Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais.
gerações, uma delas, que está mais perto das Almazonas têm guerra com elas. E são estasAlmazonas tão guerreiras, que vão à guerra contra êles, e os mais valentes que podemtomar, desses concebem. E se parem filho dão-no a seu pai ou o matam, e se filha criam na e cortam-lhe o peito direito por razão do arco. Entre estas Almazonas dizem que está a noticia do ouro”.65
Contudo, mais do que a repetição de um motivo arquetípico, esta referência às amazonasé extremamente elucidativa sobre as origens das lendas do sertão brasileiro, fornecendoindícios que associam as concepções que iriam desenvolver-se na América Portuguesaaos mitos propagados através da bacia platina. A partir dos anos 40 do século XVI,“Otras ‘noticias’ comenzaban a surgir en el Paraguay. Se hablaba de un Imperiopoderoso, lleno de infinitas riquezas y de un lago con una casa de oro donde dormía elSol”.66
A nação das mulheres guerreiras, descrita pelos exploradores do Paraguai, era, geralmente, localizada nas proximidades desta lagoa. Se as notícias sobre as amazonas chegavam até São Vicente, o mesmo acontecia, certamente, com este “lago onde dormia o sol”: esta seria a origem mais provável da Lagoa Dourada brasileira e não o Eldorado espanhol, que neste período ainda não havia rompido os limites andinos do “cacique dourado”. Utilizaremos outras fontes sobre os mitos geográficos do Brasil quinhentista para descobrir os vestígios que possam comprovar esta suposição. Antes, porém, é necessário conhecer os atributos associados a estas novas imagens, forjadas no avanço da ocupação da região platina em direção aos Andes, para analisarmos seu vínculo com o lendário brasileiro. [Página 91]
Capítulo 3: Das minas imaginárias às minas reais 3.1 As minas imaginárias do século XVII
No início do século XVII, as informações sobre a existência de uma “serra resplandecente” no sertão da América Portuguesa, enriquecidas com as notícias trazidas pelas expedições pioneiras que partiram de Porto Seguro e do Espírito Santo em direção à Serra do Espinhaço, confirmando a existência de pedras verdes e montanhas de cristaisnesta região, acabaram forjando a imagem da Serra das Esmeraldas, lugar imaginário que passou a ser identificado como uma referência geográfica precisa e específica. Por esta época surgiu outra montanha lendária, o Sabarabuçu, também derivada do mito originário da “serra resplandecente”. Na verdade, Sabarabuçu e “serra resplandecente”,etimologicamente, possuem o mesmo significado.1
No entanto, ao ser transplantada para a capitania de São Vicente, esta crença recebeu a influência da antiga Serra da Prata quinhentista, concebida durante a exploração da bacia platina e do Paraguai e que ainda devia conhecer algum prestígio entre os paulistas. A documentação sobre as entradas ao sertão, realizadas a partir de São Paulo, também revela que as áreas onde, supostamente, se localizavam as nascentes do rio São Francisco constituíam a direção predominante tomada pelos sertanistas, o que pode estar relacionado a outro local mítico, a Alagoa Grande ou “lagoa do ouro”, que aparece com o nome indígena de Paraupava nestas fontes. Mas foram o Sabarabuçu e a Serra das Esmeraldas os principais referenciais míticos do período seiscentista, que vivenciou um [Página 133]
americanos, apesar de manter-se viva no imaginário sobre as riquezas do sertão. Além detransferir-se do centro para a periferia do continente, também passaria a ser vinculada àsserras lendárias, como na aproximação entre a montanha “Itaberába” e a “Upabuçû LagoaGrande” realizada por Barléu e Marcgraf. Outro mapa que contém uma concepção similaré o America Meridionale, de Vincenzo Maria Coronelli, retratando uma lagoa sem nomeao lado da “Serra do Sarabassu”.62 Esta associação também parece ter sido feita pelopadre Simão de Vasconcelos, ao narrar a jornada de Sebastião Fernandes Tourinho,mencionando, em conformidade com o roteiro de Marcos de Azeredo contido na carta doEspírito Santo de autoria de João Teixeira Albernaz,63 a existência de uma lagoa nasimediações da Serra das Esmeraldas: “Ao passar do Aceci a derradeira vez, distância de5, ou 6 léguas para a banda do Norte, descobriu Sebastião Fernandes uma grande, eformosa pedreira de esmeraldas, e outra de safiras, que estão junto a uma alagoa (...)”.64
Minas de prata e esmeraldas nas capitanias do sul: Paranaguá, Sabarabuçu e aSerra das Esmeraldas
A crença na existência de minas abundantes em esmeraldas e prata, muitas vezes, se confundia com locais onde outros metais, como o ouro e o ferro, eram encontrados ou minerados em pequena escala. Estas minas imaginárias ocuparam um espaço significativo no cotidiano das autoridades e dos homens que percorriam o sertão, aparecendo nas fontes, inclusive em documentos oficiais, como locais de existência concreta, para os quais eram nomeados capitães e governadores para seu descobrimento, ou provedores e administradores para a organização da exploração.
Assim aconteceu com as minas de Biraçoiaba e da Caatiba, localizadas na região de Sorocaba. Nos primeiros anos do século XVII, uma carta, datada em 13 de janeiro de 1606, dos membros da Câmara de São Paulo ao donatário da capitania informava sobre a mineração de ferro e ouro praticada nestes locais:
“Diogo de Quadros é ainda provedor das minas, até agora tem procedido bem, anda fazendo um engenho de ferro a tres leguas d’esta villa e como se perdeu no Cabo-frio tem pouca posse e vai de vagar, mas acabal-o-ha e será de muita importancia por estar perto d’aqui como tres leguas, e haverá metal de ferro; mas ha na serra de Byraçoiaba 25 leguas d’aqui para o sertão em terra mais larga e abastada, e perto d’alli como tres leguas está a Cahatyba d’onde se tirou o primeiro ouro (...)”.65
No final do século, em 1682, Luiz Lopes de Carvalho recebe o cargo de administrador das minas de prata de Sorocaba, que havia supostamente descoberto: “Por Luiz Lopes de Carvalho hir â sua custa as minas da Pratta de Sorocaba com o titulo de Administrador della” [CARTA régia do príncipe D. Pedro aos officiaes da camara de S. Vicente. Lisboa, 20 de junho de 1682, Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, no 51, 1888, p. 312].
Um parecer do Conselho Ultramarino especifica que minas eram estas: “Luiz Lopes de Carvalho fes prezente neste Conselho, que servindo de capitão da Capitania de Tinhaem, descobrira no termo da villa de Sorocaba as minas da Serra de Birasojaba, que dista 3 legoas da ditta villa, e as minas da serra de Caatiba, que fica 2 legoas da mesma villa [CONSULTA do Conselho Ultramarino, acerca das informações que remettera Luiz Lopes de Carvalho sobre as minas da repartição sul. Lisboa, 16 de março de 1682, Anais da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, vol. 39, 1917, p. 158.]. [Páginas 150 e 151]
O ferro de Biraçoiaba e o ouro da Caatiba mesclavam-se, deste modo, com as lendárias minas de prata amplamente apregoadas durante o seiscentos. O curioso é que, alguns anos depois, as minas de Biraçoiaba são referidas em uma carta régia como minas de prata e ferro [CARTA régia mandando dar índios para a diligencia das minas de prata e ferro de Sorocaba, realizada por Luis Lopes de Carvalho e Fr. Pedro de Souza. Lisboa, 8 de fevereiro de 1687, Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, São Paulo, vol. XVIII, 1913, p. 279-280.], sendo que, em 1692, o encanto da prata se desfaz e Luiz Lopes de Carvalho propõe a construção de uma fundição [CARTA régia pedindo informações sobre as Minas de Ferro descobertas em Biraçoyaba por Luis Lopes de Carvalho e a fundição que este pretendia alli estabelecer (acompanhada dos respectivos documentos). Lisboa, 23 de outubro de 1692, Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, São Paulo, vol. XVIII, 1913, p. 287-293.]. O próprio Luiz Lopes confessa ter sido influenciado pelas lendas sobre a existência da prata e das esmeraldas, comprovando a força das representações sobre estas minas imaginárias na interpretação da realidade e da geografia do sertão: “Todas estas calamidades padeci por me haverem persuadido, e ter achado alguns Roteiros que insinuavam partes, e serras aonde em algum tempo se acharaõ signais evidentes de minas de prata, e Esmeraldas (...)” [CARTA régia pedindo informações sobre as Minas de Ferro descobertas em Biraçoyaba por Luis Lopes de Carvalho e a fundição que este pretendia alli estabelecer (acompanhada dos respectivos documentos), p. 288.].
Algo semelhante ocorreu em Paranaguá, “onde se teria praticado, ainda no século XVI,alguma incipiente mineração”.71 As atividades mineradoras realizadas nesta região eramde extração do ouro e, antes do povoado de Paranaguá ter sido erigido em vila, em 1647,“com o nome de Nossa Senhora do Rosário, já tinha sido nomeado, no ano antecedente, [Página 152]
do Prado por Pedro de Sousa Pereira76 e a de Manuel Homem Albernas, nomeado capitãodo descobrimento da prata da Serra do Sabarabuçu em 1643.77
Em 1654, outra carta do provedor da fazenda, Pedro de Sousa Pereira, descreve a descoberta manifestada pelo castelhano Bartholomeu de Toralles, “num serro próximo da vila de Nossa Senhora do Rosário de Parnagua”.
AHU, Cons. Ultram. – Brasil / RJ, cx. , doc. 1843. CARTA do Provedor da Fazenda Pedro de Sousa Pereira, sobre as diversas diligências que tinha ordenado nas Capitanias de S. Vicente e Paranaguá acerca do descobrimento das minas e sobre a descoberta que manifestara o castelhano Bartholomeu de Toralles. Rio de Janeiro, 10 de abril de 1654 e AHU, Cons. Ultram. – Brasil / RJ, cx. , doc. 1844. MANIFESTO que fez o Capitão Bartholomeu de Toralles perante o Provedor das minas, o Capitão Diogo Vaz de Escobar, do minerio de prata que descobrira num serro próximo da vila de Nossa Senhora do Rosário de Parnagua. s.l., 17 de janeiro de 1654.
Apesar das numerosas notícias sobre os novos descobrimentos, não surgiam amostras significativas da prata que pudessem comprovar a realidade da riqueza a que todos ansiavam, o que não era suficiente para queas esperanças se desvanecessem. Novas expedições eram, então, organizadas, contandoalgumas vezes com a presença dos próprios governantes nas lavras para averiguação doestado em que as explorações se encontravam, tamanho o interesse pelo andamento dasmesmas. É o que fez, em 1660, o governador do Rio de Janeiro, Salvador Correia de Sá,que partiu para Paranaguá deixando o governo da capitania a cargo de Tomé Correia deAlvarenga.
Salvador Correia também havia enviado seu filho, João Correia de Sá, “aodescubrimento da Cerra das esmeraldas”, tendo o mesmo chegado a uma certa “Serra do Cristal, ponto onde segundo os roteiros se encontravam as esmeraldas, trazendo mesmoamostras de cristal finíssimo”.80O cargo de administrador das minas de Paranaguá, cuja existência justificava-se pelasatividades de extração de ouro ali executadas, era concedido com uma atribuição que iaalém da simples organização da produção aurífera já instalada nos ribeirões da região eincluía a prospecção das jazidas de prata que ainda estariam por descobrir, como sepercebe na provisão e na carta régia de nomeação de Agostinho Barbalho Bezerra: “fuiservido fazer merçe da Administração das Minas de Parnagay, e que podesse hir aodescobrimento dellas com patente de g.or da gente q o acompanhar nesta Jornada”.81Observa-se, assim, que as tanto as minas reais de ouro, quanto as imaginárias de prata,influenciavam na definição das funções esperadas de seus administradores, que deveriamgovernar algo que se desejava encontrar, mas que ainda não havia se concretizado: “(...) eporque eu desejo muito que a dita Jornada se consiga, e o descobrimento das Minas tenhaeffeito”.82
Em uma carta régia de 16 de dezembro de 1667, fica explícito que estas minaseram as míticas jazidas de prata: “(...) e porque Agostinho Barbalho faleceo, antes deacabar de comcluir com o dito descobrimt.o; me pareçeo emcomendarvos emqt.o nãoenvio sogeito que vá continuar com esta delig.a, que tomando todas as noticiasnecessárias das minas de prata e pedras (de que me remetereis as amostras) me avizeis com toda a particularidade do estado q ficou a delig.a que estava a cargo do mesmoAgostinho Barbalho”.83Mas não foi somente a prata de Paranaguá o que Agostinho Barbalho Bezerra havia sidoincumbido de encontrar: “Havendo mandado ver o q me escreveo Agostinho BarbalhoBezerra, a quem tinha encarregado do descobrimt.o das minas de São Paulo, dandomeconta da Jornada que fizera da Capitania do espirito Santo p.a aquelle descobrimt.o e Serradas esmeraldas (...)”.84 Do mesmo modo que Salvador Correia de Sá, Agostinho Barbalhotambém se encarregou da descoberta da Serra das Esmeraldas. Esta seria uma tendênciaobservada na segunda metade do século XVII, que se caracterizaria pelo empenho degovernantes e exploradores para o descobrimento simultâneo das minas mais cobiçadasdo período seiscentista: as jazidas de prata e as de esmeraldas.Na verdade, a Serra das Esmeraldas nunca deixou de ser alvo das expedições ao sertão,havendo, durante todo o seiscentos, um esforço quase contínuo para a revelação de sualocalização. Assim, logo após a jornada de Marcos de Azeredo, o capitão-mor dacapitania do Espírito Santo, Gaspar Alves de Siqueira, que ocupou este cargo entre 1616e 1618, propunha a descoberta das minas de esmeraldas ao rei.85 Alguns anos depois, [As Minas Imaginárias O maravilhoso geográfico nas representações sobre o sertão da América Portuguesa – séculos XVI a XIX, 2009. Páginas 155, 156 e 157]
foi publicada a segunda edição na língua inglesa. Pouco depois, em 1848, o relato foi publicado em língua alemã em Dresden e Leipzig, atual Alemanha.A edição em português ocorreu em 1942, na Coleção Brasiliana, intitulada Viagens no Brasil: principalmente nas províncias do norte e nos distritos de ouro e do diamante durante anos 1836-1841, da Companhia Editora Nacional.No ano de 1856 foi publicado o relato Life in Brazil; or, a journal of a visit to the land of the cocoa and the palm de Thomas Ewbank ela Harper & Brothers, Nova York, sendo lançada também na Inglaterra. Nos Estados Unidos houve uma edição em 2005.No Brasil, o relato em português foi publicado com o título A vida no Brasil: ou Diário de uma visita ao país do cacau e das palmeiras, em 1973, pela editora carioca Conquista, em dois volumes.O relato de Henry Walter Bates foi publicado em 1863, em dois volumes, com o título The naturalist on the River Amazons, a record of adventures, habits of animals, sketches of Brazilian and Indian life, and aspects of nature under the Equator, during eleven years of travel by Henry Walter Bates, em Londres pela John Murray. A segunda edição ocorreu um ano depois, com supressão de algumas partes pelo autor, seguida por mais de dez edições na língua inglesa em Londres e nos Estados Unidos. No Brasil O naturalista no Rio Amazonas foi editadoem 1944 pela Editora Nacional.
Em 1869, Richard Burton publicou a primeira edição de Explorations of the Highlands of the Brazil; with a full account of the gold and diamond mines. Also, canoeing down 1500 miles of the great River São Francisco, from Sabará to the Sea by Captain Richard F. Burton, F.R.G.S., etc., em Londres por Tinsley Brothers, em dois volumes. A obra recebeu destaque em finais do ano passado e foi publicada em Nova York no centenário da primeira edição, e nos últimos dezesseis anos teve três edições nos Estados Unidos.
No Brasil, a primeira edição de Viagens aos planaltos do Brasil: 1868, em três volumes,ocorreu no ano de 1941 pela Companhia Editora Nacional, que publicou a segunda edição em 1983. Houve uma edição em 2001 pelo Senado Federal intitulada Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho, volume único.
Em São Paulo, a Tip. Allemã de H. Schroeder publicou Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gaston e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba de John James Aubertin no ano de 1866.
Nesse mesmo ano foi traduzido para o inglês pelo autor e publicado em Londres pela Bates, Hendy & Co. com o título Eleven day’s journey in the Province of Sao Paulo, with the [p. 10]
Outro ponto, o parâmetro comparativo do algodão brasileiro e do norte-americano. A produção dos Estados Unidos figura como indicadora de qualidade e produtividade, em vista do país ter sido o maior fornecedor do mundo, e é trazida pelos viajantes quando desejam estimular a produção no Brasil, em especial, utilizando dados fornecidos por conhecedores do ramo.Nesse sentido, Richard Burton traz as considerações de um renomado pesquisador da cultura algodoeira, Major R. Trevor Clarke96 para quem “Aqui [no Brasil] o algodão tem mais penugem que o habitual; 600 quilos darão 250 de fibra limpa, ao passo que no Alabama são necessários 750 quilos. Em geral, o replantio do arbusto é feito em seu quarto ano”.97 E J. J. Aubertin traz a experiência dos americanos sulistas Dr. Gaston, Dr. Shaw e Major Mereweather, a quem ele acompanhou durante a passagem deles pela Província de São Paulo:Eramos cinco pessoas. Tres Americano sulistas, dr. Gaston, dr. Shaw e o major Mereweather, que ião fazer sua viagem prolongada, na exploração de districtos um pouco remotos, sob a direcção do sr. Engenheiro Bennaton, para esse fim nomeado; e, sendo informado dos seus preparativos, logo me aggreguei a elles, não menos por sympatia para com a antecipada immigração americana, como tambem pelo desejo de visitar em sua companhia algumas plantações de algodão, e tirar algumas instrucções de sua experiencia pratica, a respeito de uma cultura que, sendo hoje estabelecida na província, não póde deixar de influil-os cabalmente na resolução que definitivamente tenhão que tomar.98Durante a permanência na província paulista, o grupo visitou a região de Itu, Salto, Porto Feliz e Sorocaba, daí J. J. Aubertin seguiu para a capital paulista e eles continuaram viagem com destino à Itapetininga. As observações de diferentes aspectos da lavoura algodoeira e o processamento do algodão fizeram os norte-americanos considerarem o clima paulista adequado à produção e benéfico o fato de não haver mudanças bruscas na temperatura, como a ocorrência de geadas, possibilitando maior tempo de conservação do algodoeiro.99Esses dados são agregados por J. J. Aubertin àqueles fornecidos por produtores paulistas de que “emquanto o alqueire norte-americano, dando bem, produz de cem até cento e dez ou talvez 96 Richard Trevor Clarke (1813-1897) – “Army officer and horticulturalist. Major in the Northampton and Rutland Infantry Militia, 1862. Bred nearly thirty new varieties of begonias and many new strains of cotton. Awarded a gold medal by the Cotton Supply Association of Manchester. Member of the Royal Horticultural Society; served on the council and scientific committee for many year; awarded the society’s Veitchian medal, 1894”. BURKHARDT, Frederick et al (Ed.). Charles Darwin. The Correspondence of Charles Darwin (1866). Cambridge: Cambridge University, 2004, p. 502, vol. 14.97 BURTON, Richard Francis. Viagem de canoa de Sabará ao Oceano Atlântico..., op. cit., p. 29. [nota 3]98 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gastón e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba. São Paulo: Typ. Allem[p. 159]
Os esforços de J. J. Aubertin devem ser compreendidos dentro desse contexto, em que ele se coloca como defensor da produção algodoeira paulista e atua em diferentes direções. No Brasil, escreveu para diversos periódicos nacionais e correspondeu-se com diferentes figuras da política brasileira para lhes solicitar o envolvimento com a lavoura algodoeira capaz de colocar São Paulo em posição favorável no mercado inglês, tal como fez o inglês em carta ao Comendador Fideles Prates:
Usai, vos peço, nesta vespera de uma nova semeadura, a vossa bem conhecida influencia entre os vossos amigos, e dizei aos cultivadores do algodão que redobrem os seus esforços na nova plantação, porque pela colheita futura é que se diciderá definitivamente a importante questão se a provincia de S. Paulo pode ou não pode occupar uma posição positiva nos mercados de Manchester.104
Aos agricultores interessados, ele também procurou difundir noções sobre a técnica de cultivar o algodão herbáceo e publicou folhetos sobre a cultura do algodão.105 Essa política de difundir informações sobre o cultivo foi uma atividade constante da associação inglesa, mesmo após o fim da guerra norte-americana.
No plano internacional, empenhou-se em apresentar os algodões paulistas de boa qualidade na Exposição Internacional de Londres, de 1862, com o objetivo de mostrar os atributos do produto. Também foi intermediador entre Manchester Cotton Supply Association e órgãos brasileiros; em duas ocasiões, nos anos de 1862 e 1865, J. J. Aubertin solicitou à associação britânica que enviasse algodão herbáceo ao Ministério da Agricultura e à Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional.106 Em diferentes momentos enviou para a Inglaterra amostras do algodão paulista, em geral, com boas avaliações dos correspondentes.J. J. Aubertin arquitetou ações no Brasil ligadas aos interesses ingleses baseadas em informações colhidas por ele na província ou com base na experiência de nacionais e, principalmente, de norte-americanos, com o propósito de deixar claro as potencialidades de São Paulo e convencer os potenciais produtores paulistas. Para aqueles que mesmo assim estivessem em dúvida, ele escreve:
Deveras, já é tarde demais para duvidar do algodão de São Paulo; mas se ainda ha descrentes, apenas apello para os dous srs. Cultivadores que acompanhei, major Mereweather e dr. Shaw. Ambos elles me repetirão muitas vezes, que melhor algodão que aquelle que nos vimos não desejavão ver; que nas suas proprias plantações e com todos os seus meios perfeitos não costumavãoproduzir melhor. 107
Seus esforços renderam-lhe o reconhecimento da associação inglesa, que o condecorou com uma medalha de ouro, e o governo brasileiro honrou-o com o hábito da Imperial Ordem da Rosa. Nos veículos de informação brasileiros, nos quais tanto escreveu, vemos o reconhecimento de seus pares, como E. Hutchings, outro entusiasta da lavoura algodoeira em terras paulistas e intermediário entre a associação e o Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas:
Hoje, considerado, como um genero de exportação, o algodão, e sua cultura, é um dos factos estabelecidos na historia da provincia, e eu me aproveito desta occasião para patentear a gratidão que todos temos.Quem sabe, o que ha de mostrar-se nos anos que vem? Quasi todas as condições de prosperidade estão unidas nesta provincia; - Um clima sem rival, uma terra cheia de riquesa, e uma natureza, cuja uberdade é espantosa. Tudo isto aqui, e no outro lado do Oceano, a Inglaterra, offerece tudo quanto seja possivel afim de attrahir para lá, os productos da provincia, e com as devidas providencias, e constancia em trabalhar, tudo será possivel, e, sem esta, nada.Campinas, Mogy-mirim, Limeira e outros lugares vão caminhando na cultura do café, e o publico, bem como os particulares, são beneficiados. Parece que, para Sorocaba, resta ainda este outro manancial de prosperidade; - a cultura do algodão, e não ha homem ou natural, ou estrangeiro na provincia, que não abençoará a empresa.[...] Caminho da Luz, S. Paulo Agosto de 1865[...] E. Hutchings108
Evidentemente, tais esforços foram no sentido de produzir algodão adequado às necessidades da indústria inglesa. Foi estimulado o plantio da semente de Nova Orleans, em solicitação de uma circular da Manchester Cotton Supply Association109 e houve uma modificação na postura do produtor brasileiro: “O tipo de algodão tradicional no Brasil era o arbóreo mas o mercado consumidor passou a condicionar a produção ao tipo herbáceo dos 107 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo..., op. cit., p. 16.108 HUTCHINGS, E. “Aos Redactores do Diario de São Paulo”. Diario de S. Paulo, São Paulo, 11 agosto 1865, ano I, nº 10, p. 2. Em outras atividades, além do algodão: E. Hutchings foi um dos secretários da Comissão Julgadora de um concurso para criadores de animais pensado por J. J. Aubertin, tesoureiro do evento. O Comendador Fideles Nepomuceno Prates aparece como um dos Juízes. “Concurso industrial”. Correio Paulistano, Estados Unidos. As variedades mais procuradas eram a U[p. 161, 162]