chuva na Olaria de Pedro, no Bairro do Paiol. Marcos gritava: “Patrão do Céu, é o fim do mundo, está chovendo sangue!” Foto: Notícias Populares, dos Arquivos de Cláudio Suenaga.Gotejava sangue na olaria do Bairro do Paiol, no distrito de Eugênio de Melo, em São José dos Campos. Eram 12h30. O céu limpo, sem nuvens, sem aves de rapina à espera de presas. Todos passaram a fitar o firmamento azulado, quase sem nuvens. Não viram nada. Nem aves, nem aviões. Foi aí que Rosalina Moreira Ramos correu para avisar o marido que amassava barro: “Olha. É o fim do mundo, João. Lá em casa, à beira da porta, tem pedaços de carne e pingos de sangue.” João quase perdia toda cor bronzeada de Sol. Estava branco, como uma pétala de margarida. Apalpando-se todo para ver se estava sonhando ou acordado mesmo. Parecia miragem, alucinação. Mas não era. Todos os outros se abaixavam para ver os pedaços de carne, da cor do fígado, sem osso e sem penas. Sem nada. Carne moída, como se fosse triturada pela hélice de um avião. Mas, depois, refeitos do susto, foram raciocinando: “Vai, aqui não passa avião, nunca passou avião. Se ele pegasse uma ave, onde é que foram parar as penas? É só carne. Isso é maldição mesmo. O diabo tá solto.”O proprietário da olaria ficou com a “pulga atrás da orelha”. Aquilo não era normal. Saiu na olaria no Bairro do Paiol e foi ao distrito de Eugênio de Melo. Lá entrou no Bar Pinguim e contou ao dono, Nelson dos Santos, que ponderou: “Não espera nem um minuto. Vai na Polícia, porque isso não é brincadeira. Já pensou que encrenca vai dar se souberem da morte de alguém lá por perto? Vai falar com o soldado Ferdinando. Explica o caso.” Pedro repetiu a história na Polícia. Ela não quis acreditar mas foi ver. O perito Romildo, com auxílio da Polícia Técnica, recolheu os pedaços de carne. Os escrivães Ronaldo e Barreti tomaram os depoimentos. Era negócio sério. A carne e o sangue caíram sobre o mato e telhado de casas muito modestas, num raio de 500 metros. Depois da Polícia foram os curiosos. Gente de São José dos Campos, de Caçapava, de Taubaté, do Rio de Janeiro e de São Paulo. Mais de mil pessoas em poucas horas.Vicente Borges de Siqueira, que trabalhava na construção de um forno da olaria, disse que, ao cair um pedaço de carne no braço, deixou escapar o tijolo, de susto: “A carne estava sangrando. Parecia fígado, de marrom escuro. Aí, com os gritos dos companheiros, vi que caía sangue e carne por todos os lados. Olhei para cima e no céu não havia nada. Nem aves, nem aviões. Aqui é muito raro passar um. Isso é que nos deu medo e confesso que minhas pernas começaram a tremer. A carne não tinha mau cheiro. Era um pouco gelatinosa, esquisita. Caiu por uns dois ou três minutos. Depois observamos mais uma curiosidade. Ela secou no Sol e não deu mau cheiro nenhum.”Para João Vidal Ramos, era mesmo “coisa do outro mundo”: “Moro aqui há muitos anos. Nunca passou um avião por cima desta olaria. Passa bem longe, lá perto da serra. Aqui nunca passou. Não acredito nessa história de que avião apanhou urubu. Se apanhou corvo, junto com a carne devia cair as penas. Isso é maldição mesmo. É coisa do outro mundo.”[3]O vigário da Paróquia de Eugênio de Melo, o padre francês Marcel Merck, declarou à reportagem que:“1) Reside a dois quilômetros do local e nunca soube da presença de aviões nas imediações;2) Tomou conhecimento de um outro ‘mistério’, a poucos metros do local, de uma mulher cujas roupas se incendiavam sem a presença de fogo no recinto, de forma misteriosa. Não se incendiavam as roupas do marido e dos filhos, só as dela;3) Entende que são misteriosos acontecimentos que o homem ainda não consegue esclarecer.”A rota aérea Rio-São Paulo era feita pelo litoral, até o Morro do Papagaio, a mais de dois quilômetros de altitude, portanto distante de Eugênio de Melo mais de 100 quilômetros. Nenhuma delegacia registrou qualquer acidente em pedreiras situadas no Vale do Paraíba. Segundo alguns, poderia ter ocorrido alguma explosão de dinamite e o consequente lançamento dos pedaços de um dos empregados pelos ares. Mas a pedreira mais próxima localizava-se a mais de 20 quilômetros, o que afastava essa hipótese. Os moradores daquele lugar ermo, com pouquíssimas casas sem iluminação elétrica, passaram a se recolherem logo ao entardecer. Temiam “dar de cara” com o demônio, apesar de Pedro Marinho ter mandado rezar uma missa e benzer a olaria.[4]Por incrível que pareça, voltaria a chover carne e sangue na mesma região do Vale do Paraíba 25 dias depois. Na terça-feira, 10 de setembro, milhares de pessoas do distrito de Santa Luzia, a cerca de 40 quilômetros de Eugênio de Melo, entre Caçapava e Piedade, presenciaram espantados o fato. Como da outra vez, a chuva registrou-se ao meio-dia, com o céu totalmente limpo e um Sol abrasador. Armando Silva cuidava de uma plantação de arroz, quase nas margens do Rio Paraíba, quando chamou a atenção dos companheiros de roça para as manchas de sangue que salpicavam sua camisa. Outros colonos agrícolas verificaram que estavam também com as roupas salpicadas de sangue. Alarmados, saíram correndo para alertarem outros moradores das cercanias. Da mesma maneira que os moradores da olaria onde caiu carne e sangue, os agricultores atribuíram o fato a uma maldição.O jornal Notícias Populares noticiava em sua edição de 15 de setembro de 1968, à página 2, a repetição do incrível, a volta da chuva de carne e sangue no Vale do Paraíba. Fonte: Arquivos de Cláudio Suenaga.Os pedaços de carne que caíram em Santa Luzia eram do mesmo tamanho, isto é, com 2 a 3 centímetros, de coloração marrom, da cor do fígado e, curiosamente, gelatinosa. A carne não apresentava odor desagradável, mesmo depois de três dias exposta ao Sol. A chuva durou de três a quatro minutos, rendendo uma quantidade de carne avaliada em 3,5 quilos.Amostras foram recolhidas por curiosos e pesquisadores do fenômeno. O chefe dos escrivães de Polícia de Taubaté, Ronaldo Dias, disse que as carnes foram examinadas por um perito da Polícia Técnica lotado na Delegacia Regional de São José dos Campos, que as encaminhou, em seguida, ao IML de São Paulo para a obtenção de um laudo minucioso. Da mesma forma, é bom que se frise, o local onde pela segunda vez choveu carne e sangue não se situava dentro da rota aérea São Paulo-Rio, pois as viagens de avião eram feitas pelo litoral, a partir de Ubatuba. Isso afasta qualquer hipótese de uma ave ter sido triturada por um avião, e mais ainda: a carne vinda do espaço, destituída de ossos e penas, caiu em diferentes pontos, perfazendo um círculo.[5]Foto: Notícias Populares, 15-09-1968, p.16. Arquivos de Cláudio Suenaga.O Laboratório de Anatomia, Patologia e Microscopia Legal do Estado, após proceder exames nas amostras colhidas no Bairro da Olaria, em Caçapava, e no Bairro do Paiol, em São José dos Campos, concluiu que a carne que caiu no Vale do Paraíba era de mamífero do sexo feminino. O laudo da análise procedida pelo IML de São Paulo chegou à Delegacia de Polícia de São José dos Campos em 12 de outubro. O documento foi assinado pelo médico Ferdinando de Queiroz Costa que descreve o material examinado como sendo “coração e rim de mamífero do sexo feminino”. O exame limitou-se aos tecidos. Somente um exame mais apurado poderia fornecer respostas conclusivas. O IML procedeu a esse exame mas não revelou a quem ou o que pertencia a carne que “caiu do céu” em Caçapava e São José dos Campos.[6]O Laboratório de Anatomia, Patologia e Microscopia Legal do Estado, após proceder exames nas amostras colhidas no Bairro da Olaria, em Caçapava, e no Bairro do Paiol, em São José dos Campos, concluiu que a carne que caiu no Vale do Paraíba era de mamífero do sexo feminino! Fonte: Notícias Populares, 13-10-1968, p.6. Arquivos de Cláudio Suenaga.A presença de sangue, quase sempre, reflete um quadro de sofrimento a que as camadas menos privilegiadas e mais sofredoras da população vivem submetidas, implicando em um ato de desespero projetado no ambiente externo. O sangue é a fonte da vida, a força e a energia, e portanto comporta diversos significados sagrados. Tribos primitivas sorviam a hemoglobina dos inimigos para fortalecer seus corpos e espíritos. Mas se de um lado diz respeito à vida, do outro denota a banalização da violência, prenunciando genocídios. Para os cristãos, desde o sangue derramado por Cristo no Gólgota até as estátuas da Virgem Maria que choram sangue e as hóstias que se convertem nesse elemento, trata-se de uma esperança derradeira que se insurge ante situações limite, nas quais apelam-se às potências divinas. Investida de um sentido mítico, o sangue torna-se os principal motivo da exacerbação da fé ou da conversão.Com efeito, a linguagem religiosa, com seus signos, ao produzir conhecimentos sobre o mundo, converte-se em instrumento de compreensão de problemas e da forma como esses se relacionam com o mundo. É uma maneira particularizada de expressar as contradições que se encerram em meio às dificuldades enfrentadas. As camadas populares, por si mesmas, são capazes de criar práticas culturais próprias que não estão restritas somente aos limites impostos pela ordem hegemônica, que nem sempre fornece parâmetros adequados para o enfrentamento de determinadas questões.Notas:[1] “Casos malditos”, in Planeta, São Paulo, Ed. Três, nº 3, novembro de 1972, p.7.[2] “Chuva de sangue e carne em S. Paulo”, in Notícias Populares, São Paulo, ano V, nº 1.558, 30-8-1968, primeira página e p.11.[3] Jorge, Moacyr. “Choveu sangue porque foi castigo dos céus”, in Notícias Populares, São Paulo, ano V, nº 1.559, 31-8-1968, p.10.[4] IDEM, “Chuva de sangue e mulher que pega fogo assustam o Vale do Paraíba”, in Notícias Populares, São Paulo, ano V, nº 1.560, 1º-9-1968, p.3.[5] “Voltou a chover carne e sangue no Vale do Paraíba”, in Notícias Populares, São Paulo, nº 1.574, ano V, 15-9-1968, p.2.[6] “Médico-legista confirma: carne que caiu do céu era do sexo feminino!”, in Notícias Populares, São Paulo, nº 1.602, ano V, domingo, 13-10-1968, p.6.Extra: Matéria “Lluvias de sangre”, da autoria de Cláudio Tsuyoshi Suenaga, publicada na revista espanhola Enigmas, nº 128, año XII, julho de 2006.
foi publicada a segunda edição na língua inglesa. Pouco depois, em 1848, o relato foi publicado em língua alemã em Dresden e Leipzig, atual Alemanha.A edição em português ocorreu em 1942, na Coleção Brasiliana, intitulada Viagens no Brasil: principalmente nas províncias do norte e nos distritos de ouro e do diamante durante anos 1836-1841, da Companhia Editora Nacional.No ano de 1856 foi publicado o relato Life in Brazil; or, a journal of a visit to the land of the cocoa and the palm de Thomas Ewbank ela Harper & Brothers, Nova York, sendo lançada também na Inglaterra. Nos Estados Unidos houve uma edição em 2005.No Brasil, o relato em português foi publicado com o título A vida no Brasil: ou Diário de uma visita ao país do cacau e das palmeiras, em 1973, pela editora carioca Conquista, em dois volumes.O relato de Henry Walter Bates foi publicado em 1863, em dois volumes, com o título The naturalist on the River Amazons, a record of adventures, habits of animals, sketches of Brazilian and Indian life, and aspects of nature under the Equator, during eleven years of travel by Henry Walter Bates, em Londres pela John Murray. A segunda edição ocorreu um ano depois, com supressão de algumas partes pelo autor, seguida por mais de dez edições na língua inglesa em Londres e nos Estados Unidos. No Brasil O naturalista no Rio Amazonas foi editadoem 1944 pela Editora Nacional.
Em 1869, Richard Burton publicou a primeira edição de Explorations of the Highlands of the Brazil; with a full account of the gold and diamond mines. Also, canoeing down 1500 miles of the great River São Francisco, from Sabará to the Sea by Captain Richard F. Burton, F.R.G.S., etc., em Londres por Tinsley Brothers, em dois volumes. A obra recebeu destaque em finais do ano passado e foi publicada em Nova York no centenário da primeira edição, e nos últimos dezesseis anos teve três edições nos Estados Unidos.
No Brasil, a primeira edição de Viagens aos planaltos do Brasil: 1868, em três volumes,ocorreu no ano de 1941 pela Companhia Editora Nacional, que publicou a segunda edição em 1983. Houve uma edição em 2001 pelo Senado Federal intitulada Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho, volume único.
Em São Paulo, a Tip. Allemã de H. Schroeder publicou Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gaston e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba de John James Aubertin no ano de 1866.
Nesse mesmo ano foi traduzido para o inglês pelo autor e publicado em Londres pela Bates, Hendy & Co. com o título Eleven day’s journey in the Province of Sao Paulo, with the [p. 10]
Outro ponto, o parâmetro comparativo do algodão brasileiro e do norte-americano. A produção dos Estados Unidos figura como indicadora de qualidade e produtividade, em vista do país ter sido o maior fornecedor do mundo, e é trazida pelos viajantes quando desejam estimular a produção no Brasil, em especial, utilizando dados fornecidos por conhecedores do ramo.Nesse sentido, Richard Burton traz as considerações de um renomado pesquisador da cultura algodoeira, Major R. Trevor Clarke96 para quem “Aqui [no Brasil] o algodão tem mais penugem que o habitual; 600 quilos darão 250 de fibra limpa, ao passo que no Alabama são necessários 750 quilos. Em geral, o replantio do arbusto é feito em seu quarto ano”.97 E J. J. Aubertin traz a experiência dos americanos sulistas Dr. Gaston, Dr. Shaw e Major Mereweather, a quem ele acompanhou durante a passagem deles pela Província de São Paulo:Eramos cinco pessoas. Tres Americano sulistas, dr. Gaston, dr. Shaw e o major Mereweather, que ião fazer sua viagem prolongada, na exploração de districtos um pouco remotos, sob a direcção do sr. Engenheiro Bennaton, para esse fim nomeado; e, sendo informado dos seus preparativos, logo me aggreguei a elles, não menos por sympatia para com a antecipada immigração americana, como tambem pelo desejo de visitar em sua companhia algumas plantações de algodão, e tirar algumas instrucções de sua experiencia pratica, a respeito de uma cultura que, sendo hoje estabelecida na província, não póde deixar de influil-os cabalmente na resolução que definitivamente tenhão que tomar.98Durante a permanência na província paulista, o grupo visitou a região de Itu, Salto, Porto Feliz e Sorocaba, daí J. J. Aubertin seguiu para a capital paulista e eles continuaram viagem com destino à Itapetininga. As observações de diferentes aspectos da lavoura algodoeira e o processamento do algodão fizeram os norte-americanos considerarem o clima paulista adequado à produção e benéfico o fato de não haver mudanças bruscas na temperatura, como a ocorrência de geadas, possibilitando maior tempo de conservação do algodoeiro.99Esses dados são agregados por J. J. Aubertin àqueles fornecidos por produtores paulistas de que “emquanto o alqueire norte-americano, dando bem, produz de cem até cento e dez ou talvez 96 Richard Trevor Clarke (1813-1897) – “Army officer and horticulturalist. Major in the Northampton and Rutland Infantry Militia, 1862. Bred nearly thirty new varieties of begonias and many new strains of cotton. Awarded a gold medal by the Cotton Supply Association of Manchester. Member of the Royal Horticultural Society; served on the council and scientific committee for many year; awarded the society’s Veitchian medal, 1894”. BURKHARDT, Frederick et al (Ed.). Charles Darwin. The Correspondence of Charles Darwin (1866). Cambridge: Cambridge University, 2004, p. 502, vol. 14.97 BURTON, Richard Francis. Viagem de canoa de Sabará ao Oceano Atlântico..., op. cit., p. 29. [nota 3]98 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gastón e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba. São Paulo: Typ. Allem[p. 159]
Os esforços de J. J. Aubertin devem ser compreendidos dentro desse contexto, em que ele se coloca como defensor da produção algodoeira paulista e atua em diferentes direções. No Brasil, escreveu para diversos periódicos nacionais e correspondeu-se com diferentes figuras da política brasileira para lhes solicitar o envolvimento com a lavoura algodoeira capaz de colocar São Paulo em posição favorável no mercado inglês, tal como fez o inglês em carta ao Comendador Fideles Prates:
Usai, vos peço, nesta vespera de uma nova semeadura, a vossa bem conhecida influencia entre os vossos amigos, e dizei aos cultivadores do algodão que redobrem os seus esforços na nova plantação, porque pela colheita futura é que se diciderá definitivamente a importante questão se a provincia de S. Paulo pode ou não pode occupar uma posição positiva nos mercados de Manchester.104
Aos agricultores interessados, ele também procurou difundir noções sobre a técnica de cultivar o algodão herbáceo e publicou folhetos sobre a cultura do algodão.105 Essa política de difundir informações sobre o cultivo foi uma atividade constante da associação inglesa, mesmo após o fim da guerra norte-americana.
No plano internacional, empenhou-se em apresentar os algodões paulistas de boa qualidade na Exposição Internacional de Londres, de 1862, com o objetivo de mostrar os atributos do produto. Também foi intermediador entre Manchester Cotton Supply Association e órgãos brasileiros; em duas ocasiões, nos anos de 1862 e 1865, J. J. Aubertin solicitou à associação britânica que enviasse algodão herbáceo ao Ministério da Agricultura e à Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional.106 Em diferentes momentos enviou para a Inglaterra amostras do algodão paulista, em geral, com boas avaliações dos correspondentes.J. J. Aubertin arquitetou ações no Brasil ligadas aos interesses ingleses baseadas em informações colhidas por ele na província ou com base na experiência de nacionais e, principalmente, de norte-americanos, com o propósito de deixar claro as potencialidades de São Paulo e convencer os potenciais produtores paulistas. Para aqueles que mesmo assim estivessem em dúvida, ele escreve:
Deveras, já é tarde demais para duvidar do algodão de São Paulo; mas se ainda ha descrentes, apenas apello para os dous srs. Cultivadores que acompanhei, major Mereweather e dr. Shaw. Ambos elles me repetirão muitas vezes, que melhor algodão que aquelle que nos vimos não desejavão ver; que nas suas proprias plantações e com todos os seus meios perfeitos não costumavãoproduzir melhor. 107
Seus esforços renderam-lhe o reconhecimento da associação inglesa, que o condecorou com uma medalha de ouro, e o governo brasileiro honrou-o com o hábito da Imperial Ordem da Rosa. Nos veículos de informação brasileiros, nos quais tanto escreveu, vemos o reconhecimento de seus pares, como E. Hutchings, outro entusiasta da lavoura algodoeira em terras paulistas e intermediário entre a associação e o Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas:
Hoje, considerado, como um genero de exportação, o algodão, e sua cultura, é um dos factos estabelecidos na historia da provincia, e eu me aproveito desta occasião para patentear a gratidão que todos temos.Quem sabe, o que ha de mostrar-se nos anos que vem? Quasi todas as condições de prosperidade estão unidas nesta provincia; - Um clima sem rival, uma terra cheia de riquesa, e uma natureza, cuja uberdade é espantosa. Tudo isto aqui, e no outro lado do Oceano, a Inglaterra, offerece tudo quanto seja possivel afim de attrahir para lá, os productos da provincia, e com as devidas providencias, e constancia em trabalhar, tudo será possivel, e, sem esta, nada.Campinas, Mogy-mirim, Limeira e outros lugares vão caminhando na cultura do café, e o publico, bem como os particulares, são beneficiados. Parece que, para Sorocaba, resta ainda este outro manancial de prosperidade; - a cultura do algodão, e não ha homem ou natural, ou estrangeiro na provincia, que não abençoará a empresa.[...] Caminho da Luz, S. Paulo Agosto de 1865[...] E. Hutchings108
Evidentemente, tais esforços foram no sentido de produzir algodão adequado às necessidades da indústria inglesa. Foi estimulado o plantio da semente de Nova Orleans, em solicitação de uma circular da Manchester Cotton Supply Association109 e houve uma modificação na postura do produtor brasileiro: “O tipo de algodão tradicional no Brasil era o arbóreo mas o mercado consumidor passou a condicionar a produção ao tipo herbáceo dos 107 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo..., op. cit., p. 16.108 HUTCHINGS, E. “Aos Redactores do Diario de São Paulo”. Diario de S. Paulo, São Paulo, 11 agosto 1865, ano I, nº 10, p. 2. Em outras atividades, além do algodão: E. Hutchings foi um dos secretários da Comissão Julgadora de um concurso para criadores de animais pensado por J. J. Aubertin, tesoureiro do evento. O Comendador Fideles Nepomuceno Prates aparece como um dos Juízes. “Concurso industrial”. Correio Paulistano, Estados Unidos. As variedades mais procuradas eram a U[p. 161, 162]