A quarta expedição embarcou no Porto de Nossa Senhora da Conceição do Rio do Registro em 28 de agosto de 1769. Comandante dela Bruno da Costa Filgueiras, da Vila de Curitiba, com 24 camaradas, gente da mesma vila, mateiros e caçadores.
Embarcando em três canoas, navegou pelo Rio de Registro de Curitiba abaixo, e na distância de trinta léguas, que está a barra do Rio Petinga, deixando ali a maior parte do trem, e mentimentos, subiu por ele acima até dar em um rio da parte esquerda, a que deu o nome Rio Verde, enquanto foi navegável, a ver se se descobriu os Campos de Gorapuava, como Sua Majestade havia ordenado.
Para continuar a diligência de que estava encarregado, deixando ali as canoas, marchou por terra, levando os camaradas, as armas, e os mantimentos, que puderam, às costas. Andando quarenta dias pelos sertões adentro, foi ter o mesmo Rio do Registro, ao Porto de Nossa Senhora da Victória, aonde tinha chegado a primeira expedição comandada pelo tenente Domingos Lopes Cascais, parecendo-lhe que estava muito abaixo dos saltos grandes do mesmo rio, julgando estar perto dos Campos de Putrebu, ou Missões. Por estar entre o mato figurando-se-lhe os urros das onças, e tigres, que era gado, que andava em campo, voltou a dar parte do que tinha aparecido, e prover-se de mantimentos por se terem acabado, e passar só com a caça do mato; com três dias de volta encontrou a Bernardino da Costa, e José da Costa, seus irmãos, e outros mais, que iam socorrê-lo por ter entrado na quinta expedição, que se segue, e se uniu a esta, e continuou debaixo da ordem do comandando dela, o capitão Antônio da Silveira Peixoto.
A quinta expedição embarcou no mesmo Porto de Nossa Senhora da Conceição de Caiacanga em duas esquadras, aos 16, e aos 28 de outubro de 1769. Comandante o alferes da vila de Pernaguá, Antônio da Silveira Peixoto, com 85 praças, gente da mesma vila, prática em navegar.
Partiu a primeira esquadra aos 16 de outubro de 1769 do Porto de Nossa Senhora da Conceição do Rio do Registro em sete canoas, embarcando nelas o mesmo capitão com o alferes Antônio da Costa.
A segunda esquadra partiu do mesmo porto aos 28, comandada pelo tenente da mesma companhia Manoel Teles Bitancurt em nove canoas, levando todo o resto da gente e mantimentos pertencentes à mesma expedição.
Navegando esta pelo Rio do Registro abaixo, tendo chegado o dito capitão, o seguiu em procura da expedição de Bruno da Costa, que encontrando de volta com errada notícias nos Campos de Putrebu, e Missões, figurando-se-lhe tudo entre os matos, uniu a gente dessa esquadra à sua companhia como levava por ordem. [Páginas 10 e 11]
Vem outra carta escrita em Parnaguá ao 5 de janeiro de 1771, à Câmara de Pernaguá, para nomear um cirurgião que com o comandante e capelão,entrasse as expedições do sertão.
Carta escrita ao tenente Cândido Xavier de Almeida:
Na cidade de São Paulo recebi as contas, que me tem dado depois que desceu por esse rio abaixo, cujas me deram motivo de encucar s S. Ex. o seu bom préstimo, e quanto obrou até descobrir os Campos de Guarapuava e estabelecer-se, foi com bom acerto, e mereceu ser provido no posto de tenente da companhia do capitão Silveira e logo se passou o seu nombramento que se lhe registrou na Provedoria, e lhe não mando agora, por ter ido em cargas, que já mandei para a Vila de Curitiba e na primeira ocasião o farei.
A parte que deu da felicidade com que descobriu os Campos de Guarapuava, foi muito vem aceita, e serviu não só de gosto para mim, mas para todos os seus patentes e amigos da cidade de São Paulo, e ficavam esperando correspondessem os fins aos princípios. A planta do forte a que deu princípio nos mesmos campos mereceu aprovação de S. Ex., e pelo bem que pintou o medo de poder conservar-se e mais disposições que pretendia obrar, ficamos certos desempenharia e promessa de fatura da dita fortaleza, e sempre saberia conservar o crédito de oficial que deseja adquirir honra, para merecer os prêmios, que logaram os beneméritos, e com as boas notícias, que nos deu da bondade dos campos, que tinha descoberto, parti logo da cidade de São Paulo, para vir dar-lhe ás providências necessárias e socorros precisos, com que pudesse subsistir, e não houvesse motivo algum que o fizesse desamparar o posto, em que se achava, de que deu parte ficava fortificado.
Em Sorocaba recebi a parte, que me deu depois de chegar a êsse quarte de Nossa Senhora da Victória, em que me dizia, tinha saído dos campos, que descobrirá, com o fundamento de não ter mantimentos e poder ser atacado pelos nativos, tomando-lhes estes os caminhos, e não poder utilizar-se dos mantimentos que de cá lhe fossem, e por esta causa suceder-lhe alguma infelicidade. Esta parte ofuscou toda a glória, que podia ter merecido, sendo um oficial que deve ter obrigação de saber o regulamento, e mais ordens de Sua Majestade para ver o crime, que cometeu, e as penas, a que está sujeito, de que o não isento, enquanto não recuperar o posto, que abandonou sem ordem, nem motivo algum; pois a falta de mantimentos que diz não é atendível: porque tendo achado os paióis cheios de mantimentos, deles se podia prover pelo modo, que lhe fosse mais possível havê-lo dos nativos; munições sei, que as havia com muita abundância; as armas estavam boas; os nativos mostravam boa condições; logo que causas haviam, para largar uma praça, cuja planta serve de acusar a sua covardia?
Sei, que chegando os nativos ao barrando do rio tempo, que os 3 ou 4 soldados, que estavam embarcando a anta na canoa, apontando os nativos as flechas para eles, e batendo as palmas os mesmos soldados, os nativos substiveram os tiros das flechas, e virando estas as ofereceram ao mesmo soldado, e da parte que não tinham ferro: foi a tal rudez do soldado, que não soube tirar as facas da cintura, ou as próprias camisas, para darem aos nativos pelo benefício de lhe não tirarem a vida, mostrando eles queriam comunicação conosco, deixando vir os soldados com a canoa para outra banda do rio (...)
(...) Espero desempenhe o cenito, que formei, quando foi para esse sertão; assim para com mais brevidade se poder ir aos campos, logo que receber esta, suba pelo Petinga acima, ou por outro qualquer caminho que lhe parecer mais fácil do Porto de Senhora da Victória para cima, de modo que vá sair aos campos, que deixou, ainda que seja mais, ou menos acima, não importa. E logo que chegar aos ditos campos, me avise: e como se acha muita gente por lá, senão tiver forças, para se sustentar neles, se retire, e venha fazendo caminho o melhor que puder, até sair no Rio do Petinga ou a este Registro, e no Porto de Nossa Senhora da Victória esperará ordens, que lhe forem; mas é preciso até os 20 de janeiro estarem descobertos os campos, e haver notícia desse quartel de Nossa Senhora da Victória do que tem obrado: pois fico dispondo o mandar um oficial, que saiba conservar-se nos postos, a que chegar; e na mesma ocasião darei as mais providências, que me parecer.
Deus guarde a V. M. muitos anos. Fazenda dos Carlos, 17 de dezembro de 1770, Afonso Botelho de S. Paulo e Sousa. [Páginas 130, 131 e 132]
foi publicada a segunda edição na língua inglesa. Pouco depois, em 1848, o relato foi publicado em língua alemã em Dresden e Leipzig, atual Alemanha.A edição em português ocorreu em 1942, na Coleção Brasiliana, intitulada Viagens no Brasil: principalmente nas províncias do norte e nos distritos de ouro e do diamante durante anos 1836-1841, da Companhia Editora Nacional.No ano de 1856 foi publicado o relato Life in Brazil; or, a journal of a visit to the land of the cocoa and the palm de Thomas Ewbank ela Harper & Brothers, Nova York, sendo lançada também na Inglaterra. Nos Estados Unidos houve uma edição em 2005.No Brasil, o relato em português foi publicado com o título A vida no Brasil: ou Diário de uma visita ao país do cacau e das palmeiras, em 1973, pela editora carioca Conquista, em dois volumes.O relato de Henry Walter Bates foi publicado em 1863, em dois volumes, com o título The naturalist on the River Amazons, a record of adventures, habits of animals, sketches of Brazilian and Indian life, and aspects of nature under the Equator, during eleven years of travel by Henry Walter Bates, em Londres pela John Murray. A segunda edição ocorreu um ano depois, com supressão de algumas partes pelo autor, seguida por mais de dez edições na língua inglesa em Londres e nos Estados Unidos. No Brasil O naturalista no Rio Amazonas foi editadoem 1944 pela Editora Nacional.
Em 1869, Richard Burton publicou a primeira edição de Explorations of the Highlands of the Brazil; with a full account of the gold and diamond mines. Also, canoeing down 1500 miles of the great River São Francisco, from Sabará to the Sea by Captain Richard F. Burton, F.R.G.S., etc., em Londres por Tinsley Brothers, em dois volumes. A obra recebeu destaque em finais do ano passado e foi publicada em Nova York no centenário da primeira edição, e nos últimos dezesseis anos teve três edições nos Estados Unidos.
No Brasil, a primeira edição de Viagens aos planaltos do Brasil: 1868, em três volumes,ocorreu no ano de 1941 pela Companhia Editora Nacional, que publicou a segunda edição em 1983. Houve uma edição em 2001 pelo Senado Federal intitulada Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho, volume único.
Em São Paulo, a Tip. Allemã de H. Schroeder publicou Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gaston e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba de John James Aubertin no ano de 1866.
Nesse mesmo ano foi traduzido para o inglês pelo autor e publicado em Londres pela Bates, Hendy & Co. com o título Eleven day’s journey in the Province of Sao Paulo, with the [p. 10]
Outro ponto, o parâmetro comparativo do algodão brasileiro e do norte-americano. A produção dos Estados Unidos figura como indicadora de qualidade e produtividade, em vista do país ter sido o maior fornecedor do mundo, e é trazida pelos viajantes quando desejam estimular a produção no Brasil, em especial, utilizando dados fornecidos por conhecedores do ramo.Nesse sentido, Richard Burton traz as considerações de um renomado pesquisador da cultura algodoeira, Major R. Trevor Clarke96 para quem “Aqui [no Brasil] o algodão tem mais penugem que o habitual; 600 quilos darão 250 de fibra limpa, ao passo que no Alabama são necessários 750 quilos. Em geral, o replantio do arbusto é feito em seu quarto ano”.97 E J. J. Aubertin traz a experiência dos americanos sulistas Dr. Gaston, Dr. Shaw e Major Mereweather, a quem ele acompanhou durante a passagem deles pela Província de São Paulo:Eramos cinco pessoas. Tres Americano sulistas, dr. Gaston, dr. Shaw e o major Mereweather, que ião fazer sua viagem prolongada, na exploração de districtos um pouco remotos, sob a direcção do sr. Engenheiro Bennaton, para esse fim nomeado; e, sendo informado dos seus preparativos, logo me aggreguei a elles, não menos por sympatia para com a antecipada immigração americana, como tambem pelo desejo de visitar em sua companhia algumas plantações de algodão, e tirar algumas instrucções de sua experiencia pratica, a respeito de uma cultura que, sendo hoje estabelecida na província, não póde deixar de influil-os cabalmente na resolução que definitivamente tenhão que tomar.98Durante a permanência na província paulista, o grupo visitou a região de Itu, Salto, Porto Feliz e Sorocaba, daí J. J. Aubertin seguiu para a capital paulista e eles continuaram viagem com destino à Itapetininga. As observações de diferentes aspectos da lavoura algodoeira e o processamento do algodão fizeram os norte-americanos considerarem o clima paulista adequado à produção e benéfico o fato de não haver mudanças bruscas na temperatura, como a ocorrência de geadas, possibilitando maior tempo de conservação do algodoeiro.99Esses dados são agregados por J. J. Aubertin àqueles fornecidos por produtores paulistas de que “emquanto o alqueire norte-americano, dando bem, produz de cem até cento e dez ou talvez 96 Richard Trevor Clarke (1813-1897) – “Army officer and horticulturalist. Major in the Northampton and Rutland Infantry Militia, 1862. Bred nearly thirty new varieties of begonias and many new strains of cotton. Awarded a gold medal by the Cotton Supply Association of Manchester. Member of the Royal Horticultural Society; served on the council and scientific committee for many year; awarded the society’s Veitchian medal, 1894”. BURKHARDT, Frederick et al (Ed.). Charles Darwin. The Correspondence of Charles Darwin (1866). Cambridge: Cambridge University, 2004, p. 502, vol. 14.97 BURTON, Richard Francis. Viagem de canoa de Sabará ao Oceano Atlântico..., op. cit., p. 29. [nota 3]98 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gastón e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba. São Paulo: Typ. Allem[p. 159]
Os esforços de J. J. Aubertin devem ser compreendidos dentro desse contexto, em que ele se coloca como defensor da produção algodoeira paulista e atua em diferentes direções. No Brasil, escreveu para diversos periódicos nacionais e correspondeu-se com diferentes figuras da política brasileira para lhes solicitar o envolvimento com a lavoura algodoeira capaz de colocar São Paulo em posição favorável no mercado inglês, tal como fez o inglês em carta ao Comendador Fideles Prates:
Usai, vos peço, nesta vespera de uma nova semeadura, a vossa bem conhecida influencia entre os vossos amigos, e dizei aos cultivadores do algodão que redobrem os seus esforços na nova plantação, porque pela colheita futura é que se diciderá definitivamente a importante questão se a provincia de S. Paulo pode ou não pode occupar uma posição positiva nos mercados de Manchester.104
Aos agricultores interessados, ele também procurou difundir noções sobre a técnica de cultivar o algodão herbáceo e publicou folhetos sobre a cultura do algodão.105 Essa política de difundir informações sobre o cultivo foi uma atividade constante da associação inglesa, mesmo após o fim da guerra norte-americana.
No plano internacional, empenhou-se em apresentar os algodões paulistas de boa qualidade na Exposição Internacional de Londres, de 1862, com o objetivo de mostrar os atributos do produto. Também foi intermediador entre Manchester Cotton Supply Association e órgãos brasileiros; em duas ocasiões, nos anos de 1862 e 1865, J. J. Aubertin solicitou à associação britânica que enviasse algodão herbáceo ao Ministério da Agricultura e à Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional.106 Em diferentes momentos enviou para a Inglaterra amostras do algodão paulista, em geral, com boas avaliações dos correspondentes.J. J. Aubertin arquitetou ações no Brasil ligadas aos interesses ingleses baseadas em informações colhidas por ele na província ou com base na experiência de nacionais e, principalmente, de norte-americanos, com o propósito de deixar claro as potencialidades de São Paulo e convencer os potenciais produtores paulistas. Para aqueles que mesmo assim estivessem em dúvida, ele escreve:
Deveras, já é tarde demais para duvidar do algodão de São Paulo; mas se ainda ha descrentes, apenas apello para os dous srs. Cultivadores que acompanhei, major Mereweather e dr. Shaw. Ambos elles me repetirão muitas vezes, que melhor algodão que aquelle que nos vimos não desejavão ver; que nas suas proprias plantações e com todos os seus meios perfeitos não costumavãoproduzir melhor. 107
Seus esforços renderam-lhe o reconhecimento da associação inglesa, que o condecorou com uma medalha de ouro, e o governo brasileiro honrou-o com o hábito da Imperial Ordem da Rosa. Nos veículos de informação brasileiros, nos quais tanto escreveu, vemos o reconhecimento de seus pares, como E. Hutchings, outro entusiasta da lavoura algodoeira em terras paulistas e intermediário entre a associação e o Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas:
Hoje, considerado, como um genero de exportação, o algodão, e sua cultura, é um dos factos estabelecidos na historia da provincia, e eu me aproveito desta occasião para patentear a gratidão que todos temos.Quem sabe, o que ha de mostrar-se nos anos que vem? Quasi todas as condições de prosperidade estão unidas nesta provincia; - Um clima sem rival, uma terra cheia de riquesa, e uma natureza, cuja uberdade é espantosa. Tudo isto aqui, e no outro lado do Oceano, a Inglaterra, offerece tudo quanto seja possivel afim de attrahir para lá, os productos da provincia, e com as devidas providencias, e constancia em trabalhar, tudo será possivel, e, sem esta, nada.Campinas, Mogy-mirim, Limeira e outros lugares vão caminhando na cultura do café, e o publico, bem como os particulares, são beneficiados. Parece que, para Sorocaba, resta ainda este outro manancial de prosperidade; - a cultura do algodão, e não ha homem ou natural, ou estrangeiro na provincia, que não abençoará a empresa.[...] Caminho da Luz, S. Paulo Agosto de 1865[...] E. Hutchings108
Evidentemente, tais esforços foram no sentido de produzir algodão adequado às necessidades da indústria inglesa. Foi estimulado o plantio da semente de Nova Orleans, em solicitação de uma circular da Manchester Cotton Supply Association109 e houve uma modificação na postura do produtor brasileiro: “O tipo de algodão tradicional no Brasil era o arbóreo mas o mercado consumidor passou a condicionar a produção ao tipo herbáceo dos 107 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo..., op. cit., p. 16.108 HUTCHINGS, E. “Aos Redactores do Diario de São Paulo”. Diario de S. Paulo, São Paulo, 11 agosto 1865, ano I, nº 10, p. 2. Em outras atividades, além do algodão: E. Hutchings foi um dos secretários da Comissão Julgadora de um concurso para criadores de animais pensado por J. J. Aubertin, tesoureiro do evento. O Comendador Fideles Nepomuceno Prates aparece como um dos Juízes. “Concurso industrial”. Correio Paulistano, Estados Unidos. As variedades mais procuradas eram a U[p. 161, 162]