EDUCAÇÃO PAIXÃO E RESPONSABILIDADEAraçoiaba da Serra é uma cidade encantadora que possui História a ser preservada – berço do tropeiro, da educação e da lendária Pedra Santa. Atualmente, temmuitas realizações socioculturais que, igualmente, devem ser salvaguardadas. O melhor meio de manter o presente e o passado vivos é oferecer uma Educação de qualidade, que acontecerá se forem contemplados os ideais de igualdade, tolerância e respeito aos direitos, à diversidade e à liberdade.Educação, uma paixão que nos move em direção ao outro para, no amor de Deus, no amor ao próximo, na solidariedade, na ética da lealdade, torná-lo cidadão capaz de se apossar de conhecimentos e de ter a possibilidade de obter valores que o levem à felicidade de permanecer em harmonia com a natureza humana.Educação, uma responsabilidade para o município que deseja desenvolver-se e um objetivo, alcançado mediante ação conjunta da equipe escolar formada por gestores,coordenadores, professores, funcionários, pais e os protagonistas – os alunos.Deus, sabendo de nossas necessidades educacionais, deixou-nos uma carta indicadora do caminho do bem. Acredito que estamos fazendo nossa parte deixando esta obra didático-educativa para os araçoiabanos natos e para os araçoiabanos de coração.Ione Maria Florenzano Gimenez Coordenadora Geral da Educação [Página 4 do pdf]
Açoiaba da Serra, situada a 18 quilômetros de Sorocaba, foi fundada em 14 de novembro de 1826, por Bernardino José de Barros e pelo padre Gaspar Antônio Malheiros.Hoje, com uma população de, aproximadamente, 23.500 habitantes, formada por um povo muito hospitaleiro, a cidade de Araçoiaba da Serra é a depositária de um dos melhores climas do País.Sua população aumenta significativamente nos fins de semana, devido ao grande número de chácaras para o lazer existentes no município, cujo nome original era Campo Largo de Sorocaba,alterado, em 1944, para Araçoiaba da Serra, que, em tupi, significa Esconderijo do Sol.Araçoiaba passou a ser conhecida por suas riquezas e belezas naturais, atraindo inúmeros visitantes à procura de descanso e lazer.Também o crescimento agropecuário fez com que o comércio local se expandisse, formando um novo perfil, porém mantendo sua beleza, tranqüilidade e hospitalidade, características deuma cidade do interior.Suas maiores atrações, além do clima e sua vista panorâmica, são as festas que acontecemno decorrer do ano e que imprimem um fascínio à parte, como a AbrilFest, Festa do PeãoBoiadeiro, Festas Juninas e da Padroeira do município, que conseguem atrair à cidade milharesde visitantes de todas as regiões do País.Neste livro vamos conhecer um pouco de sua história e de sua gente. [Página 7 do pdf]
Os Primeiros Habitantes da Região
S egundo alguns pesquisadores, o local onde atualmente está localizada a cidade de Araçoiaba da Serra foi, primitivamente, ocupado pelos indígenas Tupiniquim. No final do século XV, às vésperas da chegada dos europeus à América, o continente tinha entre 80 e 100 milhões de habitantes. Deste total, cerca de 30 milhões estariam na América do Sul.
Na área do atual território brasileiro havia, segundo as estimativas mais aceitas, uma população de 3 a 5 milhões de habitantes, divididos em, aproximadamente, 1,5 mil grupos tribais, étnica e culturalmente distintos. Existiam 40 grandes famílias lingüísticas, com duas ou três dezenas de idiomas cada, na sua maioria, agrupadas em três troncos principais.
O tupi-guarani era o idioma mais importante entre as populações litorâneas, o macro-jê predominava nos cerrados e o aruak dominava a Amazônia. Dessas populações nativas originais restam, hoje, em torno de 350 mil indígenas de 215 etnias com 170 idiomas.
A partir de 1566, iniciaram-se as concessões, pelos governadores, de grandes extensões de terras (as sesmarias), antes pertencentes à Capitania de São Vicente, de Martim Afonso de Souza. Assim, colonizadores partem do litoral e vão se embrenhando pelos sertões e estabelecendo-se nos vales dos rios. [Página 13 do pdf]
Alguns pesquisadores destacam que, entre 1690 e 1740, uma organização religiosa pertencente à Igreja São Bento de Sorocaba foi possuidora de grande porção de terras e, com o objetivo de promover o povoamento na região das terras próximas ao Rio Sarapuí (região hoje compreendida entre Pilar do Sul e Salto de Pirapora), doou várias sesmarias para famílias de migrantes de Minas Gerais, predominantemente das cidades de São João Del Rey, Ouro Preto, Diamantina e outras do Sul daquele Estado.
A história de Araçoiaba da Serra começou a ser contada a partir do início do século XVI,com a chegada e movimentação de bandeirantes, caçadores e mineradores em busca de metaispreciosos.
O povoamento intensificou-se com a vinda de famílias procedentes de São João Del Rey, MG, e de tropeiros, que começaram a utilizar o lugarejo.Entradas e BandeirasExpedições de desbravamento no interior do Brasil, no Período Colonial, organizadas commaior freqüência no século XVII, que tinham como principais objetivos o reconhecimento territorial,a captação de mão-de-obra indígena, a submissão ou eliminação de tribos hostis e a procura demetais preciosos. As entradas têm seu centro principal de propagação no litoral nordestino, saindo da Bahia e de Pernambuco para o interior, em missão, geralmente oficial, de mapeamento doterritório. Também combatem os grupos indígenas que ameaçam ou impedem o avanço da colonização, como os Caetés, Caiapós, Potiguares, Cariris, Aimorés e Tupinambás. A atuação das entradas estende-se do Nordeste à Amazônia e ao Centro-Oeste, abrangendo, ainda, áreas próximasao Rio de Janeiro.
As Bandeiras, na sua maioria, saem de São Vicente e de São Paulo para o Sul, Centro-Oeste eregião mineira. São quase sempre expedições organizadas por paulistas e formadas por familiares, agregados, brancos pobres e muitos mamelucos, que têm como meta atacar missões jesuíticas e trazer índios cativos ou ir em busca de minas de ouro epedras preciosas. Entre as principaisBandeiras, destacam-se as de AntônioRaposo Tavares, Fernão Dias Paes Leme,Bartolomeu Bueno da Silva e DomingosJorge Velho.
A OCUPAÇÃO DA REGIÃO DE ARAÇOIABA DA SERRA
Existia na região a sesmaria de João Antunes Maciel, que ia do Pirapora ao Sarapuí acima, e a dos monges de São Bento, em 1693, que se estendia para além do município de Sarapuí, em direção ao caminho de Curitiba. O rio era transposto bem acima do local onde hoje a Rodovia Raposo Tavares o atravessa.
Em 1815, sitiantes já se aglomeravam como pioneiros pelas matas, hoje derrubadas, local pertencente ao atual município de Capela do Alto. Parte desses pioneiros passou para Itapetininga, mas o Ribeirão Iperó e o bairro do mesmo nome foram intensamente povoados ainda no século XVIII, apesar de grandes sesmarias avançarem para os lados de Tatuí. [Araçoiaba da Serra. Esconderijo do Sol: Conto, canto e encontro com os 150 anos da minha história... 2007. Página 14]
Com a desapropriação de terras para a Fábrica de Ferro de Ipanema, em 1811, 100 famíliasque ocupavam uma légua em quadra de antiga sesmaria legalmente dividida por herança ficaramdesabrigadas. Uma parte ficava no sopé do Morro Araçoiaba para os lados de Capela do Alto ea outra na região da atual cidade de Araçoiaba da Serra. O alferes Bernardino José de Barros,fundador desta cidade, conseguiu aglutinar parte dessas famílias nas proximidades da capela deNossa Senhora das Dores, que edificou em 1826.Outra parte foi para o lugar a que chamou Benfica (fica-se bem aqui), origem primária de Tatuí,que só foi fundado graças à doação de terras do alferes Manoel Rodrigues Jordão, de São Paulo.A capela, que deu nome à cidade de Capela do Alto, já existia em 1815, data esta que se lê emtrês ou quatro linhas de um dos três livros Tombo de Nossa Senhora da Ponte de Sorocaba. Acapela era dedicada a Santo Antônio e recebeu da igreja do Colégio dos Jesuítas de São Paulo, jápertencente ao governo, alfaias e imagens.A terra onde está a atual Capela do Alto, já estava ocupada por sitiantes e, por isso, asfamílias que foram expulsas das terras da Fábrica de Ferro de Ipanema dividiram-se em duasturmas: uma foi para Tatuí e a outra para a região de Campo Largo, o topônimo mais antigo.Também, os atuais bairros de Araçoiaba da Serra já eram povoados, como, por exemplo, Jundiacanga, que em 1840 chegou a ser distrito de Sorocaba, logo rebaixado à condição de bairro, como foi Aparecidinha.
Até 1857, Capela do Alto e Araçoiaba da Serra pertenciam a Sorocaba e eram os ninhos dos bandeirantes e tropeiros, sitiantes e grandes fazendeiros, como os Antunes, Maciel, os Silva e os Barbosa, os Mascaranhas e os Machado, entre outros. O colégio do Lageado ficava em Campo Largo, no limite com Sorocaba, pelo campo do Itinga, ao lado da Estrada Geral que ligava São Paulo ao Sul.
Um grande morador de Araçoiaba da Serra, antes de esta estar povoada e mesmo depois,foi o alferes José Luiz Antunes Vieira, a quem se refere Saint Hilaire em seus escritos. Seuinventário está em Sorocaba, no Cartório do Primeiro Ofício. Ele montou uma grande lojadepois que deixou de ser tropeiro.Araçoiaba da Serra é a típica cidade pouso de tropeiros.
SesmariaInstituição do Direito português, que consistia nadoação de extensões de terras, com a condição decolocá-las em cultivo dentro de um prazo de três anos,sob a pena de revogação da doação, as sesmariasnasceram com uma lei promulgada pelo rei d. Fernando I, em 1375. Inovação favorável à burguesia,no contexto do Direito feudal, foi transferida para oBrasil com o estabelecimento das Capitanias Hereditárias, pois os capitães-mores nomeados pelo rei tinham a obrigação de distribuir sesmarias aos colonos. Na prática, o sistema deu origem a latifúndios,ou seja, grandes extensões de terras controladas porpoucas pessoas. Essa minoria privilegiada passou adominar, sem ônus, essas grandes extensões territoriais,muitas vezes improdutivas. [Página 15]
O POVOAMENTO DA REGIÃOA povoação do nosso município decorreu de duas atividades econômicas: a mineração deferro no Morro Araçoiaba e o tropeirismo.Por aqui passava a estrada que ligava São Paulo às províncias do Rio Grande do Sul, SantaCatarina e Paraná.Os tropeiros traziam animais diversos, além de burros, mulas e cavalos do Sul, que por aquipassavam para serem vendidos, tanto em São Paulo como em Minas Gerais, Rio de Janeiro e atéem províncias do Nordeste.Posteriormente, com a realização da Feira de Muares, anualmente, em Sorocaba, tropeiros emuitos mineiros adquiriram terras na região de Araçoiaba, que, então, pertencia ao município deSorocaba, e aqui instalaram suas fazendas.Os animais trazidos do Sul do País e até da Argentina e do Uruguai eram agrupados noscampos do Itinga e do Rio Verde, considerados terras públicas. Aí as tropas descansavam, eramnegociadas e, então, encaminhadas para outras regiões.A existência de grandes áreas de campo deu origem ao nome de Campo Largo, que identificava toda a região e, por isso, a primitiva denominação de Araçoiaba da Serra era Campo Largo de Sorocaba.O tropeirismo teve uma relação direta com o povoamentobrasileiro e não foi somente uma alternativa ou o ciclo econômico e social que substituiu o bandeirantismo no início doséculo XVIII. O tropeirismo contribuiu para a consolidaçãodas nossas fronteiras e mudou a história das relações comerciais em nosso País.Ao lado da estrada do Sul, a primeira grande via que ligava São Paulo ao Rio Grande do Sul, foram surgindo povoações e, em nossa região, surgiram os bairros do Itinga, doJundiacanga e do Cercado, cuja população dedicava-se à agricultura, produzindo milho, feijão, arroz e mandioca. [Página 16]
Criavam alguns animais, como porcos, vacas e galinhas, que eram comercializados nos próprios bairrosou em Sorocaba.Em virtude das atividades próprias do tropeirismo e das feiras de animais, que aconteciamanualmente, surgiram em nossa região muitas atividades profissionais, como a de ferradores deanimais, seleiros, tecelãs, quitandeiras, ourives e mais uma variedade de artesãos temporários,que só apareciam quando da ocorrência da feira.Muitas famílias de Araçoiaba da Serra são descendentes de tropeiros, que iam, anualmente,buscar tropas xucras no Sul para serem negociadas na feira de Sorocaba.
TropeiroA palavra “tropeiro” deriva de tropa, numa referência ao conjunto de homens que transportavam gado e mercadorias no Brasil Colônia. O termo tem sido usado para designar, principalmente, o transporte de gado desde a região do Rio Grande do Sul até os mercados de Minas Gerais,posteriormente, São Paulo e Rio de Janeiro. Porém, há quem o use em momentos anteriores davida colonial, como no ciclo do açúcar, que compreendeu os séculos XVI e XVII, quando váriasregiões do interior nordestino dedicaram-se à criação de animais para comercialização aos senhores de engenhos.O tropeirismo está associado à procriação e venda de gado, porém, esta atividade iniciou-secom o desenvolvimento da mineração, entre os séculos XVII e XVIII.As descobertas do ouro e, posteriormente, de diamantes foram responsáveis por um grandeafluxo populacional, tanto de paulistas como de portugueses e mesmo escravos para a região dasMinas Gerais. Essa grande corrida em busca do “Eldorado” foi acompanhada por um graveproblema: a falta de alimentos, e gêneros agrícolas, produtos básicos, responsável por sucessivascrises na primeira década do século XVIII.Tais crises de fome afligiram a zona mineradora por longos períodos, nos quais se chegou,inclusive, a interromper os trabalhos extrativistas para dedicar-se à produção de alimentos.Assim, surgiram os pousos e a necessidade de abastecimento, que foi suprida pelos chamadostropeiros, que, além de transportarem animais, alimentos e outros materiais de primeira necessidade, ainda serviam de mensageiros. [Página 17]
Morro Araçoiaba e a Fábrica de Ferro de São João do Ipanema
Ipanema foi, sem dúvida, a “célula mater” que deu origem aos municípios de Sorocaba, Araçoiaba da Serra e Tatuí, pois teve sua exploração iniciada em 1591, quando os Afonso Sardinha, pai e filho, à procura de ouro na região, encontraram ferro. Eles eram peritos em mineração e passaram a vida à procura de metais.
Segundo escritos de Pedro Taques, que foi um intelectual e historiador brasileiro, Afonso Sardinha, o pai, morreu depois do filho, em 1629, e esteve presente na descoberta das jazidas de minério de ferro de Araçoiaba e na construção do Engenho de Ferro.
Pai e filho mineravam ouro no morro de Jaraguá, próximo de São Paulo, quando resolveraminvestigar a existência deste metal no Morro Araçoiaba, quando o Brasil e Portugal estavam sobo domínio espanhol.O ferro era tão ou mais importante que o ouro para a Colônia, pois com ele fabricavam-searmas, instrumentos de trabalho e utensílios domésticos.O Morro Araçoiaba, que faz fronteira com o município de Araçoiaba da Serra, ficou conhecido como o Morro de Ipanema por causa do rio, da fábrica de ferro e da Fazenda Ipanema.Está localizado na parte oeste da Fazenda Ipanema; sua forma é oval e o maior diâmetrotem quase 18 quilômetros e o menor perto de 4,5 quilômetros, a cerca de 970 metros acima donível do mar.Muitos viajantes célebres ocuparam-se em estudar o Morro Araçoiaba no decorrer dosanos. [Página 18]
Foram geógrafos, mineralogistas, botânicos e geólogos, entre eles, Augusto Saint Hilaire, Martim Francisco de Andrada, o barão de Eschwege, Von Martius, Theodoro Knecht e Leandro Dupré, efetuando detalhadas descrições de uma colina tão importante, palco de açõesextrativistas por mais de 350 anos, mesmo que em períodos dispersos.
O Morro Araçoiaba quebra o monótono relevo da depressão periférica nas vizinhanças de Sorocaba. O solo da região era rico em ferro e ouro e atraiu um grande número de invasores portugueses, que chegaram, inclusive, ao Morro Araçoiaba, que é considerado marco na história da siderurgia brasileira, pois em suas terras, em 1591, foi levantado o primeiro conjunto de fornalhas para fundição de ferro do País e também a primeira siderúrgica nacional, no final de 1818 e início de 1819.
Propriedade do governo desde a sua existência, a área foi foco constante de inúmeras iniciativas pioneiras no campo da geologia, mineralogia e siderurgia, principalmente em função dasreservas minerais existentes no local, que seduziram e promoveram a cobiça de administradorese políticos desde o Período Colonial.O primeiro engenho de ferro do Brasil estava funcionando na Serra de Araçoiaba, em 1597.Antes, havia apenas atividades de ferreiros.
Em 1532, Martim Afonso de Souza trouxe, em sua expedição, o mestre Bartolomeu Fernandes, também conhecido como Bartolomeu Gonçalves ou Bartolomeu Carrasco, que era ferreiro contratado por um período de dois anos, para abastecer a expedição e a colônia das necessidades de ferro. Com o fim do contrato, o mestre Bartolomeu instalou-se em solo paulista, como proprietário do sítio dos Jeribás, às margens do Jurubatuba, afluente do Rio Pinheiros, em Santo Amaro, SP.
Além de Bartolomeu Carrasco, outro ferreiro foi trazido para a terra: o noviço Mateus Nogueira, acompanhando o padre Leonardo Nunes na aldeia do Colégio dos Jesuítas, na Vila de São Paulo, em 1559. O ofício ia sendo passado aos povoadores, mesmo que em pequena escala, o que preocupava as autoridades, visto que os indígenas, em contato com os brancos, poderiam aprender o manejo do ferro para a fabricação de armas, em substituição às rústicas que usavam, feitas de pedra, madeira ou osso.
Em 1589, o homem branco penetrou pela primeira vez na região então habitada pelosindígenas Tupiniquim, a montanha chamada por eles de Araçoiaba (o lugar onde o Sol se esconde). Os primeiros bandeirantes, Afonso Sardinha, pai e filho, descobriram ferro, diorito e outros minerais na região.Desde que descobriu as ricas jazidas de minério de ferro e magnetita na Serra de Araçoiaba,Afonso Sardinha pensou logo na exploração sistemática dessa riqueza. Certamente ele possuíaconhecimento sobre fundição.O minério de ferro aflorava da terra em vários trechos do morro e era fácil seguir seus veios.Havia ainda o diorito, usado como fundente, e o grés, conhecido como arenito e utilizado paracalafetar fornos.Além da matéria-prima, havia na região muita madeira, o que incentivou a empreitada parao início do empreendimento. Estabeleceram, então, dois fornos rústicos de fundição, denominados fornos catalães, que, já no final do século XVI, encontravam-se em plena atividade.
Os Afonso Sardinha, pai e filho, deram início à implantação da primeira atividade siderúrgica no Brasil. Assim, pressupõe-se que os dois forninhos deveriam produzir, em conjunto, cerca de 200 quilos de ferro por dia, quando tudo corria bem.
Apostando na existência de ouro na região, comunicaram o feito ao governador-geral do Brasil, d. Francisco de Souza, que chegou ao local em 1611. Em sua visita, o governador-geral elevou o povoado ali existente à categoria de vila com o nome de Nossa Senhora do Monte Serrat do Itapebussu, no Morro Araçoiaba.
Porém, pouco interessado no minério de ferro, acabou dando por encerrado o empreendimento, que cessou por volta de 1628. Com isso, os habitantes da vila acabaram por espalhar-se pela região, dando início à formação de outros vilarejos, um deles hoje conhecido por Itavuvu, uma vila que acabou se transformando na Sorocaba de hoje. [p. 19 e 20]
A Origem do Nome Araçoiaba da SerraDo tupi, ará-Sol-aba ou ara-sola-aba, o nome atual do município foi emprestado do monte esobreveio apenas, através da Lei Estadual no 14.334, de 30 de novembro de 1944, que determinou que os antigos distritos e o município de Campo Largo recebessem o nome de Araçoiaba daSerra. Designa uma grinalda de penachos, espécie de cocar que, depois da chegada dos portugueses, passou a significar chapéu. Uma etimologia possível para a palavra seria: cabelo (aba)coberto (sola) de arás (forma reduzida de arara, mas que pode também significar uma espécie deperiquito). Uma outra, inclusive defendida por Theodoro Sampaio, assevera que arasolaba seriaum tipo de montanha que encobriria o dia ou obstaria a vista, o tempo, de ara (dia, tempo), sola(tampar, encobrir) e (s) aba (lugar, circunstância). Araçoiaba da Serra seria, enfim, um montedeterminado, que encobriria a observação das condições do tempo, o que fazem, também, e aseu modo, certos cocares.Em 27 de setembro de 1905, o jornal Cruzeiro do Sul, de Sorocaba, publicou a seguintenoticia: “O Congresso Legislativo do Estado de São Paulo acaba de transformar em lei o Projetono 30/1905, decretando a mudança de nomes de diversos municípios e distritos de paz doEstado. Por esta nova lei, tão útil como racional, Campo Largo de Sorocaba passará a chamarse Araçoiaba”.Esta lei, no entanto, não vigorou em nosso município, que continuou com a denominação dadaquando da sua criação, ou seja, Campo Largo de Sorocaba.Em 1944, por força de lei estadual, nosso município passou a denominar-se Araçoiaba da Serra.
A FUNDAÇÃO DE CAMPO LARGOEm 1817, foi criada a paróquia de São João do Ipanema e, embora o diretor Varnhagen nãopermitisse que ela fosse instalada dentro dos terrenos da fábrica, o padreGaspar Antônio Malheiros tentou inseri-la no bairro de Campo Largo deSorocaba e tratou de erigir ali uma capela, à beira da Estrada Real de Sorocaba, que seguia até o Rio Grande doSul. Estas obras foram suspensas porfalta de fundos e o padre Malheiros regressou ao Ipanema, quase desiludido.Pouco tempo depois, veio a saber queali se achava o alferes Bernardino Joséde Barros, morador em Campo Largo, que lá edificara uma capela, emcumprimento de uma promessa feitapor sua esposa. O capelão de Ipanemafoi falar com ele propondo fazer da [p. 26]
CAPELA DE SANTA CRUZ
A atual capela está situada na Chácara Santa Cruz, de propriedade da Ordem das Irmãs Beneditinas, em Araçoiaba da Serra. Nesta capela, em uma parede lateral, encontra-se a centenária e histórica Cruz Missionária, toda restaurada e colocada em lugar de honra.
Esta foi a quinta capela a abrigar tão preciosa relíquia, inaugurada em 19 de outubro de 1945, ano da demolição da antiga capela da família Vieira, antigos e influentes moradores de Campo Largo.
A respeito desta grande Cruz, preciosa relíquia histórica, diz a tradição, que os jesuítas da Companhia de Jesus, antes da perseguição cruel e injusta que lhes moveu o marquês de Pombal, erigiram uma singela capela, no antigo bairro denominado Sítio da Chinha, à beira da estrada de Tatuí, próximo às margens do Rio Sarapuí.
Os jesuítas foram expulsos e exilados do Brasil e a capela ficou ruindo ao abandono. Alguns alemães piedosos, moradores em Campo Largo, levantaram uma nova capela num lugar denominado Anhangüera, para as bandas do Rio Verde, não longe do sítio de Bento Alves de Oliveira.
A capela foi executada em taipa de mão, tendo esteios de madeira de lei, lavrados a machado, barrotes e ripas preenchidos com barro, batidos à mão. A capela foi ampliada e reedificada com tijolos pelo sr. Manoel Vieira Rodrigues, cidadão de dotes e benemérito para as obras cristãs em Campo Largo.
Foi benzida no dia 20 de dezembro de 1924, pelo reverendo padre Aníbal de Mello, reitor do Seminário Diocesano de Taubaté, com a autorização do vigário da paróquia da Vila de Nossa Senhora das Dores de Campo Largo, padre Carlos Regattieri, e no dia 21 de dezembro foi celebrada uma Santa Missa inaugural da mencionada capela, em louvor e honra a Santa Cruz, símbolo do Cristianismo e dos martírios de Jesus Cristo para a redenção da humanidade. Passado um tempo,daí foi trazida para uma terceira capela, na entrada da Vila de Campo Largo, demolida em 1945. As atuais proprietárias do velho solar da família Vieira, as irmãs Beneditinas, demoliram-na. Em seu lugar construíram uma capela semipública, pontificantemente benzida e inaugurada pelo bispo diocesano de Sorocaba, em 19 de outubro de 1945, na festa litúrgica de São Pedro de Alcântara, celestial patrono do Brasil.
Assim, essa Cruz histórica, não mais continuará sua odisséia de peregrinação, encontrando umposto definitivo de honra, onde recebe, diariamente, carinhoso culto de quantos freqüentarem ainexcedível Opus Dei, das Filhas de São Bento.O bispo diocesano dá e concede cem dias de indulgências a todos os fiéis, que, ajoelhadosdiante dessa Cruz, rezam um Padre Nosso e uma Ave-Maria pelo triunfo da Fé.Reverendo Carlos Regattieri – pároco de Campo Largo. [p. 49 e 50]
Relato – Texto do livro: Apontamentos para a História da Fábrica de Ferro de Ipanema – ProfessorJoão Lourenço Rodrigues.A MÃE DE OURONo tempo em que a estrada de ferro só chegava até Sorocaba, esta cidade era o empóriocomercial de toda a zona sul paulista. O comércio era feito por meio de tropas arreadas. Partindo de Sorocaba, elas encontravam o seu primeiro pouso em Campo Largo, a três léguas dedistância.
O povoado tinha, já então, foro de vila, que ainda conserva. Pouco antes da povoação,havia uma pequena capela, situada à esquerda da Estrada Real, logo adiante descendo para oRibeirão Vacaí – é o seu nome, ou Vacariú. Segundo outros, havia duas casas fronteiras: na dadireita, morava meu pai e, na outra, muito mais vistosa, meu avô materno, José dos Santos.Em uma e outra havia quartos para tropeiros; em frente, alinhavam-se algumas filas de mourões,aos quais os almocreves atavam os muares, na hora da carga ou da descarga. As duas casasfronteiras já não existem, mas se acha ainda de pé, aliás bastante deteriorada, a capelinha deSanta Cruz.
Do pátio da capela avista-se perfeitamente a serrania sempre azulada do chamado Morroda Fábrica. Esta denominação é um tanto imprópria, visto tratar-se de uma pequena cadeiaorográfica com três seções bem distintas: o Morro Araçoiaba, à direita, o Morro do Meio,em seguida, e a Chapadinha, à esquerda. A cadeia toda deve ter cerca de três léguas decomprimento e metade de largura. Seu conjunto dá a impressão de um grande crocodilo,no qual a Chapadinha representa a cabeça e o Morro Araçoiaba, a parte posterior do corpo.O Morro Araçoiaba, que é o maior e o mais alto dos três (970 metros acima do nível domar), é também designado pela denominação de Morro da Fábrica, pois é no sopé domesmo que está edificado o estabelecimento siderúrgico que forma o assunto da presentememória. Vista do pátio da Capela de Santa Cruz, a serrania ocupa no horizonte um arcode cerca de 50 graus, se não mais.Durante a minha meninice, tive este cenário constantemente diante dos olhos e a ele seligam as mais gratas recordações dessa quadra da minha vida, tão feliz quanto descuidosa.Releve-me, pois, o leitor se, alinhando estas páginas, não resisto à tentação de abrir espaço ànarrativa de um fenômeno maravilhoso de que fui testemunha, naquela época, ao lado domeu avô materno.Antes disso, alguns dados explicativos sobre o personagem. José dos Santos, natural deTatuí, como meu pai, tinha então 60 anos mais ou menos. Por aquele tempo, eu já andava naescola, mas o meu verdadeiro pedagogo foi o bom velhinho, que não era só meu avô, mas meu padrinho de batismo. Filho primogênito da sua única filha, era eu, indubitavelmente, o seu netopredileto. E ele cultivava a primor à arte de ser avô. Não sabia ler, mas era inteligente, bomobservador e emérito na arte de conversar. Tropeiro aposentado, que lindas histórias me contava das suas viagens a Santos, através da Serra do Mar, não raro sob temporais inclementes!Meu saudoso avô tinha por costume, ao escurecer, ir sentar-se à porta da sua vivenda deCampo Largo. O céu ali era de uma limpidez maravilhosa e José dos Santos dava-me noçõesencantadoras sobre astros e constelações e daí, sem dúvida, o meu pendor para os estudosuranográficos. Ora, uma dessas noites sucedeu que o nosso colóquio viesse a ser interrompidopela passagem de um esplêndido bólide, cujo clarão alumiou toda a paisagem. O brilhante meteoro tinha uma cor esverdeada e, no seu trajeto de Sul para o Norte, ia lançando fagulhas edeixando ouvir um fragor longínquo, como aquele que anuncia a aproximação de uma das chamadas chuvas de pedras ou granizos. A tal fragor, seguiu-se um estampido surdo, de curtaduração.— Foi cair no morro da fábrica, exclamou meu avô.— O que é aquilo, padrinho? — Perguntei, cheio de curiosidade.— É uma Mãe de Ouro. No tempo de dantes ela já morou ali no morro: havia lá então umalagoa dourada e, à roda dela, ouro em tal abundância que era só ajuntar no chão. Mas erammuito raros os homens que a isto se animavam, porque essas riquezas da Mãe de Ouro eramdefendidas por uns fantasmas que infundiam pavor.Outras pessoas sedentas de novidade, entre as quaisalguns tropeiros, foram se aproximando de nós emeu avô, animando-se mais e mais, fizera umapreleção em regra.— Houve, contudo, — continuou ele, umcanhembora mais animoso do que os caipiras davizinhança. Era um negro da Costa já bastante idoso, um escravo fugido de qualquer fazenda distante. Quando fazia bom tempo, o tal canhemborasaía lá do seu esconderijo e andava a cata das pedrinhas, que lhe parecia conterem ouro. Punha-as num canudo feito de um gomo de taquaruçu, mas, à proporção que ocanudo se ia enchendo, minguava sua provisão de mantimentos. Que fazia então o negro canhembora? Tratava devender sua colheita a um ourives de Sorocaba, seu freguês e protetor, o qual fazia com isto magnífico negócio. O negro chegava à cidade alta noite e dirigiase à casa do ourives, onde ficava escondido enquanto o seu hospedeiro se encarregava de fazer-lhe,durante o dia, a compra de comestíveis. Chegada ànoite, o pobre preto, tendo as malas cheias demantimentos, regressava para a sua paragemda Lagoa Dourada, onde recomeçava a suafaina, escapando à vigilância solerte doscapitães de mato. [p. 62, 63]
camente, tendo acima uma bandeira feita em ferro com detalhes em arabescos com data gravada: 1903. Acima do portal, detalhes esculturais de ramos de flores e uma carranca de um animale, na junção do telhado, a escultura de uma fruta, o que parecia ser um abacaxi, não se sabendoo motivo de esses enfeites fazerem parte da construção, nem se eram apenas enfeites ou tinhamalgum significado. As paredes externas tinham molduras e barrados artisticamente decoradosem alto-relevo e as janelas envidraçadas. No interior havia lustres cintilantes de cristal e paredesdecoradas com pinturas elaboradas por um pintor italiano.O terreno ainda pertence aos descendentes da família Cabral, mas o sinistro que determinou a destruição do prédio eliminou uma verdadeira relíquia do passado.O PRIMEIRO JORNALO primeiro jornal fundado em Campo Largo, terra de Varnhagen, o visconde de PortoSeguro, foi O Município, em 1920.BAIRRO DOS FARIASConhecido como Terceiro Quarteirão, nos livros de alistamentos eleitorais da Vila de Campo Largo, o bairro dos Farias teve origem por volta de 1878, quando fixou residência no lugar afamília do sr. Miguel Alves de Faria (patriarca), que tinha os filhos Firmino Alves de Faria eDemétrio Alves de Faria.
CONSELHO DA VILA DE CAMPO LARGO
Em sessão realizada na Câmara Municipal de Sarapuí, em 11 de novembro de 1891, o presidente deu posse aos cidadãos: tenente José da Rosa Gomes, capitão Martinho Dias Batista Pires e Lino Barbosa Machado, sendo o primeiro intendente e os demais membros da Câmara da Vila de Campo Largo. O ato de posse foi determinado pelo presidente do Estado de São Paulo, por ofício de 28 de outubro de 1891, sendo a ata lavrada pelo então secretário Francisco Honorato de Godoy, constando as assinaturas do intendente Francisco de Magalhães, Zeferino Ayres de Proença e Gregório Batista. (livro de atas fl. 26.) Fonte: Hélio Holtz. Sarapuí – Sua história e seus Antepassados.
ESTRADA DE FERRO SOROCABANAA Estrada de Ferro Sorocabana iniciou-se com uma linha, em bitola métrica, entre SãoPaulo e Ipanema, passando por Sorocaba. O primeiro trecho, de 120 quilômetros, foi inaugurado em 10 de julho de 1875, com a locomotiva Ipanema; porém, seus trilhos ainda não chegam àFábrica de Ferro, apesar de o seu marco zero estar ali (ainda hoje pode ser visto próximo daEstação Varnhagen).Em 21 de agosto de 1875, d. Pedro II chega a Ipanema de carruagem e recebe do suecoAndré Ulston, para homenageá-lo, uma réplica da Coroa fundida com o minério de Ipanema, aqual, atualmente, faz parte do acervo do Museu Imperial, em Petrópolis.A ferrovia chega a Ipanema em 31 de julho de 1876. Francisco Adolfo de Varnhagen, agoravisconde de Porto Seguro, visitou Ipanema em 28 de julho de 1877, escolhendo um local, noalto do Morro Araçoiaba, para que fosse construído um mausoléu que recebesse seus restosmortais. O Monumento a Varnhagen foi inaugurado em 10 de novembro de 1882, no local [p. 101]
foi publicada a segunda edição na língua inglesa. Pouco depois, em 1848, o relato foi publicado em língua alemã em Dresden e Leipzig, atual Alemanha.A edição em português ocorreu em 1942, na Coleção Brasiliana, intitulada Viagens no Brasil: principalmente nas províncias do norte e nos distritos de ouro e do diamante durante anos 1836-1841, da Companhia Editora Nacional.No ano de 1856 foi publicado o relato Life in Brazil; or, a journal of a visit to the land of the cocoa and the palm de Thomas Ewbank ela Harper & Brothers, Nova York, sendo lançada também na Inglaterra. Nos Estados Unidos houve uma edição em 2005.No Brasil, o relato em português foi publicado com o título A vida no Brasil: ou Diário de uma visita ao país do cacau e das palmeiras, em 1973, pela editora carioca Conquista, em dois volumes.O relato de Henry Walter Bates foi publicado em 1863, em dois volumes, com o título The naturalist on the River Amazons, a record of adventures, habits of animals, sketches of Brazilian and Indian life, and aspects of nature under the Equator, during eleven years of travel by Henry Walter Bates, em Londres pela John Murray. A segunda edição ocorreu um ano depois, com supressão de algumas partes pelo autor, seguida por mais de dez edições na língua inglesa em Londres e nos Estados Unidos. No Brasil O naturalista no Rio Amazonas foi editadoem 1944 pela Editora Nacional.
Em 1869, Richard Burton publicou a primeira edição de Explorations of the Highlands of the Brazil; with a full account of the gold and diamond mines. Also, canoeing down 1500 miles of the great River São Francisco, from Sabará to the Sea by Captain Richard F. Burton, F.R.G.S., etc., em Londres por Tinsley Brothers, em dois volumes. A obra recebeu destaque em finais do ano passado e foi publicada em Nova York no centenário da primeira edição, e nos últimos dezesseis anos teve três edições nos Estados Unidos.
No Brasil, a primeira edição de Viagens aos planaltos do Brasil: 1868, em três volumes,ocorreu no ano de 1941 pela Companhia Editora Nacional, que publicou a segunda edição em 1983. Houve uma edição em 2001 pelo Senado Federal intitulada Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho, volume único.
Em São Paulo, a Tip. Allemã de H. Schroeder publicou Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gaston e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba de John James Aubertin no ano de 1866.
Nesse mesmo ano foi traduzido para o inglês pelo autor e publicado em Londres pela Bates, Hendy & Co. com o título Eleven day’s journey in the Province of Sao Paulo, with the [p. 10]
Outro ponto, o parâmetro comparativo do algodão brasileiro e do norte-americano. A produção dos Estados Unidos figura como indicadora de qualidade e produtividade, em vista do país ter sido o maior fornecedor do mundo, e é trazida pelos viajantes quando desejam estimular a produção no Brasil, em especial, utilizando dados fornecidos por conhecedores do ramo.Nesse sentido, Richard Burton traz as considerações de um renomado pesquisador da cultura algodoeira, Major R. Trevor Clarke96 para quem “Aqui [no Brasil] o algodão tem mais penugem que o habitual; 600 quilos darão 250 de fibra limpa, ao passo que no Alabama são necessários 750 quilos. Em geral, o replantio do arbusto é feito em seu quarto ano”.97 E J. J. Aubertin traz a experiência dos americanos sulistas Dr. Gaston, Dr. Shaw e Major Mereweather, a quem ele acompanhou durante a passagem deles pela Província de São Paulo:Eramos cinco pessoas. Tres Americano sulistas, dr. Gaston, dr. Shaw e o major Mereweather, que ião fazer sua viagem prolongada, na exploração de districtos um pouco remotos, sob a direcção do sr. Engenheiro Bennaton, para esse fim nomeado; e, sendo informado dos seus preparativos, logo me aggreguei a elles, não menos por sympatia para com a antecipada immigração americana, como tambem pelo desejo de visitar em sua companhia algumas plantações de algodão, e tirar algumas instrucções de sua experiencia pratica, a respeito de uma cultura que, sendo hoje estabelecida na província, não póde deixar de influil-os cabalmente na resolução que definitivamente tenhão que tomar.98Durante a permanência na província paulista, o grupo visitou a região de Itu, Salto, Porto Feliz e Sorocaba, daí J. J. Aubertin seguiu para a capital paulista e eles continuaram viagem com destino à Itapetininga. As observações de diferentes aspectos da lavoura algodoeira e o processamento do algodão fizeram os norte-americanos considerarem o clima paulista adequado à produção e benéfico o fato de não haver mudanças bruscas na temperatura, como a ocorrência de geadas, possibilitando maior tempo de conservação do algodoeiro.99Esses dados são agregados por J. J. Aubertin àqueles fornecidos por produtores paulistas de que “emquanto o alqueire norte-americano, dando bem, produz de cem até cento e dez ou talvez 96 Richard Trevor Clarke (1813-1897) – “Army officer and horticulturalist. Major in the Northampton and Rutland Infantry Militia, 1862. Bred nearly thirty new varieties of begonias and many new strains of cotton. Awarded a gold medal by the Cotton Supply Association of Manchester. Member of the Royal Horticultural Society; served on the council and scientific committee for many year; awarded the society’s Veitchian medal, 1894”. BURKHARDT, Frederick et al (Ed.). Charles Darwin. The Correspondence of Charles Darwin (1866). Cambridge: Cambridge University, 2004, p. 502, vol. 14.97 BURTON, Richard Francis. Viagem de canoa de Sabará ao Oceano Atlântico..., op. cit., p. 29. [nota 3]98 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gastón e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba. São Paulo: Typ. Allem[p. 159]
Os esforços de J. J. Aubertin devem ser compreendidos dentro desse contexto, em que ele se coloca como defensor da produção algodoeira paulista e atua em diferentes direções. No Brasil, escreveu para diversos periódicos nacionais e correspondeu-se com diferentes figuras da política brasileira para lhes solicitar o envolvimento com a lavoura algodoeira capaz de colocar São Paulo em posição favorável no mercado inglês, tal como fez o inglês em carta ao Comendador Fideles Prates:
Usai, vos peço, nesta vespera de uma nova semeadura, a vossa bem conhecida influencia entre os vossos amigos, e dizei aos cultivadores do algodão que redobrem os seus esforços na nova plantação, porque pela colheita futura é que se diciderá definitivamente a importante questão se a provincia de S. Paulo pode ou não pode occupar uma posição positiva nos mercados de Manchester.104
Aos agricultores interessados, ele também procurou difundir noções sobre a técnica de cultivar o algodão herbáceo e publicou folhetos sobre a cultura do algodão.105 Essa política de difundir informações sobre o cultivo foi uma atividade constante da associação inglesa, mesmo após o fim da guerra norte-americana.
No plano internacional, empenhou-se em apresentar os algodões paulistas de boa qualidade na Exposição Internacional de Londres, de 1862, com o objetivo de mostrar os atributos do produto. Também foi intermediador entre Manchester Cotton Supply Association e órgãos brasileiros; em duas ocasiões, nos anos de 1862 e 1865, J. J. Aubertin solicitou à associação britânica que enviasse algodão herbáceo ao Ministério da Agricultura e à Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional.106 Em diferentes momentos enviou para a Inglaterra amostras do algodão paulista, em geral, com boas avaliações dos correspondentes.J. J. Aubertin arquitetou ações no Brasil ligadas aos interesses ingleses baseadas em informações colhidas por ele na província ou com base na experiência de nacionais e, principalmente, de norte-americanos, com o propósito de deixar claro as potencialidades de São Paulo e convencer os potenciais produtores paulistas. Para aqueles que mesmo assim estivessem em dúvida, ele escreve:
Deveras, já é tarde demais para duvidar do algodão de São Paulo; mas se ainda ha descrentes, apenas apello para os dous srs. Cultivadores que acompanhei, major Mereweather e dr. Shaw. Ambos elles me repetirão muitas vezes, que melhor algodão que aquelle que nos vimos não desejavão ver; que nas suas proprias plantações e com todos os seus meios perfeitos não costumavãoproduzir melhor. 107
Seus esforços renderam-lhe o reconhecimento da associação inglesa, que o condecorou com uma medalha de ouro, e o governo brasileiro honrou-o com o hábito da Imperial Ordem da Rosa. Nos veículos de informação brasileiros, nos quais tanto escreveu, vemos o reconhecimento de seus pares, como E. Hutchings, outro entusiasta da lavoura algodoeira em terras paulistas e intermediário entre a associação e o Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas:
Hoje, considerado, como um genero de exportação, o algodão, e sua cultura, é um dos factos estabelecidos na historia da provincia, e eu me aproveito desta occasião para patentear a gratidão que todos temos.Quem sabe, o que ha de mostrar-se nos anos que vem? Quasi todas as condições de prosperidade estão unidas nesta provincia; - Um clima sem rival, uma terra cheia de riquesa, e uma natureza, cuja uberdade é espantosa. Tudo isto aqui, e no outro lado do Oceano, a Inglaterra, offerece tudo quanto seja possivel afim de attrahir para lá, os productos da provincia, e com as devidas providencias, e constancia em trabalhar, tudo será possivel, e, sem esta, nada.Campinas, Mogy-mirim, Limeira e outros lugares vão caminhando na cultura do café, e o publico, bem como os particulares, são beneficiados. Parece que, para Sorocaba, resta ainda este outro manancial de prosperidade; - a cultura do algodão, e não ha homem ou natural, ou estrangeiro na provincia, que não abençoará a empresa.[...] Caminho da Luz, S. Paulo Agosto de 1865[...] E. Hutchings108
Evidentemente, tais esforços foram no sentido de produzir algodão adequado às necessidades da indústria inglesa. Foi estimulado o plantio da semente de Nova Orleans, em solicitação de uma circular da Manchester Cotton Supply Association109 e houve uma modificação na postura do produtor brasileiro: “O tipo de algodão tradicional no Brasil era o arbóreo mas o mercado consumidor passou a condicionar a produção ao tipo herbáceo dos 107 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo..., op. cit., p. 16.108 HUTCHINGS, E. “Aos Redactores do Diario de São Paulo”. Diario de S. Paulo, São Paulo, 11 agosto 1865, ano I, nº 10, p. 2. Em outras atividades, além do algodão: E. Hutchings foi um dos secretários da Comissão Julgadora de um concurso para criadores de animais pensado por J. J. Aubertin, tesoureiro do evento. O Comendador Fideles Nepomuceno Prates aparece como um dos Juízes. “Concurso industrial”. Correio Paulistano, Estados Unidos. As variedades mais procuradas eram a U[p. 161, 162]