os animais, pois revelam como Sorocaba inteira estava dominada pelos interesses dos condutores e comerciantes de gado. Osatritos demonstram que, na realidade, em Sorocaba não havialugar para interesses opostos aos dos condutores e comerciantesde gado. Pagar impostos era um mal necessário que todos procuravam limitar e assim obter maiores lucros.Não se deve, entretanto, esquecer que a sonegação de impostos era rotina em todo o Brasil Colonial; procurava-se iludir ofisco de todas as maneiras. Isso, porém, se tornava mais difícilquando a arrecadação não era feita por funcionários da Coroa,mas sim por meio de contratos. Os contratadores, pensando emseu lucro, exerciam uma vigilância mais eficiente e severa. Foio que aconteceu com a cobrança do "novo imposto" sobre osanimais em Sorocaba, que antes era feita por conta da Juntada Fazenda. Não tardarão as queixas contra a administração deGabriel Dinis por parte dos condutores de gado: "Da vila deSorocaba têm-se feito representações a esta Junta a respeito daadministração naquela vila ser mais apertada de que até entãoera". Segundo Prado, a causa foi provocada pelo fato de Antônio Francisco de Aguiar, falecido pouco antes, precisar agradaros condutores para "não manifestarem as indignidades que coma Real Fazenda praticava" <21>. O futuro barão de Iguape e seussócios, como verdadeiros empresários, não permitiam o extravioque lhes reduziria o lucro.Segundo Prado, os responsáveis pelas dificuldades na administração do "novo imposto" sobre os animais eram encontrados em toda a vila de Sorocaba, já que a população, a Câmara eas milícias defendiam os interesses dos condutores e comerciantes de gado. Todos os sorocabanos, afinal, procuravam obstara cobrança do "novo imposto", porquanto uma arrecadação quenão deixava escapar nenhum animal era contrária a seus interesses.Um dos líderes da campanha contra a pontualidade no pagamentodo imposto era, na sua opinião, Rafael Tobias de Aguiar. Pradoacusa-o de ser o responsável por uma série enorme de dificuldades,já que, com a arrematação do "novo imposto", sua família deixoude receber a comissão da Junta e não pôde mais lesar a RealFazenda e "se vê privado de praticar o mesmo com a administração do imposto de Guarapuava, porque pode não combinar ascontas dadas pelo dito com as que nos presta nosso administradore por tal motivo de contínuo promove o nosso prejuízo" <22>.Durante algum tempo grande parte dos problemas surgidoscom a cobrança do "novo imposto" devia-se às manobras de RafaelTobias de Aguiar que, por todos os meios, procurava prejudicar asociedade de Prado e perturbar o trabalho de Dinis. A rivalidade entre o grupo de Aguiar e o de Prado parece que só teve fimquando este último também arremata a cobrança do imposto deGuarapuava e vende a arrecadação do "novo imposto" dos animaisa Rafael Tobias de Aguiar. Não se deve esquecer que este pertencia a tradicional família de Sorocaba, que enfaixava em suasmãos grande parte do poder político e econômico da vila e daprópria Província. Seu pai, já se disse antes, foi cobrador do "novoimposto" dos animais em Sorocaba, da mesma maneira que seuavô e bisavô maternos. Além de estar ligado à cobrança dos impostos pagos em Sorocaba, relativos ao gado que por aí transitava,também tinha interesses no comércio de gado e na sua condução.Prado percebe que depois que arrematou o contrato "tomou o ditoTobias por sua conta o promover quanto pôde em nosso prejuízo" <23>. Por ocasião da arrematação do contrato, pela segundavez, em fins de 1819, receava que Rafael Tobias de Aguiar quisesseconcorrer, "pois ele tem muito amor a este contrato pelo muitoque furtou a S. Majestade o falecido Pai do dito no tempo emque esteve por conta de S. Majestade" <24>.Vários foram os atritos com a Câmara de Sorocaba, da qualPrado sempre desconfiava porque - são suas as palavras -"todos são tropeiros". Um dos primeiros problemas surgiu devidoà cobrança do imposto sobre animais montados que passavam peloRegistro. A Câmara de Sorocaba suspendera o pagamento dos animais montados quando passassem pela primeira ".ez pelo Registro.O comerciante requereu imediatamente um parecer da Junta daFazenda para suspender "semelhante despotismo", pedindo também ao Lírio que requeresse uma ordem precisa ao Conselho daFazenda no Rio de Janeiro, "porque o ficar assim como querem éum meio de extraviarem a maior parte dos direitos, porque mandam montar por peões, e passam a ponte sem pagar, e este tornaa voltar com os arreios somente, e pode no dia passar 8 ou maisanimais como estão fazendo". Invoca a 3.ª condição do alvarádo contrato, que não excetuava os animais montados ou carregados <25>. A Junta resolveu logo que os animais carregados ou montados deviam pagar, mas Prado aconselha a Dinis que não semanifestasse antes de entregar a ordem da Junta à Câmara, a fimde evitar que esta deixasse de se reunir. Apesar da ordem daJunta da Fazenda, Prado receava que a Câmara de Sorocaba recorresse ao Conselho da Fazenda no Rio de Janeiro e por isso pediavigilância a Lírio <26). A Câmara recorreu ao Conselho da Fazendasobre o assunto; Prado, porém, temia uma informação desfavorável, pois, no seu entender, o ouvidor protegia Rafael Tobias deAguiar. As dúvidas com a Câmara de Sorocaba a respeito dosanimais montados continuam e em 1820, já no segundo triênio do [p. 131, 132]
ofendido a maior parte deste povo já com violências já com injúrias" <30>. O próprio Prado lembra a Dinis que tinha deixado um"abecedário" para nele serem registrados todos os animais queentrassem em Sorocaba a fim de evitar a cobrança do impostoquando saíssem, já que não se tratava de animais de negócio epertenciam a moradores dos arredores.
Prado procurava apaziguar Dinis, aconselhando-lhe moderação e paciência para com o povo amotinado, apesar de saber de onde partiam as hostilidades e de afirmar que "não incrimino meu cobrador porque o presente tem dado provas de sua verdade até admira como não tem endoidecido". Achava também que tudo era "traçado pelo tal Rafael" <31>. A população sorocabana continua cada vez mais irritada com Dinis e a situação culmina em 25 de janeiro, quando se organiza contra o cobrador "cilada de rapazes armados de pedras para o mesmo ser apedrejado publicamente e talvez morto ... ", o que não se ultimou devido à interferência do capitão-mor de Sorocaba. Segundo ofício dirigido ao governador de São Paulo por Manuel Moreira Lírio e Custódio Moreira Lírio, a influência, temeridade e despotismo da Câmara de Sorocaba, negando-se a acatar as ordens da Junta da Real Fazenda, deram origem ao movimento popular <32>. Em decorrência dos constantes atritos com a população sorocabana, era difícil conseguir uma pessoa que se quisesse encarregar da cobrança do "novo imposto" em Sorocaba. Dinis, temendo por sua vida, queria abandonar o cargo, mas afinal Prado conseguiu debelar a crise: tomou providências junto ao Governador de São Paulo, conseguindo uma petição para citar Rafael Tobias de Aguiar, líder da população amotinada, e fazê-lo assinar termo de segurança pela vida de Dinis <33>.
Apesar dos problemas provocados pela má vontade daCâmara, pela hostilidade aberta de Aguiar e da população, devido quase sempre a interpretações diferentes dadas aos itens docontrato, as maiores dificuldades da cobrança advinham do contínuo extrativo de gado, principalmente à noite. Nesse caso os maiores responsáveis eram os milicianos do destacamento, que, comobons filhos da terra, ligados, portanto, aos interesses dos sorocabanos, mancomunavam-se com comerciantes e condutores de gado.para a sonegação do imposto. Os contratadores do Rio de Janeiro, em ofício ao governo de São Paulo, apontam a principal causado extravio de animais: os "homens milicianos que por seremfilhos do país, parentes e subordinados a facção perseguidora seacham de comum acordo ocasionando voluntariamente notáveisprejuízos dormindo de noite a sono solto em cuja ocasião se fazem os maiores extravios" <34). Em todos os papéis de Prado há queixas contra a constante burla da fiscalização que devia serfeita pelo destacamento de milicianos. Eram estes pagos pelo cobrador do "novo imposto" e pelo do imposto de Guarapuava, porordem da Junta da Fazenda. A metade do pagamento do soldodo destacamento fazia-se, portanto, por conta do "novo imposto"e a outra pelo do imposto de Guarapuava. Prado recomendavasempre a Dinis pontualidade no pagamento dos milicianos a fimde poder contar com sua boa vontade. Também recomendava-lheque pagasse alguma coisa aos soldados quando estes tinham quese afastar do quartel "pois certamente não os devemos empregarem coisas particulares, e agrade-os a fim de tê-los da nossa partee tanto que estão de má vontade em vez de fiscalizarem procuramprejudicar" <35>.A maior parte dos extravias se realizava à noite. Num primeiro momento Dinis pensa em resolver o problema dos extraviasocorridos durante a noite colocando um portão na ponte, passagem obrigatória para continuar o caminho. Prado, entretanto,acha que uma sentinela noturna devia resolver o caso, aconselhando seu cobrador a "quando tenham passado faça retrocederdeverá cobrar o dobro porque já são havidos como animais passados por alto" <36>. Além dos milicianos que não impediam osextravias, também o comandante responsável pelo destacamento,tenente-coronel Inácio Alvares de Toledo, não era muito zeloso,defendendo mais os interesses dos condutores e comerciantes degado, do que os do comerciante. Muitos foram os atritos entre otenente-coronel e Prado. Este escreve várias vezes a Toledo, pedindo mais sentinelas e mais atenção por parte dos milicianos.Procura inclusive o apoio do governo interino de São Paulo. Temcerteza de que grande parte dos extravias ocorrem à noite, coma ajuda do cobrador do imposto de Guarapuava, Rafael Tobiasde Aguiar. No segundo triênio do contrato, o problema das sentinelas noturnas ainda não está resolvido. Dinis deverá providenciar uma guarita e um lampião aceso durante a noite. O tenente--coronel, entretanto, não toma as medidas necessárias <37>. Asqueixas continuam contra o tenente-coronel e finalmente, no início do segundo triênio, Prado consegue do governo uma ordempara que Inácio Álvares "não tenha domínio algum no destacamento" visto ficar todo sob as ordens de Bento Manuel de Almeida Pais, devido à "má ordem e insubordinação" do destacamento. Depois que Bento Manuel passou ao comando do destacamento, as queixas de Prado diminuem, havendo soldados postados em Sorocaba e em mais três lugares diferentes <38>. Como otrabalho do destacamento tivesse aumentado, os milicianos pediama designação de mais alguns soldados. [p. 134, 135]
Nem todas as dificuldades, entretanto, provêm da hostilidade da Câmara, da população ou dos milicianos. Assim, por exemplo, a possibilidade de evitar a passagem por Sorocaba também facilitava o extravio. Podia-se tomar o caminho de Porto Feliz, e aí pagar o imposto sem passar por Sorocaba. Podia-se tomar o caminho de Porto Feliz e aí pagar o imposto sem passar por Sorocaba, Saint-Hilaire, referindo-se à sua viagem de Porto Feliz a Sorocaba, fala na localidade Guarda de Sorocaba, onde existia uma pequena casa com varanda, na qual se pagavam os impostos dos muares vindos do Sul. Todavia, passavam em pequeno número, razão por que havia aí apenas dois soldados, substituídos de seis em seis meses. Ainda era possível passar pela Guarda de São Francisco, onde também ocorriam extravios. As tropas podiam ainda passar e pagar os impostos na Guarda de Santa Rita e de Indaiatuba. Para evitar certos extravios, Prado procura obstar a construção de uma ponte, que um morador de Indaiatuba está iniciado. 39
[39] 18, f. 135 v., 26 de julho de 1818; 19, f. 76 v., 7 de abril de 1819; Saint-Hilaire, Auguste de, Viagem à Província de São Paulo, p. 247; 19, f. 331 v., 23 de dezembro de 1820; 19, f. 300 v., 12 de outubro de 1820. [Página 136]
foi publicada a segunda edição na língua inglesa. Pouco depois, em 1848, o relato foi publicado em língua alemã em Dresden e Leipzig, atual Alemanha.A edição em português ocorreu em 1942, na Coleção Brasiliana, intitulada Viagens no Brasil: principalmente nas províncias do norte e nos distritos de ouro e do diamante durante anos 1836-1841, da Companhia Editora Nacional.No ano de 1856 foi publicado o relato Life in Brazil; or, a journal of a visit to the land of the cocoa and the palm de Thomas Ewbank ela Harper & Brothers, Nova York, sendo lançada também na Inglaterra. Nos Estados Unidos houve uma edição em 2005.No Brasil, o relato em português foi publicado com o título A vida no Brasil: ou Diário de uma visita ao país do cacau e das palmeiras, em 1973, pela editora carioca Conquista, em dois volumes.O relato de Henry Walter Bates foi publicado em 1863, em dois volumes, com o título The naturalist on the River Amazons, a record of adventures, habits of animals, sketches of Brazilian and Indian life, and aspects of nature under the Equator, during eleven years of travel by Henry Walter Bates, em Londres pela John Murray. A segunda edição ocorreu um ano depois, com supressão de algumas partes pelo autor, seguida por mais de dez edições na língua inglesa em Londres e nos Estados Unidos. No Brasil O naturalista no Rio Amazonas foi editadoem 1944 pela Editora Nacional.
Em 1869, Richard Burton publicou a primeira edição de Explorations of the Highlands of the Brazil; with a full account of the gold and diamond mines. Also, canoeing down 1500 miles of the great River São Francisco, from Sabará to the Sea by Captain Richard F. Burton, F.R.G.S., etc., em Londres por Tinsley Brothers, em dois volumes. A obra recebeu destaque em finais do ano passado e foi publicada em Nova York no centenário da primeira edição, e nos últimos dezesseis anos teve três edições nos Estados Unidos.
No Brasil, a primeira edição de Viagens aos planaltos do Brasil: 1868, em três volumes,ocorreu no ano de 1941 pela Companhia Editora Nacional, que publicou a segunda edição em 1983. Houve uma edição em 2001 pelo Senado Federal intitulada Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho, volume único.
Em São Paulo, a Tip. Allemã de H. Schroeder publicou Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gaston e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba de John James Aubertin no ano de 1866.
Nesse mesmo ano foi traduzido para o inglês pelo autor e publicado em Londres pela Bates, Hendy & Co. com o título Eleven day’s journey in the Province of Sao Paulo, with the [p. 10]
Outro ponto, o parâmetro comparativo do algodão brasileiro e do norte-americano. A produção dos Estados Unidos figura como indicadora de qualidade e produtividade, em vista do país ter sido o maior fornecedor do mundo, e é trazida pelos viajantes quando desejam estimular a produção no Brasil, em especial, utilizando dados fornecidos por conhecedores do ramo.Nesse sentido, Richard Burton traz as considerações de um renomado pesquisador da cultura algodoeira, Major R. Trevor Clarke96 para quem “Aqui [no Brasil] o algodão tem mais penugem que o habitual; 600 quilos darão 250 de fibra limpa, ao passo que no Alabama são necessários 750 quilos. Em geral, o replantio do arbusto é feito em seu quarto ano”.97 E J. J. Aubertin traz a experiência dos americanos sulistas Dr. Gaston, Dr. Shaw e Major Mereweather, a quem ele acompanhou durante a passagem deles pela Província de São Paulo:Eramos cinco pessoas. Tres Americano sulistas, dr. Gaston, dr. Shaw e o major Mereweather, que ião fazer sua viagem prolongada, na exploração de districtos um pouco remotos, sob a direcção do sr. Engenheiro Bennaton, para esse fim nomeado; e, sendo informado dos seus preparativos, logo me aggreguei a elles, não menos por sympatia para com a antecipada immigração americana, como tambem pelo desejo de visitar em sua companhia algumas plantações de algodão, e tirar algumas instrucções de sua experiencia pratica, a respeito de uma cultura que, sendo hoje estabelecida na província, não póde deixar de influil-os cabalmente na resolução que definitivamente tenhão que tomar.98Durante a permanência na província paulista, o grupo visitou a região de Itu, Salto, Porto Feliz e Sorocaba, daí J. J. Aubertin seguiu para a capital paulista e eles continuaram viagem com destino à Itapetininga. As observações de diferentes aspectos da lavoura algodoeira e o processamento do algodão fizeram os norte-americanos considerarem o clima paulista adequado à produção e benéfico o fato de não haver mudanças bruscas na temperatura, como a ocorrência de geadas, possibilitando maior tempo de conservação do algodoeiro.99Esses dados são agregados por J. J. Aubertin àqueles fornecidos por produtores paulistas de que “emquanto o alqueire norte-americano, dando bem, produz de cem até cento e dez ou talvez 96 Richard Trevor Clarke (1813-1897) – “Army officer and horticulturalist. Major in the Northampton and Rutland Infantry Militia, 1862. Bred nearly thirty new varieties of begonias and many new strains of cotton. Awarded a gold medal by the Cotton Supply Association of Manchester. Member of the Royal Horticultural Society; served on the council and scientific committee for many year; awarded the society’s Veitchian medal, 1894”. BURKHARDT, Frederick et al (Ed.). Charles Darwin. The Correspondence of Charles Darwin (1866). Cambridge: Cambridge University, 2004, p. 502, vol. 14.97 BURTON, Richard Francis. Viagem de canoa de Sabará ao Oceano Atlântico..., op. cit., p. 29. [nota 3]98 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gastón e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba. São Paulo: Typ. Allem[p. 159]
Os esforços de J. J. Aubertin devem ser compreendidos dentro desse contexto, em que ele se coloca como defensor da produção algodoeira paulista e atua em diferentes direções. No Brasil, escreveu para diversos periódicos nacionais e correspondeu-se com diferentes figuras da política brasileira para lhes solicitar o envolvimento com a lavoura algodoeira capaz de colocar São Paulo em posição favorável no mercado inglês, tal como fez o inglês em carta ao Comendador Fideles Prates:
Usai, vos peço, nesta vespera de uma nova semeadura, a vossa bem conhecida influencia entre os vossos amigos, e dizei aos cultivadores do algodão que redobrem os seus esforços na nova plantação, porque pela colheita futura é que se diciderá definitivamente a importante questão se a provincia de S. Paulo pode ou não pode occupar uma posição positiva nos mercados de Manchester.104
Aos agricultores interessados, ele também procurou difundir noções sobre a técnica de cultivar o algodão herbáceo e publicou folhetos sobre a cultura do algodão.105 Essa política de difundir informações sobre o cultivo foi uma atividade constante da associação inglesa, mesmo após o fim da guerra norte-americana.
No plano internacional, empenhou-se em apresentar os algodões paulistas de boa qualidade na Exposição Internacional de Londres, de 1862, com o objetivo de mostrar os atributos do produto. Também foi intermediador entre Manchester Cotton Supply Association e órgãos brasileiros; em duas ocasiões, nos anos de 1862 e 1865, J. J. Aubertin solicitou à associação britânica que enviasse algodão herbáceo ao Ministério da Agricultura e à Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional.106 Em diferentes momentos enviou para a Inglaterra amostras do algodão paulista, em geral, com boas avaliações dos correspondentes.J. J. Aubertin arquitetou ações no Brasil ligadas aos interesses ingleses baseadas em informações colhidas por ele na província ou com base na experiência de nacionais e, principalmente, de norte-americanos, com o propósito de deixar claro as potencialidades de São Paulo e convencer os potenciais produtores paulistas. Para aqueles que mesmo assim estivessem em dúvida, ele escreve:
Deveras, já é tarde demais para duvidar do algodão de São Paulo; mas se ainda ha descrentes, apenas apello para os dous srs. Cultivadores que acompanhei, major Mereweather e dr. Shaw. Ambos elles me repetirão muitas vezes, que melhor algodão que aquelle que nos vimos não desejavão ver; que nas suas proprias plantações e com todos os seus meios perfeitos não costumavãoproduzir melhor. 107
Seus esforços renderam-lhe o reconhecimento da associação inglesa, que o condecorou com uma medalha de ouro, e o governo brasileiro honrou-o com o hábito da Imperial Ordem da Rosa. Nos veículos de informação brasileiros, nos quais tanto escreveu, vemos o reconhecimento de seus pares, como E. Hutchings, outro entusiasta da lavoura algodoeira em terras paulistas e intermediário entre a associação e o Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas:
Hoje, considerado, como um genero de exportação, o algodão, e sua cultura, é um dos factos estabelecidos na historia da provincia, e eu me aproveito desta occasião para patentear a gratidão que todos temos.Quem sabe, o que ha de mostrar-se nos anos que vem? Quasi todas as condições de prosperidade estão unidas nesta provincia; - Um clima sem rival, uma terra cheia de riquesa, e uma natureza, cuja uberdade é espantosa. Tudo isto aqui, e no outro lado do Oceano, a Inglaterra, offerece tudo quanto seja possivel afim de attrahir para lá, os productos da provincia, e com as devidas providencias, e constancia em trabalhar, tudo será possivel, e, sem esta, nada.Campinas, Mogy-mirim, Limeira e outros lugares vão caminhando na cultura do café, e o publico, bem como os particulares, são beneficiados. Parece que, para Sorocaba, resta ainda este outro manancial de prosperidade; - a cultura do algodão, e não ha homem ou natural, ou estrangeiro na provincia, que não abençoará a empresa.[...] Caminho da Luz, S. Paulo Agosto de 1865[...] E. Hutchings108
Evidentemente, tais esforços foram no sentido de produzir algodão adequado às necessidades da indústria inglesa. Foi estimulado o plantio da semente de Nova Orleans, em solicitação de uma circular da Manchester Cotton Supply Association109 e houve uma modificação na postura do produtor brasileiro: “O tipo de algodão tradicional no Brasil era o arbóreo mas o mercado consumidor passou a condicionar a produção ao tipo herbáceo dos 107 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo..., op. cit., p. 16.108 HUTCHINGS, E. “Aos Redactores do Diario de São Paulo”. Diario de S. Paulo, São Paulo, 11 agosto 1865, ano I, nº 10, p. 2. Em outras atividades, além do algodão: E. Hutchings foi um dos secretários da Comissão Julgadora de um concurso para criadores de animais pensado por J. J. Aubertin, tesoureiro do evento. O Comendador Fideles Nepomuceno Prates aparece como um dos Juízes. “Concurso industrial”. Correio Paulistano, Estados Unidos. As variedades mais procuradas eram a U[p. 161, 162]