Continuaram as pesquisas sem descanso até que em 1552 apareceram as primeiras folhetas de ouro paulista, conforme consta da carta do bispo D. Pedro Fernandes Sardinha a D. João III em 12 de julho de 1552. Dois anos mais tarde Anchieta anunciava a descoberta do ferro, do ouro e da prata.
(...) Em 1552 fôra achado o ouro; possível é que uma descoberta de minério de ferro, feita mais ou menos na mesma época na zona entre o litoral e São Paulo tivesse dado lugar a que o Padre Anchieta reunisse ambos os fatos sob uma epígrafe comum. Vários indícios e alguns fatos parecem corroborar esse modo de ver.
A duas léguas a sueste da atual capital do Estado, na freguesia de Santo Amaro, á margem esquerda de um afluente do Rio dos Pinheiros, foram encontrados minérios que deram lugar ao estabelecimento de uma pequena forja.
Ainda em princípios do século passado, o Wilhelm Ludwig von Eschwege (1777-1855) pode ver as ruínas desse estabelecimento que ele afirma ser, sem dúvida alguma, o primeiro levantado no Brasil. Breve teremos ocasião de provar que é infundada esta opinião. [Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Vol. IX, 1904. Páginas 21 e 22]
Em todo caso, é certo que nas proximidades de Santos e de São Paulo esses minérios existiam, na zona em que era natural fossem mais ativas as pesquisas. Era lógico, pois, aceitar o alvitre sugerido por aquele sábio geólogo alemão, atribuindo a Afonso Sardinha o descobrimento dessas jazidas.
Além de ser este homem conhecido e de valor, tanto que em 1556 já era vereador da Vila de Santos, tinha para provar sua competência especial o descobrimento dos minérios do morro de Biraçoyaba.
Novo elemento de prova encontra-se porém no fato de morar Sardinha em um sítio, chamado Ubatá, "junto ao rio Juribatuba que agora se diz Rio dos Pinheiros", reza a Chronologia paulista citando Pedro Taques; deste sítio, em 1604, antes, portanto, como havemos de ver, da fundação da fábrica de ferro, data ele seu testamento. Morando no local das minas, a proximidade dos primeiros pontos povoados de modo permanente pelos portugueses, não será natural atribuir-lhe a descoberta? E julga-la anterior das jazidas do termo de Sorocaba? Esta hipótese que aventamos permite conciliar vários fatos.
Ela explica a notícia dada pelo Padre Anchieta em 1554; enquanto a localização em Ypanema da primeira descoberta de Afonso Sardinha deixaria de pé a dúvida suscitada pelo largo intervalo que medeia entre a charta quadrimestral que deu a nova, e a fundação da usina de ferro do Valle das Furnas em 1590.
E a constatar essa demora de 26 anos está a rapidez das determinações doo governador D. Francisco de Souza, recebendo em 1597 a notícia de terem sido achados ouro, prata e ferro em Biraçoiaba e mandando pessoal adestrado e fazendo as nomeações necessárias no fim do mesmo ano e começo do seguinte. [Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Vol. IX, 1904. Página 23]
Frei Afonso Sardinha, o velho, acompanhado por seu filho de igual nome, quem devassou o sertão paulista á procura de minerais. Mais feliz do que seus predecessores, pode ele achar o ouro em Jaraguá, em Jaguamimbola, em Ivituruna em 1597, e esse metal, com prata e o ferro em Biraçoiaba em 1590 ou 1597.
A insistência com que Taques o chama de paulista leva a crer ter nascido Sardinha na Capitania, lá por volta de 1531, o que lhe daria 25 anos apenas na época em que o elegeram vereador da vila de Santos. Por outro lado existe uma escritura de 9 de junho de 1615, pela qual ele e sua mulher D. Maria Gonçalves fazem uma doação aos Jesuítas. Isto lhe daria uma existência mínima de 85 anos, e 66 teria ele ao descobrir o ouro na Mantiqueira.
Nenhuma dessas conclusões é difícil de admitir-se, nem mesmo a pouca idade com que foi membro da administração local, pois a lei única da Capitania era a vontade do donatário ou de seu representante, não vigorando Ordenações em virtude do próprio sistema de colonização adotado por Portugal.
Traz, porém, esse modo de encarar o problema uma dificuldade suplementar, o saber de quem Sardinha teria obtido os conhecimentos precisos para se tornar perito em distinguir os minérios de ferro e sua metalurgia rudimentar.
É possível que somente um após o outro lhe tenham sido ministrados esses elementos técnicos. Dos seus progenitores teria aprendido a conhecer os óxidos de ferro, o que daria áqueles, como berço provável, o norte de Portugal, onde mais facilmente eram conhecidos os minérios biscainhos.
Nesta faze teria descoberto a jazida de baixo teor metálico do Rio dos Pinheiros. Com o afluxo de novo pessoal, trazidos pelas náos vindas do Reino, ou desembarcado de bordo de corsários e piratas que infestavam a costa brasileira, é possível tivesse chegado a São Vicente algum fundidor espanhol ou francês, ao qual Sardinha viesse a dever sua instrução metalúrgica.
Essa hipótese explica satisfatoriamente dois fatos, um dos quais, sem ela, é problema insolúvel: é este a impossibilidade de ter aquele paulista, isto é, nascido na Capitania, feito sua educação profissional com recursos puramente locais; o segundo fato, é justificar respeitando todas as nossas deduções anteriores, o largo prazo decorrido dentre a descoberta do depósito do rio dos Pinheiros e sua utilização, não por Sardinha, mas por uma sociedade de que mais adiante falaremos. [p. 25, 26 e 27]
rio Geribatuba, fronteiro á ilha de S. Vicente e á esquerda do Morro das Neves. Esses termos da eçcriptura indentifieam esta fabrica nova com as ruinas visitadas por Eschwege em 1810, approximadamente . O auto de erecção á freguezia ( 14 de Janeiro de 1680 ) da capei Ia de Santo Amaro, erecta por João Peres e sua mulher Suzana Rodrigues, naturaes de Portugal e vindos na frota de Martim Aftonso, declara que se acha este edifício collocado á margem do Gerybatuba, "nome que o vulgo corrompeu na pro- nuncia para o de Jerubatuba". E a mesma Chroivjlocjia citando Taques, declara, a propósito da carta patente do Capitílo-mór Joào Corrêa, nomeando Sardinha o primeiro descobridor de mi- nas no Brasil, que o sitio de Ubatá, pertencente a este ultimo, estava localisado junto ao rio Jurubatuba « que agora se diz Rio dos Pin eiros ». Nào ha duvida, portanto, que as minas attribui- das pelo Barão de Eschwege, á primeira fabrica de ferro brasi- leira, e sào efectivamente da segunda, que estava collocada nas vizinhanças das terras de Affonso Sardinha, morador no Ubatúc emquanto que o engenho se achava "no sitio Borapoeira ( 1 ) da outra banda do Rio Jerabatiba", segundo affirma Taques (2).
Fica assim elucidado quaes os fundadores e proprietários e qual a data da fundação desta usina, que o enminente geólogo allemào declarava serem factos históricos desconhecidos ; e fica feita a restituição geographica, desconhecida egualmente no dizer da Nóbiliarchia.
A nova installaçao devia ser uma cópia da do Biraçoyaba, inspirada pelos mesmos operários constructores desta, talvez mesmo superintendida por Sardinha, que ainda vivia nessa occasiào e tinha seu grande engenho de assucar nas proximidades do novo estabelecimento industrial. Ambas as fabricas eram seguramente fogos catalães, únicos conhecidos por esses mineiros iberos ou portuguezes ensinados por estes. Movia-se a braços um foles de couro que soprava ar húmido na forja; faziam-se as reacções, e formava-se a bola de metal recoberta e entremeiada de escorias . A golpes violentos de malho, movido pela roda d´agua purifica- va-se e estirava-se o ferro, que era assim transformado em barras. A um canto da tenda amontoavam-se as escorias, ricas em ferro sempre, mais rica aqui como em Ypanema pela natureza refra- ctária do minério tratado. ( 1 ) Informação loc. clt. pag. 12. (2) Ebiropecira è o nome deste rttio, como o appellida Mareei li no Pereira Cleto, Ditsariaçâo a respeito da Capitania dt S. Paulo, Annaes da Blbliotheca Nacional, vol. XXI, de 1899, pag. 208. [p. 34]
Achava-se bem installada a fabrica; á beira rio, o cembus- tivel era facilmente transportado, a mina estava á porta, e os productos acabados, descendo o Jerubat´iba e o rio dos Pinheiros encontravam logo o mercado de Santos, e pelas estradas antigas e do P.e Anchieta, as das villas acima da Serra do Cubatão. Ficava assim resgatada a relativa inferioridade do tear metallico do minério quando comparado com o da serra do Biraçoyaba, onde os transportes eram mais difficeis. Fabricou ferro durante vinte annos, e somente cessou quando morreu Francisco Lopes Pinto a 26 de Fevereiro de 1629. Pertenceu a principio ao marquez das Minas, a Diogo de Quadros e a Lopes Pinto; este porém, cedeu por três mil cruzados metade de sua parte a D. António de Souza, filho do marquez, segundo consta da escri- ptura de 11 de Agosto de 1609, lavrada em notas do tabelliao Borges de Cerqueira (1) e vem declarado no testamento de Pinto (2). A esta, seguramonte se referiu Frei Vicente de Sal- vador dizendo : c Ferro ? Muitas minas ba delle, e em S. Vi- cente está um engenho onde se lavra finíssimo >. (3) Assim findou em 1609, após trinta annos de duração, a primeira phase da siderurgia no Brasil.
O trabalho da fabrica real de Biraçoyaba, e o transporte do ferro, dos materiaes e do pessoal entre esse logar e a villa de S. Paulo não tinham conseguido estabelecer uma estrada permanente, ao longo da qual os pouzos balisassem o centro das futuras povoações. Sorocaba, por exemplo a cujo termo pertenciam as minas, só em 1610 foi fundada. Não é de estranhar, portanto, que pouco a pouco se perdesse a noção dessas jazidas metalliferas, em uma epocha na qual as vistas se voltavam preferencial- mente para as pesquizas do ouro, que ia sendo descoberto em quantidades cada vez mais crescentes. E´ muito explicável, portanto, que, por 1680, Luiz Lopes Carvalho, Capitao-mór de N. Sr.* da Conceição de Itanhaem, por provisão de Príncipe D. Pedro, insinuasse a este a conveniência de ser verificado a procedência dos dizeres vagos que corriam sobre o valor dessa região (4). Essa exposição de Pedro Taques parece mais exacta do que a narrativa do Senador Vergeiro, pela qual Lopes de Carvalho se teria inculcado como descobridor da minas de ferro (5), entregando-as em 14 de Março de 1681 á Camará da villa de Sorocaba
Já em 1 de outubro estava ele em São Paulo, donde datou uma provisão alterando de 100$ para 200$ o ordenado do capitão Diogo Gonçalves Laço, e só voltou ás jazidas em 11 de fevereiro de 1601. É pois inexata a afirmação das memórias de Frei Gaspar da Madre de Deus quando dá a D. Francisco como presente em Biraçoyaba em 1600. [Página 37]
(...) Os estudos necessários á confecção deste trabalho levaram-nos a compulsar alguns registros da correspondência dos governadores das capitanias entre si, com os Vice-Reis ou com as altas autoridades da Metrópole. Gerou-se-nos a convicção que publicados esses papéis veneráveis, outra será a versão adotada para explicar a história diplomática e política de Portugal e sua possessão americana, desde a fundação da Colonia do Sacramento até a paz de Santo Ildefonso. Merecem ser destacadas as correspondências de Gomes Freire, Luiz Diogo Lobo da Silva e Luiz Antonio de Souza.
Para o período que mais de perto nos interessa são estes dois os últimos governadores cujos atos devem ser estudados com mais cuidado. Está inteiramente fora dos moldes deste trabalho indagar minuciosamente dos governos destes representantes da Coroa, em tudo quando fizeram para aparelhar o Brasil na luta surda posterior ao tratado de 1763, assinado no El-Pardo, até a explosão dos rompimentos em 1777 entre as duas cortes de Lisboa e de Hespanha. A estes fatos, entretanto, prende-se a história da tentativa de estabelecimento de nova fábrica de ferro no termo de Sorocaba, em 1765.
Nesse ano, a 28 de fevereiro, uma carta régia concedia privilégio exclusivo por dez anos a Domingos Ferreira Pereira, morador na Capitania do Rio de Janeiro, para na comarca de São Paulo minerar ferro, chumbo e estanho, podendo estabelecer uma ou mais fábricas para caldear esses metais, não podendo nenhuma outra pessoa, durante esse tempo, fazer o mesmo, sob pena de ser detida na cadeia por tempo de dois meses, ficando o privilégio isento dos direitos senhoraes dos quintos por cinco anos, depois de montada a fábrica. [Página 58 do pdf]
Ora nesta época andava acesa a controvérsia sobre limites entre São Paulo e Minas, de que nos dá ideia aproximada a coleção de documentos publicados pelo Archivo paulista. Ao mesmo tempo preocupava seriamente aos governadores as consequências do tratado d´El-Pardo; e da correspondência (ainda inédita) entre eles se depreendem quantas responsabilidades sentiam pesar-lhes sobre os ombros e a lealdade, acerto e nobreza com que enfrentavam a solução dos múltiplos e dificílimos problemas oriundos dessa fase do conflito sécular hispano-portugues.
Em 13 de dezembro de 1765, escrevia Luiz Diogo Lobo da Silva seu colega de São Paulo, que todas as contendas deviam cessar diante a premência dessa dificuldade máxima: a defesa da colonia contra o inimigo hespanhol. E, depois de enumerar os recursos de que dispunha, em homens e material bélico, remetia planos de bombardas e morreiros para terrenos montanhosos e acrescentava:
"o ponto está que V. Excelência na nova fábrica que me dizem que tem de ferro em Sorocaba ache que faça as bombas, granadas e algumas balas de calibres, por ter dos uma poucos dos de 2 nenhumas, e haver distâncias para que não servem os cartuchos."
Quando recebida esta carta por D. Luiz Antonio de Sousa, tinha-se erigido apenas uma pequena forja para experiências, e mil dificuldades eram alegadas pelo concessionário e pelos fundidores, para explicar o nenhum resultado de sua tentativa. O capitão-general ia esmorecendo e nesse sentido respondeu ao de Minas. Voltou este imediatamente á presença de D. Luiz, animando-se nesses termos.
"Segundo o que V. Excelência me refere da fábrica de ferro eu não desanimaria a poder conseguir dela as balas, bombas e granadas em que lhe falei, pois se poderiam fazer, suprindo-se com um proporcionado e pequeno forno, e instrumentos conducentes á mesma manufatura, ainda que em duplicadas fundições uma parte destas munições tão essenciais, quando a indigência dos fabricantes não seja tal que careçam de mendigar o sustento, e que não poderiam vencer, se fosse prepararem no para outra qualidade de obras de ferraria, arnearia e serralheiros, porque neste caso para porem o dito gênero na pureza necessária, já era preciso passar pelo segundo, e terer° forno, e martelos d´afinagem; mayarmte quando outras mais crescidas se tem dissolvido neste governo."[Página 59 do pdf]
Apesar de todos os esforços não melhoraram as condições técnicas do trabalho da nova fábrica. Possuímos um depoimento de autoridade incontrastada sobre o caso: as cartas em que D. Luiz Antonio comunicava ao Conde de Oyeras, o grande Sebastião José de Carvalho e Mello, o resultado desses esforços. Em 3 de janeiro de 1768 dizia ele:
"A Fábrica de Ferro é uma das coisas que me tem dado maior trabalho, sem que até agora conseguisse o desejado fruto, ou seja pela pouca experiência do Mestre ou por demasiada malícia dele, porque para tudo pode ter lugar a suspeita. Sendo S. Majestade que Deus Governante Servido dar faculdade a Domingos Ferreira Pereira para poder nesta capitania minerar ferro e chumbo, logo que o dito aqui chegou passou ao Morro do Hibarassoyaba, no distrito da Vila de Sorocaba, a fazer as primeiras experiências e uma pequena forja, que para isso erigiu com o mestre de caldear o ferro João de Oliveira Figueiredo, tirou as primeiras amostras em 9 de dezembro de 1765 remeti de Vila de Santos a V. Excelência. Passado pouco tempo, voltou o dito Domingos Ferreira Pereira com o Mestre para o Rio de Janeiro, dizendo que ia ajustar a Sociedade desta negociação entre as pessoas com que estava contratado; e partindo-se demorou mais de um ano, sem formar a dita Sociedade, nem os Sócios lhe aprontarem os meios necessários para a criação destas Fábricas.
Voltando segunda vez a capitania, sem concluir coisa alguma lhe procurei fazer nesta cidade uma Sociedade, fazendo vir a minha presença os homens de negócio, que me pareceram mais capazes, e propondo-lhes as utilidades que podiam resultar ao publico e ao Real Erario.
Com efeito se ajustaram na forma que pedia o dito Domingos Ferreira Pereira, cedendo este aos Sócios a metade de tudo o que lhe pertencia nesta negociação, em virtude da graça que obteve de S. Magestade de que fizeram segurança de escritura, obrigando-se os sócios a concorrer logo com dez mil cruzados principio da primeira Fábrica, tanto se saber a Arte do Mestre, como tão bem para se fazerem as experiências sobre o rendimento da pedra, e da conta que fazia, e tão bem se obrigaram os mesmos sócios a erigir todas as mais Fábricas que se julgasse precisas para sustentar o ferro com abundância, não só esta capitania, mas tão bem as mais deste Brasil, concorrendo toda a Sociedade para fazer os mais gastos, que acrescessem depois de acabados os dez mil cruzados que entraram para a fundação da primeira fábrica.
Porém, como o Mestre de caldear o ferro João de Oliveira de Figueiredo tinha ficado no Rio de Janeiro com a intenção de ir a Angola, como se dizia, e sem ele, não se podiam por em prática as experiências, escrevi ao Conde da Cunha, Vice-Rey para que o fizesse vir, o que ele prontamente executou, remetendo-o preso em dias de Fevereiro de 1767.
Logo que chegou o Mestre, achando-se já estabelecido o contrato da Sociedade, na forma que a V. Excelência tenho referido, foram dar principio a primeira Fábrica em dias de junho do referido ano de 1767, e depois de examinarem e conhecerem aquela situação, que na distância de duas léduas em quadra é continuada a mina de pedra férrea, com abundância de lenha e agora (água?) para sustento das fábricas, entraram logo em construção da primeira, ponto em prática as experiências de caldeação de ferro e aço, e modo de estende-lo.
Nestas obras se tem trabalhado desde aquele tempo até o presente, com grande despendio dos acionistas em fazer fornos grandes, e pequenos por diferentes modos, safras, martelos, malhos, rodas e engenhos para os mover, e tudo o necessário tenho madando lá assistir pessoas Engenhosas e experientes, e não é possível acertar-se com a caldeação do ferro nem faze-lo igual ao da primeira amostra, que a V. Excelência remeti.
Nestes termos ou isto é insuficiência do Mestre, o que pode ser, por ele não ter nunca trabalhado em Fábrica, nem visto as de Biscaya, ou será compra de pessoas mal intencionadas, que pelos meios dele se fazer ignorante, pretendam inutilizar a Fábrica.Artífice que cá se ache, e juntamente se pode haver algum segredo que se remedie qualquer defeito, que possa ter a a mesma pedra, para se haver de tirar ferro de qualidade, daquele que enviei ao sr., e que não podia haver melhor, nem mais perfeito, e foi tirado desta mesma pedra, de que não há dúvida."
Não eram estas somente as dificuldades com que lutaram para o estabelecimento da fábrica. Contrariamente ás leis e ordens régias, tinha-se constituído a sociedade primitiva em Portugal com um sócio estrangeiro, o que levou a D. Luiz Antonio de Souza a excluir este de acordo com a resolução tomada em junta realizada em São Paulo, a 18 de maio de 1767. Reza este documento:
"(...) nesta cidade de São Paulo, e casas de residência do Illmo. e Exmo. Sr. Dom Luiz Antonio de Souza Botelho Mourão, General desta Capitania, foram convocados em junta por ordem do dito Illmo. e Exmo. Sr., o Doutor Ouvidor Geral desta comarca, Salvador Pereira da Silva, o provedor e contador da Fazenda Real, José Onorio de Valladares e Alboym, e o procurador da Coroa e Fazenda, o dr. Bernardo Rodrigues Solano do Valle, sendo todos presentes, foi proposto pelo sobredito Illmo. e Exmo. Sr. que, Sua Majestade fora servido por cartas de 28 de fevereiro de 1766; dirigidas pelo secretário de Estado dos Negócios do Reino e da Marinha, recomendar o bom êxito e efetiva diligência que devia haver para que laborasse com maior expedição a fábrica de ferro, que de novo se vinha erigir no termo da Vila de Sorocaba[Páginas 60, 61 e 62 do pdf]
Nas capitanias setentrionais a natureza geológica do terreno condenava as tentativas de ai fundar-se a siderurgia. Gabriel Soares de Souza fala de minas de ferro e aço, trinta léguas adentro pelo sertão da Bahia, sem indicação de lugar entretanto, elas nunca foram exploradas. [Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Vol. IX, 1904. Página 37]
Não foram inteiramente coroados de êxito esses novos esforços, e sempre se encontram dificuldades renascentes para a obtenção corrente do ferro em barras. Ainda em 30 de outubro de 1769, em missiva a Oeyras, renovava suas queixas o Capitão General, e lembrava recorrer a fundidores práticos de Portugal ou de Hespanha: [Página 64 do pdf]
(...) Não se sabe se efetivamente vieram os mestres biscainhos pedidos por D. Luiz. Há indícios de que assim não tenha acontecido; pois pelo que se conhece do funcionamento desta fábrica, pelas informações colhidas pelo Barão de Eschwege em 1811 de um antigo fundidor desta usina, e pela presença nela de um negro, hábil metalurgista, desde 1769, pode se inferir que ali se estabeleceu uma forja, segundo os processos usados na Costa africana, importados pelos escravizados dessa procedência, e que mais tarde se estabeleceram em Minas Gerais de modo predominante: Foi em Ypanema, com todos os visos de probabilidade, que se fundou a primeira fábrica de ferro pelo método dos cadinhos, de que mais tarde falaremos.
Quando, em 1810 ou 1811, o ilustre cientista alemão visitou a região, encontrou em Sorocaba um ferreiro que tinha trabalhado como fundidor na antiga forja, e que lhe fez desta a descrição seguinte:
"O forno era único e tinha cinco palmos de altura; sendo construído de tijolos, exigia uma refeccção hebdomadaria. Ao lado encontrava-se um grande foles, movido a braço, e a lupa metálica extraía-se pela parte superior do forno. Na parte inferior deste, havia um orifício, fechado normalmente com tornos de madeira, pelo qual se fazia a corrida das escorias. Dias havia em que se obtinha uma lupa de uma arroba de peso; em outros, ao contrário, após um dia inteiro de esforços, não se obtinha nem uma fibra de metal. O minério antes de ser fundido, era calcinado em um forno semelhante aos de cal, e, depois fragmentado a martelo em pequenos pedaços. O ferro obtido era quebradiço e acierado."
Essa descrição é quase idêntica á dos fornos de cadinhos existentes em Minas Gerais, que estudaremos oportunamente.
Atribuíam os curiosos da época á falta de combustível especial, proveniente da carbonização da madeira chamada Yperá o malogro dessas tentativas. Diz, entretanto, Vergueiro que a fábrica chegou a produzir quatro arrobas por dia, o que está em contradição coma narrativa de Eschwege; esta, contudo, merece mais crédito por se basear no testemunho de um operário da antiga usina, enquanto a da Memória histórica se funda apenas na tradição.
Não há acordo preciso quanto á data em que cessou de funcionar a nova fábrica. Frei Gaspar da Madre de Deus cuja exatidão em matéria de fato é duvidosa e cuja cronologia não está extreme de senões, escrevendo em 1797 declara positivamente:
"No governo do general D. Luiz Antonio de Souza se fabricou ferro e aço no dito morro, e ainda hoje se percebem os vestígios da dita fábrica, suposto hão passado uns 28 anos, cujo labor existiu todo o governo do referido general, que por um zelo a conservou, e ainda nos governos dos Exmos. Martins Lopes Lobo Saldanha e Francisco da Cunha Menezes, ficando logo desvanecida a dita fábrica porque a Sociedade, que havia na mesma era de homens sem forças para substituir o aumento, concorrendo também para esta decadência a falta de mestres na arte de derreter as pedras."
A ser exata está versão, a fábrica teria durado até 1786, ano em que Francisco da Cunha Menezes passou o governo a seu substituto Chichorro da Gama. Há indícios do contrário, entretanto, Marcelino Pereira Cleto, em outubro de 1782, contemporâneo, portanto, de Martim Lopes Lobo Saldanha, fala nessas usinas como de coisa passada. [Páginas 65 e 66 do pdf]
Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Vol. IX Data: 01/01/1904 Página 23
ID: 12689
Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Vol. IX Data: 01/01/1904 Página 24
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Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Vol. IX Data: 01/01/1904 Página 25
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Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Vol. IX Data: 01/01/1904 Página 26
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Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Vol. IX Data: 01/01/1904 Página 30
ID: 12690
EMERSON
01/01/1904 ANO:39
testando base
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foi publicada a segunda edição na língua inglesa. Pouco depois, em 1848, o relato foi publicado em língua alemã em Dresden e Leipzig, atual Alemanha.A edição em português ocorreu em 1942, na Coleção Brasiliana, intitulada Viagens no Brasil: principalmente nas províncias do norte e nos distritos de ouro e do diamante durante anos 1836-1841, da Companhia Editora Nacional.No ano de 1856 foi publicado o relato Life in Brazil; or, a journal of a visit to the land of the cocoa and the palm de Thomas Ewbank ela Harper & Brothers, Nova York, sendo lançada também na Inglaterra. Nos Estados Unidos houve uma edição em 2005.No Brasil, o relato em português foi publicado com o título A vida no Brasil: ou Diário de uma visita ao país do cacau e das palmeiras, em 1973, pela editora carioca Conquista, em dois volumes.O relato de Henry Walter Bates foi publicado em 1863, em dois volumes, com o título The naturalist on the River Amazons, a record of adventures, habits of animals, sketches of Brazilian and Indian life, and aspects of nature under the Equator, during eleven years of travel by Henry Walter Bates, em Londres pela John Murray. A segunda edição ocorreu um ano depois, com supressão de algumas partes pelo autor, seguida por mais de dez edições na língua inglesa em Londres e nos Estados Unidos. No Brasil O naturalista no Rio Amazonas foi editadoem 1944 pela Editora Nacional.
Em 1869, Richard Burton publicou a primeira edição de Explorations of the Highlands of the Brazil; with a full account of the gold and diamond mines. Also, canoeing down 1500 miles of the great River São Francisco, from Sabará to the Sea by Captain Richard F. Burton, F.R.G.S., etc., em Londres por Tinsley Brothers, em dois volumes. A obra recebeu destaque em finais do ano passado e foi publicada em Nova York no centenário da primeira edição, e nos últimos dezesseis anos teve três edições nos Estados Unidos.
No Brasil, a primeira edição de Viagens aos planaltos do Brasil: 1868, em três volumes,ocorreu no ano de 1941 pela Companhia Editora Nacional, que publicou a segunda edição em 1983. Houve uma edição em 2001 pelo Senado Federal intitulada Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho, volume único.
Em São Paulo, a Tip. Allemã de H. Schroeder publicou Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gaston e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba de John James Aubertin no ano de 1866.
Nesse mesmo ano foi traduzido para o inglês pelo autor e publicado em Londres pela Bates, Hendy & Co. com o título Eleven day’s journey in the Province of Sao Paulo, with the [p. 10]
Outro ponto, o parâmetro comparativo do algodão brasileiro e do norte-americano. A produção dos Estados Unidos figura como indicadora de qualidade e produtividade, em vista do país ter sido o maior fornecedor do mundo, e é trazida pelos viajantes quando desejam estimular a produção no Brasil, em especial, utilizando dados fornecidos por conhecedores do ramo.Nesse sentido, Richard Burton traz as considerações de um renomado pesquisador da cultura algodoeira, Major R. Trevor Clarke96 para quem “Aqui [no Brasil] o algodão tem mais penugem que o habitual; 600 quilos darão 250 de fibra limpa, ao passo que no Alabama são necessários 750 quilos. Em geral, o replantio do arbusto é feito em seu quarto ano”.97 E J. J. Aubertin traz a experiência dos americanos sulistas Dr. Gaston, Dr. Shaw e Major Mereweather, a quem ele acompanhou durante a passagem deles pela Província de São Paulo:Eramos cinco pessoas. Tres Americano sulistas, dr. Gaston, dr. Shaw e o major Mereweather, que ião fazer sua viagem prolongada, na exploração de districtos um pouco remotos, sob a direcção do sr. Engenheiro Bennaton, para esse fim nomeado; e, sendo informado dos seus preparativos, logo me aggreguei a elles, não menos por sympatia para com a antecipada immigração americana, como tambem pelo desejo de visitar em sua companhia algumas plantações de algodão, e tirar algumas instrucções de sua experiencia pratica, a respeito de uma cultura que, sendo hoje estabelecida na província, não póde deixar de influil-os cabalmente na resolução que definitivamente tenhão que tomar.98Durante a permanência na província paulista, o grupo visitou a região de Itu, Salto, Porto Feliz e Sorocaba, daí J. J. Aubertin seguiu para a capital paulista e eles continuaram viagem com destino à Itapetininga. As observações de diferentes aspectos da lavoura algodoeira e o processamento do algodão fizeram os norte-americanos considerarem o clima paulista adequado à produção e benéfico o fato de não haver mudanças bruscas na temperatura, como a ocorrência de geadas, possibilitando maior tempo de conservação do algodoeiro.99Esses dados são agregados por J. J. Aubertin àqueles fornecidos por produtores paulistas de que “emquanto o alqueire norte-americano, dando bem, produz de cem até cento e dez ou talvez 96 Richard Trevor Clarke (1813-1897) – “Army officer and horticulturalist. Major in the Northampton and Rutland Infantry Militia, 1862. Bred nearly thirty new varieties of begonias and many new strains of cotton. Awarded a gold medal by the Cotton Supply Association of Manchester. Member of the Royal Horticultural Society; served on the council and scientific committee for many year; awarded the society’s Veitchian medal, 1894”. BURKHARDT, Frederick et al (Ed.). Charles Darwin. The Correspondence of Charles Darwin (1866). Cambridge: Cambridge University, 2004, p. 502, vol. 14.97 BURTON, Richard Francis. Viagem de canoa de Sabará ao Oceano Atlântico..., op. cit., p. 29. [nota 3]98 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gastón e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba. São Paulo: Typ. Allem[p. 159]
Os esforços de J. J. Aubertin devem ser compreendidos dentro desse contexto, em que ele se coloca como defensor da produção algodoeira paulista e atua em diferentes direções. No Brasil, escreveu para diversos periódicos nacionais e correspondeu-se com diferentes figuras da política brasileira para lhes solicitar o envolvimento com a lavoura algodoeira capaz de colocar São Paulo em posição favorável no mercado inglês, tal como fez o inglês em carta ao Comendador Fideles Prates:
Usai, vos peço, nesta vespera de uma nova semeadura, a vossa bem conhecida influencia entre os vossos amigos, e dizei aos cultivadores do algodão que redobrem os seus esforços na nova plantação, porque pela colheita futura é que se diciderá definitivamente a importante questão se a provincia de S. Paulo pode ou não pode occupar uma posição positiva nos mercados de Manchester.104
Aos agricultores interessados, ele também procurou difundir noções sobre a técnica de cultivar o algodão herbáceo e publicou folhetos sobre a cultura do algodão.105 Essa política de difundir informações sobre o cultivo foi uma atividade constante da associação inglesa, mesmo após o fim da guerra norte-americana.
No plano internacional, empenhou-se em apresentar os algodões paulistas de boa qualidade na Exposição Internacional de Londres, de 1862, com o objetivo de mostrar os atributos do produto. Também foi intermediador entre Manchester Cotton Supply Association e órgãos brasileiros; em duas ocasiões, nos anos de 1862 e 1865, J. J. Aubertin solicitou à associação britânica que enviasse algodão herbáceo ao Ministério da Agricultura e à Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional.106 Em diferentes momentos enviou para a Inglaterra amostras do algodão paulista, em geral, com boas avaliações dos correspondentes.J. J. Aubertin arquitetou ações no Brasil ligadas aos interesses ingleses baseadas em informações colhidas por ele na província ou com base na experiência de nacionais e, principalmente, de norte-americanos, com o propósito de deixar claro as potencialidades de São Paulo e convencer os potenciais produtores paulistas. Para aqueles que mesmo assim estivessem em dúvida, ele escreve:
Deveras, já é tarde demais para duvidar do algodão de São Paulo; mas se ainda ha descrentes, apenas apello para os dous srs. Cultivadores que acompanhei, major Mereweather e dr. Shaw. Ambos elles me repetirão muitas vezes, que melhor algodão que aquelle que nos vimos não desejavão ver; que nas suas proprias plantações e com todos os seus meios perfeitos não costumavãoproduzir melhor. 107
Seus esforços renderam-lhe o reconhecimento da associação inglesa, que o condecorou com uma medalha de ouro, e o governo brasileiro honrou-o com o hábito da Imperial Ordem da Rosa. Nos veículos de informação brasileiros, nos quais tanto escreveu, vemos o reconhecimento de seus pares, como E. Hutchings, outro entusiasta da lavoura algodoeira em terras paulistas e intermediário entre a associação e o Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas:
Hoje, considerado, como um genero de exportação, o algodão, e sua cultura, é um dos factos estabelecidos na historia da provincia, e eu me aproveito desta occasião para patentear a gratidão que todos temos.Quem sabe, o que ha de mostrar-se nos anos que vem? Quasi todas as condições de prosperidade estão unidas nesta provincia; - Um clima sem rival, uma terra cheia de riquesa, e uma natureza, cuja uberdade é espantosa. Tudo isto aqui, e no outro lado do Oceano, a Inglaterra, offerece tudo quanto seja possivel afim de attrahir para lá, os productos da provincia, e com as devidas providencias, e constancia em trabalhar, tudo será possivel, e, sem esta, nada.Campinas, Mogy-mirim, Limeira e outros lugares vão caminhando na cultura do café, e o publico, bem como os particulares, são beneficiados. Parece que, para Sorocaba, resta ainda este outro manancial de prosperidade; - a cultura do algodão, e não ha homem ou natural, ou estrangeiro na provincia, que não abençoará a empresa.[...] Caminho da Luz, S. Paulo Agosto de 1865[...] E. Hutchings108
Evidentemente, tais esforços foram no sentido de produzir algodão adequado às necessidades da indústria inglesa. Foi estimulado o plantio da semente de Nova Orleans, em solicitação de uma circular da Manchester Cotton Supply Association109 e houve uma modificação na postura do produtor brasileiro: “O tipo de algodão tradicional no Brasil era o arbóreo mas o mercado consumidor passou a condicionar a produção ao tipo herbáceo dos 107 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo..., op. cit., p. 16.108 HUTCHINGS, E. “Aos Redactores do Diario de São Paulo”. Diario de S. Paulo, São Paulo, 11 agosto 1865, ano I, nº 10, p. 2. Em outras atividades, além do algodão: E. Hutchings foi um dos secretários da Comissão Julgadora de um concurso para criadores de animais pensado por J. J. Aubertin, tesoureiro do evento. O Comendador Fideles Nepomuceno Prates aparece como um dos Juízes. “Concurso industrial”. Correio Paulistano, Estados Unidos. As variedades mais procuradas eram a U[p. 161, 162]