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ESTRATÉGIAS DE OCUPAÇÃO DE TERRA E RELAÇÕES DE PODER NOS CAMPOS DE GUARAPUAVA (1768-1853), 2012. CINTHIAN APARECIDA BAIA

mencio ()

    2012
    Atualizado em 06/11/2025 20:58:38
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JAN.
01
HOJE NA;HISTóRIA
\\windows-pd-0001.fs.locaweb.com.br\WNFS-0002\brasilbook3\Dados\cristiano\hoje\01-01total.txt

pastoril, uma vez que, todas as áreas propícias a essa atividade já estavam ocupadas porgrandes fazendas de criação de gado nos Campos Gerais4.2.1 OCUPAÇÃO E RESISTÊNCIA INDÍGENA NOS CAMPOS DE GUARAPUAVA EMMEADOS DO SÉCULO XVIII Em função do fim da vigência do Tratado de Madrid5, as duas Metrópoles Coloniais(Portugal e Espanha) voltaram a discutir suas fronteiras na América do Sul, o que tornou operíodo de 1761 a 1777 de grandes tensões entre os dois países. É nessa conjuntura que aMetrópole Portuguesa se utiliza de todas as estratégias possíveis para ocupação definitiva doterritório. O Governador da Capitania de São Paulo Dom Luís Antonio de Sousa BotelhoMourão (Morgado de Mateus)6 e Sebastião José de Carvalho e Melo (Marquês de Pombal)7estabeleceram alguns planos para garantir a segurança dos territórios da América do Sulportuguesa. Segurança necessária para conter o avanço da ocupação dos espanhóis nessa área. Para tal fim, Morgado de Mateus enviou duas principais expedições, sendo uma para oIguatemi8, com o pretexto que denominou de explorar os “sertões do rio Ivaí” e outra para os“sertões do Tibagi”, sendo uma das metas da campanha “descobrir” os Campos deGuarapuava. Para BellottoQuando D. Luís Antonio pensou em enviar a primeira expedição aoIguatemi, tratou de também organizar uma que fosse para o Tibagi. Comisso, conseguia atingir dois objetivos: camuflar sua intenção quanto aoIguatemi (‘descubrir os certões do Ivaí, Rio que deságua junto as SeteQuedas e da entrada para o Paraguai’) e tomar posse da área de Apucarana,Guarapuava e Tibagi (‘descubrir as margens e certões do Tibagy’).(BELLOTTO, 2007, p. 137-138). [p. 15]

Na parte superior esquerda do mapa consta uma nota explicativa (figura 2) que alude aexistência de ouro, bem como campos propícios para a criação de animais no “Certam doTibagi”. Informa também que se sabia da existência do ouro em função dos roteirosdescritivos dos antigos bandeirantes paulistas que percorreram a localidade, tendo essasmesmas notícias motivado Ângelo Pedroso em suas explorações, que perduraram sete anos.Por fim, menciona que o principal objetivo desse minerador era encontrar o “morroApucarana”, contudo, “foi visto de longe no anno d 54”, conforme documento a seguir.

Pela figura 3 pode-se visualizar que a Serra de Apucarana está localizada no mapa namargem direita do rio Ubatuba (atual rio Ivaí). Possivelmente informava essa localidade emvirtude dos roteiros de antigos sertanistas, em especial ao de “Fernão Dias Paes”23, já que omesmo esteve estabelecido nessa área por alguns anos durante a década de 1650, comoveremos a seguir, bem como ter sido citado na nota explicativa do referido mapa. ConformeTaunay (1955, p. 167-169)Penetrou Fernão Dias Paes o sertão do sul até o centro da serra deApucarana, no reino dos índios da nação Guyanãa, pelos annos de 1651;nelle existiu alguns annos, tendo estabelecido arraial com o troço das suasarmas, para vencer a reducção daquelle reino, que se dividia em trêsdifferentes reis. […] deixaram os reinos e acompanharam para S. Paulo Fernão Dias […] e todos seguiam gostosos esta transmigração debaixo docommando inteiramente do seu conquistador […] que chegou a São Paulocom cinco mil almas de um e outro sexo. (TAUNAY, 1955, p. 167-169).

No relato de Afonso Botelho igualmente se percebe o interesse em encontrar a Serrade Apucarana, porque ele, bem como o governo central da época, também acreditava naexistência de ouro. Como possuíam informações antigas que essa serra estava localizada nosCampos de Guarapuava, isso pode explicar o grande interesse das expedições em localizar eocupar esses campos. É plausível afirmar que vários vetores influenciaram a primeira tentativa de ocupaçãodos Campos de Guarapuava. Além de interesses políticos referentes à demarcação de limitesterritoriais entre as Metrópoles Coloniais de Portugal e Espanha, a possibilidade de riquezasnaturais, com destaque para os metais preciosos que esses campos poderiam oferecer foigrande atrativo para a sua ocupação. Neste âmbito, foi durante a sexta expedição que localizaram os Campos deGuarapuava. Essa expedição embarcou no Porto24 de Nossa Senhora da Conceição no rioRegistro (atual rio Iguaçu) em julho de 1770 e possuía como comandante o sargento-mor deParanaguá Francisco José Monteiro, capelão25 o padre Inácio Abraão Machado, o sargento [p. 24, 25]

O responsável pelo aldeamento de Atalaia no período compreendido entre 1812 e 1827foi o padre curitibano Francisco das Chagas Lima. Esse sacerdote já possuía experiência emrelação à catequização indígena, uma vez que, havia trabalhado por cinco anos com os índiosdenominados Purís75 na aldeia de São João de Queluz76, nas imediações do rio Paraiba77(LIMA, 1842; 1843, p. 62, 74).Para compreendermos como ocorreram os trabalhos de catequização no aldeamento deAtalaia vamos levar em consideração o conjunto de relatos assinado pelo Padre Francisco dasChagas Lima. A maioria desses documentos (LIMA, 1821; 1825; 1827) adquirimos na CasaBenjamin Teixeira78 na cidade de Guarapuava. Os demais relatos (LIMA, 1842; 1843) foramacessados no site do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro79. Ao analisar os documentos do Padre Chagas percebe-se nas entrelinhas de suascorrespondências que ele interessava-se em discutir questões políticas e até mesmorelacionadas à distribuição de terras80. Porém, são informações raríssimas quando comparadasas suas discussões sobre os indígenas existentes nos Campos de Guarapuava. Referente aos indígenas que habitavam essa localidade, o Padre Chagas identificou emseus relatos os seguintes grupos: Camés83, Votorões, Cayeres/Dorins84, Xocrens, Tavens,Jacfé85, Tac-Taiás e Guaranis. Os índios Camés e Votorões encontravam-se próximos a aldeiade Atalaia. A primeira avaliava contar com 152 indivíduos e a segunda com aproximadamente120 pessoas (LIMA, 1842, p. 52). Os Cayeres/Dorins localizavam-se nas margens do rioDorim86, podendo contar com 400 pessoas (LIMA, 1827, p. 6). Contudo, antes do contatomais efetivo com esse grupo, o clérigo informava em um de seus relatos que os mesmos habitavam uma área entre os rios Piquiri (Os índios denominavam esse rio como Paiquerê, LIMA, 1821, p. 23), Paraná e Iguaçu (LIMA, 1821, p. 23). Os Xocrenssituavam-se entre os rios Iguaçu e Uruguai e julgava-se possuir em média 60 indivíduos. OsTavens encontravam-se entre os rios Paraná, Piquiri e Ivaí e avaliava-se possuir de 240indivíduos. Os Tac-Taiás habitavam as margens do rio Ytatú (Ivaí)88 a 26 léguas (171, 6 km)de distância da aldeia de Atalaia (LIMA, 1821, p. 24). Os Guaranis localizavam-se nasimediações do rio Uruguai89 e julgava-se possuir aproximadamente 500 pessoas, sendo naspalavras do Padre Chagas a “horda” mais numerosa que havia em Guarapuava (LIMA, 1821,p. 17). E, por fim, conforme uma correspondência do sacerdote de janeiro de 1827 eleinformava que havia duas “hordas” desconhecidas nos Campos de Guarapuava: uma entre osrios Iguaçu e Uruguai (oeste) e outra entre os rios Piquiri e Paraná (norte). É interessante mencionar que empregamos nesse trabalho as mesmas denominações90utilizadas pelo Padre Chagas em seus relatos aos índios existentes nos Campos deGuarapuava para facilitar a análise e compreensão dos conflitos interculturais e intertribaisque ocorreram durante o processo de ocupação nesses campos. Enfatizamos essa questãoporque ao comparar as identificações que o sacerdote utilizava em seus relatos com estudosrecentes, é plausível afirmar que existiam na área de estudo duas nações indígenas.Uma delas refere-se à nação Guarani, identificada pelo Padre Chagas como“Guaranis”. Ao que tudo indica esse povo não se agrupou no aldeamento de Atalaia, existindoapenas nos relatos do vigário informações sobre sua possível localização (imediações do rioUruguai).Segundo Mota e Novak (2008, p. 26) a designação Guarani define a população, bemcomo o nome da língua por eles falada. Estudos indicam que os Guarani procederam dasbacias dos rios Madeira e Guaporé (rios da bacia do rio Amazonas). A partir daí, ocuparamdiversos territórios ao longo das bacias dos rios Paraguai e Paraná até alcançar Buenos Aires,expandindo-se também para a margem esquerda do Pantanal, nos atuais estados de São Paulo,Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul (MOTA; NOVAK, 2008, p. 26).Para Mota e Novak (2008, p. 27) esse grupo dificilmente estabelecia suas aldeias eroças em áreas de campo. Isso porque, todos os sítios arqueológicos encontrados estavam localizados em áreas cobertas por florestas, seguindo o padrão de estabelecer as aldeias e asplantações em clareiras dentro da mata (MOTA; NOVAK, 2008, p. 27).Já as identificações como Camés, Votorões, Cayeres/Dorins, Jacfé, Tac-Taiás, Tavense Xocrens referem-se, na verdade, aos índios da nação Kaingang (VEIGA, 2006, p. 42;TOMMASINO; FERNANDES, 2011, p. 2). Para Veiga (2006, p. 42) “A denominaçãoKaingang aparece na documentação bibliográfica apenas a partir de 1882, inicialmente emtrabalhos de Telêmaco Borba e do capuchino Frei Luiz de Cimitile”. Contudo, Mota (2004, p.1) alerta que essa denominação foi utilizada anteriormente por outros viajantes quepercorreram os territórios Kaingang no século XIX, como, a título de exemplo, Camilo Lellisda Silva91, Joseph e Franz Keller92. Conforme Mota e Novak (2008, p. 30) pesquisas realizadas assinalam o Brasil centralcomo região de origem dos Kaingang, que ocuparam imensas áreas dos Estados da RegiãoSul, parte meridional de São Paulo e o leste da Província de Missiones (MOTA; NOVAK,2008, p. 30). Segundo Veiga (2006, p. 52) os primeiros contatos registrados com grupos quepossivelmente seriam Kaingang são os dos padres jesuítas espanhóis estabelecidos naProvíncia do Guairá93, sendo identificados na época em questão como Gualachos (figura19).

Com a figura 18 é possível visualizar as possíveis localizações das reduções jesuíticas, situadas as margens dos principais rios, como Pequeri (Piquiri), Hubai (Ivaí), Paranapane (Paranapanema), Tibaxiva (Tibagi) e Yguaçu (Iguaçu), bem como um espaço que não havia nenhuma redução e que é identificada no mapa como a região dos Guananas ou Gualachos, sendo esta localidade parte do território que ficaria posteriormente conhecido como Campos de Guarapuava. Possivelmente esses índios não aceitaram viver nas reduções e procuraram se estabelecer em regiões de campos onde não havia a presença de jesuítas ou, por serem considerados mais arredios que os demais indígenas existentes na Província do Guairá, como, a título de exemplo, os índios Guarani, provavelmente sua presença teria influenciado na localização das reduções em determinadas áreas e não em outras.

Porém, a experiência das reduções jesuíticas foi breve, devido a sua destruição pelosataques dos bandeirantes paulistas na primeira metade do século XVII (VEIGA, 2006, p. 52). [p. 65, 66, 67]

que corresponde atualmente os municípios de Campo Mourão, Mamborê, Ubiratã, dentreoutros (MOTA; NOVAK, 2008, p. 30).Além de explorações oficiais aos referidos campos, também ocorreram exploraçõesparticulares, como é o caso da Sociedade do Paiqueré, organizada em 1840, possuindo comoparticipante Francisco Ferreira da Rocha Loures, Antonio de Sá Camargo (Visconde deGuarapuava) e o Padre Braga (RIBEIRO, 1940, p. 79). Contudo, essas expedições (oficiais eparticulares) não visavam, em primeiro momento, o estabelecimento de novas fazendas decriação de gado, como ocorreu com os Campos de Guarapuava e Palmas, mas sim, apossibilidade de adquirirem as riquezas minerais que essa localidade poderia oferecer. A Sociedade do Paiqueré realizou cinco campanhas na localidade entre os rios Piquiry(Piquiri) e Ivahy (Ivaí) a procura dos Campos do Paiqueré (RIBEIRO, 1940, p. 79). Umadelas foi chefiada por Rochinha (Francisco Ferreira da Rocha Loures) que partiu deGuarapuava em abril/maio de 1842, chegando em junho ao rio Ivaí, abaixo da foz do rioCorumbatahy (Corumbataí). Nesse ponto, essa expedição encontrou com outra que exploravaaquele rio sob o comando do alferes Antonio Pereira Borges130 (RIBEIRO, 1940, p. 79). Essasduas expedições, sendo a última uma campanha oficial, uniram-se e seguiram o curso do rioIvahy até o rio Paraná. Após chegar a foz do rio Ivahy e realizar algumas explorações em suasimediações, Rochinha retornou a Guarapuava sem localizar os Campos do Paiqueré(RIBEIRO, 1940, p. 79).Com a realização dessas campanhas, o Imperador D. Pedro II remeteu um oficio emnovembro de 1842 ao Coronel Comandante Superior João da Silva Machado, solicitandorelatório sobre as explorações realizadas aos Campos do Paiqueré. O relatório foi elaborado epublicado pela revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro em 1843, possuindocomo título “Informações que pude obter do alferes Antonio Pereira Borges, Commandanteda Companhia exploradora formada em Campos Geraes de Coritiba, na demanda dos camposdenominados Paiqueré”.Além de conter uma síntese das explorações realizadas até aquele momento na área emquestão, João da Silva Machado também assinala em seu relato a provável localização de cadauma das reduções jesuíticas e das principais cidades castelhanas da região. Possivelmenteadquiriu essas informações em pesquisas realizadas nos arquivos históricos de Buenos Aires(WISSENBACH, 1995, p. 144). [p. 101]

Nessa obra, Machado (1843, p. 110) informa que a expedição do alferes AntonioPereira Borges iniciou seu percurso em maio de 1842 e partiu dos Campos do Amparo, nodistrito de Ponta Grossa. Seguiu caminho até atingir o rio Ubay (Ivaí) em um local no qualdenominaram cachoeira grande. Desse ponto em diante, seguiram o curso do rio Ubay até aconfluência do rio Curumbaty ou Thuá (Corumbataí)131. Nessa localidade encontraramvestígios de escavações “de muitas lavras, tanto na margem do rio, como nas caldeiras,d’onde se havia tirado um cascalho rijo á semelhança do que se via nas barranceiras a que osmineiros chamam gopiára” (MACHADO, 1843, p. 110). Como o objetivo era atingirem o rio Paraná, seguiram o curso do rio Ubay eencontraram durante esse percurso uma expedição que saiu de Guarapuava sob comando deRochinha (Francisco Ferreira da Rocha Loures) que possuía o mesmo objetivo, isto é,encontrar os Campos do Paiqueré (MACHADO, 1843, p. 111). As duas campanhas seguiramo curso do rio Ubay porque acreditavam que os Campos do Paiqueré tocavam a sua margeme, durante esse mesmo trajeto as expedições[...] principiaram a ver os vestígios de immensidade de gentio, que habitan’aquelles sertões; elles observavam os nossos navegantes, mas quando estessaltavam em terra, corriam em grandes porções, fazendo um rumor, queparecia ser de muitos centenares, sem que tratassem de accometter, e nem deemboscar-se para fazer mal aos nossos exploradores [...]. (MACHADO,1843, p. 111). Como se verificou nos capítulos anteriores era uma estratégia dos indígenas nãorealizarem contato de imediato com os expedicionários, mas, primeiramente, observarem asações dos mesmos. Só após essa avaliação é que, na maioria dos casos, realizavam um contatomais efetivo ou até mesmo, a realização de emboscadas e ataques.Conforme Machado (1843, p. 111-112) os exploradores não perseguiram os índios enem destruíram seus alojamentos que encontraram nas margens do rio Ubay. Mencionatambém que nas imediações desses alojamentosAcharam muitas roças de mato virgem derrubadas á fouce e machado, semdeixarem arvores em pé, como costumam os nossos agricultores; em umd’esses alojamentos da costa do Paraná achou Borges um botoque d’alambrede um palmo de comprimento [...] e igualmente de alguns novellos de fio detocúm, ortiga, e tambem de cabello de gente; acharam teares onde o gentiotece o panno de algodão, cuja planta elles cultivam, bem como fazem outrasqualidades de tessumes. Acharam um tenaz de ferreiro, e muitos anzóes grandes e pequenos, o que não deixa em duvida que elles sabem fundir oferro, o que com elle se surtem da ferramenta que lhes é indispensavel parafazer roças, canoas, etc., etc.; e como essa mina foi descoberta pelos Jesuitasno pequeno rio Piquiry, que desagua no Paraná [...] em cuja margemfundaram a Cidade Real de Guayra entre os annos de 1557 até 1577, é muiprovavel que desde então adquiriram o conhecimento de fundir e trabalhar oferro, e que foram transmittindo a seus descendentes. (MACHADO, 1843, p.111-112). Com base nesse trecho do relato, observa-se que os índios possuíam técnicasdiferentes das que os agricultores da época empregavam em relação ao preparo da terra para ocultivo. Utilizavam instrumentos de ferro tanto para a limpeza das áreas destinadas a lavoura,como na construção de canoas, entre outros. Habilidades que, conforme Machado adquiriramcom o convívio com os jesuítas, sendo estas transmitidas no decorrer dos tempos.Ainda em relação a essa citação, pode-se afirmar que nas proximidades da foz do rioIvaí existiam índios de uma nação diferente ao dos Kaingang, em função do “botoque”132encontrado pelos expedicionários em um dos alojamentos dessa localidade, visto que não eraum ornamento utilizado por essa nação e sim, a título de exemplo, pelos índios Xokleng,Xetá133, dentre outros. Provavelmente tratava-se dos índios Xetá já que o espaçocompreendido ao longo do rio Ivaí, principalmente em sua margem esquerda até a sua foz norio Paraná, bem como seus afluentes, pode ser considerado um antigo território desse grupo(SILVA, 2011, p. 2). Conforme Mota e Novak (2008, p. 29-30) os Xetá foram contatados durante a décadade 1840 pelas expedições de Joaquim Francisco Lopes135 e John Henry Elliot, nas imediaçõesda foz do rio Corumbataí com o rio Ivaí (empresa comandada por João da Silva Machado). Apartir disso outros contatos foram acontecendo, mas só foi em 1955-56, na Serra de Dourados,região noroeste do Estado do Paraná, que se deu o mais documentado encontro com essegrupo (MOTA; NOVAK, 2008, p. 29-30). Convém mencionar que durante esse contato realizado na Serra de Dourados, os Xetáforam considerados como um povo que vivia somente da caça e coleta. Contudo, pesquisasrecentes constataram que a situação dos Xetá naquele momento justificava-se pelos constantes deslocamentos do grupo provocados pela expansão cafeeira daquele período (MARANHÃO,2011, p. 1). [p. 102, 103]

Dessa forma, como se observou no relato de Machado (1843, p. 111-112), de umpovo que possivelmente saberia fundir o ferro, que possuía uma agricultura de subsistência,foram, gradativamente, perdendo algumas características culturais em função das constantesfugas/deslocamentos no decorrer da história. Quanto aos atributos físicos da área explorada, Machado (1843, p. 112) menciona queessa localidade possuía um clima propício e terras muito produtivas, “pois que em Junhoachavam as immensas jabuticabeiras carregadas de frutas maduras, sazonadas, verdes, e atécom flôr, achando ao mesmo tempo milho plantado há pouco, um verde, outro secco, o quemostra que elles plantam em diversos mezes do anno” (MACHADO, 1843, p. 112). Porém éo único trecho que remete a uma possível ocupação para o aproveitamento agropastoril vistoque no decorrer de todo o relato o autor privilegia os prováveis recursos minerais que alocalidade conteria. Observa-se também no relato de Machado (1843, p. 112) a base alimentardiversificada dos indígenas que habitavam o vale do rio Ivaí e Piquiri. Conforme o autor osexpedicionários encontraram plantações de “limões galegos, cidras, ananazes plantados emlinha, mandioca, aipi, amendoim, feijão miudo e do ordinario, milho de diversas qualidades,melancias, aboboras, morangos [...]” (1843, p. 112).

Nenhuma das expedições que ocorreram nesse período encontrou os Campos doPaiqueré, já que as mesmas tiveram que abandonar as explorações porque foram atacadas pelas “sezões” (febres). Nesse sentido, a expedição do alferes Antonio Pereira Borges voltou para Guarapuava, seguindo o mesmo caminho que levou a expedição de Rochinha (Francisco Ferreira da Rocha Loures) a encontrá-los (MACHADO, 1843, 113). No regresso, encontraram uma mina de cobre em um rio que possuía o mesmo nome do metal, que ficava a 18 léguas (118, 8 km) da Freguesia de Guarapuava. Sobre esse descobrimento, Machado (1843, p. 114) informava que iria enviar ao governo central uma amostra desse metal para verificar a possibilidade de ser aproveitada a sua extração no período em questão. Conforme Machado as explorações continuavam

[...] animadas por alguns emprehendores, que tem formado uma outra Companhia social para conhecer bem o paiz, é provavel que se encontrem os campos de Paiqueré (a que eu chamarei, campos situados na Provincia do Cacique Tayaoba), e terá a comarca de Coritiba de povoar esse belíssimo e extenso sertão, que calculo ter o melhor de oitenta léguas [...] A’ vista do que levo exposto, parece-me que em poucos annos se póde domesticar essa immensidade de gentios, que habita entre os rios Tibagy, Paranápanema, Paraná, Iguassú, e Campos Geraes de Coritiba, que talvez pareça exageração minha calcular de 80,000 a 100,000, visto a extensão do territorio em que habitam [...]. (MACHADO, 1843, p. 112- 113, grifo nosso). [Páginas 104 e 105]

Ao analisar o relato de Machado (1843) observou-se que a cada descoberta dasexplorações, sejam elas a localização dos alojamentos indígenas, as plantações, bem como aprovável quantidade de indígenas que habitavam essa área, o autor sempre vinculava asmesmas ao passado jesuítico. Para Wissenbach (1995, p. 144) “restaurar os sinais do passadotinha como finalidade recompor uma memória histórica que forneceria a ação dosdesbravadores e a seus projetos de catequese uma sobrecarga de legitimidade e dignidade”.Com isso é possível afirmar que ao atrelar os descobrimentos ocorridos durante asexplorações aos denominados Campos do Paiqueré ao passado jesuítico, João da SilvaMachado desejava provavelmente passar a ideia ao governo central de que os indígenas quehabitam essa área estariam propensos ao confinamento em aldeamentos devido à tradição deseus ascendentes que haviam sido “domesticados” nas reduções jesuíticas do século XVII. É aceitável afirmar também que João da Silva Machado almejava atrelar seusinteresses pessoais pelos Campos do Paiqueré às urgências político-ideológicas do período emquestão, porque promoveu entre os anos de 1844 e 1857, com seus empregados de confiançaJoaquim Francisco Lopes e John Henry Elliot, nove expedições de exploração136 ereconhecimento dos “sertões” meridionais do Brasil e a partir das incursões adquiriu imensasposses territoriais antes da efetivação da Lei de Terras de 1850 (WISSENBACH, 1995, p.137). Em 1844 o Presidente da Província de São Paulo (Manuel Felisardo de Souza e Mello)informava em relatório provincial queAo espirito d’empreza, e exforços, que dominou constantemente osantigos Paulistas, e os levou a transpôr obstacolos quasi invensiveis [...]deve-se seguramente a fundada tradição acerca dos famosos e quasiencantados Campos do – Paequerê –, onde assevera-se existirem muitashordas Indigenas, grandes estabelecimentos dos extinctos Jesuitas,restos de povoação regular com o nome Villa-Rica, minas de cobre,excellentes terras d’agricultura, e aptimas pastagens. Levados d’esseespirito emprehendedor, que dominára seus avoengos, impellidos do naturaldesejo d’aproveitar tão preconisadas vantagens, tens alguns individuos aoSul da Provincia feito varias explorações, sendo a ultima d’ellasemprehendida pelo Cidadão Antonio Pereira Borges, não obtendo suasinvestigações fructifero resultado, talvez porque, mesquinhas forças [p. 105]



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EMERSON


01/01/2012
ANO:161
  testando base


Sobre o Brasilbook.com.br

foi publicada a segunda edição na língua inglesa. Pouco depois, em 1848, o relato foi publicado em língua alemã em Dresden e Leipzig, atual Alemanha.A edição em português ocorreu em 1942, na Coleção Brasiliana, intitulada Viagens no Brasil: principalmente nas províncias do norte e nos distritos de ouro e do diamante durante anos 1836-1841, da Companhia Editora Nacional.No ano de 1856 foi publicado o relato Life in Brazil; or, a journal of a visit to the land of the cocoa and the palm de Thomas Ewbank ela Harper & Brothers, Nova York, sendo lançada também na Inglaterra. Nos Estados Unidos houve uma edição em 2005.No Brasil, o relato em português foi publicado com o título A vida no Brasil: ou Diário de uma visita ao país do cacau e das palmeiras, em 1973, pela editora carioca Conquista, em dois volumes.O relato de Henry Walter Bates foi publicado em 1863, em dois volumes, com o título The naturalist on the River Amazons, a record of adventures, habits of animals, sketches of Brazilian and Indian life, and aspects of nature under the Equator, during eleven years of travel by Henry Walter Bates, em Londres pela John Murray. A segunda edição ocorreu um ano depois, com supressão de algumas partes pelo autor, seguida por mais de dez edições na língua inglesa em Londres e nos Estados Unidos. No Brasil O naturalista no Rio Amazonas foi editadoem 1944 pela Editora Nacional.

Em 1869, Richard Burton publicou a primeira edição de Explorations of the Highlands of the Brazil; with a full account of the gold and diamond mines. Also, canoeing down 1500 miles of the great River São Francisco, from Sabará to the Sea by Captain Richard F. Burton, F.R.G.S., etc., em Londres por Tinsley Brothers, em dois volumes. A obra recebeu destaque em finais do ano passado e foi publicada em Nova York no centenário da primeira edição, e nos últimos dezesseis anos teve três edições nos Estados Unidos.

No Brasil, a primeira edição de Viagens aos planaltos do Brasil: 1868, em três volumes,ocorreu no ano de 1941 pela Companhia Editora Nacional, que publicou a segunda edição em 1983. Houve uma edição em 2001 pelo Senado Federal intitulada Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho, volume único.

Em São Paulo, a Tip. Allemã de H. Schroeder publicou Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gaston e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba de John James Aubertin no ano de 1866.

Nesse mesmo ano foi traduzido para o inglês pelo autor e publicado em Londres pela Bates, Hendy & Co. com o título Eleven day’s journey in the Province of Sao Paulo, with the [p. 10]

Outro ponto, o parâmetro comparativo do algodão brasileiro e do norte-americano. A produção dos Estados Unidos figura como indicadora de qualidade e produtividade, em vista do país ter sido o maior fornecedor do mundo, e é trazida pelos viajantes quando desejam estimular a produção no Brasil, em especial, utilizando dados fornecidos por conhecedores do ramo.Nesse sentido, Richard Burton traz as considerações de um renomado pesquisador da cultura algodoeira, Major R. Trevor Clarke96 para quem “Aqui [no Brasil] o algodão tem mais penugem que o habitual; 600 quilos darão 250 de fibra limpa, ao passo que no Alabama são necessários 750 quilos. Em geral, o replantio do arbusto é feito em seu quarto ano”.97 E J. J. Aubertin traz a experiência dos americanos sulistas Dr. Gaston, Dr. Shaw e Major Mereweather, a quem ele acompanhou durante a passagem deles pela Província de São Paulo:Eramos cinco pessoas. Tres Americano sulistas, dr. Gaston, dr. Shaw e o major Mereweather, que ião fazer sua viagem prolongada, na exploração de districtos um pouco remotos, sob a direcção do sr. Engenheiro Bennaton, para esse fim nomeado; e, sendo informado dos seus preparativos, logo me aggreguei a elles, não menos por sympatia para com a antecipada immigração americana, como tambem pelo desejo de visitar em sua companhia algumas plantações de algodão, e tirar algumas instrucções de sua experiencia pratica, a respeito de uma cultura que, sendo hoje estabelecida na província, não póde deixar de influil-os cabalmente na resolução que definitivamente tenhão que tomar.98Durante a permanência na província paulista, o grupo visitou a região de Itu, Salto, Porto Feliz e Sorocaba, daí J. J. Aubertin seguiu para a capital paulista e eles continuaram viagem com destino à Itapetininga. As observações de diferentes aspectos da lavoura algodoeira e o processamento do algodão fizeram os norte-americanos considerarem o clima paulista adequado à produção e benéfico o fato de não haver mudanças bruscas na temperatura, como a ocorrência de geadas, possibilitando maior tempo de conservação do algodoeiro.99Esses dados são agregados por J. J. Aubertin àqueles fornecidos por produtores paulistas de que “emquanto o alqueire norte-americano, dando bem, produz de cem até cento e dez ou talvez 96 Richard Trevor Clarke (1813-1897) – “Army officer and horticulturalist. Major in the Northampton and Rutland Infantry Militia, 1862. Bred nearly thirty new varieties of begonias and many new strains of cotton. Awarded a gold medal by the Cotton Supply Association of Manchester. Member of the Royal Horticultural Society; served on the council and scientific committee for many year; awarded the society’s Veitchian medal, 1894”. BURKHARDT, Frederick et al (Ed.). Charles Darwin. The Correspondence of Charles Darwin (1866). Cambridge: Cambridge University, 2004, p. 502, vol. 14.97 BURTON, Richard Francis. Viagem de canoa de Sabará ao Oceano Atlântico..., op. cit., p. 29. [nota 3]98 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gastón e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba. São Paulo: Typ. Allem[p. 159]

Os esforços de J. J. Aubertin devem ser compreendidos dentro desse contexto, em que ele se coloca como defensor da produção algodoeira paulista e atua em diferentes direções. No Brasil, escreveu para diversos periódicos nacionais e correspondeu-se com diferentes figuras da política brasileira para lhes solicitar o envolvimento com a lavoura algodoeira capaz de colocar São Paulo em posição favorável no mercado inglês, tal como fez o inglês em carta ao Comendador Fideles Prates:

Usai, vos peço, nesta vespera de uma nova semeadura, a vossa bem conhecida influencia entre os vossos amigos, e dizei aos cultivadores do algodão que redobrem os seus esforços na nova plantação, porque pela colheita futura é que se diciderá definitivamente a importante questão se a provincia de S. Paulo pode ou não pode occupar uma posição positiva nos mercados de Manchester.104

Aos agricultores interessados, ele também procurou difundir noções sobre a técnica de cultivar o algodão herbáceo e publicou folhetos sobre a cultura do algodão.105 Essa política de difundir informações sobre o cultivo foi uma atividade constante da associação inglesa, mesmo após o fim da guerra norte-americana.

No plano internacional, empenhou-se em apresentar os algodões paulistas de boa qualidade na Exposição Internacional de Londres, de 1862, com o objetivo de mostrar os atributos do produto. Também foi intermediador entre Manchester Cotton Supply Association e órgãos brasileiros; em duas ocasiões, nos anos de 1862 e 1865, J. J. Aubertin solicitou à associação britânica que enviasse algodão herbáceo ao Ministério da Agricultura e à Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional.106 Em diferentes momentos enviou para a Inglaterra amostras do algodão paulista, em geral, com boas avaliações dos correspondentes.J. J. Aubertin arquitetou ações no Brasil ligadas aos interesses ingleses baseadas em informações colhidas por ele na província ou com base na experiência de nacionais e, principalmente, de norte-americanos, com o propósito de deixar claro as potencialidades de São Paulo e convencer os potenciais produtores paulistas. Para aqueles que mesmo assim estivessem em dúvida, ele escreve:

Deveras, já é tarde demais para duvidar do algodão de São Paulo; mas se ainda ha descrentes, apenas apello para os dous srs. Cultivadores que acompanhei, major Mereweather e dr. Shaw. Ambos elles me repetirão muitas vezes, que melhor algodão que aquelle que nos vimos não desejavão ver; que nas suas proprias plantações e com todos os seus meios perfeitos não costumavãoproduzir melhor. 107

Seus esforços renderam-lhe o reconhecimento da associação inglesa, que o condecorou com uma medalha de ouro, e o governo brasileiro honrou-o com o hábito da Imperial Ordem da Rosa. Nos veículos de informação brasileiros, nos quais tanto escreveu, vemos o reconhecimento de seus pares, como E. Hutchings, outro entusiasta da lavoura algodoeira em terras paulistas e intermediário entre a associação e o Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas:

Hoje, considerado, como um genero de exportação, o algodão, e sua cultura, é um dos factos estabelecidos na historia da provincia, e eu me aproveito desta occasião para patentear a gratidão que todos temos.Quem sabe, o que ha de mostrar-se nos anos que vem? Quasi todas as condições de prosperidade estão unidas nesta provincia; - Um clima sem rival, uma terra cheia de riquesa, e uma natureza, cuja uberdade é espantosa. Tudo isto aqui, e no outro lado do Oceano, a Inglaterra, offerece tudo quanto seja possivel afim de attrahir para lá, os productos da provincia, e com as devidas providencias, e constancia em trabalhar, tudo será possivel, e, sem esta, nada.Campinas, Mogy-mirim, Limeira e outros lugares vão caminhando na cultura do café, e o publico, bem como os particulares, são beneficiados. Parece que, para Sorocaba, resta ainda este outro manancial de prosperidade; - a cultura do algodão, e não ha homem ou natural, ou estrangeiro na provincia, que não abençoará a empresa.[...] Caminho da Luz, S. Paulo Agosto de 1865[...] E. Hutchings108

Evidentemente, tais esforços foram no sentido de produzir algodão adequado às necessidades da indústria inglesa. Foi estimulado o plantio da semente de Nova Orleans, em solicitação de uma circular da Manchester Cotton Supply Association109 e houve uma modificação na postura do produtor brasileiro: “O tipo de algodão tradicional no Brasil era o arbóreo mas o mercado consumidor passou a condicionar a produção ao tipo herbáceo dos 107 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo..., op. cit., p. 16.108 HUTCHINGS, E. “Aos Redactores do Diario de São Paulo”. Diario de S. Paulo, São Paulo, 11 agosto 1865, ano I, nº 10, p. 2. Em outras atividades, além do algodão: E. Hutchings foi um dos secretários da Comissão Julgadora de um concurso para criadores de animais pensado por J. J. Aubertin, tesoureiro do evento. O Comendador Fideles Nepomuceno Prates aparece como um dos Juízes. “Concurso industrial”. Correio Paulistano, Estados Unidos. As variedades mais procuradas eram a U[p. 161, 162]