A questão de João Ramalho é uma das mais embaraçadas da História primitiva do Brasil.Ainda ninguém tornou bem claro que nos primeiros tempos São Paulo houve pelos menos dois João Ramalho. Um é o bacharel de Cananéa, deixado em 1502 pela primeira expedição exploradora, pai dos mamelucos, inimigo dos jesuítas. Outro, sogro de Jorge Ferreira, é um cavaleiro português, que veio para o Brasil muito mais tarde, com Martim Afonso ou logo depois. Taques Paes Leme, que no trecho acima citado dá notícia do primeiro e torna assim bem clara a distinção, em outros lugares perde-se de vista. [p. 50]
iam na armada, além de dois grumetes que fugi-ram, segundo nos diz Caminha.Tal é, nos traços geraes, a navegação de Alva-res Cabral. De seu roteiro e da correspondênciacom a côrte, não ha memória; mas da estadia noBrasil e dos incidentes que aqui se deram, temosuma chronica minuciosa e encantadora de PeroVaz de Caminha, em alguns pontos completadapela carta do mestre Johanes Emenelaus e pelahistoria da navegação, feita por um piloto da ex-pedição.Seria facil com estes documentos multiplicarpormenores; é, porém, preferivel discutir os pontoscontroversos.
22. O primeiro a estudar é si o Brasil foi ounão descoberto por acaso.
Em uma memória que tem sido merecidamenteelogiada, o Sr. Joaquim Norberto é de parecer queo descobrimento não foi casual.
O principal fundamento de sua opinião é umtrecho da carta escripta de Porto Seguro a D.Manuel por mestre Johanes Emenelaus. Diz o mestreque em um antigo mappa-mundi, pertencente a PeroVaz Bisagudo, poderá el-rei ver o sitio da terra. Ómappa-mundi, que também representa a Mina, nãocertifica si a terra é habitada ou não. •
Este trecho, que abaixo vai fielmente trans-cripto (7), é de uma obscuridade desesperadora.
(7) Quanto senor al sitio desta terra mande vosa alteza traer [54]vosa alteza el sytyo desta terra en pero a qual mapamundy non cer-tyfica esta terra ser habytada e no es mapamundy antiguo e allyhallara .vosa alteza escrita tambyen la myna. Varnhagen, Historiageral1, I, 423.
Si já houvesse suspeita de que a descoberta do Brasilnão fôra casual, poder- se- ia até certo ponto considera- lo como um indicio favoravel ; mas Gonçalves Dias já demonstrou que, pelo contrario, todos os testemunhos, a começar pelo de D. Manuel, sãoaccordes em declarar o descobrimento como inopinado e fortuito.
E não é só isto: Johanes Emenelaus assegurater visto o mappa- mundi ; mas el - rei tanto não ovira, que o mestre lhe diz: "mande vosa alteza traer".E quem nos assegura que o tivessem visto Pedr´alvares Cabral e seus companheiros ? Entretanto, esta circumstancia é indispensavel para a proposição do Sr. Norberto ser admittida.O descobrimento do Brasil explica- se muito maisfacilmente pela viagem de Vasco da Gama, pelas instrucções que redigiu e pelo meio social.
Como observa Peschel ( 8 ) , Vasco da Gama, emsua primeira viagem para a India, passara por algum tempo ao longo das costas do Brasil, sem asreconhecer, pois, sahindo do Cabo Verde a 3 deAgosto de 1497 , no dia 22 achava- se a 8oo leguasda costa africana, isto é, a 45° ao Occidente doSul da Africa.Si então não descobriu o Brasil, deve- se talveza circumstancias insignificantes, a menos que não [p. 55]
5658O DESCOBRIMENTO DO BRASIL
o seja á resolução firme em que estava o grande nauta de não se divertir em outras empresas antes de dar conta da missão de que fôra incumbido (9).
No trecho do Roteiro de Vasco da Gama está notada uma circumstancia, cujo alcance escapou a Peschel, mas que é preciso pôr em evidencia: as aves que á noite tiravam contra susoeste, tão rijas como aves que iam para terra. Os Portuguezes, diz- nos o filho de Christovam Colombo (10), fizeram a maior parte de suas descobertas regulando-se pelo vôo das aves; o descobridor da America muitas vezes regulou por ellas o seu rumo.
É, pois, fóra de duvida que Vasco da Gama teve não suspeita, como nos assegura Camões, mas certeza de uma terra ainda não conhecida.Nas longas entrevistas que teve com Pedr’alvares(9)
Eis o trecho do Roteiro de Vasco da Gama:
E huuma quynta feira que eram tres dias d‘agosto partimos em leste (de Santiago), e hindo huum dia com sull quebrou a verga ao Capitam moor, e foy em XVIII dias d’agosto, e seria isto CC legoas da Ilha de Santiaguo, e pairamos com o traquete e o papafigo dous dias e huuma noute, e em XXII do dito mês hindo na volta do mar ao sull e a quarta do sudueste, achamos muitas aves feitas como garçoeens, e quando veo a noute tiravam contra o susoeste muito rrigas como aves que hiam pera terra, e neste mesmo dia vimos huuma baléa, e isto bem oytocentas legoas em mar. Roteiro da via- gem de Vasco da Gama3, Lisboa, 1861, 8.o, p. 3.(10)
Eis o trecho no que interessa á questão:
"diciendo (Christovam Colombo) qui si mudaba camino lo hacia porque no era mui destante del suio principal, i seguir la raçon, i experiencia de los Portuguezes que havian descubierto la maior parte de sus Islas por el juicio, i buelo de semejantes Pajaros." La Historia de D. Fernando Colon, cap. XX, apud Barcia, Historiadores primitivos de las Indias Occidentales, Madrid, 1749, 3 vols., fol. I, p. 19. Vejam-se tambem os capitulos XVIII e XIX. [p. 56]
é natural que o ousado marinheiro mais de umavez lhe falasse no problema que presentira, sem conseguir dar- lhe solução. Talvez este intuito até certo ponto haja influido sobre as instrucções queformulou.
"Estas instrucções, interpetra d´Avezac, si attendermos á direcção conhecida dos ventos aliseos dohemispherio austral, equivalem a uma recommendação expressa de tomar a partir do encontro delles ,a bordada de sudoeste para correr com amuras abombordo, emquanto o vento escasseasse, fazendobom caminho para ganhar a região ulterior, em queo vento permittisse governar direito a léste paradobrar o Cabo."
( 11 ) .Nestas instrucções já está implicito o descobrimento do Brasil e a melhor prova é a frequencia com que aqui vieram ter os que as seguiram, acomeçar de Cabral em 1500 e de João da Nova em 1501..
Além dos signaes de terra entrevistos por Vascoda Gama em sua primeira viagem, e das instrucçõesque formulou, concorreu efficazmente para o descobrimento do Brasil o estado então vigente dosespiritos: « a intensa curiosidade movida pelos recentes descobrimentos no Novo Mundo e a nobreemulação que taes descobrimentos, feitos em ser viço de uma nação competidora, haviam de excitar no animo de homens que, seguindo outro rumo,tantos louros tinham ganhado na carreira das emprezas maritimas ( 12 ) ».Pesando estes factos, diz Major que podemosfacilmente duvidar si este rumo para sudoeste não foi emprehendido por Cabral na esperança de irdar a alguma terra do novo mundo occidental .22. Outro ponto controvertido é o motivo porque Cabral deu á terra que descobriu o nome deVera Cruz .Segundo Castanheda ( 13 ) . foi por causa da Cruzque ali mandou plantar a i de Maio.Gaspar Corrêa ( 14 ) diz que porque a ella chegaram a 3 de Maio.Ambas estas affirmações não têm, porém, consistencia, porque Cabral pôz o nome á terra, segundo se deduz de Vaz de Caminha, no mesmodia em que pôz o nome de Monte Paschoal — istoé, a 22 de Abril.Caminha nos dá o verdadeiro motivo do nome :... prégou ( frei Henrique) uma solenne e proveitosa prégação da historia do Evangelho e em fimdelle tratou da nossa vinda e do achamento destaterra, conformando-se com o signal da Cruz, sobcuja obediencia viemos.
O nome de Vera Cruz imposto por Cabral, como é sabido, durou muito pouco tempo. Em 1501, nas instrucções a João da Nova, é transformado no de Ilha da Cruz; na carta escripta por D. Manuel (15) aos reis catholicos a 29 de Julho do mesmoanno tem o nome de Santa Cruz; no roteiro de Gonneville (1503-1505) já tem o nome de Brasil (16), que naturalmente lhe foi communicado por Diogo do Couto e Bastião de Moura, portuguezes da equipagem; em 1511 apparece já este nome em documento official. (17).
23. Outro ponto controvertido é si o actual Porto Seguro é o Porto Seguro de Cabral. Varnhagen diz sim (18), e Beaurepaire Rohan diz não (19).
Esta ultima opinião é a verdadeira: o logar que Cabral chamou Porto Seguro em pouco tempo começou a chamar- se Santa Cruz, por causa da que ali foi deixada a 1 de Maio de 1500.
Os argumentos de que Varnhagen lança mão quebram-se todos diante destes dois factos : o primeiro é a tradição attestada por Gandavo, Gabriel Soares, Anchieta, Cardim e tantos outros; o segundo é que o Porto Seguro actual não corresponde ádescripção de Caminha, por mais que se queira fazer de um recife um ilhéo.
24. Resta ainda um ponto a examinar: quem levou a el-rei de Portugal a nova do descobrimentodo Brasil.Os historiadores Castanheda, Barros e Damiãode Goes dizem contestes que foi Gaspar de Lemos.Gaspar Corrêa diz que foi André Gonçalves, antigomestre do navio em que fôra Vasco da Gama paraa India. A primeira opinião é classica, e anda emtodos os livros . A segunda só ha muito poucos annosfoi apresentada e defendida por Candido Mendes.Prima facie, o accórdo de Castanheda, João deBarros e Damião de Goes, comparado com o isolamento de Gaspar Corrêa é forte presumpção contra este. Mas é só presumpção ; basta lêr com cuidado os tres historiadores concordes, para ver- seque têm uma fonte commum, e assim os tres reduzem- se a um.Comparando- se esta fonte commum com a fontea que se soccorreu Gaspar Corrêa, a ultima levagrande vantagem. Gaspar Corrêa tem incontestavelmente erros chronologicos e alguns bem graves, sobre a partida da frota do Tejo e a chegada ao Brasil :porém, quanto ao mais é veridico ; é mais minuciosoque os outros, está de accôrdo com Vaz de Caminha e serve até para explicar certos pontos sobreque o nosso primeiro chronista não se extendeu.Demais, Gaspar Corrêa está de accôrdo comCaminha e o piloto anonymo que escreveu a navegação de Cabral, pois ambos dizem que foi mandado ao reino o navio dos mantimentos e o commandante deste navio era, segundo o autor dasLendas da India , André Gonçalves. [p. 57, 58, 59, 60]
o seu reconcavo, em que prosperavam numerososengenhos e vicejavam por leguas e leguas os canaviaes verdejantes ; com os seus campos, em queo gado pascia ás manadas, aos milheiros.Veria Ilhéos, Santa Cruz , a primeira terra sellada com o cunho portuguez ; Porto Seguro, seminario de ousadas bandeiras ; Espirito Santo a penetrar até as esmeraldas encantadas, verdes comoos sonhos que sorriam aos seus habitantes.Veria o Rio de Janeiro, assentado no meio deum amphytheatro immenso, de que se debruçam asgerações idas, á espera de feitos dignos do scenario ; com as suas ilhas feiticeiras ; com a sua bahiasem par, onde vagam as sombras de Amerigo Vespucci, que legou o nome a um continente que nãodescobriu ; de Gonçalo Coelho, o navegante pertinaz ;de Magalhães, o primeiro que circumnavegou oglobo ; de Nobrega, de Anchieta, de Men de Sá,de Villegaignon, o cavalleiro romanesco e batalhador.Veria S. Vicente, a obra de Martim Affonso ;Santos, obra de Braz Cubas ; Itanhaen, mais tardeephemera cabeça da capitania ; Cananéa, sementede João Ramalho, porta franca para os campos deCuritiba, do Viamão e da Vaccaria.A dez leguas do Oceano, veria a villa de S.Paulo, obra dos jesuitas. Debalde estes a haviam assentado na aba da montanha, como que para conserva- la agrilhoada ao cepo : a população estuava,transbordava, investia e começava a innundar todaAmerica.E nestes povoados dispersos veria mais o des [p. 66]
Em 1562 sabemos que João Ramalho foi por capitão das guerras contra os nativos do Parahyba. Afonso Sardinha é sabido que na última década do século, descobriu as minas de Sorocaba. Jorge Corrêa em 1594 foi para o sul fazer guerra aos Carijós.
Para resumir, os nomes de sertanistas e bandeirantes paulistas que ha memória são em número extraordinário. Só o padre Simão de Vasconcellos, que apenas trata o assunto incidentalmente, nomeia João de Souza Pereira, Francisco Corrêa, Domingos Luiz Grou, Manuel Veloso de Espina, José Adorno, Ascenso Ribeiro, João Gago, Jeronymo da Veiga, etc. [p. 77]
Segundo o Barão de Saint - Blancard, a carga de LaPélérine ascendia a sessenta e dois mil e trezentosducados.Sobre o commercio de escravos não temos informações muito minuciosas. Herrera fala de umacaravella aprisionada em Cadiz com 20 indios , em1514 ( 14 ) . Em 1526, o bacharel de Cananéa contratou com Diogo Garcia a conducção e a vendade 8o escravos. Eis tudo quanto se sabe .0 governo , por sua parte, favoreceu bastanteeste commercio infame, isentando de impostos osescravos introduzidos até certo numero.No commercio dos escravos, sabemos que tiveram grande parte os Portuguezes e Espanhoes :os Francezes parece que não, pelo menos não se póde prova-lo com os documentos actualmente conhecidos .Em troca dos objectos que obtinham dos naturaes, os que então com elles commerciavam offereciam-lhes carapuças, avelorios, espelhos, machadose coisas de pouco valor.Provavelmente os que primeiro mais lucros auferiram foram os degradados, que ficavam longotempo na terra, aprendiam a lingua, podiam fazeros negocios mais pausadamente e descobriam novasmercadorias, cujo valor sabiam mais prezado pelosseus compatriotas.Seria isto o que determinou muitos dos tripolantes que vieram nos primeiros navios a desertarem [p. 80]
tiam todas as abominações e desciam até a anthropophagia ( 16 ) .Havia o homem voluntarioso e indomavel, quese impunha, dominava, tornava- se verdadeiro regulo,como aquelle bacharel de Cananéa, que uma vezvendeu oitocentos escravos a Diogo Garcia ( 17 ) .Havia, emfim, o homem mediocre, que nemdescia ao batoque nem se alçava no poderio, natureza indolente, desannuviada de preoccupações,que conseguia viver bem com o natural da terrae com o europeu ; que influia pouco, que soffriapor seu lado pouca influencia : exemplo Diogo Alvares, tão celebre com o nome de Caramurú ( 18 ) .Nos primeiros tempos, os tres typos coexistiram ,mas quem quer que conheça as leis naturaes prevêdesde logo que o primeiro, uma anormalidade, umverdadeiro monstro, não poderia continuar.O segundo, typo de transição, deveria durarmais tempo, generalizar- se mais. Não podia, entretanto, ir muito adiante, nem foi, apesar dos esforçosque neste sentido empregaram os jesuitas.Era ao terceiro que cabia a sobrevivencia, desdeque os Portuguezes, considerando sua a terra descoberta, declaravam intrusos os seus povoadores. [p. 83]
a historia apenas menciona o nome, e ás vezesnem isto.Os Francezes souberam portar -se para com osnaturaes de modo a captar- lhes a amizade e a firmar uma alliança que atravessou mais de um seculo,sem intermittencia .Ser francez era um como salvo - conducto entrecertas tribus . O allemão Hans Staden mais de umavez escapou á anthropophagia, porque os que o detinham duvidavam que elle fosse portuguez. No fimdo mesmo seculo, em brenhas desconhecidas deMinas Geraes, por onde se internára, o inglez Knivetdeclarando- se francez, não só foi poupado como setornou uma especie de chefe, a quem obedecia umahorda numerosa, que elle guiou em suas migrações .Os dois nomes que os Brasis davam aos Fran cezes são ambos caracteristicos da impressão que estes lhes causaram. Um foi o de Mair, isto é ,creador, transformador, segundo Thevet, pelos ob jectos que traziam , pelos instrumentos que permu tavam, pelos officios e artes que iam ensinando. Ooutro foi Ayurujuba, papagaio amarello, pela effu são, pela congenialidade, e aquelle babil qi sãotão caracteristicos dos filhos da Gallia.Para mostrar a differença que existe entre oproceder de Francezes e Portuguezes , basta comparar dois factos. Gonneville, não podendo mandará sua terra o indio Essomeriq, que daqui levara ,casou- o com uma parenta e deu- lhe seu nome. Jeronymo de Albuquerque, salvo da morte por umamulher que por sua causa tudo abandonára, depois [p. 85]
ram e desenvolveram - se tanto que, antes de transcorrido o seculo, tinhamos o phenomeno consideravel dos Bandeirantes.A primeira entrada de que ha noticia deu- se em 1504, anno em que Vespucci, acompanhado deuns trinta homens, penetrou umas quarenta leguaspelo sertão de Cabo Frio, provavelmente para oslados do rio S. João ou de qualquer dos seusaffluentes.Gonçalo Coelho é bem possivel que no tempoque demorou no Rio de Janeiro houvesse tentadoempresa semelhante ; não está, porém, isto provado.Da pequena colonia que se grupou á roda deJoão Ramalho na capitania de S. Vicente, correcomo certo que partiu uma expedição para o interior ; é até citado Aleixo Garcia como tendo idoao Paraguay e ao Perú. Todavia nada se sabe quanto ao rumo seguido, nem quanto ao anno em quese deu o facto, que em todo caso deve ter sidoanterior a 1530, quiçá anterior a 1526.Em 1531 , Martim Affonso de Sousa mandou doRio de Janeiro quatro homens pela terra dentro,que tornaram passados dois mezes, tendo caminhadocento e quinze leguas, das quaes sessenta e cincopor grandes montanhas e cincoenta por um vastocampo. Estas montanhas são as serras dos Orgãose provavelmente os campos a que chegaram foramos dos Goytacazes.A i de Setembro de 1531 , de Cananéa mandouo mesmo Martim Affonso uma tropa de quarentabesteiros e quarenta espingardeiros, de Pero Lobo, [p. 98]
a descobrir pela terra dentro. Levou-o a dar estepasso Francisco de Chaves, companheiro de João Ramalho, que se obrigou a tornar dentro de dez mezescom quatrocentos escravos carregados de prata eouro. Tudo quanto se sabe do destino ulterior destabandeira é que foi completamente destroçada pelosCarijós. ( 1 )Em 1552 approximadamente, o capitão de Porto Seguro mandou ao sertão doze christãos, acompanhados de indios, aos quaes se incorporou o padreJoão de Aspilcueta. Da narração confusa que estenos deixou apenas se colhe que chegaram ás serranias donde manam os affluentes do lado direito doS. Francisco. Provavelmente é esta uma das entradas de Sebastião Fernandes Tourinho, de que dárelação Gabriel Soares. ( ? )Sebastião Tourinho, partindo de Porto Seguro,metteu- se tanto pela terra dentro, que se achou emdireito do Rio de Janeiro. Dahi retrocedeu e veioter ao Jequitinhonha, que desceu em canoas, chegando ao mar depois de vinte e quatro dias denavegação.Sebastião Tourinho fez outra entrada pelo rioDoce, que subiu até grande distancia, descobrindoentão as esmeraldas. ( 3 )Esta viagem foi anterior ao governo de Luis deBrito e Almeida. [.p 99]
Luis de Brito e Almeida, á vista das informações de Tourinho, mandou ás esmeraldas uma ban deira commandada por Antonio Dias Adorno, quesubiu pelo rio das Caravellas e chegou provavelmente ás proximidades do rio Doce. Dahi dividiuse a tropa, descendo uns pelo Jequitinhonha, outros vindo por terra ao Jequiriçá. ( 4 )Gabriel Soares dá ainda noticia de duas entradas feitas proximamente no mesmo tempo : uma deBastião Alvares, de Porto Seguro, que a mandadode Luis de Brito e Almeida foi explorar o S. Francisco, e trabalhou por descobrir quanto pôde noque gastou quatro annos e um grande pedaço dafazenda de el - rei ; outra de João Coelho de Sousa,que subiu mais de cem leguas além de um sumidouro, que provavelmente é a cachoeira de Paulo Affonso. ( 5 )Das palavras do chronista, parece deduzir- se que,ao contrario de Bastião Alvares que subiu contra acorrente, João Coelho de Sousa desceu a favor della,provavelmente por ter chegado ao rio S. Franciscopelo Paraguaçú ou Gussiape.Gabriel Soares que, segundo parece, era irmãode João Coelho ( 6 ) , tambem passa como um dosgrandes bandeirantes do seculo. [p. 100]
Em uma das copias manuscriptas do seu · Roteiro, elle diz que passou muitos dos dezesete annosque residiu no Brasil a percorrer o interior. Na obrade Simão Estaço da Silveira, ( 1 ) publicada em 1624,diz - se que elle foi ao descobrimento do Maranhãopor terra, chegando ás cabeceiras do S. Franciscoe á serra Verde, perto da governação espanholade Charcas. Pelo livro do Frei Vicente do Salvador, sabemos que em 1591 ou 1592 elle chegouaté as cabeceiras do Paraguaçú onde infelizmentemorreu ( 8)A obra de Frei Vicente do Salvador nos dá relação de uma entrada feita pouco mais ou menosneste tempo por Luis Alvares d´Espinha que, par [p. 101]
102O DESCOBRIMENTO DO BRASILtindo dos Ilhéos a pretexto de vingar-se de umas aldeias que mataram uns christãos, e que distavam trinta leguas, aprisionou-as, e passou adiante capti- vando muita gente.De Pernambuco, o mesmo autor faz menção de muitas entradas.A primeira teve logar no governo de Duarte de Albuquerque Coelho (1560-1572) contra os in- dios do cabo de S. Agostinho. Segundo as pala- vras do chronista que parecem exaggeradas, iam além de vinte mil indios, sete companhias, em que entraram a gente de Igaraçu commandada por Fer- não Lourenço; a de Paraty (9) por Gonçalo Mendes Leitão, irmão do bispo D. Pedro Leitão; a da varzea do Capibaribe pelo fidalgo allemão Christovam Lins; a de Olinda commandada por differentes chefes, segundo a sua procedencia, sendo os Viannenses por João Paes; os Portuenses por Bento Dias de San- tiago; os Lisboetas por Gonçalo Mendes d‘Elvas;julga ser nos fins do seculo XVII, um Belchior Dias Moribeca, ser- tanista destemido, cujos roteiros, hoje desconhecidos, gozaram de grande nomeada. Foi, portanto, com o nome de Dias Moribeca e com as acções de Gabriel Soares que se formou o typo de Roberio.Taques, na sua Nobliarchia Paulistana, exprime uma opinião pouco differente da que ahi fica externada. Elle tambem identifica a bandeira de Gabriel Soares com a de Roberio Dias, mas não nega a existencia deste: considera-o apenas como guia da exploração. (Nobliarchia Paulistana na Revista do Inst. XXXIV p. II, pp. 151-152).Esta opinião, que é até certo ponto aceitavel, tem entretanto contra si duas objecções: a primeira é que Frei Vicente do Salvador dá como guia o indio Guaracy; a segunda é que elle não faz menção de nem um Roberio Dias.(9) Historia do Brasil, iiv. III, cap. XV, pg. 83, 84.[p. 102]
Do Espirito Santo ha certeza que Domingos Martins Cão fez uma expedição a procura das esmeraldas por ordem de D. Francisco de Sousa, quando este ainda estava na Bahia, isto é, antes de 1598. Ha ainda notícia de uma expedição feita no mesmo ou no seguinte ano por ordem de D. Francisco de Sousa.
Provavelmente é esta a de Azevedo Coutinho, que, como se sabe, é posterior á de Domingos Martins Cão. Do Rio de Janeiro temos notícias preciosas transmitidas por Knivet de expedições feitas ás cabeceiras do Parahiba e aos sertões de Minas Gerais, entre 1592 e 1600.
De S. Paulo, as bandeiras são numerosas. Diz o epitáfio de Braz Cubas que este descobriu ouro no ano de 1560. Em 1562 sabemos que João Ramalho foi por capitão das guerras contra os Indios do Parahiba. ( 16 ) Affonso Sardinha é sabido que na ultima de cada do seculo, descobriu as minas de Sorocaba. ( 17 ) Jorge Corrêa em 1594 foi para o sul fazer guerra aos Carijós. ( 18 ) [Página 104]
rente, pois os colonizadores não tinham de subi-lo,mas de desce - lo, o que era muito mais facil. Outraera o systema de suas vertentes, que o punha emcontacto com o Parahiba, o Mogyguaçú, o Paranapanema, e, depois de confluir com o Paraná, punha- oainda em contacto com os afluentes do Paraguay.
Os Paulistas começaram a descer o Tietê desde os primeiros tempos, provavelmente antes do meiado do seculo XVI. Uns foram subindo pelos seus afluentes, Juquiry, Jundiahy, Piracicaba, Sorocaba. Outros foram até o Paraná.
Aqui encontraram circunstancias, á primeira vista insignificantes, que exerceram grande influencia sobre a direção das bandeiras e sobre a formação territorial do Brasil. Acima da confluência do Tietê, o Paraná tem um salto que é impossível transpôr: o de Urubupungá ; abaixo elle tem das Sete Quedas, ainda mais difícil de ser passado.
A consequencia foi que as bandeiras tinham, ou detornar, acto de que não eram capazes aquelles homens destemidos, ou de internar- se pelos affluentesdo lado direito e do lado esquerdo do Paraná.Foi o que fizeram .Parece que os affluentes do lado direito do Paraná foram explorados antes dos affluentes do ladoesquerdo, pois sabemos que em 1531 já houveraviagens ao Perú, e só por este modo é que se podem explicar. Sabe- se pelos mappas antigos que dois destes rios foram logo praticados : em primeirologar o Ivinheima com o Mbotetehu que com ellecontraverte ; em segundo logar o Pardo com o Ca [p. 108]
122O DESCOBRIMENTO DO BRASILoriginasse uma nova raça, a de mestiços ou mama- lucos, que tanto influiram sobre a nossa historia, principalmente em S. Paulo.Além destes havia ainda os Francezes que na Parahiba e Rio Grande do Norte deixaram larga geração, como affirma Knivet; os Espanhoes que em S. Paulo se uniram ás principaes familias, e In- glezes, Hollandezes e Allemães avulsos, que depois causaram muito mal pelas informações que forne- ceram aos Hollandezes e outros que por mais de uma vez assaltaram a colonia.Desde o tempo dos donatarios, começou a im- portação de africanos em pequena escala (1). Com a creação do governo geral, a importação augmen- tou e foi cada dia se desenvolvendo.Segundo Domingos de Abreu de Brito, de 1575 a 4 de Março de 1591 foram exportados para o Brasil e Indias de Castella 52.053 escravos, que renderam á fazenda real 156:159$ (2). Em 1584, José de Anchieta em um escripto infelizmente ainda inedito, calcula em dez mil os escravos africanos de Pernambuco, em tres mil os da Bahia (3).Com esta diversidade de raças, deu-se aqui um cruzamento em grau consideravel, e estabeleceram- se muitas classes na população: o europeu de sangue puro, o mazombo, filho de paes europeus; o mulato,(1) Ha entre os manuscriptos do Instituto Historico uma pro- videncia sobre escravos africanos introduzidos no Brasil antes da creação do governo geral. Cf. Historia geral, p. 219.(2) Summario e descripção do reino de Angola. (3) Enformacion del Brasil.[p. 122]
O DESCOBRIMENTO DO BRASIL123filho de pai europeu e mãe africana; o crioulo, filho de africanos nascido no Brasil; o curiboca, ou ca- boclo, filho de indio e africana (1).Numericamente considerados, eram os Brasis a mais importante das tres raças de que se formou o povo brasileiro. Entretanto, pouco a pouco foram ‘diminuindo: uns começaram novas migrações, de que dão testemunho Knivet no seculo XVI e Acuña no seculo seguinte; outros em numero difficil de calcular, succumbiram a epidemias terriveis que appareciam como que fatalmente sempre que se achavam em contacto com os Europeus.Seguiam-se-lhes os Africanos, que mais tarde, principalmente com o descobrimento das minas, che- garam a predominar.Vinham, emfim, os Europeus, fracção numerica ‘do todo.Si calcularmos em sessenta mil a população do Brasil civilizado em 1600, os Brasis eram represen- tados por trinta a trinta e cinco mil, os Africanos e filhos de africanos por vinte mil, os Europeus e os mazombos por menos de dez mil.Entretanto foram estes que venceram, pelo prin- cipio superior que representavam, pela cohesão, pela organização, por muitos outros motivos que fôra longo ennumerar.Essa victoria não foi, porém, completa: na fa- milia, na industria, na religião, no governo, na lite- ratura, Africanos e Brasis exerceram uma influencia,(4) MARCGRAV, liv. VIII, cap. IV. [p. 123]
PROPOSIÇÕESAntes da occupação do Rio de Janeiro pelos Francezes houvera aqui um estabelecimento por- tuguez.Provavelmente foi gente delle que plantou as canas de assucar encontradas por Pigaffeta e Ma- galhães, em 1519.Foi no seculo XVII que as municipalidades exer- ceram entre nós maior influencia.As primeiras lutas entre Brasileiros e Portu- guezes tiveram um caracter municipal pronunciado.Os Hollandezes influiram consideravelmente paraa exploração dos sertões do Norte.No espirito de resistencia que elles despertaram, está uma das causas das revoluções que houve pos- teriormente em Pernambuco.As constituições ecclesiasticas formuladas por D. Sebastião Monteiro da Vide, foram precedidas por outras no seculo XVI.Depois de politicamente independente de Por- tugal, parte do Brasil continuou ainda algum tempo dependente delle ecclesiasticamente. [p. 135]
foi adiada, e a festa popular, passeios pelo rio, toques de instrumentos, prolongaram -se o dia inteiro.A 9 de Março sahiu a esquadra do Restello,já chamado Belém , como ainda hoje ; sabbado 14,de oito ás nove horas, achava- se entre as Canarias,mais perto da Gran- Canaria, á vista della tres ouquatro leguas, todo o dia em calma ; domingo 22,avistaram S. Nicolau, do grupo de Cabo Verde ; ánoite seguinte para segunda - feira, perdeu- se da frotaa nau de Vasco de Athayde, « sem hi haver tempoforte nem contrairo pera poder ser ».0 rumo fôra até ahi SSW. , SW. 1/4 S., S.1/4 SE. , approximadamente como se costumava ao ser escripto o Esmeraldo de situ orbis de DuartePacheco. Do archipelago para diante mudou. « D. Vasco da Gama, escreve Gaspar Corrêa, fez con selho com os mestres e pilotos da navegação que fariam pera encurtar o caminho, que era cortar polomar largo, tomando largos os ventos do mar, que corriam pera terra, com muito resguardo por dobrar o cabo de Boa Esperança, e de dentro dellefossem haver vista de terra, que bem conheciam pilotos Mouros de Melinde ( 3 ) .O Capitão-mór diligenciou pela nau esgarradaa umas e outras partes, e não a achando seguiu seucaminho por aquelle mar de longo ( 4) .( 3) Lendas da India I , 149, Lisboa, 1858.( 4 ) A navegação de longo, usada desde Cabral, é assim des cripta por Duarte Pacheco : Todo o navio que estiver no Cabo Verde e houver de ir pera a India, si lho vento servir a seu prazer deve [p. 142]
vieram todos os commandantes á capitánea. Aterra podia ser da India, e foi mandado a examina- la Nicolau Coelho, companheiro de Vasco daGama, naturalmente com o judeu Gaspar, que sabiaa lingua arabiga e alguma da costa de Malabar,donde viera. Sahiram-lhe muito rijos ao encontrouns dezoito homens pardos, nús, armados de arcoe flechas. A um signal de Nicolau Coelho, depuzeram as armas. Não poude com elles haver falasnem entendimento, por arrebentar muito o mar.Coelho deu- lhes um barrete vermelho, uma carapuça de linho , que levava na cabeça, e um sombreiro preto. Em troca, um presenteou- o com umsombreiro de pennas compridas de ave, com umacopesinha pequena de pennas vermelhas e pardascomo de papagaio, outro com um ramal de continhas brancas, miudas, como de aljaveira.Ventou á noite. Por conselho dos pilotos a armada levantou ancora e fez vela ás 8 horas da manhã de sexta, 24. Estavam juntos no rio uns ses senta ou setenta homens da terra : é sabido comoentre a gente inculta, onde os generos não circulam , as noticias propagam- se com incrivel rapidez.Viajou - se para o Norte, os navios pequenos maischegados á terra, os maiores seguindo de longo ;tratava- se de achar alguma abrigada e bom pouso,onde podessem tomar agua e lenha. O Capitão- mórordenou navios pequenos amainassemachando pouso seguro. A dez leguas do rio deixado pela manhã encontrou- se um arrecife, com portodentro muito bom e muito seguro. [p. 145]
Entraram por elle os navios pequenos. Amainaram as naus ao sol posto, obra de uma legua do recife.Affonso Lopes, piloto do Capitão- mór, foi emum esquife sondar o porto . Dali levou, já noite,dois mancebos de bons corpos que andavam pescando em canoa. Um trazia arco e seis ou sete flechas. A bordo poderam os navegantes examina- losde perto : pardos, quasi avermelhados, bem feitos,de bons rostos e bons narizes, nús, beiços furados,trazendo inseridos ossos, cabellos corridos, tosqueados mais alto que escovinha, rapados até acima dasorelhas . Um delles trazia atraz da fontainha, defonte a fonte para detraz , uma maneira de cabelleira de pennas de ave muito basta e redonda, pegada nos cabellos penna por penna com uma confecção branda como cêra, de um covado de comprimento, que cobria o toutico e as orelhas.A impressão causada pelos indigenas foi maiorque a por estes recebida . Não fizeram menção decortezia nem de falar a ninguem ; das comidas apresentadas provaram apenas, nem vinho nem agua lhessouberam ; interessaram-nos objectos de ouro e pratae contas; reconheceram um papagaio e estranharamuma gallinha ; deitaram - se de costas em uma alcatifa para dormir, e acommodaram- se bem com oscoxins e mantos que lhes puzeram por cima.Sabbado 25 pela manhã, demandou -se a entradamuito larga , alta de seis a sete braças de ancoragemgrande, formosa e segura, de capacidade para maisde duzentos navios e naus.Os commandantes dos navios se encaminharam [p. 146]
para bordo da capitanea. Com seus arcos e setas, camisas novas, carapuças vermelhas, rosarios de con- tas brancas de osso, cascaveis e campainhas, foram entregues os dois indigenas a Bartholomeu Dias, o conhecedor da costa da Africa e Nicolau Coelho, o navegador da India, para os levarem á terra. Ape- nas desembarcaram, os dois indigenas não pararam nem esperaram um pelo outro, cada qual corria mais; atravessaram um rio e foram a algumas moi- tas de palmas, onde estavam outros; mais tarde vol- taram, já nús e sem carapuças.Com Bartholomeu Dias e Nicolau Coelho des- embarcaram Pero Vaz de Caminha, o perspicuo nar- rador destes feitos, e um degradado. Receberam a todos obra de duzentos homens armados, que a um signal depuzeram as armas. Começou-se a fazer aguada. Dos indigenas alguns traziam cheias ca- baças, outros tomavam barris e os enchiam. Nicolau Coelho distribuiu-lhes cascaveis e manilhas. Permu- taram-se arcos e flechas por sombreiros, carapuças de linho e coisas de menor valia. Ali não houve mais fala nem entendimento, por ninguem os en- tender nem ouvir.Dos homens que andavam na praia quasi todos traziam bicos de ossos nos beiços e alguns tres, um no meio, dois nos cantos; outros preferiam es- pelhos de pau, como de borracha. Estavam nus; estes metade do corpo tinham da propria côr, me- tade tinto de preto, quasi azulado, outros pintavam- se em xadrez; usavam carapuças de pennas ama- rellas ou verdes. Um, já de idade, andava todo en- [p. 147]
senhor, não entendiam a preeminencia do Capitãomór, nem disto tomavam conhecimento.Este dia passado quasi todo no convivio entreas duas raças influiu no inimitavel narrador enthusiasmo pelo homem da natureza, de que teve ahiintuição nitida. Notando sua esquivança, que roçava pela ingratidão ( os dois homens tão bem tratados pelo Capitão - mór não lhe appareceram mais)conclue : « de que tiro ser gente bestial e de poucosaber e por isso são assi esquivos ; elles , porém,comtudo andam muito bem curados e muito limpos,e naquillo me parece ainda mais que são como avesou alimarias montezes que lhes faz o ar melhorpenna e melhor cabello que ás mansas ; porque oscorpos seus são tão limpos, e tão gordos e tão fremosos que não pode mais ser, e isto me faz presumir que não tem casas nem moradas em que seacolham e o ar a que se criam os faz taes » .Tornaram para as naus a dormir já quasi noite,e, parece, Pero Vaz de Caminha começou a escrevera D. Manuel a carta que o immortalizou.Segunda-feira 27 , proseguiu o escambo, arcos,flechas, carapuças de pennas, araras vermelhas muitograndes e formosas, papagaios verdes menores, umpanno de pennas de muitas côres . Viram uns ouriçosde urucû semelhando castanhos, cheios de grãospequenos de que se extrahia a tinta vermelha parapintar os corpos, tinta tanto mais vermelha quantomais se molhava. Diogo Dias e dois degradados foram a uma aldeia distante legua e meia, e examinaram o povoado, composto de nove a dez casas [pç. 150]
O DESCOBRIMENTO DO BRASILos baptisar... A innocencia desta gente é tal que a de Adão não seria mais quanta em vergonha. Ora veja Vossa Alteza quem em tal innocencia vive ensi- nando-lhe o que pera sua salvação pertence, si se converterão ou não.»Depois do sermão, frei Henrique sentou-se ao pé do cruzeiro e começou a distribuir cruzes de es- tanho, restantes das que Nicolau Coelho levara na primeira viagem á India. A cada indigena frei Hen- rique lançava a sua, atada em um fio ao pescoço, fazendo-lha beijar e levantar as mãos. Despedidos do cruzeiro que alli ficava para attestar a passagem dos navegantes e posse da terra tomada em nome de el-rei de Portugal, tornaram para bordo.Alta noite, encerrando sua epistola a D. Manuel, exprime-se assim Vaz de Caminha:<< Esta terra, Senhor, me parece que da ponta que mais contra o Sul vimos até outra ponta que contra o Norte vem, de que nos deste porto houve- mos vista, será tamanha que haverá nella vinte ou vinte e cinco leguas per costa; traz ao longo do mar em algumas partes grandes barreiras, dellas vermelhas e dellas brancas, e a terra per cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos; de ponta a ponta, é toda praia parma, muito chã e muito fre- mosa; pelo sertão nos pareceu do mar muito grande, porque a estender olhos não podiamos ver sinão terras e arvoredos, que nos parecia mui longa terra. Nella até agora não podemos saber que haja ouro nem prata, nem nem-uma cousa de metal, nem de ferro, nem lho vimos; pero a terra em si é de muito [p. 154]158O DESCOBRIMENTO DO BRASILuma estampa com treze navios reproduzida na bella edição princeps do Esmeraldo de Duarte Pacheco, publicada em 1892 pelo erudito Raphael Eduardo de Azevedo Basto. Aos conhecedores de historia da construcção naval golpeiam logo os anachronismos do velame e da mastreação; aos conhecedores dos processos da critica historica, o nome de Luis Pires em vez de Vasco de Athayde revela desde logo a contaminação de Castanheda, Barros e Damião de Góes. E uma nota á pag. VIII do prologo de Ra- phael Basto confirma a conclusão: a estampa foi tirada de um livro das armadas que alcança até 1566; não tem, pois, nada com Duarte Pacheco, nem com 1500; julguemo-nos felizes si fôr exacta na representação das naus de 1560.Ha annos o Instituto Historico poz em discussão a these: si o descobrimento de nossa patria fôra ou não devido a mero acaso. Um socio concluiu pela negativa, e cobrou foros de extravagante e chuveram- lhe em cima as refutações. Hoje a idéa de Joaquim Norberto avassalla triumphantemente a maioria.O illustre editor do Esmeraldo encontra provas da intencionalidade do acto nas seguintes palavras de Caminha escriptas a proposito do desappareci- mento da nau de Vasco de Athayde: e assi seguimos nosso caminho por este mar de longo. A estas pa- lavras bem poderiamos oppôr outras do mesmo Ca- minha, quando adopta a idéa de Fr. Henrique de que o descobrimento foi milagre da bandeira de Belem, isto é: o que se póde imaginar de mais fortuito, por ser obra, não da humana, mas da di- [Página 158 e 159]
160O DESCOBRIMENTO DO BRASILMagalhães até Tehuantepec por Santiago de Gue-vara.Sobre todos esses espiritos exerceram extraordi- naria pressão as seguintes palavras de Esdras, livro IV, cap. 6:<< No terceiro dia mandastes as aguas ajuntar na setima parte da terra, verdadeiramente as seis partesseccastes >>.«A augua, diz Duarte Pacheco, é posta na se- tima parte da terra, e as seis partes della som des- cobertas pera vida da natureza humana e dos ou- tros animaes... O mar oceano non cerca a terra como Homero e outros autores disserom, mas antes a terra deve cercar o mar, pois jaz dentro na sua concavidade e centro, pelo qual concrudo que o mar oceano non é outra cousa sinon uma muito grande alagoa mettida dentro na concavidade da terra, e a mesma terra e o mar ambos juntamente fazem uma redondeza de cujo meio sahem muitos braços que entram pelas terras que medios terranos som chamados.<< A terra, insiste Duarte Pacheco, tem augua ‘dentro em si, o mar non cerca a terra, como Ho- mero e outros autores disserom, mas antes a terra por sua grandeza tem cercadas e incultas todalas auguas dentro na sua concavidade e centro. E além ‘do que dito é, a experiencia que é madre das cousas nos desengana e de toda duvida nos tira e, por- tanto, bem aventurado Principe, (dirigia-se a D. Manuel) temos sabido e visto como no terceiro anno do vosso reinado do anno de N. S. de 1498, donde [p. 160]
164O DESCOBRIMENTO DO BRASILstituida de cómoros de areia. O cruzeiro chantado por Cabral deve ficar num pequeno morro, onde o rio Mutary bruscamente muda de direcção (2).Não ha entretanto lagoa de agua doce; ha só tres lagoas de agua salgada ás vezes em communi- cação com o mar. Isto, porém, não estranhará quem sabe que das formas terrestres são lagos e lagoas as menos permanentes.Desde que Ayres do Casal a publicou em 1817, a carta de Pero Vaz de Caminha tem sido consi- derada a base de toda a historia do descobrimento de Pedr‘alvares. O documento original existe, aos que o viram nem uma suspeita acudiu quanto ás circumstancias extrinsecas: letra e papel são ambos do tempo. Ultimamente, porém, levantaram-se al- gumas duvidas a respeito de sua autenticidade. Duvidas aereas.Si o documento fosse forjado, devia se-lo antes de 1508, data da publicação de Montabbodo e Ma- drignano, em que é narrada a viagem de Cabral por um piloto portuguez.Si fosse forjado depois, o falsario teria para data do descobrimento 24 e não 22 de Abril, no intuito de pôr-se de accôrdo com o piloto; não teria esquecido um peixe de que fala o piloto « do ta- manho de um tonel, mas mais comprido e todo redondo, a sua cabeça do feitio da de um porco, os olhos pequenos, sem dentes, com as orelhas com-(2) SALVADOR PIRES, Estudos sobre a bahia Cabralia e Vera- Cruz, Bahia, 1899. [p. 164]
O DESCOBRIMENTO DO BRASIL247e Minas, Apinagés no Maranhão, Bugres ou Sinklão em Santa Catharina. Não está definitivamente li- mitado e comprehende tribus que mais conviria apartar.-quem me-É opinião de Paulo Ehrenreich, lhor estudou estes Indios, que seu centro de mi- gração foram Espirito Santo e Minas Geraes, onde avultam mais atrazados, simples apanhadores, em estado muito primitivo; seus representantes no in- terior encontram-se mais adiantados e progressivos. Seriam assim suas migrações no sentido de Este para Oeste, como seu desenvolvimento. Entretanto, parece mais provavel o contrario, isto é, que te- nham vindo de onde ainda hoje são mais abun- dantes: entre Mearim, Tocantins e Araguaya. Pro- va-o sua distribuição, que vem terminar em cunha sobre o littoral; prova-o ainda melhor a inacção e a ignorancia dos Aymorés em frente do Oceano, a cujas ondas nunca se confiaram. Dos Gés os que maior área geographica povoaram foram os Caya- pós, chamados Ibirajaras pelos Tupis e Bilreiros pelos Portuguezes, por causa do porrete de que se serviam. Sua presença é attestada no varadouro de Camapuam, nas aguas do Paraná, nas do S. Fran- cisco, no Araguaya, nas pontas do Xingú, no Ta- pajoz em meio dos Bacaeris, que os rememoram entre seus alliados e bemfeitores.Quarto grupo formam os Carahibas, chamados Pimenteiras em terras entre o S. Francisco e o Par- nahiba, Apiacás nó Tocantins, Bacacris e Enau- cucúas no Xingú, Crixanás, Pianagotos, Macuxis, [p. 247]
Muitos seculos jouve desdenhada ou esquecidaa carta de Caminha, e a este acaso feliz se póde,sem temeridade, attribuir sua conservação.Cerca de 1790 descobriu - a em suas pesquisas oerudito historiador castelhano J. B. Muñoz, affirmaNavarrete. Sem saber disto, alguem ainda desconhecido forneceu uma copia ao real archivo da Marinha do Rio de Janeiro. Della serviu - se Manoel Ayresdo Casal para publica - la integralmente em 1817 ,no primeiro volume da Corographia, sahido dosprelos da impressão desta cidade. Ninguem maisdigno de publica- la do que o verdadeiro creador dageographia nacional.Nove annos depois desta edição princeps, appareceu outra em Lisboa, mais completa, cotejada pelo original, ao que se crê, no quarto volume das Noticias ultramarinas. Por julga - la demasiado accessivel ,ou por outro motivo semelhante, o Instituto Historico excluiu da - Revista Trimensal a carta deCaminha, só por instancia de Varnhagen estampadano tomo 40, parte segunda, quasi 40 annos depoisde sua fundação.Antes e depois desta, houve numerosas reimpressões , arroladas até certa época nos Annaes daBibliotheca Nacional. Dentre ellas cumpre destacarduas feitas em Lisboa para commemorar o cente [p. 289]
foi publicada a segunda edição na língua inglesa. Pouco depois, em 1848, o relato foi publicado em língua alemã em Dresden e Leipzig, atual Alemanha.A edição em português ocorreu em 1942, na Coleção Brasiliana, intitulada Viagens no Brasil: principalmente nas províncias do norte e nos distritos de ouro e do diamante durante anos 1836-1841, da Companhia Editora Nacional.No ano de 1856 foi publicado o relato Life in Brazil; or, a journal of a visit to the land of the cocoa and the palm de Thomas Ewbank ela Harper & Brothers, Nova York, sendo lançada também na Inglaterra. Nos Estados Unidos houve uma edição em 2005.No Brasil, o relato em português foi publicado com o título A vida no Brasil: ou Diário de uma visita ao país do cacau e das palmeiras, em 1973, pela editora carioca Conquista, em dois volumes.O relato de Henry Walter Bates foi publicado em 1863, em dois volumes, com o título The naturalist on the River Amazons, a record of adventures, habits of animals, sketches of Brazilian and Indian life, and aspects of nature under the Equator, during eleven years of travel by Henry Walter Bates, em Londres pela John Murray. A segunda edição ocorreu um ano depois, com supressão de algumas partes pelo autor, seguida por mais de dez edições na língua inglesa em Londres e nos Estados Unidos. No Brasil O naturalista no Rio Amazonas foi editadoem 1944 pela Editora Nacional.
Em 1869, Richard Burton publicou a primeira edição de Explorations of the Highlands of the Brazil; with a full account of the gold and diamond mines. Also, canoeing down 1500 miles of the great River São Francisco, from Sabará to the Sea by Captain Richard F. Burton, F.R.G.S., etc., em Londres por Tinsley Brothers, em dois volumes. A obra recebeu destaque em finais do ano passado e foi publicada em Nova York no centenário da primeira edição, e nos últimos dezesseis anos teve três edições nos Estados Unidos.
No Brasil, a primeira edição de Viagens aos planaltos do Brasil: 1868, em três volumes,ocorreu no ano de 1941 pela Companhia Editora Nacional, que publicou a segunda edição em 1983. Houve uma edição em 2001 pelo Senado Federal intitulada Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho, volume único.
Em São Paulo, a Tip. Allemã de H. Schroeder publicou Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gaston e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba de John James Aubertin no ano de 1866.
Nesse mesmo ano foi traduzido para o inglês pelo autor e publicado em Londres pela Bates, Hendy & Co. com o título Eleven day’s journey in the Province of Sao Paulo, with the [p. 10]
Outro ponto, o parâmetro comparativo do algodão brasileiro e do norte-americano. A produção dos Estados Unidos figura como indicadora de qualidade e produtividade, em vista do país ter sido o maior fornecedor do mundo, e é trazida pelos viajantes quando desejam estimular a produção no Brasil, em especial, utilizando dados fornecidos por conhecedores do ramo.Nesse sentido, Richard Burton traz as considerações de um renomado pesquisador da cultura algodoeira, Major R. Trevor Clarke96 para quem “Aqui [no Brasil] o algodão tem mais penugem que o habitual; 600 quilos darão 250 de fibra limpa, ao passo que no Alabama são necessários 750 quilos. Em geral, o replantio do arbusto é feito em seu quarto ano”.97 E J. J. Aubertin traz a experiência dos americanos sulistas Dr. Gaston, Dr. Shaw e Major Mereweather, a quem ele acompanhou durante a passagem deles pela Província de São Paulo:Eramos cinco pessoas. Tres Americano sulistas, dr. Gaston, dr. Shaw e o major Mereweather, que ião fazer sua viagem prolongada, na exploração de districtos um pouco remotos, sob a direcção do sr. Engenheiro Bennaton, para esse fim nomeado; e, sendo informado dos seus preparativos, logo me aggreguei a elles, não menos por sympatia para com a antecipada immigração americana, como tambem pelo desejo de visitar em sua companhia algumas plantações de algodão, e tirar algumas instrucções de sua experiencia pratica, a respeito de uma cultura que, sendo hoje estabelecida na província, não póde deixar de influil-os cabalmente na resolução que definitivamente tenhão que tomar.98Durante a permanência na província paulista, o grupo visitou a região de Itu, Salto, Porto Feliz e Sorocaba, daí J. J. Aubertin seguiu para a capital paulista e eles continuaram viagem com destino à Itapetininga. As observações de diferentes aspectos da lavoura algodoeira e o processamento do algodão fizeram os norte-americanos considerarem o clima paulista adequado à produção e benéfico o fato de não haver mudanças bruscas na temperatura, como a ocorrência de geadas, possibilitando maior tempo de conservação do algodoeiro.99Esses dados são agregados por J. J. Aubertin àqueles fornecidos por produtores paulistas de que “emquanto o alqueire norte-americano, dando bem, produz de cem até cento e dez ou talvez 96 Richard Trevor Clarke (1813-1897) – “Army officer and horticulturalist. Major in the Northampton and Rutland Infantry Militia, 1862. Bred nearly thirty new varieties of begonias and many new strains of cotton. Awarded a gold medal by the Cotton Supply Association of Manchester. Member of the Royal Horticultural Society; served on the council and scientific committee for many year; awarded the society’s Veitchian medal, 1894”. BURKHARDT, Frederick et al (Ed.). Charles Darwin. The Correspondence of Charles Darwin (1866). Cambridge: Cambridge University, 2004, p. 502, vol. 14.97 BURTON, Richard Francis. Viagem de canoa de Sabará ao Oceano Atlântico..., op. cit., p. 29. [nota 3]98 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gastón e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba. São Paulo: Typ. Allem[p. 159]
Os esforços de J. J. Aubertin devem ser compreendidos dentro desse contexto, em que ele se coloca como defensor da produção algodoeira paulista e atua em diferentes direções. No Brasil, escreveu para diversos periódicos nacionais e correspondeu-se com diferentes figuras da política brasileira para lhes solicitar o envolvimento com a lavoura algodoeira capaz de colocar São Paulo em posição favorável no mercado inglês, tal como fez o inglês em carta ao Comendador Fideles Prates:
Usai, vos peço, nesta vespera de uma nova semeadura, a vossa bem conhecida influencia entre os vossos amigos, e dizei aos cultivadores do algodão que redobrem os seus esforços na nova plantação, porque pela colheita futura é que se diciderá definitivamente a importante questão se a provincia de S. Paulo pode ou não pode occupar uma posição positiva nos mercados de Manchester.104
Aos agricultores interessados, ele também procurou difundir noções sobre a técnica de cultivar o algodão herbáceo e publicou folhetos sobre a cultura do algodão.105 Essa política de difundir informações sobre o cultivo foi uma atividade constante da associação inglesa, mesmo após o fim da guerra norte-americana.
No plano internacional, empenhou-se em apresentar os algodões paulistas de boa qualidade na Exposição Internacional de Londres, de 1862, com o objetivo de mostrar os atributos do produto. Também foi intermediador entre Manchester Cotton Supply Association e órgãos brasileiros; em duas ocasiões, nos anos de 1862 e 1865, J. J. Aubertin solicitou à associação britânica que enviasse algodão herbáceo ao Ministério da Agricultura e à Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional.106 Em diferentes momentos enviou para a Inglaterra amostras do algodão paulista, em geral, com boas avaliações dos correspondentes.J. J. Aubertin arquitetou ações no Brasil ligadas aos interesses ingleses baseadas em informações colhidas por ele na província ou com base na experiência de nacionais e, principalmente, de norte-americanos, com o propósito de deixar claro as potencialidades de São Paulo e convencer os potenciais produtores paulistas. Para aqueles que mesmo assim estivessem em dúvida, ele escreve:
Deveras, já é tarde demais para duvidar do algodão de São Paulo; mas se ainda ha descrentes, apenas apello para os dous srs. Cultivadores que acompanhei, major Mereweather e dr. Shaw. Ambos elles me repetirão muitas vezes, que melhor algodão que aquelle que nos vimos não desejavão ver; que nas suas proprias plantações e com todos os seus meios perfeitos não costumavãoproduzir melhor. 107
Seus esforços renderam-lhe o reconhecimento da associação inglesa, que o condecorou com uma medalha de ouro, e o governo brasileiro honrou-o com o hábito da Imperial Ordem da Rosa. Nos veículos de informação brasileiros, nos quais tanto escreveu, vemos o reconhecimento de seus pares, como E. Hutchings, outro entusiasta da lavoura algodoeira em terras paulistas e intermediário entre a associação e o Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas:
Hoje, considerado, como um genero de exportação, o algodão, e sua cultura, é um dos factos estabelecidos na historia da provincia, e eu me aproveito desta occasião para patentear a gratidão que todos temos.Quem sabe, o que ha de mostrar-se nos anos que vem? Quasi todas as condições de prosperidade estão unidas nesta provincia; - Um clima sem rival, uma terra cheia de riquesa, e uma natureza, cuja uberdade é espantosa. Tudo isto aqui, e no outro lado do Oceano, a Inglaterra, offerece tudo quanto seja possivel afim de attrahir para lá, os productos da provincia, e com as devidas providencias, e constancia em trabalhar, tudo será possivel, e, sem esta, nada.Campinas, Mogy-mirim, Limeira e outros lugares vão caminhando na cultura do café, e o publico, bem como os particulares, são beneficiados. Parece que, para Sorocaba, resta ainda este outro manancial de prosperidade; - a cultura do algodão, e não ha homem ou natural, ou estrangeiro na provincia, que não abençoará a empresa.[...] Caminho da Luz, S. Paulo Agosto de 1865[...] E. Hutchings108
Evidentemente, tais esforços foram no sentido de produzir algodão adequado às necessidades da indústria inglesa. Foi estimulado o plantio da semente de Nova Orleans, em solicitação de uma circular da Manchester Cotton Supply Association109 e houve uma modificação na postura do produtor brasileiro: “O tipo de algodão tradicional no Brasil era o arbóreo mas o mercado consumidor passou a condicionar a produção ao tipo herbáceo dos 107 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo..., op. cit., p. 16.108 HUTCHINGS, E. “Aos Redactores do Diario de São Paulo”. Diario de S. Paulo, São Paulo, 11 agosto 1865, ano I, nº 10, p. 2. Em outras atividades, além do algodão: E. Hutchings foi um dos secretários da Comissão Julgadora de um concurso para criadores de animais pensado por J. J. Aubertin, tesoureiro do evento. O Comendador Fideles Nepomuceno Prates aparece como um dos Juízes. “Concurso industrial”. Correio Paulistano, Estados Unidos. As variedades mais procuradas eram a U[p. 161, 162]