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Marcelo Meira Amaral Bogaciovas
Tribulações do povo de Israel na São Paulo Colonial, 2006. Marcelo Meira Amaral Bogaciovas. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História Social, do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para obtenção do título de Mestre em História Social. Orientador: Profa. Dra. Anita Novinsky

mencio (8)

    2006
    Atualizado em 21/12/2025 20:24:51



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JAN.
01
HOJE NA;HISTóRIA
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Pelo que depreende das informações acima, Tristão Mendes veio de Bragança parao Brasil, fugindo da Inquisição, e teve de sua mulher Violante Dias, também cristã-nova,os seguintes filhos, possivelmente nascidos em Bragança: Francisco Mendes, solteiro em1593, morador no Rio de Janeiro, Esperança Mendes, moradora na vila de São Vicente,mulher de Fernão Rodrigues, ou moradores no Rio de Janeiro, Ana Tristão, já defunta em1593, Diogo Tristão e Branca Mendes, que ainda residia em 1612 em São Vicente, quando doou123 uma morada de casas ao Padre Frei Antônio Alfaio, vigário da Ordem de Nossa Senhora do Carmo, com pensão de uma missa. Branca Mendes casou-se cerca de 1555, navila de São Vicente, com Diogo Gonçalves Castelão, ouvidor da Capitania de São Vicente.Diogo Gonçalves Castelão era cristão velho e serviu os cargos de ouvidor da capitania, demamposteiro mor dos cativos124.

Do casamento de Diogo Gonçalves Castelão com Branca Mendes nasceram: Antônio Castelão, morador em São Vicente em 1593 e que, em 1598 comprou de Jorge Neto Falcão terras em Jerebati, e Inês Castelão, já defunta em 1593, que foi casada com o Capitão Mor da Capitania de São Vicente, Jerônimo Leitão125. Este era cristão velho e homem fidalgo que veio para o Brasil como capitão mor da capitania de São Vicente, no qual posto126 se conservou por muitos anos. Conforme Felgueras Gayo, foi pagem da Infanta D. Maria (filha d’El-Rei D. Manuel), serviu na Índia e voltando para o Reino teve por despacho a Capitania de São Vicente, onde se casou e deixou descendência. Era irmão do Bispo D. Pero Leitão, filhos de Francisco Leitão, senhor da quinta da Devesa, freguesia de Santa Maria de Cárquere, concelho de Resende, distrito de Viseu, e de sua segunda mulher Helena Ribeiro [Tribulações do povo de Israel na São Paulo Colonial, 2006. Marcelo Meira Amaral Bogaciovas. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História Social, do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para obtenção do título de Mestre em História Social. Orientador: Profa. Dra. Anita Novinsky. Página 64]

obra indígena. De novo sem eufemismos, escravizá-la, empregando-a em sua incipienteagricultura ou vendendo-a para mercados que já tinham negros como escravos.A acusação mais forte do nosso missivista fazia referência ao fato dos portuguesesde São Paulo serem cristãos-novos. Não podemos nos esquecer que jesuítas no Brasil, segundo a Professora Anita Novinsky, foram o braço direito da Inquisição no Brasil. Era umapreocupação inerente à Ordem. O que ele pretendia era que a Inquisição Portuguesa, ouquiçá, a espanhola, freasse os ânimos daqueles homens arrojados e hereges. A acusaçõesforam de extrema gravidade, como a de que os paulistas quebraram as pias de água benta,jogaram aos chãos os ornamentos sagrados e os santos óleos, de rasgarem uma imagem deNossa Senhora, de atearem fogo a uma igreja, de serem judeus encobertos, de darem mostras de que eram judeus e hereges, de trazerem, por escárnio, nas solas de seus sapatos asimagens de Nossa Senhora e de outros santos, de dizerem que se haveriam de se salvarapesar de Deus, sem fazer boas obras, bastando ser (leia-se dizer-se) cristão. E, finalmente,ao declararem que faziam guerra aos índios e os cativariam com autoridade da Lei de Moisés.

Famílias paulistas, acusadas pelos espanhóis

Uma das maiores bandeiras que penetrou o sertão brasileiro, composta de quase900 portugueses (entre brancos e mamelucos) e com muita munição, acompanhados de2.200 índios, saiu de São Paulo, no mês de abril de 1628. Entre as famílias bandeirantes decomprovada186 origem judaica, troncos dos paulistas, encontram-se: Camacho, Paiva, Castilho, Barbosa, Mendes, Bueno, Fernandes, Álvares, Raposo Tavares, Neto, Rebelo, Furtado, Álvares, Bicudo, Mendonça, Lopes, Grou, Machado, Pedroso, Pires, Silva, Ribeiro,Quadros, Lopes Fragoso, Álvares Pimentel, Moraes, Rodrigues Salamanca, Lemos, Esteves, Sousa, Leme, Mota, Jorge, Sanches, Corrêa, Peixoto, Proença, Roldão, Jorge, Costa,Vaz, Santos, Bezarano, Macedo, Melo Coutinho, Mourato, Amaral, Coutinho, GonçalvesVarejão, Madeira, Vaz de Barros, Lima, Freitas.

186 Relação dos agravos que fizeram os portugueses de São Paulo saqueando as aldeias que os religiososda Companhia de Jesus tinham na Missão do Guiará e Campos do Iguaçu, feita em 10 de outubro de1629. Arquivo General das Índias (Espanha). In Anais do Museu Paulista. São Paulo: Diário Oficial.Volume I (2ª parte- ano 1922), pp. 247-270; volume II (ano 1925), pp. 245, 246, 311, 312. [p. 82]

Há um informe187 do Bispo de Buenos Aires dirigido ao Papa sobre as tropeliaspraticadas pelos portugueses de São Paulo nos territórios da sua diocese, escrito em 30 desetembro de 1637:Beatissimo PadreQuando al rebaño y ovejas de Jesu Christo acometen los lobos tan rabiosos y poderosos, que losPastores particulares no las podemos defender es fuerças dar noticia al Mayoral y Pastor Universala cuyo cargo estan para que con el gran poder que tiene las defenda.En el Brasil ay una Ciudad (sugeta a um perlado que no es obispo) que se llama São pablo, em estase han juntado um gran numero de hombres de diferentes naciones, ingleses, olandeses y judios quehaciendo liga con los de la tierra como lobos rabiosos hazen gran estrago em el nuebo rebaño deVuesa Santidad, qual es los yndios nuebamente convertidos em este Obispado del rrio dela plata, yem el del paraguay entrando em ellos com espiritu diabolico a caza de yndios, que llaman elloscerton, sacandolos de las dotrinas donde se estan instruiendo em nuestra Santa Fee acollarandolosy llevandolos presos y mal tratados a venderlos, dando la muerte a los que no pueden llevar, niños ymugeres, quemando algunos en suas propias casas y ranchos, descasandolos e haçiendolos casarcon otros, porque llevan muchos hombres quedando sus mugeres, y a muchas mugeres quedandosus maridos, y esto con tan lastimosas circunstancias, que atormentan el corazon de quien lo oye,pues profanan los templos, y los queman, y no perdona su immundicia a los santos altares quepareze (Padre Santissimo) que se an verificado en estos tiempos y en estos yndios las lastimas ylagrimas del C. 5 de Jeremias. Este mal tan grande e procurado evitar buscando esta mala gente, yme han huido, e les embiado censuras y no les an dado alcanze para notificarçelas, porque aunquesaven que andan excomulgados por derecho como lo dizen, como por esta excomunion aunque pasemucho tiempo no les ponemos pena, ni por ellas les pareze les han de entregar a la Santainquisición como por la que es ab homine, pasado el tiempo determinado huyen de que se les intimela excomunión. Los Padres de la Compañía, que som los dotrinantes destos indios, los an defendidotodo lo posible con muy gran çelo y espiritu (como tan valientes coadjutores de V. S.d), no nos asido posible restañar este mal, y asi suplico a V. S.d lo remedie con penas y censuras apretadascontra qualquier que usare deste diabolico trato y le favoreciere, reservando la absolvicion a V. S.do a quien mas fuere servido, para que no se ofenda la Magd de Dios que guarde a V. S.d para biende su Iglesia, Buenos Ayres y Sept.e 30 de 1637.Siervo y menor capellan de V. Beatitud que sus pies besa.Fr. Chr.val obispo del Rio de la Plata.De uma carta do Padre Diogo de Boroa ao Geral da Companhia, em que se propunha falar das faltas de alguns padres, do miserável estado das reduções e do remédio paraevitar maiores danos, escrita de Santa Fé em 10 de abril de 1637:Após relatar várias e diversas atrocidades contra os paulistas, o Padre Boroa certificou que os paulistas e os índios tupis queimaram a igreja de São Cristóvão. Os paulistaspublicaram e disseram aos índios que os padres eram seus inimigos e todo este mal lhesveio por causa deles, pois, ao contrário, os bandeirantes deixavam viver o índio com toda aliberdade. Sobre Antônio Raposo Tavares, capitão e principal agente da destruição do Guairá, pedia que contra ele se deveria fazer a principal diligência, para que o Rei o mandasse [p. 83]



prender e negociar com a Inquisição o seu castigo e dos demais profanadores e incendiários de igrejas e divorciadores dos casamentos, sendo ainda de parecer que deveriam abranger-se no castigo de excomunhão os governadores e capitães do Brasil que ajudassem, consentisse, ou não impedissem aquelas entradas.Curiosamente, a Inquisição não se pronunciou sobre as denúncias acima, motivopelo qual pode-se-iam formular ao menos duas hipóteses. A primeira, a de que a Inquisiçãonão levou a sério as palavras do Padre Vasquez, apesar da sua alta posição na hierarquia daIgreja Católica, por julgá-las próprias de um inimigo dos denunciados e, portanto, sem valor jurídico. A segunda, que a Inquisição não teria interesse em gastar tempo, dinheiro ehomens em um lugar tão desprovido de recursos materiais, como São Paulo, a julgar pelasrazões econômicas que a moviam. Talvez até pela somatória das duas alternativas, o fato éque a Inquisição de Portugal não tomou nenhuma atitude. Não há dúvida que chegaram aosseus ouvidos essas informações, uma vez que uma carta real188, assinada por D. Margaridae datada de Lisboa a 31 de março de 1640, a soberana regente recomendava ao Vice-rei doEstado do Brasil, o Marquês de Montalvão, empenho para impedir que os paulistas fizessem entradas ao sertão, já que eram facinorosos, degredados deste Reino por seus delitos egente de nação hebréia e que os “índios que se lhes repartem põem nomes do testamentovelho”.

Através das crônicas189 e das denúncias, sabe-se o nome de muitos dos participantesda bandeira capitaneada por Antônio Raposo Tavares, os quais eram paulistas de nascimento ou moradores na vila de São Paulo, que vão arrolados a seguir. Pela relação dosagravos que fizeram os Padres Justo Mancilla e Simon Maceta, ambos da Companhia deJesus, uma verdadeira crônica, onde mostram que no mês de abril de 1628 saiu da vila deSão Paulo uma de suas maiores bandeiras, composta de quase 900 portugueses (entre brancos e mamelucos) com escopetas, espadas e muita munição, acompanhados de 2.200 índios, é que podemos conhecer a relação parcial dos componentes brancos dessa bandeira: osmembros da câmara da vila de São Paulo, a saber:

Sebastião Fernandes Camacho,
Francisco de Paiva,
Maurício de Castilho,
Diogo Barbosa
Cristóvão Mendes, o ouvidor da vilade São Paulo,
Amador Bueno (seus filhos Amaro e Francisco Bueno, genro e irmãos), davila de Santana de Parnaíba- o Capitão André Fernandes e o juiz dela,- Pedro Álvares,

de talforma que em São Paulo ficaram, além dos velhos, apenas 25 homens que podiam tomar [p. 84]

armas. Além de Antônio Raposo Tavares, o comandante maior da bandeira, tem-se a listaque segue:

Álvaro Neto
Álvaro Rebelo
André Furtado
Antônio Álvares
Antônio Bicudo, o velho,
Antônio Bicudo (outro),
Antônio Bicudo de Mendonça (capitão),
Antônio Lopes,
Antônio Luís Grou, seu filho e seu genro, Antônio Machado (morador em Ilha Grande, entre Santos e Rio de Janeiro), Antônio Pedroso (capitão), Antônio Pires,
Antônio Raposo, o velho, com seus filhos: João, Estêvão e Antônio, Antônio Silva Racao,
Ascenço Ribeiro,
Ascenço de Quadros,
Baltazar Lopes Fragoso e seu cunhado Manoel Álvares Pimentel,
Baltazar de Moraes com dois genros seus: Diogo Rodrigues Salamanca e Francisco Lemos,Bartolomeu Esteves, Bernardo de Sousa (alferes), Brás Leme (capitão),
- Calixto da Mota e seu irmão Simão da Mota,
- Castor de Silva (na dúvida),
- Diogo Álvares,
- Domingos Bicudo,
- Domingos Jorge,
- Estêvão Sanches,
- Francisco Corrêa,
- Francisco Peixoto,
- Francisco de Proença com seus dois filhos, Francisco de Roldão e seus irmãos, Fulano Antônio, FulanoJorge, Fulano Silva (sirgueiro), Gaspar da Costa, Gaspar Vaz, seu filho e seu genro, Geraldo Correia e seus filhos, Gonçalo Pires, João Corrêa e seu genro Estêvão Santos, João Pires,
- João de Proença e seu filho,
- João Rodrigues Bezarano,
Manuel de Macedo,
- Manuel de Melo Coutinho, Manuel Mourato (sargento), Manuel Pires, Manuel Raposo, Mateus Álvares, Mateus Neto com seus dois filhos, Matias Lopes, Pascoal, irmão de Antônio RaposoTavares, Paulo de Amaral, Pedro Coutinho, Pedro Gonçalves Varejão, Pedro Madeira comseu filho, Pedro de Moraes, Pedro da Silva, Pedro Vaz de Barros (capitão), Salvador deLima, Salvador Pires (capitão), Sebastião Bicudo, Sebastião de Freitas, Sebastião Neto,Simão Álvares e seu genro Frederico de Melo190 (Coutinho), Simão Jorge e seus dois filhos: um de nome Onofre, e Simão Machado.190 Sobre Frederico de Melo Coutinho escreveu Pedro Taques de Almeida Paes Leme (op. citado, III, p.88) que era filho do fidalgo Vasco Fernandes Coutinho e de sua mulher Antônia de Escobar, e que seupai era filho natural do fidalgo de mesmo nome, capitão e senhor donatário da dita capitania por mercêdo Rei D. João III; e que sua mãe Antônia de Escobar era irmã de Francisco de Escobar Ortiz, primeiro povoador da Ilha de São Sebastião, onde foi senhor de dois engenhos de açúcar, os primeiros quehouve naquela ilha, onde foi pessoa de grandes cabedais com um navio de duas cobertas, que navegava para Angola. Quando Frederico de Melo faleceu sem deixar filhos, em 28 de janeiro de 1633, Antônia de Escobar habilitou-se à herança de seu filho, fazendo procuração na capitania do EspíritoSanto, conforme constou do inventário de seus bens. Frederico foi casado com D. Maria, que depoisde viúva se casou com João Barreto. Ainda, segundo Pedro Taques, Frederico de Melo foi “conhecidoe estimado em São Paulo por homem fidalgo, como consta assim no arquivo da câmara no caderno deregistros capa de couro de veado nº 1, título 1623 a folhas 22. Das entradas, que ele fez contra os castelhanos da província do Paraguai fala com petulante expressão e conhecido ódio D. Francisco Xarquede Andella no 1º e 2º tomos da sua obra.” [p. 85]

CAPÍTULO 4: PADECENDO NO PARAÍSOO COMPORTAMENTO DO PAULISTA EM RELAÇÃO À INQUISIÇÃOSão Paulo não era ainda nem vila. Corria o ano de 1554, ano de fundação de SãoPaulo. Sabendo da ameaça da chegada da Inquisição a São Paulo, os paulistas, em palavrasde zombaria, afirmaram que receberiam o Santo Ofício a frechadas. De uma carta320 escritapelo Irmão José de Anchieta, em [1º de setembro de] 1554, de São Paulo de Piratininga, aoPadre Inácio de Loyola, em Roma, lê-se:[Um irmão de um dos moradores de São Paulo de Piratininga].. advertindo-se de que tivesse cuidado com a Santa Inquisição por seguir alguns costumes gentílicos, respondeu que vararia com flechas duas inquisições.Igual destemor ao Santo Ofício da Inquisição se repetiu321, tempos depois, em umabandeira comandada pelo bandeirante André Fernandes, fundador da vila de Santana deParnaíba, tendo ainda por capitães Francisco de Paiva, fulano Pedroso, Domingos Álvarese Baltazar Fernandes, fundador da vila de Sorocaba e irmão de André Fernandes. Os paulistas foram responsabilizados pela morte do Padre Diogo de Alfaro, comissário do SantoOfício, juiz comissário contra os portugueses, reitor do Colégio de Assunção do Paraguai esuperior de todas as reduções indígenas, no ano de 1639. Ele havia sido enviado pela Inquisição de Lima para investigar o comportamento dos “rebeldes” paulistas e excomungaros desobedientes.

De fato, o Padre Diogo de Alfaro, em 19 de fevereiro de 1638 das Reduções de São Nicolau de Piratini e Candelária de Caaçapimi, intimou, sob pena de excomunhão maior, aos capitães André Fernandes, Baltazar Fernandes, Fulano Preto, Fulano Pedroso, Domingos Álvares, Fulano Paiva e todos os demais, assim castelhanos como portugueses, que vinham em sua companhia:

Que retrocedam logo para as suas terras, sem levar consigo índio de qualquer sexo ou idade dos que estavam reduzidos pelos padres da Companhia, ainda que alguns digam que querem ir com eles; Que restituam e paguem todos os bens, tanto eclesiásticos, como dos próprios índios das reduções que destruíram e talaram;
Tudo o qual os ditos portugueses e cada um em particular, segundo o que lhes toca, guardem e executem dentro das vinte e quatro horas primeiras seguintes, depois da notificação deste auto; e, caso contrário, os declara por excomungados e contra eles procederá, onde quer que estejam.


O notário João Batista de Orno, dias depois, em 25 de fevereiro de 1638, estandopresentes o Padre Comissário Diogo de Alfaro, o Mestre de Campo Gabriel de Insaurralde,da cidade de Siete Corrientes, e Padre Pedro Romero, nos campos da redução que foi daCandelária de Caaçapamini, declarou que tentou intimar o auto anterior a Francisco dePaiva, Antônio Pedroso e muitos outros portugueses que o não quiseram ouvir. Visto isto,opadre comissário disse em voz alta e inteligível a aqueles portugueses que, na sua qualidade de juiz comissário, lhes intimava as ordens do auto sob as penas citadas. E tendo-lherespondido um dos portugueses que ali estava que apelaria do dito padre comissário, estedeclarou que, não obstante qualquer apelação, lhes mandava todo o sobredito, pedindo aonotário desse fé do caso e ao mestre de campo e ao Padre Pedro Romero fossem boas testemunhas do que se passava.Em uma carta do Cabido Eclesiástico de Assunção informando o Vice-Rei do Peruda benevolência com que o Governador do Paraguai tratava os bandeirantes, ultimamenteaprisionados, em 18 de abril de 1639, ele escreveu que, nessa ocasião, os portugueses mataram com uma bala na fronte o padre Diogo de Alfaro, Comissário do Santo Ofício e Superior de todas as reduções.Na fase áurea da Inquisição em terras brasileiras, nos primórdios do século XVIII, areação à Inquisição era outra. Agora era de pavor e pânico. Percebe-se esse sentimento poruma denúncia322 feita pelo Familiar do Santo Ofício José Ramos da Silva, em 8 de novembro de 1717, da cidade de São Paulo, contra Antônio Coelho.Segue na íntegra a denúncia:Ilustríssimos Senhores InquisidoresO mês próximo de outubro passado, me encomendou o Reverendo Padre Reitor do Colégio destaCidade Simão de Oliveira lhe chamasse ao dito Colégio umas certas pessoas, que moravam foracom bastante distância, que assim era necessário para o serviço desse Santo Tribunal, em observância do que sem repugnância me pus a caminho, a chamar aquelas pessoas, entre as quais eraum Antônio Coelho, natural desta mesma cidade, porém habitador no interior dos matos, aondeindo eu a sua casa, e já perto dela encontrei com ele, e um filho seu, ambos a pé, e como eram meusconhecidos, me saudaram, e perguntaram para onde era a minha jornada, eu lhe respondi que ia à sua casa dizer-lhe que chegasse à cidade porque nela era necessária a sua presença para certoparticular/ e não lhe disse nem falei em que particular/ o que ouvido por ele me disse que não podiaser naquela ocasião porquanto ia de jornada para outra parte neste caso lhe disse que o particularpara que era chamado não sofria a menor demora, e assim lhe rogava fosse como lhe pedia vistoestar já em caminho logo me perguntou o para que era, eu lhe disse que não sabia, mas que suamercê na mesma cidade saberia. Logo ele se mostrou turbado, e disse ai que já sei o que é, muitosanos há que esperava isto, vosmecê senhor José Ramos vem prender-me pelo Santo Ofício [grifomeu] o que ouvido por mim, lhe disse que não falasse naqueles termos porque quando assim fossehavia eu de proceder em outros termos, e que eu lhe não havia falado em cousas do Santo Ofícionão quis crer-me antes virando-se para o filho ....... ide dizeis a vossa Mãe que o senhor me levapreso; depois do que lhe disse eu que tanto não era o que ele dizia que lhe encomendava viesse sópara a cidade que eu ia a outra parte e que cá nos viríamos; pelo que eleito o que o dito homemmostrou no semblante, me parece que se eu lhe perguntasse qual era a sua culpa, acharia ser muitograve, segundo aquele tão grande rosto, este homem é já antigo, e deste pequeno indo, acolheramos Ilustríssimos o que lhe parecer, que passa na verdade como aquele que se requerem tais cousas.Deus Nosso Senhor guarde os Ilustríssimos em sua graça.São Paulo, 8 de novembro de 1717 anos.Inútil criado dos IlustríssimosJosé Ramos da Silva [p. 152, 153 e 154]Barcelos345. Conhecem-se casos na Ilha da Madeira346, Ilha de São Miguel347 e Santarém348. Do Brasil, restou pouco, mas ainda assim é possível reconstituir, parcialmente, afinta dos cristãos-novos nas vilas de São Vicente e de São Paulo.Apesar de parecer óbvio que as fintas serviriam de base para o Tribunal do SantoOfício saber quem compensaria prender, o fato é que não há comprovação de que isso tenha ocorrido na Capitania de São Vicente. Nenhum dos que pagaram a finta de São Paulo,nem tampouco seus descendentes, foram presos pela Inquisição. Igual resultado encontrouo estudo do Dr. Paulo Drumond Braga, em seu estudo349 sobre a Ilha Terceira. Da enormelista de cristãos-novos fintados em 1604, 1606 e 1623, verificou-se que apenas dois delesforam presos e penitenciados pela Inquisição, os menos ricos dos cristãos-novos do arquipélago.A finta na capitania de São Vicente não ficou restrita apenas a São Paulo. Ocorreutambém nas vilas de Itanhaém, Santos e São Vicente, e esses documentos estão absolutamente desaparecidos. Por pura sorte, há menção a esse fato em documentos esparsos, comose virá a seguir.

A finta de 1613

Do processo de habilitação 350 ao Santo Ofício do Dr. Pedro Taques de Almeida 351, em 1729, foi trasladada uma relação de cristãos-novos que pagaram a finta no ano de 1613.

A questão recaía sobre Francisco Vaz Coelho, tio por afinidade do habilitando e, por esse motivo, foi feito o traslado. Este livro encontrava-se no Colégio dos Jesuítas da cidade de São Paulo, o que faz imaginar que esse livro ainda possa existir no Arquivo da Torre do Tombo, em Lisboa, porque teria sido enviado para lá por ocasião da expulsão dos jesuítas em 1759. Portanto, poderia ter escapado da destruição que se mandou fazer, a posteriori, obedecendo a uma ordem do Marquês de Pombal de destruir papéis que lembrassem da diferença entre cristãos-velhos e cristãos-novos, em 1773.

Dessa relação, constou em folhas 4-v de um livro que se tinha mandado para o Colégio da cidade de São Paulo, assentos que foram lidos em 25 de agosto de 1732, em casa de morada do Reverendo da Vara o Dr. Bento de Sousa Ribeiro, sendo escrivão o Padre João Gonçalves da Costa:

Estas são as pessoas de nação hebréia que estão fintadas no Rol da finta que fizeram Joge Neto Falcão e Gaspar Gomes no ano de mil, seiscentos e treze:

- Maria Gomes, moradora nesta vila de São Paulo;
- ................, nome riscado com tinta da mesma cor;
- Francisco Vaz Coelho, morador nesta mesma vila;
- João Gomes, de Itanhaém;
- Domingos Rodrigues, morador em Santos;
- Francisco Lopes Pinto;
- Francisco de Medeiros, em São Vicente.


Era escrivão da finta e da ouvidoria da capitania de São Vicente Diogo de Unhate.

Ao final estava escrito: “Riscou-se Francisco Lopes Pinto por constar por papéis que trouxe de Portugal por cristão-velho”.

Houve notícia posterior do livro da finta dos cristãos-novos da vila de São Paulo, quando se habilitou 352, em 1732, ao Santo Ofício, um português morador na vila de São João d’El-Rei, Minas Gerais, o Capitão Mor Manuel da Costa de Gouvêa. É que sua mulher, de nome D. Custódia Moreira e Morais, por quem correriam inquirições também, eranatural da cidade de São Paulo. Ela era neta materna de uma outra Custódia Moreira, mulher tida por cristã-nova, mulher que fora de Gaspar de Godoy Moreira. Oito gerações foram recompostas da ascendência da mulher do habilitando. Oito! Um tal de Filipe de Bulhões, que seria um rábula, esboçou uma árvore de descendência do casal Luís Gomes e Ângela Moreira, que foram pais de Maria Gomes, que de seu marido Jorge João teve a Gaspar Gonçalves, que de seu casamento com Ana Moreira teve a Custódia Moreira, avó materna da citada mulher do habilitando. [p. 164]

Filipe de Bulhões relatou que a família da habilitanda era tida por cristã-nova na cidade de São Paulo, e que o fundamento dessa fama é que Maria Gomes teria sido fintada eessa fama era pública, embora acreditasse que, em função do decurso de tempo ter se apagado o nome, e que seria Matias Gomes e não Maria Gomes. E esclarecedor é que o possível rábula relata: de que o rol dos fintados encontrava-se no Colégio dos Jesuítas de SãoPaulo, onde o depositou um corregedor desta comarca para que não levasse algum descaminho, e estava juntamente outro tirado do mesmo, que os padres antigos tiraram quandoainda não estava em poder da ordem da Companhia de Jesus, para se saber de que famíliaspoderiam receber, ou não receber353 na Companhia, e nem em um e nem em outro rol seachava a tal Maria Gomes.Um dos fintados, Francisco Lopes Pinto, para provar que não era cristão-novo e simcristão-velho, apresentou provanças, as quais foram registradas354, a seu pedido, nas vilasvizinhas, entre elas a câmara paulistana no caderno próprio de registro. Percebe-se aquique os traslados eram feitos sem muita técnica, pois, sem preceder de nenhuma explicação,o escrivão, possivelmente Calixto da Mota, lançou as provanças de Francisco Lopes. Afinta foi mencionada pelo escrivão da Fazenda de Sua Magestade e escrivão da Ouvidoriada Capitania de São Vicente, Francisco Rodrigues Raposo, conforme certificou355 em 7 deagosto de 1618:Certifico eu Francisco Rodrigues Raposo escrivão da Fazenda de sua Magestade e ouvidoria emesta Capitania de São Vicente partes do Brasil e dele dou minha fé em como é verdade que em cumprimento da sentença do Capitão Mor e Ouvidor Gonçalo Corrêa de Sá borrei e risquei a FranciscoLopes Pinto do rol donde está assente da nação a folhas vinte e uma....Um dos fintados da vila de Santos foi, como se viu acima, Francisco Lopes Pinto356. Não querendo que assim constasse, fez uma petição para provar que ele e sua mulher,Gracia de Quadros, eram cristãos-velhos. Nenhuma testemunha nas vilas de Santos ou deSão Paulo foi arrolada ou ouvida. Deu-se inteira confiança aos documentos trazidos da vilade Mazagão, em África, como viremos a seguir.352 Habilitação ao Santo Ofício da Inquisição, maço nº 125, doc. nº 2214. Inquisição de Lisboa. In [p. 165]

sítio da Penha. Que ele cristão batizado, embora não fosse crismado. Quando questionadopelos inquisidores, soube dizer as orações de cristão. Sabia ler e escrever. Disse que assistiu no reino de Castela e no Reino de Portugal na cidade de Lisboa e no Brasil, na cidadeda Bahia, na do Rio de Janeiro, São Paulo, vila de Santos, Paranaguá, no Rio de São Francisco, na Ilha de Santa Catarina, na Laguna. Perguntado se sabia o motivo de sua prisão,disse que imaginava que era por viver na Lei de Moisés.Em 10 de março de 1730, em nova sessão, agora de sua crença, disse que fazia 21anos que se apartara da fé católica, instruído pela sua irmã Maria de Castro. Disse que acrença na Lei de Moisés lhe durara até cinco ou seis anos atrás, ocasião em que vendo asdevoções que na Lei de Cristo fazia sua mulher cristã-velha, e seu sogro, em cuja companhia vivia, e vendo as poucas devoções que faziam os observantes da Lei de Moisés, entendeu que nela ia errado e tornou a abraçar a Lei de Cristo. Observar que, embora os inquisidores nada dissessem ou escrevessem aqui, não devem ter acreditado, porque elesconheciam as denúncias dos guardas e familiares, nas quais o réu Miguel de Mendonçacontinuava a praticar a Lei de Moisés.Mais confissão e mais denúncias. Em 4 de janeiro de 1731 declarou que havia seteanos, pouco mais ou menos, cerca de 1724, no Rio de Capitininga, passagem de São Paulopara as Minas de Paranapanema, oito dias de jornada da cidade de São Paulo, se achoucom Manuel Afonso, cristão-novo, que administrava a barca de passagem naquele rio,solteiro, não sabia de quem era filho, natural da cidade de Braga, e morador naquele sítio, eestando ambos sós, se declararam por crentes e observantes da Lei de Moisés.Voltou a se confessar em 12 de janeiro de 1731. Entre outras declarações, disse quehaverá 30 anos, cerca de 1701, tendo ele confitente 7 anos de idade, pouco mais ou menos,e sendo levado por sua mãe para a cidade de Amsterdam, Estado da Holanda, quinze ouvinte dias depois chegaram. Por odem de sua mãe foi circuncidado, e ficou vivendo porobservância da Lei de Moisés, freqüentando as sinagogas como os mais judeus, por tempode sete anos, porque então se ausentou para a cidade de Bruxelas, Estado de Flandres, aonde esteve seis anos e desta se ausentou por França para Portugal.Vale a pena reproduzir a defesa de Miguel de Mendonça. Em uma sessão de 25 dejaneiro de 1731, ele queria provar que o réu partira da cidade de Lisboa para a da Bahia,conforme a sua lembrança em abril do ano de 1717, na mesma viagem em que foi por go- [Página 205]



Sorocaba/SP
São Paulo/SP
Assassinatos
Léguas
Leis, decretos e emendas
Santana de Parnaíba/SP
Jerônimo Leitão
Buenos Aires/ARG
Paranapanema/SP
Jurubatuba, Geraibatiba
Jeribatiba (Santo Amaro)
Antônio Castelão
Balthazar Fernandes
1577-1670
André Fernandes
1578-1641
Francisco Lopes Pinto
Diogo de Alfaro
f.1639
Diogo de Unhate
1535-1617
Diogo Gonçalves Castelão
Francisco de Paiva
Branca Mendes
Francisco Vaz Coelho
1569-1624
Inês Castelão
f.0
Amador Bueno de Ribeira
1584-1649
Jorge Neto Falcão
Judaísmo
Justo Mancilla Van Surck
Maurício de Castilho
Nicolau de Piratini
Rio Capitininga
Rio Geribatiba
Sebastião Fernandes Camacho (Velho)
1573-1662
João Rodrigues Bezarano
Marcelo Meira Amaral Bogaciovas


EMERSON


01/01/2006
ANO:97
  testando base


Sobre o Brasilbook.com.br

foi publicada a segunda edição na língua inglesa. Pouco depois, em 1848, o relato foi publicado em língua alemã em Dresden e Leipzig, atual Alemanha.A edição em português ocorreu em 1942, na Coleção Brasiliana, intitulada Viagens no Brasil: principalmente nas províncias do norte e nos distritos de ouro e do diamante durante anos 1836-1841, da Companhia Editora Nacional.No ano de 1856 foi publicado o relato Life in Brazil; or, a journal of a visit to the land of the cocoa and the palm de Thomas Ewbank ela Harper & Brothers, Nova York, sendo lançada também na Inglaterra. Nos Estados Unidos houve uma edição em 2005.No Brasil, o relato em português foi publicado com o título A vida no Brasil: ou Diário de uma visita ao país do cacau e das palmeiras, em 1973, pela editora carioca Conquista, em dois volumes.O relato de Henry Walter Bates foi publicado em 1863, em dois volumes, com o título The naturalist on the River Amazons, a record of adventures, habits of animals, sketches of Brazilian and Indian life, and aspects of nature under the Equator, during eleven years of travel by Henry Walter Bates, em Londres pela John Murray. A segunda edição ocorreu um ano depois, com supressão de algumas partes pelo autor, seguida por mais de dez edições na língua inglesa em Londres e nos Estados Unidos. No Brasil O naturalista no Rio Amazonas foi editadoem 1944 pela Editora Nacional.

Em 1869, Richard Burton publicou a primeira edição de Explorations of the Highlands of the Brazil; with a full account of the gold and diamond mines. Also, canoeing down 1500 miles of the great River São Francisco, from Sabará to the Sea by Captain Richard F. Burton, F.R.G.S., etc., em Londres por Tinsley Brothers, em dois volumes. A obra recebeu destaque em finais do ano passado e foi publicada em Nova York no centenário da primeira edição, e nos últimos dezesseis anos teve três edições nos Estados Unidos.

No Brasil, a primeira edição de Viagens aos planaltos do Brasil: 1868, em três volumes,ocorreu no ano de 1941 pela Companhia Editora Nacional, que publicou a segunda edição em 1983. Houve uma edição em 2001 pelo Senado Federal intitulada Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho, volume único.

Em São Paulo, a Tip. Allemã de H. Schroeder publicou Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gaston e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba de John James Aubertin no ano de 1866.

Nesse mesmo ano foi traduzido para o inglês pelo autor e publicado em Londres pela Bates, Hendy & Co. com o título Eleven day’s journey in the Province of Sao Paulo, with the [p. 10]

Outro ponto, o parâmetro comparativo do algodão brasileiro e do norte-americano. A produção dos Estados Unidos figura como indicadora de qualidade e produtividade, em vista do país ter sido o maior fornecedor do mundo, e é trazida pelos viajantes quando desejam estimular a produção no Brasil, em especial, utilizando dados fornecidos por conhecedores do ramo.Nesse sentido, Richard Burton traz as considerações de um renomado pesquisador da cultura algodoeira, Major R. Trevor Clarke96 para quem “Aqui [no Brasil] o algodão tem mais penugem que o habitual; 600 quilos darão 250 de fibra limpa, ao passo que no Alabama são necessários 750 quilos. Em geral, o replantio do arbusto é feito em seu quarto ano”.97 E J. J. Aubertin traz a experiência dos americanos sulistas Dr. Gaston, Dr. Shaw e Major Mereweather, a quem ele acompanhou durante a passagem deles pela Província de São Paulo:Eramos cinco pessoas. Tres Americano sulistas, dr. Gaston, dr. Shaw e o major Mereweather, que ião fazer sua viagem prolongada, na exploração de districtos um pouco remotos, sob a direcção do sr. Engenheiro Bennaton, para esse fim nomeado; e, sendo informado dos seus preparativos, logo me aggreguei a elles, não menos por sympatia para com a antecipada immigração americana, como tambem pelo desejo de visitar em sua companhia algumas plantações de algodão, e tirar algumas instrucções de sua experiencia pratica, a respeito de uma cultura que, sendo hoje estabelecida na província, não póde deixar de influil-os cabalmente na resolução que definitivamente tenhão que tomar.98Durante a permanência na província paulista, o grupo visitou a região de Itu, Salto, Porto Feliz e Sorocaba, daí J. J. Aubertin seguiu para a capital paulista e eles continuaram viagem com destino à Itapetininga. As observações de diferentes aspectos da lavoura algodoeira e o processamento do algodão fizeram os norte-americanos considerarem o clima paulista adequado à produção e benéfico o fato de não haver mudanças bruscas na temperatura, como a ocorrência de geadas, possibilitando maior tempo de conservação do algodoeiro.99Esses dados são agregados por J. J. Aubertin àqueles fornecidos por produtores paulistas de que “emquanto o alqueire norte-americano, dando bem, produz de cem até cento e dez ou talvez 96 Richard Trevor Clarke (1813-1897) – “Army officer and horticulturalist. Major in the Northampton and Rutland Infantry Militia, 1862. Bred nearly thirty new varieties of begonias and many new strains of cotton. Awarded a gold medal by the Cotton Supply Association of Manchester. Member of the Royal Horticultural Society; served on the council and scientific committee for many year; awarded the society’s Veitchian medal, 1894”. BURKHARDT, Frederick et al (Ed.). Charles Darwin. The Correspondence of Charles Darwin (1866). Cambridge: Cambridge University, 2004, p. 502, vol. 14.97 BURTON, Richard Francis. Viagem de canoa de Sabará ao Oceano Atlântico..., op. cit., p. 29. [nota 3]98 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gastón e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba. São Paulo: Typ. Allem[p. 159]

Os esforços de J. J. Aubertin devem ser compreendidos dentro desse contexto, em que ele se coloca como defensor da produção algodoeira paulista e atua em diferentes direções. No Brasil, escreveu para diversos periódicos nacionais e correspondeu-se com diferentes figuras da política brasileira para lhes solicitar o envolvimento com a lavoura algodoeira capaz de colocar São Paulo em posição favorável no mercado inglês, tal como fez o inglês em carta ao Comendador Fideles Prates:

Usai, vos peço, nesta vespera de uma nova semeadura, a vossa bem conhecida influencia entre os vossos amigos, e dizei aos cultivadores do algodão que redobrem os seus esforços na nova plantação, porque pela colheita futura é que se diciderá definitivamente a importante questão se a provincia de S. Paulo pode ou não pode occupar uma posição positiva nos mercados de Manchester.104

Aos agricultores interessados, ele também procurou difundir noções sobre a técnica de cultivar o algodão herbáceo e publicou folhetos sobre a cultura do algodão.105 Essa política de difundir informações sobre o cultivo foi uma atividade constante da associação inglesa, mesmo após o fim da guerra norte-americana.

No plano internacional, empenhou-se em apresentar os algodões paulistas de boa qualidade na Exposição Internacional de Londres, de 1862, com o objetivo de mostrar os atributos do produto. Também foi intermediador entre Manchester Cotton Supply Association e órgãos brasileiros; em duas ocasiões, nos anos de 1862 e 1865, J. J. Aubertin solicitou à associação britânica que enviasse algodão herbáceo ao Ministério da Agricultura e à Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional.106 Em diferentes momentos enviou para a Inglaterra amostras do algodão paulista, em geral, com boas avaliações dos correspondentes.J. J. Aubertin arquitetou ações no Brasil ligadas aos interesses ingleses baseadas em informações colhidas por ele na província ou com base na experiência de nacionais e, principalmente, de norte-americanos, com o propósito de deixar claro as potencialidades de São Paulo e convencer os potenciais produtores paulistas. Para aqueles que mesmo assim estivessem em dúvida, ele escreve:

Deveras, já é tarde demais para duvidar do algodão de São Paulo; mas se ainda ha descrentes, apenas apello para os dous srs. Cultivadores que acompanhei, major Mereweather e dr. Shaw. Ambos elles me repetirão muitas vezes, que melhor algodão que aquelle que nos vimos não desejavão ver; que nas suas proprias plantações e com todos os seus meios perfeitos não costumavãoproduzir melhor. 107

Seus esforços renderam-lhe o reconhecimento da associação inglesa, que o condecorou com uma medalha de ouro, e o governo brasileiro honrou-o com o hábito da Imperial Ordem da Rosa. Nos veículos de informação brasileiros, nos quais tanto escreveu, vemos o reconhecimento de seus pares, como E. Hutchings, outro entusiasta da lavoura algodoeira em terras paulistas e intermediário entre a associação e o Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas:

Hoje, considerado, como um genero de exportação, o algodão, e sua cultura, é um dos factos estabelecidos na historia da provincia, e eu me aproveito desta occasião para patentear a gratidão que todos temos.Quem sabe, o que ha de mostrar-se nos anos que vem? Quasi todas as condições de prosperidade estão unidas nesta provincia; - Um clima sem rival, uma terra cheia de riquesa, e uma natureza, cuja uberdade é espantosa. Tudo isto aqui, e no outro lado do Oceano, a Inglaterra, offerece tudo quanto seja possivel afim de attrahir para lá, os productos da provincia, e com as devidas providencias, e constancia em trabalhar, tudo será possivel, e, sem esta, nada.Campinas, Mogy-mirim, Limeira e outros lugares vão caminhando na cultura do café, e o publico, bem como os particulares, são beneficiados. Parece que, para Sorocaba, resta ainda este outro manancial de prosperidade; - a cultura do algodão, e não ha homem ou natural, ou estrangeiro na provincia, que não abençoará a empresa.[...] Caminho da Luz, S. Paulo Agosto de 1865[...] E. Hutchings108

Evidentemente, tais esforços foram no sentido de produzir algodão adequado às necessidades da indústria inglesa. Foi estimulado o plantio da semente de Nova Orleans, em solicitação de uma circular da Manchester Cotton Supply Association109 e houve uma modificação na postura do produtor brasileiro: “O tipo de algodão tradicional no Brasil era o arbóreo mas o mercado consumidor passou a condicionar a produção ao tipo herbáceo dos 107 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo..., op. cit., p. 16.108 HUTCHINGS, E. “Aos Redactores do Diario de São Paulo”. Diario de S. Paulo, São Paulo, 11 agosto 1865, ano I, nº 10, p. 2. Em outras atividades, além do algodão: E. Hutchings foi um dos secretários da Comissão Julgadora de um concurso para criadores de animais pensado por J. J. Aubertin, tesoureiro do evento. O Comendador Fideles Nepomuceno Prates aparece como um dos Juízes. “Concurso industrial”. Correio Paulistano, Estados Unidos. As variedades mais procuradas eram a U[p. 161, 162]