A escolha de internar a capital do Paraguai no centro do continente americano tevecomo consequência sua dependência de portos marítimos para articular sua comunicação eseu comércio com a metrópole. A política colonial espanhola estabeleceu Lima, no Peru,como único porto autorizado para o comércio exterior do vice-reino. Por essa razão, a ilha deSanta Catarina e Buenos Aires, nas primeiras décadas, não representaram opções viáveis.Também o caminho mais curto por terra até o Peru não foi utilizado. Antes mesmo daexcursão de Aleixo Garcia, outras investidas guaranis tentaram aproximar-se de Cuzco, masnão conseguiram passar por Samaipata30. Por outro lado, o caminho por terra até S. Vicente,conhecido pelos guaranis e utilizado por espanhóis, teve o trecho Guayrá-São Paulo proibidoem 1553, por iniciativa de Tomé de Sousa31. Por esse caminho subiu Ulrich Schmidl.
Cédulas reais espanholas também proibiram a passagem de qualquer pessoa pelo passo dos saltos de Guayrá, sem a licença de Felipe IV, despachada pelo real conselho das Índias (Con que ordem trajo el dho. negro y su persona por caminos cerrados y contra los bandos de su magestade (ANA-SH v. 36 n. 17 – 9 out 1603). Sobre Pedro de Acosta, que veio com um negro escravo de angola.).
A proibição foi estendida a qualquer estrangeiro que quisesse entrar nas provínciasdo Paraguai. Não havia dificuldade para descer o rio Paraná até esses saltos, porém, descer orio Tietê (Anhembi) era extremamente trabalhoso, por suas cachoeiras. Os portuguesesfrequentaram estes caminhos durante décadas, antes de atacarem as reduções. Algumasbandeiras desceram de S. Paulo por mar, até a região dos Patos, subiram pelo porto de D.Rodrigo, ou Embitiba, onde começava a terra dos carios33 ou carijós, seguiram até Laguna,até encontrar os caminhos que atingiam o Guayrá34.Apesar do invejável conjunto de rios navegáveis utilizados no início da conquista, osdeslocamentos por terra rivalizaram com a navegação35. A figura mostrada a seguir (FIG. 07) [Página 26]
de Itatin, com as vantagens decorrentes da comunicação e socorro mútuo, abreviando adistância para exportação de erva-mate até Potosi.O transporte da erva-mate dependeu inicialmente de arrias (tropas de mulas decarga50) e do transporte fluvial, até ser viabilizado o transporte em carretas de bois.
50 - 0 Os cavalos foram introduzidos no Paraguai pelos primeiros espanhóis chegados na expedição de Pedro deMendoza. Depois, por Cabeza de Vaca (dos 45 trazidos, só chegaram vivos 26). Caprinos e ovinos foramtrazidos por Nuflo de Chaves, no regresso de sua primeira expedição ao Peru, em 1549. As siete vacas y un torochegaram em 1556. No ano anterior, deixaram San Francisco, junto com García Rodriguez de Vergara, JuanSalazar de Espinosa, Cipriano Goetz, Isabel de Contreras e suas filhas, Hernando de Trejo e outros espanhóis.Seguiram, todos estes, pelo Peabirú. Passaram pela nascente do rio Iguaçu e, nas margens do Tibagi,encontraram o cacique Surubá, que os recebeu e deu-lhes auxílio para chegar até o rio Ivaí, terra dos ybyrayáras.Viveram por algum tempo em uma casa que construíram nesse lugar. Construíram uma igreja com ajuda dospadres franciscanos que os acompanhavam. Após a decapitação de Francisco de Mendoza, consequência dadisputa com Irala, Ruy Díaz de Melgarejo foi desterrado, seguindo para São Vicente. Alí casou com uma dasfilhas de Isabel de Contreras, Elvira, mas em poucos meses a matou e ao clérigo Juan Carrillo, por haver-lhessurpreendido in-fraganti. Melgarejo fugiu, acompanhado de vários castellanos, entre eles, Juan Salazar deEspinosa, além do português Vicente Goetz (ou Francisco Gaete). Foram eles que trouxeram o primeiro gadovacum para o Paraguai, descendo o Tietê (Añemby) e continuando pelo Paraná até os saltos de Guayrá. Aídesembarcaram e seguiram por Mbaracayú até Asunción (ver LOZANO, Pedro. Historia de la Conquista..., op.cit., t. II, 1874, p. 381-387).
Apesar daintrodução precoce da criação de gado, só no século XVII, quando os guaranis dependiamfundamentalmente da carne de gado para sua subsistência, passado o impacto inicial negativo,foi possível ampliar o uso das carretas, pelas dificuldades de manter as estradas carreteiras.No final do século anterior, os espanhóis enfrentaram enormes dificuldades para transitar comcarretas entre Asunción e Buenos Aires. Para ir de Asunción até os saltos de Guayrá, a opçãomais rápida e viável era embarcar pelo rio Paraguai até o Jejuí, subir por ele até o porto deMbaracayú51 e depois seguir por terra. Eram dez jornadas de trânsito difícil, atravessando aserra, caminhando por brejos e atoleiros, passando por alguns arroios, crescidos na época daschuvas52.Cerca de três anos antes da descida de Luís de Céspedes y Xeria, governador doParaguai, pelo Tietê-Paraná, os jesuítas abriram o paso del Salto, uma picada de quinze adezesseis léguas53, segundo os jesuítas54, unindo a redução de Acaray aos saltos de Guayrá, controlando seu acesso nas duas pontas. Utilizado para doutrinar e, principalmente, para o transporte de erva.
53 - A legua de deciocho al grado, mais utilizada, correspondia à distância de 1/18 de grau de um meridianoterrestre, que equivalia a 5,5727 km ou 20.000 pés (Fonte: Bibliteca Virtual del Paraguay).
O governador, tomando conhecimento desse caminho, proibiu sua utilização com base em duas cédulas reais. Para isso mandou guardar o caminho na passagem [Página 30]
intercultural fundamental para o sucesso de portugueses e também de espanhóis na baciaplatina. Os europeus tiveram muitos filhos com índias e essa foi a língua materna dos seusfilhos. As missões religiosas também utilizaram a língua guarani como instrumento decatequização indígena. Muitas vezes os irmãos serviam de intérpretes para as doutrinas,peregrinações e confissões, tanto dos mestiços como das mulheres e filhos dos portugueses,principalmente nas confissões gerais, porque os padres chegavam ser saber a língua da terra.O predomínio da língua geral firmou-se com os mamelucos13, pois quase todos falavamapenas esta língua e não sabiam o português. A partir da segunda metade do século XVII, essalíngua, já bastante modificada pelo uso corrente, passou a ser efetivamente a língua geral. Atéque, por decreto de 1775, o marquês de Pombal proibiu seu uso no Brasil. Iniciou-se, a partirde então, o processo de imposição da língua portuguesa.4.1 BANDEIRAS, PORTUGUESES E MAMELUCOS PAULISTASDurante os reinados coincidentes de Carlos I de Espanha14 (1516-1556) e de D. JoãoIII (1521-1557) em Portugal, Martin Afonso de Souza partiu de Lisboa com 400 homens,portugueses, alemães, franceses, italianos. Nas vésperas da partida para o Brasil, o rei lheconcedeu a faculdade de passar sesmarias por alvará do dia 20 de novembro de 1530. Asnotícias de busca de ouro e embates com “os bárbaros Carijós, senhores do país existente aoSul do Rio da Cananéia”15, foram dos primeiros tempos da conquista portuguesa. Pero Lopesde Souza foi incumbido pelo irmão de comandar uma expedição ao rio da Prata. NavegandoParaná acima, chegou até as baixadas dos carandins16, região onde posteriormente foramfundadas Entre Ríos e Corrientes17. A pedido do “Capitão Mor e Governador em todas estasterras do Brasil”, o rei de Portugal criou, dois anos depois, as doze primeiras capitanias hereditárias, de Pernambuco para o sul18. Demorou mais dois anos para serem lavradas ascartas de doação das capitanias. No final do reinado desse monarca foi fundado São Paulo dePiratininga. Felipe de Habsburgo e Avis, filho do Imperador, regente desde 1543, tornou-serei Felipe II de Espanha em 1555. Com a união das Coroas, tornou-se também rei dePortugal19, como Felipe I. Em 1598, com seu falecimento, foi sucedido por Felipe III deEspanha ou Felipe II de Portugal, que reinou até 1621. Sucedeu-o Felipe III de Portugal quegovernou até a Restauração, em 1640; continuou, no entanto, como rei da Espanha até 1665.
O capitão-mor Jerônimo Leitão, loco-tenente do donatário Martin Afonso de Souza,propôs em 1585, a quem se sentisse ameaçado, fazer guerra campal aos carijós20. Ao findar oséculo XVI, não havia na vila de São Paulo senão 190 fogos permanentes, ou cerca de 1.500almas ao todo. Na capitania seria o dobro do número de habitantes, que se elevaria a vinte milpelo fim do século XVII. O “descimento do gentio” aos poucos foi se tornando o meio devida dos paulistas21. O ciclo do ouro, que inicialmente motivou a busca de escravos através debandeiras, contribuiu posteriormente para seu fim ao se abrir nova atividade rentável para osmamelucos paulistas, no momento em que a antiga deixava de ter respaldo político. FernãoPaes de Barros, em 1611, e Sebastião Preto, no ano seguinte, sofreram reveses nas investidascontra Ciudad Real. Sete anos depois, Manuel Preto22 repetiu suas bandeiras contra asreduções guairenhas e, durante cinco anos, arrebanhou grande número de cativos. Em 1920,Manuel Preto foi impedido de exercer o cargo de vereador porque estava processado comochefe das entradas ao sertão e pelas violências praticadas em tais funções. [Páginas 237 e 238]
ordem, os fugitivos “e na falta delles a Seu Pae ou parentes que Se acharem para delles daremConta”. A pedido de alguns povoadores, Morgado de Mateus autorizou que o capitão-mor ejuiz ordinário de Sorocaba permitisse, a aqueles que iam junto com suas famílias, quelevassem para Iguatemi “índios carijós administrados”158. Ele ordenou aos capitães-mores dasaldeias de S. Miguel e Pinheiros, próximas a São Paulo, que famílias índias, nominadas porele, fossem para a povoação do Ivaí para fabricar telhas e louças. Voltou depois ao assuntodos índios administrados com o capitão-mor de Sorocaba159:
Vejo o q’ vmc. me diz Sobre os carijós dispersos q’ mando Se entreguem aos novospovoadores do Ivay com quanto recuzão ir ajudar a estabellecer aquelle certão, e porq’ a estes homens q’ Se vão empregando na dilegencias do Real Serviço parabeneficio do Estado, e do publico, he precizo fornecerlhe os meios de o poderemfazer, e ajudalos em tudo o q’ couber no possível, não só lhes faça entregar os ditosCarijós, e adminstrados q’ tenham sido de suas casas, mas outros mais q’ se acharemdispersos sem arrumação ou servindo outras pessoas, se delles precizarem para suamelhor arrumação, pois he melhor q’ vão para huma Campanha q’ se está Povoandoajudar os Povoadores nas suas Culturas, onde melhor se poderão arrumar pelo tempoadiante, do q’ ficarem servindo a muitos q’ os possuem sem utilidade alguma, e q’so cuidão em embaraçar as deligencias q’ podem ser uteis ao Estado, assim o tenhavmc. entendido na certeza de q’ os ditos Carijós não vão ser captivos dos q’ oslevão, mas sim auxiliares do serviço q’ mando fazer naquelle Certão para q’ todosdevem concorrer sem a menor controvercia: e se alguém obrar o contrarioaconselhando-os, e occultado-os para q’ não vão mo participe vmc. para mandarproceder como for justo. Ds. Guarde a Vmc. São Paulo 13 de Fevereiro de 1769.
Por ordem de Juan Bazan, em fins desse ano, Joseph Gonzalez saiu de Curuguaty efoi até a povoação de Nossa Senhora dos Prazeres. Relatou que despues de haver visto, yobservado con mis Oficiales todo lo que por V. S. me es encargado, en quanto a la poblazon,tan nombrada, y engrandecida, es una triste rancheria de Palmas, sin reparo alguno siquierade buen pared, quanto mas de fortaleza, que con toda claridad, y verdad, no es mas quealojamto. para durante que coja el Maiz que ha sembrado; ele afirmou que havia muita roça,apesar dos portugueses reclamarem de miséria, y escasez de el mantenimiento, todosaburridos, mais preocupados em fugir que qualquer outra coisa160.Em janeiro de ano seguinte, Carlos Morphy reclamou outra vez da presença dosportugueses nas margens do rio Iguatemi. Entretanto, D. Luiz respondeu, em agosto, que [Página 274]
Na capitania de São Vicente Data: 01/01/1957 Créditos/Fonte: Washington Luís (1869-1957) Página 180
ID: 11418
EMERSON
01/01/2011 ANO:156
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foi publicada a segunda edição na língua inglesa. Pouco depois, em 1848, o relato foi publicado em língua alemã em Dresden e Leipzig, atual Alemanha.A edição em português ocorreu em 1942, na Coleção Brasiliana, intitulada Viagens no Brasil: principalmente nas províncias do norte e nos distritos de ouro e do diamante durante anos 1836-1841, da Companhia Editora Nacional.No ano de 1856 foi publicado o relato Life in Brazil; or, a journal of a visit to the land of the cocoa and the palm de Thomas Ewbank ela Harper & Brothers, Nova York, sendo lançada também na Inglaterra. Nos Estados Unidos houve uma edição em 2005.No Brasil, o relato em português foi publicado com o título A vida no Brasil: ou Diário de uma visita ao país do cacau e das palmeiras, em 1973, pela editora carioca Conquista, em dois volumes.O relato de Henry Walter Bates foi publicado em 1863, em dois volumes, com o título The naturalist on the River Amazons, a record of adventures, habits of animals, sketches of Brazilian and Indian life, and aspects of nature under the Equator, during eleven years of travel by Henry Walter Bates, em Londres pela John Murray. A segunda edição ocorreu um ano depois, com supressão de algumas partes pelo autor, seguida por mais de dez edições na língua inglesa em Londres e nos Estados Unidos. No Brasil O naturalista no Rio Amazonas foi editadoem 1944 pela Editora Nacional.
Em 1869, Richard Burton publicou a primeira edição de Explorations of the Highlands of the Brazil; with a full account of the gold and diamond mines. Also, canoeing down 1500 miles of the great River São Francisco, from Sabará to the Sea by Captain Richard F. Burton, F.R.G.S., etc., em Londres por Tinsley Brothers, em dois volumes. A obra recebeu destaque em finais do ano passado e foi publicada em Nova York no centenário da primeira edição, e nos últimos dezesseis anos teve três edições nos Estados Unidos.
No Brasil, a primeira edição de Viagens aos planaltos do Brasil: 1868, em três volumes,ocorreu no ano de 1941 pela Companhia Editora Nacional, que publicou a segunda edição em 1983. Houve uma edição em 2001 pelo Senado Federal intitulada Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho, volume único.
Em São Paulo, a Tip. Allemã de H. Schroeder publicou Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gaston e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba de John James Aubertin no ano de 1866.
Nesse mesmo ano foi traduzido para o inglês pelo autor e publicado em Londres pela Bates, Hendy & Co. com o título Eleven day’s journey in the Province of Sao Paulo, with the [p. 10]
Outro ponto, o parâmetro comparativo do algodão brasileiro e do norte-americano. A produção dos Estados Unidos figura como indicadora de qualidade e produtividade, em vista do país ter sido o maior fornecedor do mundo, e é trazida pelos viajantes quando desejam estimular a produção no Brasil, em especial, utilizando dados fornecidos por conhecedores do ramo.Nesse sentido, Richard Burton traz as considerações de um renomado pesquisador da cultura algodoeira, Major R. Trevor Clarke96 para quem “Aqui [no Brasil] o algodão tem mais penugem que o habitual; 600 quilos darão 250 de fibra limpa, ao passo que no Alabama são necessários 750 quilos. Em geral, o replantio do arbusto é feito em seu quarto ano”.97 E J. J. Aubertin traz a experiência dos americanos sulistas Dr. Gaston, Dr. Shaw e Major Mereweather, a quem ele acompanhou durante a passagem deles pela Província de São Paulo:Eramos cinco pessoas. Tres Americano sulistas, dr. Gaston, dr. Shaw e o major Mereweather, que ião fazer sua viagem prolongada, na exploração de districtos um pouco remotos, sob a direcção do sr. Engenheiro Bennaton, para esse fim nomeado; e, sendo informado dos seus preparativos, logo me aggreguei a elles, não menos por sympatia para com a antecipada immigração americana, como tambem pelo desejo de visitar em sua companhia algumas plantações de algodão, e tirar algumas instrucções de sua experiencia pratica, a respeito de uma cultura que, sendo hoje estabelecida na província, não póde deixar de influil-os cabalmente na resolução que definitivamente tenhão que tomar.98Durante a permanência na província paulista, o grupo visitou a região de Itu, Salto, Porto Feliz e Sorocaba, daí J. J. Aubertin seguiu para a capital paulista e eles continuaram viagem com destino à Itapetininga. As observações de diferentes aspectos da lavoura algodoeira e o processamento do algodão fizeram os norte-americanos considerarem o clima paulista adequado à produção e benéfico o fato de não haver mudanças bruscas na temperatura, como a ocorrência de geadas, possibilitando maior tempo de conservação do algodoeiro.99Esses dados são agregados por J. J. Aubertin àqueles fornecidos por produtores paulistas de que “emquanto o alqueire norte-americano, dando bem, produz de cem até cento e dez ou talvez 96 Richard Trevor Clarke (1813-1897) – “Army officer and horticulturalist. Major in the Northampton and Rutland Infantry Militia, 1862. Bred nearly thirty new varieties of begonias and many new strains of cotton. Awarded a gold medal by the Cotton Supply Association of Manchester. Member of the Royal Horticultural Society; served on the council and scientific committee for many year; awarded the society’s Veitchian medal, 1894”. BURKHARDT, Frederick et al (Ed.). Charles Darwin. The Correspondence of Charles Darwin (1866). Cambridge: Cambridge University, 2004, p. 502, vol. 14.97 BURTON, Richard Francis. Viagem de canoa de Sabará ao Oceano Atlântico..., op. cit., p. 29. [nota 3]98 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gastón e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba. São Paulo: Typ. Allem[p. 159]
Os esforços de J. J. Aubertin devem ser compreendidos dentro desse contexto, em que ele se coloca como defensor da produção algodoeira paulista e atua em diferentes direções. No Brasil, escreveu para diversos periódicos nacionais e correspondeu-se com diferentes figuras da política brasileira para lhes solicitar o envolvimento com a lavoura algodoeira capaz de colocar São Paulo em posição favorável no mercado inglês, tal como fez o inglês em carta ao Comendador Fideles Prates:
Usai, vos peço, nesta vespera de uma nova semeadura, a vossa bem conhecida influencia entre os vossos amigos, e dizei aos cultivadores do algodão que redobrem os seus esforços na nova plantação, porque pela colheita futura é que se diciderá definitivamente a importante questão se a provincia de S. Paulo pode ou não pode occupar uma posição positiva nos mercados de Manchester.104
Aos agricultores interessados, ele também procurou difundir noções sobre a técnica de cultivar o algodão herbáceo e publicou folhetos sobre a cultura do algodão.105 Essa política de difundir informações sobre o cultivo foi uma atividade constante da associação inglesa, mesmo após o fim da guerra norte-americana.
No plano internacional, empenhou-se em apresentar os algodões paulistas de boa qualidade na Exposição Internacional de Londres, de 1862, com o objetivo de mostrar os atributos do produto. Também foi intermediador entre Manchester Cotton Supply Association e órgãos brasileiros; em duas ocasiões, nos anos de 1862 e 1865, J. J. Aubertin solicitou à associação britânica que enviasse algodão herbáceo ao Ministério da Agricultura e à Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional.106 Em diferentes momentos enviou para a Inglaterra amostras do algodão paulista, em geral, com boas avaliações dos correspondentes.J. J. Aubertin arquitetou ações no Brasil ligadas aos interesses ingleses baseadas em informações colhidas por ele na província ou com base na experiência de nacionais e, principalmente, de norte-americanos, com o propósito de deixar claro as potencialidades de São Paulo e convencer os potenciais produtores paulistas. Para aqueles que mesmo assim estivessem em dúvida, ele escreve:
Deveras, já é tarde demais para duvidar do algodão de São Paulo; mas se ainda ha descrentes, apenas apello para os dous srs. Cultivadores que acompanhei, major Mereweather e dr. Shaw. Ambos elles me repetirão muitas vezes, que melhor algodão que aquelle que nos vimos não desejavão ver; que nas suas proprias plantações e com todos os seus meios perfeitos não costumavãoproduzir melhor. 107
Seus esforços renderam-lhe o reconhecimento da associação inglesa, que o condecorou com uma medalha de ouro, e o governo brasileiro honrou-o com o hábito da Imperial Ordem da Rosa. Nos veículos de informação brasileiros, nos quais tanto escreveu, vemos o reconhecimento de seus pares, como E. Hutchings, outro entusiasta da lavoura algodoeira em terras paulistas e intermediário entre a associação e o Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas:
Hoje, considerado, como um genero de exportação, o algodão, e sua cultura, é um dos factos estabelecidos na historia da provincia, e eu me aproveito desta occasião para patentear a gratidão que todos temos.Quem sabe, o que ha de mostrar-se nos anos que vem? Quasi todas as condições de prosperidade estão unidas nesta provincia; - Um clima sem rival, uma terra cheia de riquesa, e uma natureza, cuja uberdade é espantosa. Tudo isto aqui, e no outro lado do Oceano, a Inglaterra, offerece tudo quanto seja possivel afim de attrahir para lá, os productos da provincia, e com as devidas providencias, e constancia em trabalhar, tudo será possivel, e, sem esta, nada.Campinas, Mogy-mirim, Limeira e outros lugares vão caminhando na cultura do café, e o publico, bem como os particulares, são beneficiados. Parece que, para Sorocaba, resta ainda este outro manancial de prosperidade; - a cultura do algodão, e não ha homem ou natural, ou estrangeiro na provincia, que não abençoará a empresa.[...] Caminho da Luz, S. Paulo Agosto de 1865[...] E. Hutchings108
Evidentemente, tais esforços foram no sentido de produzir algodão adequado às necessidades da indústria inglesa. Foi estimulado o plantio da semente de Nova Orleans, em solicitação de uma circular da Manchester Cotton Supply Association109 e houve uma modificação na postura do produtor brasileiro: “O tipo de algodão tradicional no Brasil era o arbóreo mas o mercado consumidor passou a condicionar a produção ao tipo herbáceo dos 107 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo..., op. cit., p. 16.108 HUTCHINGS, E. “Aos Redactores do Diario de São Paulo”. Diario de S. Paulo, São Paulo, 11 agosto 1865, ano I, nº 10, p. 2. Em outras atividades, além do algodão: E. Hutchings foi um dos secretários da Comissão Julgadora de um concurso para criadores de animais pensado por J. J. Aubertin, tesoureiro do evento. O Comendador Fideles Nepomuceno Prates aparece como um dos Juízes. “Concurso industrial”. Correio Paulistano, Estados Unidos. As variedades mais procuradas eram a U[p. 161, 162]