6 de junho de 2022, segunda-feira Atualizado em 13/02/2025 06:42:31
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HOJE NA;HISTóRIA
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A visão que se tem de Sorocaba a partir do local onde está a Prefeitura sempre foi linda. Dai surgiu o nome do bairro Alto da Boa Vista, ou apenas Boa Vista.
Pelas mesmas razões, foi denominada de “Bella Vista” uma chácara situada abaixo da atual Faculdade de Tecnologia e do Clube de Campo Sorocaba, ao final da avenida São Paulo. Foi o parcelamento desta enorme área que ajudou a formar o bairro da Árvore Grande.
Com seus 27 alqueires (250 mil metros quadrados), a Chácara Bela Vista pertenceu originalmente a Antônio Marciano e sua mulher Maria das Dores Marciano. Em 1893, ela foi adquirida, por 14 contos de réis, pelo alemão (prussiano) Johann Frederich Hingst e sua esposa (brasileira) Izabel Papst Hingst (filha de João Papst e Mariana Antônia). O casal teve 12 filhos, 9 deles nascidos na Fábrica de Ferro Ipanema (a partir de 1871), onde o casal se conheceu e João Frederico foi oleiro mestre por muitos anos.
A chácara se estendia ao longo do final da então Rua São Paulo, da atual Sadrac de Arruda, seguia até um pouco acima dos prédios da Drury´s, ia até a Vila Rica, onde passava o antigo traçado da Ferrovia Sorocabana (próximo do Jardim Saira em direção do Alto da Boa Vista), passava pelas atuais avenida Carlos Reinaldo Mendes e Rua Padre Madureira, chegando à longa curva do Rio Sorocaba, percurso ainda não retificado. Para a família Hingst, o beira-rio era o espaço mais apreciado, pois ficava ali o “barreiro” principal para a retirada do material para a produção de tijolos e telhas. O documento de venda menciona ainda, como referência, o córrego Bela Vista, provavelmente o córrego Piratininga que corta boa parte da área adquirida. A compra da chácara está registrada no Livro de Notas nº 59, folhas 21 e 22.
O núcleo principal da chácara dos Hingst ficava na atual Rua Epitácio Pessoa, ao lado do Pax ( cemitério ali implantado em 1968), onde até pouco tempo ficava um depósito da Ultragaz. Outra referência é o prédio da Packing House, hoje ocupado pela Cetesb. Por ali ficava o casarão e os três edifícios da olaria.
A família, de usos e costumes simples e sistemáticos, dedicava-se ao plantio de roça e a criação de alguns animais para o sustento, mas a atividade principal era a produção de telhas e tijolos, por processos manuais, artesanais. Literalmente, metia a mão no barro em sistema de mutirão de adultos e crianças, pois nunca chegou a instalar processos mais modernos de mecanização, seguindo o sistema usado por João Frederico Hingst em Ipanema, com técnica semelhante à praticada pela família na Alemanha.
COLABORAÇÕES PARA SOROCABA
João Frederico era desapegado, tinha espírito público de colaboração. Em novembro de 1929, liberou área de sua propriedade para a instalação de postes telefônicos entre Sorocaba e Brigadeiro Tobias, como atesta correspondência enviada pela Companhia Telefônica Brasileira (foto). Da mesma forma, permitiu a passagem da antiga estrada de rodagem para São Paulo pelo interior de sua chácara, a antiga estrada São Paulo-Curitiba, depois Rodovia Raposo Tavares, que passava pela avenida São Paulo. Ou seria a antiga estrada de Itu, perto da curva da Drury´s?E doou em 1929 terreno de 15 mil metros quadrados para a Câmara de Sorocaba, que repassou para o Estado, anexo à olaria, para a construção da Packing House (casa de preparo das laranjas para exportação). Da mesma forma, cedeu área para a passagem do novo trajeto dos trilhos da Sorocabana, agora com duas pistas que passaram pelo interior de sua olaria. O novo trajeto da ferrovia (o que passa sobre o pontilhão da Rua Padre Madureira) foi inaugurado em 1930, mesmo ano em que foi aberta a Packing House, onde se instalou a Cooperativa de Citricultores de Sorocaba.
O casal João Hingst e Izabel Papst faleceu em 1930. Não sem antes fazer em vida a divisão de seus bens, divididos em 12 quinhões (12 filhos), a partir de estudo feito por Dr. João Lacerda. Foi feito inclusive um mapa sobre a doação das áreas da Chácara Bela Vista (foto). A família era ainda proprietária da Chácara Lavapés, na parte baixa desse córrego.
Coube ao filho Alberto Hingst, o que mais tinha vocação para continuar o negócio, uma gleba de 44 mil metros quadrados, que incluía a olaria e o barreiro na várzea do Rio Sorocaba. Alberto continuou com o negócio até 1935, quando vendeu para o concorrente Pellegrini. Consta que Eduardo Johann Raszl também foi proprietário da olaria. José Raszl (filho?) foi casado com Leopoldina, filha do velho João Frederico Hingst, falecido a 10 de julho de 1930, seguido da morte de Izabel em 7 de agosto do mesmo ano.
O QUE RESTOU
Estive na área da antiga olaria, na Rua Epitácio Pessoa para ver se encontrava algumas ruínas. Fiz algumas fotos, que estou postando. A única edificação da época é o prédio da Packing House, restaurado há algum tempo para receber o escritório da Cetesb. O prédio guarda as características, como madeirame e inclusive as paredes em tijolos fabricados pela Olaria Hingst. Há no jardim uma moldeira de ferro usada para fabricar tijolos (mas deve ser bem mais recente). Havia no interior também um forno para cura de tijolos, também de metal. Mas não era hábito dos Hingst fabricar tijolos usando esses aparelhos.
Por ali, passa o córrego Lavapés a céu aberto. Na parte baixa do cemitério Pax, permanece um antigo lago, hoje ornamental. É bem provável que, pela proximidade, também dali os Hingst retiravam barro. Um pouco abaixo, temos o velho pontilhão estreito e curvo sob os trilhos (passagem de carros) tendo ao lado a ampla galeria dos tubos do córrego e ruínas de uma passagem mais antiga, escorada por tijolos.
Boa parte das informações e das fotos (antigas) encontrei no livro Sérgio Hingst, Um Ator de Cinema, escrito por Máximo Barro, publicado pela Editora Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. O ator e empreendedor de cinema Sérgio Hingst nasceu em Sorocaba, na Chácara Bela Vista, e é neto de João Frederico Hingst (farei uma postagem especial sobre ele). Também contarei a história de João Frederico na Fábrica de Ferro Ipanema, inclusive seu contato com D. Pedro II.Na foto do casal João-Izabel Hingst que estou publicando, quem aparece em pé é o filho Albino, e a menina ao colo é a neta Clara.Clique nas fotos para ver melhor.
foi publicada a segunda edição na língua inglesa. Pouco depois, em 1848, o relato foi publicado em língua alemã em Dresden e Leipzig, atual Alemanha.A edição em português ocorreu em 1942, na Coleção Brasiliana, intitulada Viagens no Brasil: principalmente nas províncias do norte e nos distritos de ouro e do diamante durante anos 1836-1841, da Companhia Editora Nacional.No ano de 1856 foi publicado o relato Life in Brazil; or, a journal of a visit to the land of the cocoa and the palm de Thomas Ewbank ela Harper & Brothers, Nova York, sendo lançada também na Inglaterra. Nos Estados Unidos houve uma edição em 2005.No Brasil, o relato em português foi publicado com o título A vida no Brasil: ou Diário de uma visita ao país do cacau e das palmeiras, em 1973, pela editora carioca Conquista, em dois volumes.O relato de Henry Walter Bates foi publicado em 1863, em dois volumes, com o título The naturalist on the River Amazons, a record of adventures, habits of animals, sketches of Brazilian and Indian life, and aspects of nature under the Equator, during eleven years of travel by Henry Walter Bates, em Londres pela John Murray. A segunda edição ocorreu um ano depois, com supressão de algumas partes pelo autor, seguida por mais de dez edições na língua inglesa em Londres e nos Estados Unidos. No Brasil O naturalista no Rio Amazonas foi editadoem 1944 pela Editora Nacional.
Em 1869, Richard Burton publicou a primeira edição de Explorations of the Highlands of the Brazil; with a full account of the gold and diamond mines. Also, canoeing down 1500 miles of the great River São Francisco, from Sabará to the Sea by Captain Richard F. Burton, F.R.G.S., etc., em Londres por Tinsley Brothers, em dois volumes. A obra recebeu destaque em finais do ano passado e foi publicada em Nova York no centenário da primeira edição, e nos últimos dezesseis anos teve três edições nos Estados Unidos.
No Brasil, a primeira edição de Viagens aos planaltos do Brasil: 1868, em três volumes,ocorreu no ano de 1941 pela Companhia Editora Nacional, que publicou a segunda edição em 1983. Houve uma edição em 2001 pelo Senado Federal intitulada Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho, volume único.
Em São Paulo, a Tip. Allemã de H. Schroeder publicou Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gaston e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba de John James Aubertin no ano de 1866.
Nesse mesmo ano foi traduzido para o inglês pelo autor e publicado em Londres pela Bates, Hendy & Co. com o título Eleven day’s journey in the Province of Sao Paulo, with the [p. 10]
Outro ponto, o parâmetro comparativo do algodão brasileiro e do norte-americano. A produção dos Estados Unidos figura como indicadora de qualidade e produtividade, em vista do país ter sido o maior fornecedor do mundo, e é trazida pelos viajantes quando desejam estimular a produção no Brasil, em especial, utilizando dados fornecidos por conhecedores do ramo.Nesse sentido, Richard Burton traz as considerações de um renomado pesquisador da cultura algodoeira, Major R. Trevor Clarke96 para quem “Aqui [no Brasil] o algodão tem mais penugem que o habitual; 600 quilos darão 250 de fibra limpa, ao passo que no Alabama são necessários 750 quilos. Em geral, o replantio do arbusto é feito em seu quarto ano”.97 E J. J. Aubertin traz a experiência dos americanos sulistas Dr. Gaston, Dr. Shaw e Major Mereweather, a quem ele acompanhou durante a passagem deles pela Província de São Paulo:Eramos cinco pessoas. Tres Americano sulistas, dr. Gaston, dr. Shaw e o major Mereweather, que ião fazer sua viagem prolongada, na exploração de districtos um pouco remotos, sob a direcção do sr. Engenheiro Bennaton, para esse fim nomeado; e, sendo informado dos seus preparativos, logo me aggreguei a elles, não menos por sympatia para com a antecipada immigração americana, como tambem pelo desejo de visitar em sua companhia algumas plantações de algodão, e tirar algumas instrucções de sua experiencia pratica, a respeito de uma cultura que, sendo hoje estabelecida na província, não póde deixar de influil-os cabalmente na resolução que definitivamente tenhão que tomar.98Durante a permanência na província paulista, o grupo visitou a região de Itu, Salto, Porto Feliz e Sorocaba, daí J. J. Aubertin seguiu para a capital paulista e eles continuaram viagem com destino à Itapetininga. As observações de diferentes aspectos da lavoura algodoeira e o processamento do algodão fizeram os norte-americanos considerarem o clima paulista adequado à produção e benéfico o fato de não haver mudanças bruscas na temperatura, como a ocorrência de geadas, possibilitando maior tempo de conservação do algodoeiro.99Esses dados são agregados por J. J. Aubertin àqueles fornecidos por produtores paulistas de que “emquanto o alqueire norte-americano, dando bem, produz de cem até cento e dez ou talvez 96 Richard Trevor Clarke (1813-1897) – “Army officer and horticulturalist. Major in the Northampton and Rutland Infantry Militia, 1862. Bred nearly thirty new varieties of begonias and many new strains of cotton. Awarded a gold medal by the Cotton Supply Association of Manchester. Member of the Royal Horticultural Society; served on the council and scientific committee for many year; awarded the society’s Veitchian medal, 1894”. BURKHARDT, Frederick et al (Ed.). Charles Darwin. The Correspondence of Charles Darwin (1866). Cambridge: Cambridge University, 2004, p. 502, vol. 14.97 BURTON, Richard Francis. Viagem de canoa de Sabará ao Oceano Atlântico..., op. cit., p. 29. [nota 3]98 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gastón e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba. São Paulo: Typ. Allem[p. 159]
Os esforços de J. J. Aubertin devem ser compreendidos dentro desse contexto, em que ele se coloca como defensor da produção algodoeira paulista e atua em diferentes direções. No Brasil, escreveu para diversos periódicos nacionais e correspondeu-se com diferentes figuras da política brasileira para lhes solicitar o envolvimento com a lavoura algodoeira capaz de colocar São Paulo em posição favorável no mercado inglês, tal como fez o inglês em carta ao Comendador Fideles Prates:
Usai, vos peço, nesta vespera de uma nova semeadura, a vossa bem conhecida influencia entre os vossos amigos, e dizei aos cultivadores do algodão que redobrem os seus esforços na nova plantação, porque pela colheita futura é que se diciderá definitivamente a importante questão se a provincia de S. Paulo pode ou não pode occupar uma posição positiva nos mercados de Manchester.104
Aos agricultores interessados, ele também procurou difundir noções sobre a técnica de cultivar o algodão herbáceo e publicou folhetos sobre a cultura do algodão.105 Essa política de difundir informações sobre o cultivo foi uma atividade constante da associação inglesa, mesmo após o fim da guerra norte-americana.
No plano internacional, empenhou-se em apresentar os algodões paulistas de boa qualidade na Exposição Internacional de Londres, de 1862, com o objetivo de mostrar os atributos do produto. Também foi intermediador entre Manchester Cotton Supply Association e órgãos brasileiros; em duas ocasiões, nos anos de 1862 e 1865, J. J. Aubertin solicitou à associação britânica que enviasse algodão herbáceo ao Ministério da Agricultura e à Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional.106 Em diferentes momentos enviou para a Inglaterra amostras do algodão paulista, em geral, com boas avaliações dos correspondentes.J. J. Aubertin arquitetou ações no Brasil ligadas aos interesses ingleses baseadas em informações colhidas por ele na província ou com base na experiência de nacionais e, principalmente, de norte-americanos, com o propósito de deixar claro as potencialidades de São Paulo e convencer os potenciais produtores paulistas. Para aqueles que mesmo assim estivessem em dúvida, ele escreve:
Deveras, já é tarde demais para duvidar do algodão de São Paulo; mas se ainda ha descrentes, apenas apello para os dous srs. Cultivadores que acompanhei, major Mereweather e dr. Shaw. Ambos elles me repetirão muitas vezes, que melhor algodão que aquelle que nos vimos não desejavão ver; que nas suas proprias plantações e com todos os seus meios perfeitos não costumavãoproduzir melhor. 107
Seus esforços renderam-lhe o reconhecimento da associação inglesa, que o condecorou com uma medalha de ouro, e o governo brasileiro honrou-o com o hábito da Imperial Ordem da Rosa. Nos veículos de informação brasileiros, nos quais tanto escreveu, vemos o reconhecimento de seus pares, como E. Hutchings, outro entusiasta da lavoura algodoeira em terras paulistas e intermediário entre a associação e o Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas:
Hoje, considerado, como um genero de exportação, o algodão, e sua cultura, é um dos factos estabelecidos na historia da provincia, e eu me aproveito desta occasião para patentear a gratidão que todos temos.Quem sabe, o que ha de mostrar-se nos anos que vem? Quasi todas as condições de prosperidade estão unidas nesta provincia; - Um clima sem rival, uma terra cheia de riquesa, e uma natureza, cuja uberdade é espantosa. Tudo isto aqui, e no outro lado do Oceano, a Inglaterra, offerece tudo quanto seja possivel afim de attrahir para lá, os productos da provincia, e com as devidas providencias, e constancia em trabalhar, tudo será possivel, e, sem esta, nada.Campinas, Mogy-mirim, Limeira e outros lugares vão caminhando na cultura do café, e o publico, bem como os particulares, são beneficiados. Parece que, para Sorocaba, resta ainda este outro manancial de prosperidade; - a cultura do algodão, e não ha homem ou natural, ou estrangeiro na provincia, que não abençoará a empresa.[...] Caminho da Luz, S. Paulo Agosto de 1865[...] E. Hutchings108
Evidentemente, tais esforços foram no sentido de produzir algodão adequado às necessidades da indústria inglesa. Foi estimulado o plantio da semente de Nova Orleans, em solicitação de uma circular da Manchester Cotton Supply Association109 e houve uma modificação na postura do produtor brasileiro: “O tipo de algodão tradicional no Brasil era o arbóreo mas o mercado consumidor passou a condicionar a produção ao tipo herbáceo dos 107 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo..., op. cit., p. 16.108 HUTCHINGS, E. “Aos Redactores do Diario de São Paulo”. Diario de S. Paulo, São Paulo, 11 agosto 1865, ano I, nº 10, p. 2. Em outras atividades, além do algodão: E. Hutchings foi um dos secretários da Comissão Julgadora de um concurso para criadores de animais pensado por J. J. Aubertin, tesoureiro do evento. O Comendador Fideles Nepomuceno Prates aparece como um dos Juízes. “Concurso industrial”. Correio Paulistano, Estados Unidos. As variedades mais procuradas eram a U[p. 161, 162]