Capitanias Paulistas. Benedito Calixto de Jesus (1853-1927)
1927 Atualizado em 12/11/2025 20:04:45
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Antonio Rodrigues de Almeida concedeu grande número de datas de terras, desde 1562 até 1579, conforme se verifica do livro de registro das Sesmarias - título 1562 - que existe no velho arquivo do Cartório da Provedoria da Fazenda de São Paulo, a saber: em 1 junho de 1562, a Braz Cubas, das terras, em uma ilha deserta chamada - Mamberecuña - passando a ilha de São Sebastião. Em 6 de maio de 1566, a Domingos Garocho, das terras que ficam além da Bertioga, começando do morro chamado Buriquióca. Em 27 de abril desse mesmo ano (1566), confirmou a data de terras que Gonçalo Monteiro, como procurador de D. Izabel de Gambôa, havia concedido a Jorge Ferreira, na serra da Itutinga. [Página 23]
Os índios da Bertioga, já quase extintos nessa época, tinham seu "caminho do sertão" pelo rio Tutinga e serras que se estendem até as proximidades de Mogi das Cruzes e Paraíba. De Jurubatuba (porto de Santos) havia outra via de comunicação para Mogi, a qual se melhorou no tempo de Braz Cubas, conforme é ainda conhecido pelos vestígios existentes nas respectivas serras.
Em Santos e São Vicente, além desses dois caminhos - Tutinga (da Bertioga) e Jurubatuba - bem como de outras veredas que iam ao Alto da Serra e Borda do Campo -, existia ainda o célebre "caminho velho" (Pissaguéra) que do Rio Uruguai seguia, margeando a cachoeira, até a Grota-Funda, e dali até o alto (Rio Grande e Campo Grande), donde se dirigia para Santo André e São Paulo de Piratininga [Hoje estação da São Paulo Railway]. O caminho do Cubatão, depois aberto e melhorado, no tempo de Anchieta, por ordem de Mem de Sá, onde hoje trafegam os automóveis e é conhecido por Caminho do Mar, já existia nessa época e só era trilhado pelos índios.
Foi pelo caminho velho (Piassaguéra) que Martim Afonso, seu séqüito e os primeiros missionários jesuítas, Leonardo Nunes, Diogo Jacome e Pedro Corrêa, penetraram nos campos e sertões de Piratininga, antes de 1553. São estes, aliás, fatos incontestáveis, como se podem provar, com documentos só agora conhecidos.
Além do caminho de Piassaguera e do caminho do Cubatão, no mar de Santos, que são até hoje bem conhecidos, existiam o Sul do lagamar de São Vicente, outros "caminhos do mar", que comunicavam com os sertões do interior e foram percorridos pelos primeiros povoadores e missionários. Entre estes, os mais notáveis são: o que da aldeia de Imbohy (ou Mboy) e Santo Amaro se dirigia a Itanhaém, conhecido por Caminho do Gado, do qual as sesmarias do tempo de Martim Afonso e os velhos documentos da Câmara daquela vila nos dão notícia.
Não sessão de vereança da Câmara de Itanháem, de 2 de outubro de 1838, leram-se dois oficios do Capitão João A. de Paula Oliveira. Inspetor das Obras Públicas da mesma vila, comunicando á Câmara - que tinha concluído a abertura da picada que comunicava aquela vila com a Capital, pela vila de Santo Amaro. Em outra vereança desse mesmo ano, o respectivo presidente - José Pedro de Carvalho - dizia que "se desse cumprimento á portaria de exm. snr. presidente da Província, ordenando a fatura da mesma estrada do mar".
Essa antiga "estrada" foi ainda melhorada, após a Independência, pelo engenheiro Porfirio, a mandado do governo provincial; mais tarde, 1885, o deputado dr. Cunha Moreira, residente e proprietário em Itanhaém, por verba votada pela mesma Assembléia Provincial, mandou também melhorar o caminho da serra, desde o alto até o Porto Velho, à margem do Rio Branco.
Foi por esse caminho do mar, de Itanhaém, que o célebre caudilho, Bartholomeu Bueno de Faria, súdito da capitania de Itanhaém, residente em Jacareí, desceu em 1710, com o seu troço de índios e tropas de muares para tomar a Praça de Santos e levar o carregamento de sal, para abastecer as povoações do interior, como é bem conhecido. Foi ainda nessa mesma "estrada", perto de Praia Grande, que a escolta, vinda de Santos, o prendeu - oito anos após o crime por ele praticado. E ainda por este "caminho do gado", que os moradores do Alto da Serra, do distrito de Santo Amaro e Itapecirica, desciam e descem, com animais, para Conceição e Praia Grande.
No meio da praia de Peruíbe (Paraná-mirim) existe ainda um caminho de penetração, partindo do porto de Piaçaguera (porto velho), que se dirigia para o sertão, em rumo de Noroeste, conforme se nota no mapa geral da Comissão Geográfica, dessa região de Itanhaém.
Este "caminho velho" fraldeava as serras do Bananal e Cahêpupú até o entroncamento com a cordilheira marítima (tapera do Índio Roque), dirigindo-se dali para os sertões de Sorocaba, Araçariguana, Araritaguaba etc. Era nessa região, cortada pelos dois caminhos - do gado e da aldeia velha (Paraná-mirim) - que estavam situadas as minas de Araçoiaba e as legendárias terras auríficas de Botucavarú, Lagoa Dourada e outras, das quais os aranzéis (roteiros antigos) nos dão notícias. O morro e cachoeira do Mineiro, nas proximidades de Mongaguá, entre Aguapeí e Rio Branco, indicam ainda, na nomenclatura geográfica de Itanhaém, a preocupação constante dos seus primitivos povoadores.
As serras dos Itatins - no litoral de Itanhaém - entre Guaraú, Una do Preldo, Pagaoçá e Juréia e os afluentes do Juquiá, São Lourencinho, Itariri e Guanhnhã, tinham "fama de ocultar tesouros", como é bem conhecido. Nesses rios ainda hoje se extraem pequenas parcelas de "ouro de lavagem" e outros minerais.A ribeira de Iguape, com seus numerosos afluentes, como tentáculos sugadores, estendidos em todas as direções, foi, nesta região da Capitania de Itanhaém, a parte que mais atraiu a cobiça dos povoadores e principalmente dos primeiros aventureiros, ávidos de "ouro e de escravos".
São também conhecidos os caminhos de penetração, que, desde o tempo da descoberta, se dirigiam para o sertão do Noroeste, pelo Juquiá, até as vertentes do Paranapanema. As vias fluviais e as "veredas indígenas", que da Xiririca (N.E.: atual cidade de Eldorado/SP), Iporanga, Apiaí, se encaminhavam para Itapeva da Faxina e sertões do Avaré, em Paranapanema, eram também muito afamadas em notícias de minas auríferas. O morro de Vutupoca, as Grutas Calcárias e as Minas de Chumbo no Iporanga; as minas de Apiaí - o morro do ouro! - e tantos outros indícios que já se manifestavam nos primeiros dias do povoamento, deviam, como já se disse, fascinar os lusitanos e castelhanos dessa primeira época.O "mar pequeno de Cananéia", a ligar-se com o estuário de Superagi (Paranaguá), com seus caminhos para as terras dos Carijós, passando por Curitiba, Umbotuva, em direção aos cursos do Tibagi, Cinzas e Paranapanema, ou ainda, do lado oposto, com o Iguaçú e seus tributários, era também, nesse tempo, um ponto do litoral em grande evidência, para os "sonhadores de tesouros e caçadores de índios".Foi, como já se disse, nas serras de Paranaguá, próximo a Antonina, "o local onde se extraiu o primeiro ouro no Brasil", conforme indica o citado mapa que se acha no Instituto Histórico de São Paulo, publicado pela primeira vez na memória Capitania de Itanhaen. Nesse mesmo mapa antigo, na seção que trata da topografia da vila de Guaratuba, estão bem indicados os lugares em que se extraía o ouro, bem como o Posto do Registro onde se fiscalizava o rendimento das minas da Capitania de Pero Lopes de Souza.O nome de Serra da Prata, dado a essa zona orográfica, conforme se vê do dito documento, demonstra que também houve ali indícios desse metal precioso.
Os espanhóis e portugueses encontrados por Martim Afonso, nesta parte do litoral, já conheciam todos esses pontos e faziam resgates com as tribos desses sertões.Pedro Corrêa, Francisco de Moraes Barreto e outros, apresadores e vendedores de escravos, haviam já destruído as aldeias de índios situadas ao Sul de Itanhaém, quando Martim Afonso - depois de seu regresso de Piratininga - tratou de fundar ali uma povoação, com seu respectivo propugnáculo [66].
Antes de aportarem a estas plagas os primeiros descobridores, já todo o litoral, desde Cabo Frio a Santa Catarina (nesta região), estava povoado de aldeias, que pouco a pouco se foram extinguindo, pela devastação operada pelos conquistadores.
Os núcleos indígenas de Bertioga e São Vicente, onde dominavam os grandes chefes Piquerobi, Caubi e outros, foram logo destruídos pelos invasores. No local da extinta aldeia de Tumiaru, residia nesse tempo, 1532, o português Antonio Rodrigues, parceiro de João Ramalho. Rodrigues estava vivendo maritalmente com a filha do chefe Piquerobi, que não se quis aliar aos portugueses, como fizeram Tibiriçá e Caubi. A prova mais cabal da existência e desaparecimento do grande núcleo indígena, em Tumiaru, são os objetos de arte indígena - igaçabas, ídolos e mais utensílios de cerâmica encontrados nas escavações antigas e recentes que ali se têm feito, no prolongamento da antiga Rua do Porto e Rua Capitão-mor Aguiar.
Parte desses túmulos indígenas, igaçabas e mais artefatos de cerâmica, foram recolhidos pelo major Sertório, há trinta ou quarenta anos, para o seu museu particular, transferido depois para o do Ipiranga. Das últimas escavações que ali se têm feito, para os lados de Sambaetuba, pudemos recolher ainda alguns fragmentos dessas igaçabas e escudelas, com belos ornatos, que conservamos em nosso estúdio.
Guardamos também, com extremo carinho, fragmentos de armas e ídolos, em cerâmica, recolhidos das escavações praticadas na base do morro, próximo ao porto de Tumiaru. O outro importante núcleo de aldeamento primitivo era o que estava situado á margem esquerda da foz do Rio Itanhaém, no mesmo local onde surgiu a terceira vila fundada por Martim Afonso de Souza.
Esse grande aldeamento e outros que lhe ficavam ao Sul, em Paraná-mirim, Peruíbe, Guaraú e Una da Aldeia (já na foz da Ribeira de Iguape) foram todos devastados pelos régulos e aventureiros, conforme já ficou dito.
Diz o autor da citada Memoria sobre as Aldeias da Província de São Paulo que o capitão Francisco de Moraes Barreto, companheiro de Martim Afonso, "levou a ferro e fogo os indígenas que ali - em Itanhaém - deparou, subjugando os que não puderam fugir e com estes, sob a mísera condição de escravos, erigiu a aldeia que foi conhecida com o nome de Itanhaém, derivada da tribo que anteriormente tivera por solar aquele território".
Se este capitão, que deu predicamento à vila de Itanhaém, como governador de São Vicente, assim procedia para com os índios do litoral, que se poderia esperar de seus subordinados?
Do que foi o aldeamento de Itanhaém, antes da descoberta e povoamento, pelos lusitanos, poder-se-á hoje fazer uma idéia pelas igaçabas e mais artefatos de cerâmica encontrados nas escavações ali procedidas ultimamente, no perímetro das novas edificações e mesmo na parte antiga, edificada há perto de quatrocentos anos.São realmente admiráveis as ornamentações - gregas e arabescos - grafadas nesses túmulos e vasos de cerâmica que guardam ainda os despojos dos grandes chefes indígenas, dos quis Anchieta nos dá notícia. Nas cartas do taumaturgo, referentes à catequese em Itanhaém, encontram-se minuciosas referências de alguns desses antigos pajés, por ele catequizados nessa vila, e reconduzidos do sertão, alguns com mais de cem anos de idade. Eram os remanescentes do "antigo povo".O que mais se admira nesses vasos pré-históricos são o brilho intenso do colorido, principalmente do vermelho-pompeiano, cuja conservação é perfeita, as camadas de tinta-esmalte-branco, resistentes à umidade e à ação corrosiva dos séculos; a nitidez e delicadeza dos traços, a habilidade com que foram delineados os belos e caprichosos ornatos, principalmente o estilo a que obedecem, o qual tanto tem de grego, de árabe ou egipciano; tudo isso enfim é simplesmente admirável?!Tais artefatos, tão dignos, tão importantes, como as belas coleções de "Cerâmica de Marajó" avaramente guardadas no Museu Goeldi do Pará - estão infelizmente sendo espatifados, aqui em São Vicente e em Itanhaém, pela inconsciência do almocreve e do alvião e dispersas em mãos de curiosos, sem que os poderes públicos, competentes, lhes liguem a mínima importância, não obstante as nossas reclamações [67].
foi publicada a segunda edição na língua inglesa. Pouco depois, em 1848, o relato foi publicado em língua alemã em Dresden e Leipzig, atual Alemanha.A edição em português ocorreu em 1942, na Coleção Brasiliana, intitulada Viagens no Brasil: principalmente nas províncias do norte e nos distritos de ouro e do diamante durante anos 1836-1841, da Companhia Editora Nacional.No ano de 1856 foi publicado o relato Life in Brazil; or, a journal of a visit to the land of the cocoa and the palm de Thomas Ewbank ela Harper & Brothers, Nova York, sendo lançada também na Inglaterra. Nos Estados Unidos houve uma edição em 2005.No Brasil, o relato em português foi publicado com o título A vida no Brasil: ou Diário de uma visita ao país do cacau e das palmeiras, em 1973, pela editora carioca Conquista, em dois volumes.O relato de Henry Walter Bates foi publicado em 1863, em dois volumes, com o título The naturalist on the River Amazons, a record of adventures, habits of animals, sketches of Brazilian and Indian life, and aspects of nature under the Equator, during eleven years of travel by Henry Walter Bates, em Londres pela John Murray. A segunda edição ocorreu um ano depois, com supressão de algumas partes pelo autor, seguida por mais de dez edições na língua inglesa em Londres e nos Estados Unidos. No Brasil O naturalista no Rio Amazonas foi editadoem 1944 pela Editora Nacional.
Em 1869, Richard Burton publicou a primeira edição de Explorations of the Highlands of the Brazil; with a full account of the gold and diamond mines. Also, canoeing down 1500 miles of the great River São Francisco, from Sabará to the Sea by Captain Richard F. Burton, F.R.G.S., etc., em Londres por Tinsley Brothers, em dois volumes. A obra recebeu destaque em finais do ano passado e foi publicada em Nova York no centenário da primeira edição, e nos últimos dezesseis anos teve três edições nos Estados Unidos.
No Brasil, a primeira edição de Viagens aos planaltos do Brasil: 1868, em três volumes,ocorreu no ano de 1941 pela Companhia Editora Nacional, que publicou a segunda edição em 1983. Houve uma edição em 2001 pelo Senado Federal intitulada Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho, volume único.
Em São Paulo, a Tip. Allemã de H. Schroeder publicou Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gaston e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba de John James Aubertin no ano de 1866.
Nesse mesmo ano foi traduzido para o inglês pelo autor e publicado em Londres pela Bates, Hendy & Co. com o título Eleven day’s journey in the Province of Sao Paulo, with the [p. 10]
Outro ponto, o parâmetro comparativo do algodão brasileiro e do norte-americano. A produção dos Estados Unidos figura como indicadora de qualidade e produtividade, em vista do país ter sido o maior fornecedor do mundo, e é trazida pelos viajantes quando desejam estimular a produção no Brasil, em especial, utilizando dados fornecidos por conhecedores do ramo.Nesse sentido, Richard Burton traz as considerações de um renomado pesquisador da cultura algodoeira, Major R. Trevor Clarke96 para quem “Aqui [no Brasil] o algodão tem mais penugem que o habitual; 600 quilos darão 250 de fibra limpa, ao passo que no Alabama são necessários 750 quilos. Em geral, o replantio do arbusto é feito em seu quarto ano”.97 E J. J. Aubertin traz a experiência dos americanos sulistas Dr. Gaston, Dr. Shaw e Major Mereweather, a quem ele acompanhou durante a passagem deles pela Província de São Paulo:Eramos cinco pessoas. Tres Americano sulistas, dr. Gaston, dr. Shaw e o major Mereweather, que ião fazer sua viagem prolongada, na exploração de districtos um pouco remotos, sob a direcção do sr. Engenheiro Bennaton, para esse fim nomeado; e, sendo informado dos seus preparativos, logo me aggreguei a elles, não menos por sympatia para com a antecipada immigração americana, como tambem pelo desejo de visitar em sua companhia algumas plantações de algodão, e tirar algumas instrucções de sua experiencia pratica, a respeito de uma cultura que, sendo hoje estabelecida na província, não póde deixar de influil-os cabalmente na resolução que definitivamente tenhão que tomar.98Durante a permanência na província paulista, o grupo visitou a região de Itu, Salto, Porto Feliz e Sorocaba, daí J. J. Aubertin seguiu para a capital paulista e eles continuaram viagem com destino à Itapetininga. As observações de diferentes aspectos da lavoura algodoeira e o processamento do algodão fizeram os norte-americanos considerarem o clima paulista adequado à produção e benéfico o fato de não haver mudanças bruscas na temperatura, como a ocorrência de geadas, possibilitando maior tempo de conservação do algodoeiro.99Esses dados são agregados por J. J. Aubertin àqueles fornecidos por produtores paulistas de que “emquanto o alqueire norte-americano, dando bem, produz de cem até cento e dez ou talvez 96 Richard Trevor Clarke (1813-1897) – “Army officer and horticulturalist. Major in the Northampton and Rutland Infantry Militia, 1862. Bred nearly thirty new varieties of begonias and many new strains of cotton. Awarded a gold medal by the Cotton Supply Association of Manchester. Member of the Royal Horticultural Society; served on the council and scientific committee for many year; awarded the society’s Veitchian medal, 1894”. BURKHARDT, Frederick et al (Ed.). Charles Darwin. The Correspondence of Charles Darwin (1866). Cambridge: Cambridge University, 2004, p. 502, vol. 14.97 BURTON, Richard Francis. Viagem de canoa de Sabará ao Oceano Atlântico..., op. cit., p. 29. [nota 3]98 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gastón e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba. São Paulo: Typ. Allem[p. 159]
Os esforços de J. J. Aubertin devem ser compreendidos dentro desse contexto, em que ele se coloca como defensor da produção algodoeira paulista e atua em diferentes direções. No Brasil, escreveu para diversos periódicos nacionais e correspondeu-se com diferentes figuras da política brasileira para lhes solicitar o envolvimento com a lavoura algodoeira capaz de colocar São Paulo em posição favorável no mercado inglês, tal como fez o inglês em carta ao Comendador Fideles Prates:
Usai, vos peço, nesta vespera de uma nova semeadura, a vossa bem conhecida influencia entre os vossos amigos, e dizei aos cultivadores do algodão que redobrem os seus esforços na nova plantação, porque pela colheita futura é que se diciderá definitivamente a importante questão se a provincia de S. Paulo pode ou não pode occupar uma posição positiva nos mercados de Manchester.104
Aos agricultores interessados, ele também procurou difundir noções sobre a técnica de cultivar o algodão herbáceo e publicou folhetos sobre a cultura do algodão.105 Essa política de difundir informações sobre o cultivo foi uma atividade constante da associação inglesa, mesmo após o fim da guerra norte-americana.
No plano internacional, empenhou-se em apresentar os algodões paulistas de boa qualidade na Exposição Internacional de Londres, de 1862, com o objetivo de mostrar os atributos do produto. Também foi intermediador entre Manchester Cotton Supply Association e órgãos brasileiros; em duas ocasiões, nos anos de 1862 e 1865, J. J. Aubertin solicitou à associação britânica que enviasse algodão herbáceo ao Ministério da Agricultura e à Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional.106 Em diferentes momentos enviou para a Inglaterra amostras do algodão paulista, em geral, com boas avaliações dos correspondentes.J. J. Aubertin arquitetou ações no Brasil ligadas aos interesses ingleses baseadas em informações colhidas por ele na província ou com base na experiência de nacionais e, principalmente, de norte-americanos, com o propósito de deixar claro as potencialidades de São Paulo e convencer os potenciais produtores paulistas. Para aqueles que mesmo assim estivessem em dúvida, ele escreve:
Deveras, já é tarde demais para duvidar do algodão de São Paulo; mas se ainda ha descrentes, apenas apello para os dous srs. Cultivadores que acompanhei, major Mereweather e dr. Shaw. Ambos elles me repetirão muitas vezes, que melhor algodão que aquelle que nos vimos não desejavão ver; que nas suas proprias plantações e com todos os seus meios perfeitos não costumavãoproduzir melhor. 107
Seus esforços renderam-lhe o reconhecimento da associação inglesa, que o condecorou com uma medalha de ouro, e o governo brasileiro honrou-o com o hábito da Imperial Ordem da Rosa. Nos veículos de informação brasileiros, nos quais tanto escreveu, vemos o reconhecimento de seus pares, como E. Hutchings, outro entusiasta da lavoura algodoeira em terras paulistas e intermediário entre a associação e o Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas:
Hoje, considerado, como um genero de exportação, o algodão, e sua cultura, é um dos factos estabelecidos na historia da provincia, e eu me aproveito desta occasião para patentear a gratidão que todos temos.Quem sabe, o que ha de mostrar-se nos anos que vem? Quasi todas as condições de prosperidade estão unidas nesta provincia; - Um clima sem rival, uma terra cheia de riquesa, e uma natureza, cuja uberdade é espantosa. Tudo isto aqui, e no outro lado do Oceano, a Inglaterra, offerece tudo quanto seja possivel afim de attrahir para lá, os productos da provincia, e com as devidas providencias, e constancia em trabalhar, tudo será possivel, e, sem esta, nada.Campinas, Mogy-mirim, Limeira e outros lugares vão caminhando na cultura do café, e o publico, bem como os particulares, são beneficiados. Parece que, para Sorocaba, resta ainda este outro manancial de prosperidade; - a cultura do algodão, e não ha homem ou natural, ou estrangeiro na provincia, que não abençoará a empresa.[...] Caminho da Luz, S. Paulo Agosto de 1865[...] E. Hutchings108
Evidentemente, tais esforços foram no sentido de produzir algodão adequado às necessidades da indústria inglesa. Foi estimulado o plantio da semente de Nova Orleans, em solicitação de uma circular da Manchester Cotton Supply Association109 e houve uma modificação na postura do produtor brasileiro: “O tipo de algodão tradicional no Brasil era o arbóreo mas o mercado consumidor passou a condicionar a produção ao tipo herbáceo dos 107 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo..., op. cit., p. 16.108 HUTCHINGS, E. “Aos Redactores do Diario de São Paulo”. Diario de S. Paulo, São Paulo, 11 agosto 1865, ano I, nº 10, p. 2. Em outras atividades, além do algodão: E. Hutchings foi um dos secretários da Comissão Julgadora de um concurso para criadores de animais pensado por J. J. Aubertin, tesoureiro do evento. O Comendador Fideles Nepomuceno Prates aparece como um dos Juízes. “Concurso industrial”. Correio Paulistano, Estados Unidos. As variedades mais procuradas eram a U[p. 161, 162]