— 36 —chycephalo, predominante nos sambaquis e de raça Tupi-Guarani, e outro, de craneo mesocephalo ou dolicho-cephalo, correspondendo á raça Caingang.Esta ultima conclusão está confirmada tambem pelas observações de Lista sobre o craneo dos Guayanás.Admittindo com von Martius que os Caingangs e Guayanás representam um grupo dos povos Gês, verificamos que existe notavel differença entre os Guayanás e Ingaims do alto Paraná e os Guayanás de São Paulo, que são intimamente ligados aos Caingangs.Resulta, pois, deste nosso estudo que os Guayanás de Piratininga e os que no oeste do Estado foram examinados no seculo passado por Varnhagen e St. Hilaire pertencem ao mesmo povo de Caingangs, e que os Guayanás do alto Paraná são representantes de um outro ramo dos Gês que no seu idioma e nos seus caracteres ethnographicos differem algum tanto dos Guayanás de S. Paulo.Grande embaraço forma para este estudo não só a escassez de informações aproveitaveis nas publicações antigas, mas tambem as contradicções que muitas vezes entre as mesmas se notam. E´ por esta razão necessario proceder com certa critica.Assim, sabemos tanto pelos escriptores do seculo XVI como pelos do seculo XIX que os Guayanás e Caingangs, de S. Paulo não usam de rêdes, dormindo em leitos construidos no solo da choupana. Só Knivet (1), falla em rêdes usadas pelos Guayanás do Rio de Janeiro. Podemos imaginar que os Guayanás tivessem acceito certos costumes dos povos tupis entre os quaes viviam, mas esta hypothese seria em opposição com tudo que de noticias exactas possuimos. Mais provavel nessas condições será que Knivet se enganou, o que aliás é admissivel suppor quando se trata de um escriptor que é o mais mentiroso entre todos que tem escripto sobre o Brazil. E´ só Knivet, quem descobriu serras cobertas de(1) Antonio Knivet. Narração da viagem nos annos de 1591 e ss. ao mar do sul. Rev. Inst. Hist. Rio de Janeiro Tom. XLI 1878 p. 211 [p. 36]
— 37 —gelo (l. c. p. 240) no sertão do Brazil, e foi elle tambem o unico que tem por dias viajado num rio subterraneo sem encontrar outra difficuldade senão a do encontro fatal na sahida do dito rio com indigenas bravios, que a todos comeram á excepção de Knivet que nos relatou esta historia.As contradicções mencionadas as vezes são só apparentes. Isto refere-se especialmente ás informações relativas ao caracter dos Guayanás, tratando-os uns de doceis e mansos, outros de bravios e traiçoeiros. Lembro aqui o facto por mim relatado nesta Revista vol. I, p. 44, referentes aos Caingangs do Rio Grande do Sul que, não obstante serem aldeados e catechisados, em 1889 assaltaram um grupo pacifico de Guaranis, assassinando a todos em uma noite.Este facto tem profundamente modificado a opinião formada sobre o caracter destes indios e occorrencias analogas naturalmente devem ter-se dado tambem em epocas anteriores. Além disto sabemos que os Guayanás e Caingangs se compozeram de não pequeno numero de tribus. Assim, sabemos que entre os Caingangs do Paraná se distinguem as hordas dos Camés Votorões, Dorins, Xocrens e Tavens.Compare-se neste sentido o artigo do Padre Francisco das Chagas Lima, "Memoria sobre o descobrimento e colonia de Guarapuava". Rev. do Inst. Hist. Geogr. do Rio de Janeiro vol. IV, 1863 p. 43 e v.Não preciso observar aqui que o autor se enganou acreditando o idioma desses povos Caingangs apenas um dialecto corrompido do Guarany.O nome dos Xocrens é escripto Socré por Saint-Hilaire (l. c. II p. 302.) e Sokleng por Ehrenreich (l. c. p. 146). Estando muito atrazado o conhecimento linguistico dos dialectos Caingangs não me foi possivel averiguar a ethymologia das denominações das diversas tribus, á excepção do nome dos Camés. O nome Caingang é explicado no diccionario anonymo da lingua bugre (l. c. p. 68.) como significando "gente do matto", sendo "gang" gente. Observo entretanto que o nome. [p. 37]
— 125 —vocabulario, deixando-se, ao contrario, perder a lingua do povo que, por tanto tempo e mais distinctamente, estivera em contacto com os mais emeritos catechistas.Que a lingua Guayanã era um dialecto do Guarany, provão-no os residuos dessa lingua que a Geographia e a Historia paulista conservaram. Citemos alguns exemplos. O nome Mboy (cobra) de uma pequena localidade ao poente da cidade de S. Paulo é puro guarany.O diphtongo MB, caracteristico desta lingua e do tupi austral ahi está patente, resistindo até hoje a lei do menor esforço que já entre os Tupis do Norte transformára esse vocabulo em boia ou bói, entre os Apiacás em boja, entre os Oyampis em moje. O nome Mogy (rio das cobras), tão frequente na geographia paulista, é ainda um vocabulo guarany, apesar da alteração porque já passou. Mogy, em outro tempo escripto Boigy é simples corruptela dos vocabulos guaranys: mboi gy. Os nomes Araçariguama (o Tucano que ha de ser), Pacaembú (a aguada ou arroio da paca), Pirajú, por Pirajura (a guela do peixe), Urubukeçaba por Urubukéreçaba (ninho de urubus), Mandahy por Comandakyra (feijão verde) são ainda vocabulos guaranys, ou palavras affectadas dos accidentes phoneticos proprios desta lingua.Os nomes historicos: Cunhambeba por Cunhampeba, Abarebebé por Abaréuêuê estão nos mesmos casos.Uma objecção, entretanto, aqui tem todo o cabimento, e é que a lingua de que a Geographia paulista tão notaveis vestigios ainda guarda, sendo a dos escravos indios, pela mór parte de procedencia Carijó e Tupinaqui, lingua que por largos annos prevaleceu nesta região, não é de estranhar que taes elementos do guarany encerre.Seria, com effeito, irrepondivel a objecção se Gabriel Soares nos não houvesse transmittido que o Guayanã do campo se fazia entender pelo Carijó, cuja boa indole compartia.Demais, a Historia não nos diz que os Guayanãs, habitadores de Piratininga, fossem jámais em tempo [p. 125]
— 141 —Os negros usam contra o mal aqui, como na Africa, frequentemente, substancias viscosas, como p. e. a gomma arabica. E de tal tiram resultado, parecendo indicar este facto que se trata de anomalia de nutrição.No caminho de Jacarehy, encontrámos varios fugitivos hespanhóes, pertencentes ao sequito do bispo de Cordova. Eram victimas e foram acolhidos pelos Paulistas com manifesta sympathia e humanidade.Devido á remessa de força militar de S. Paulo para a ilha de Santa Catharina e dalli para Montevidéo os Paulistas tomaram interesse pelos acontecimentos politicos do Sul, julgando provocar, pelo acolhimento hospitaleiro desses fugitivos um direito a egual tratamento para os seus patricios actualmente no Sul.A expedição portugueza para Montevidéo acarretou enormes sacrificios á provincia de São Paulo, porquanto foram remettidos não só tropas do exercito como tambem um regimento de milicias, o que occasionou sensivel falta á classe trabalhadora, com consequencias funestas para mais de uma familia. Como pereceram esses milicianos em numero avultado, uns em combate contra o inimigo e outros dizimados por doenças, observava-se geral descontentamento na capitania por causa desse emprehendimento militar.E´ verdade que o Paulista distingue-se entre todos os brasileiros pela lealdade e obediencia ao governo constituido. Uma campanha, porém, que na opinião geral, não foi emprehendida por motivos sufficientes, mas unicamente pelos caprichos d´uma minoria, afigurava-se cousa estranha ao cidadão pacifico, não habituado á guerra e provocou os mais vivos protestos, logo que viram sacrificadas a vida e a felicidade de alguns concidadãos. Grande parte dos milicianos, por isso, desertou antes até de se porem em marcha as forças, refugiando-se nos sertões desertos ou na provincia de Minas Geraes, a qual não tinha, em virtude das prerogativas de cada provincia, obrigação de entregal-os novamente ao governo de São Paulo.Em Aldêa da Escada, pequena aldêa, a tres milhas ao sul de Jacarehy, não longe de um velho hospicio de carmelitas, antigamente de certa importancia, hoje porém, quasi deserto e sito ao pé de uma montanha e á margem do Parahyba, tivemos o prazer de encon- [p. 141]
trar um sacerdote bastante intelligente, que dirige uma missão dos indios visinhos.Contou-nos que a sua actividade dia a dia se reduz em consequencia da ordem régia que abolio todo e qualquer constrangimento exercido contra os indios, dando-lhes todos os direitos civis de que gozam os demais habitantes. Os effeitos dessa medida são de certa maneira desastrosos, porquanto de todos os logares, onde ha indios debaixo da tutela ou fiscalização dos portuguezes, retiram-se aquelles, cada vez em maior numero, para as matas. Presentemente a missão contava apenas sessenta parochianos. Não representam os remanescentes de uma mesma nação, mas sim uma mistura de diversas que possuiam esta região antes do dominio dos portuguezes.O traço caracteristico da raça, a indolencia taciturna, que se manifesta principalmente pelo olhar vago e maneiras timidas do americano, eleva-se, ao primeiro passo na esphera da reflexão e em consequencia do constrangimento desacostumado da civilisação e do contacto com negros, mestiços e portuguezes, até o quadro tristissimo do intimo descontentamento e perversidade. O tratamento da parte d´alguns dos actuaes fazendeiros contribue, aliás, sem duvida, para tal decadencia moral e physica. Nem os traços nacionaes nem as deformações corporaes voluntarias (tatuagem), nem os habitos ou costumes permittem concluir a que tribu ou tribus pertenciam esses miseros restos de autochthones.A lingua que se ouve dos indios desta missão, tampouco parece composta de idiomas differentes e contem, sobretudo, muitas palavras tomadas ao Guarany. Segundo os historiadores, ha probabilidades de que tanto aqui como nos campos de Piratininga ou São Paulo vivesse a tribu dos Goyonases. Dizem, que estes ultimos se distinguiam dos vizinhos Tamoyos e Carijós, pelo habito de morarem em covas subterraneas e de não matarem os inimigos vencidos, conservando-os em captiveiro. E´ que juntamente com os Goyatacazes, indios da mesma origem e que moravam mais para o Norte, formavam os Goyanazes uma raça bella, vigorosa e guerreira.Se os indios existentes ainda na "Aldêa da Escada", nas visinhanças das matas da Mantiqueira e da Serra do Mar são realmente descendentes dos Goyanazes, esta lenta decadencia physica e physionomica, [p. 142]
Do lado oposto á bahia de Santos, á direita da Bocaina, existe um pequeno morro denominado "Ilha de Barnabé". Esse morro, entretanto, ha muitos anos que já deixou de ser ilha e ligou-se ao continente. Esse manguezal todo, vai desde a embocadura do rio Jurubatuba até o Monte Cabrão, na Bocaina do Bertioga, e por onde serpeiam os tortuosos canais do Sandy e do Diana, era quase todo mar; apenas na Bocaina da Bertioga, para um lado do canal surgiam á flor d´água algumas lages e recifes e nada mais; tudo era livre e vasto até o Jurubatuba.
Nas sesmarias concedidas a Braz Cubas por d. Anna Pimentel, a 3 de março de 1531 ha referências a essa ilha, que hoje se denomina Barnabé.Passemos a transcrever alguns tópicos: "... a qual terra (sesmaria) está na povoação de São Vicente (Santos ainda não existia nesse tempo) do dito sr. Martim Afonso e a dita terra poderá ser de grandura de duas léguas e meia, pouco mais ou menos, até três léguas por costa e por dentro quanto se puder estender, que for da conquista de El-Rey nosso Senhor e que está onde chamam Jarabatyba, assim que pelo braço de mar dentro e mais lhe fazemos doação
Estas terras de Braz Cubas segundo confrontações do referido documento, conforme se vê no mapa, eram duas e meia a três léguas de costa, desde a foz do Jurubatuba, até o outeiro Guanique, que neste tempo também era ilha, e que se acha á margem esquerda do Rio Cabaçú, no largo do Candinho, costeando as montanhas que ficavam sobre o mar.
Como em todo esse sertão oriental, compreendida esta sesmaria, que estava ainda nessa época infestada pela tribo indômita de Ururay, que se aliavam aos tamoyos no ódio e hostilidades aos portugueses, houve dificuldade em povoar e cultivar essa região, conforme declara o mesmo documento.
Antes de fundar a povoação do Porto de Santos era nessa Ilha Pequena, onde Braz Cubas e seu pai João Pires Cubas tinham uma pequena fazenda. Eis o que refere o trecho do documento do Traslado da Escritura de auto de posse dessa ilha e mais terras, passado em Lisboa a 10 de agosto de 1540:
"... ele capitão (Martim Afonso) lhes houve por demarcadas pelas demarcações já ditas e meteu logo posse delas realmente em feito, visto já a obra que na dita ilha tem de canaveais e mantimentos... e por ele dito Braz Cubas foi também pedido a ele capitão mandasse a mim tabelião que desse aqui a minha fé em como havia três anos que João Pires Cubas, seu pai, viera a esta terra com fazenda e gasto e aproveital-as, o que deixou de fazer por dita terra ser habitada por gentios nossos contrários e por esse respeito as não pudera nem podia aproveital-as... etc."
A data da Sesmaria de Pedro de Góes é de 24 de abril de 1537 e acha-se transcrita em diversas crônicas e monografias. Confrontava para o oriente, na serra de Taperovira com as ditas terras de Braz Cubas, pelo rio Jurubatuba; dai, costeava o lagamar até á ponta ocidental desta serra até o ponto hoje denominado Pedreira, e dali cortava em linha reta até a ilha do Caramacôacara (Casquerinho) onde o rio Cubatão tem um de suas barras; seguindo em direção à serra, costeando a ribeira do Ururay (hoje rio Mogy) até o vale e serra do mesmo nome, que está sobre o mar, e dai em direção a Piratininga, pelo caminho velho do Piassaguêra.
Em 1674 o Padre Lourenço Craveiro, reitor do Colégio dos Jesuítas de São Paulo, aos quais então pertenciam grande parte dessas sesmarias, fez algumas anotações á margem de uma destas escrituras, esclarecendo as denominações nativas primitivas, que já nesta época (1674) começavam a ser alteradas, confundindo portando os rumos das ditas sesmarias.
Ai vão transcritas algumas dessas notas:
"Esta parte da Serra de Paranapiacaba (Ururay) que está sobre o mar, é bem conhecida..." "Ponta do Ururay bem se sabe onde é, - é a quebrada da Serra".
"Ururay se chama aquela vala onde teve sítio o capitão Antonio de Aguiar Barriga, e a ribeira que ali corre é Ururay".
"Ilha de Caramacôara é a que está na carra do rio Cubatão".
"A Serra de Taperovira é o monte, ou montes ao pé dos quais vem o rio Jiribatyba, defronte de Santos". [Revista do Museu Paulista, 1895. Páginas 514 e 515]