Pela sua narração, sabemos que ele e os castelhanos da malograda expedição de Diego de Sanábria estiveram dois anos na ilha, até que em 1550 a abandonaram, marchando a maior parte para o Paraguai e saindo outros na pequena embarcação que naufragou em Itanhaém.[0]
Para conquistar aquelle território, mandaram, ha alguns annos, navios dos quaes um tinha voltado pedindo mais auxilio e contou como era rico em ouro. O commandante dos trêsnavios chamava-se Dou Diego de Senabrie e devia ser governador, por parte d´El-Rei, daquelle paiz. Fui a bordo de um dos navios que estavam muito bem equipados, Sahimos de
CAPITULO XICOM O CHEGOU O OUTRO NAVIO DA NOSSA COMPANHIA, QUE SE TINHA PERDIDO, E NO QUAL ESTAVA O PRÍMEIKO PILOTO, CAPUT XI.
Depois de cerca de três semanas de demora, chegou o navio no qual se achava o primeiro piloto, mas o terceiro navio estava perdido de todo e nada mais soubemos dele. Apparelhámos, então, para sahir e fizemos provisão para 6 meses, porque havia ainda cerca de 300 léguas (1448,4km) de viagem por mar.
Quando tudo estava pronto, perdemos o grande navio no porto, o que impediu a nossa ida. Ficámos ahi dois anos, no meio de grandes perigos e soffrendo fome. Éramos obrigados a comer lagartos, ratos do campo e outros animaes exquisitos, que podíamos achar, como mariscos (pie viviam nas pedras e muitos bichos extravagantes.
Os selvagens que nos davam mantimentos, enquanto recebiam presentes de nossa parte, fugiram depois para outros logares e como não podíamos fiar-nos nelles, cançámos de lá estar para talvez perecer.
Deliberamos, pois, que a maior parte dos nossos devia ir por terra para a província de Sumption (Assumpção) que distava cerca de 300 milhas (482,8km) de lá. Os outros iriam com o navio que restava. O capitão conservava alguns de nós, que iriam por água com elle. Aquelles que iam por terra levavam alguns victualhas e alguns selvagens.
Muitos delles, porém, morreram de fome no sertão; mas os outros chegaram, como depois soubemos, e para o resto o navio era pequeno demais para navegar no mar.
CAPITULO XIICOM O DELIBERÁMOS IR A S . VlNCENTE, QUE ERA DOS PORTUGUEZES,ARRANJAR COM ELLES UM NAVIO PARA FRETAR, E TERMINAR ASSIMA NOSSA VIAGEM, PORÉM, NAUFRAGAMOS E NÃO SABÍAMOS AQUE DISTANCIA ESTÁVAMOS DE S . VlNCENTE. CAPUT XII.
Os portuguezes têm perto da terra firme uma ilha denominada S. Vincente (Urbionemt na lingua dos selvagens). Esta ilha se acha a cerca de 70 milhas (112,6km) do logar onde estávamos. Era nossa intenção ir até lá, para ver se poderíamos arranjar com os portuguezes um navio para fretar e ir com elle até o Rio de Platta, porque o navio que tínhamos era pequeno demais para nós todos.
Para effectuar isso, alguns dos nossos foram com o capitão Salasar para a ilha de S. Vincente, mas nenhum de nós tinha estado lá, exceto um de nome Roman(Romão), que se obrigou a descobrir a ilha. Sahimos, pois, do forte de Inbiassape que se acha no grau 28, ao sul do Equinoxio, e chegámos cerca de dois dias depois da nossa partida a uma ilha chamada Alkatrases, mais ou menos a 40 milhas (64,3km) do logar de onde sahimos.
Alli o vento se tornou contrario e nos obrigou a ancorar. Na ilha havia muitos pássaros marítimos chamados Alkatrases, que são laceis de apanhar. Era tempo da incubação. Desembarcámos, para procurar água potável e encontrámos cabanas velhas e cacos de panellas dos selvagens, que lá tinham morado, lambem achamos umas pequenas fontes numa rocha.Alli matamos muitos dos referidos pássaros e levamos seus ovos para bordo, onde cozinhamos os pássaros e os ovos. Acabada a refeição, levantou-se uma grande tempestade do sul que nos fez receiar que as âncoras largassem e fosse arremessassado o navio sobre os rochedos. Isto já era de tarde e pensávamos ainda alcançar o porto chamado Caninee (Cananéa).Mas antes de chegarmos, já era de noite e não pudemos entrar. Affastámonos então da terra com grande perigo, pensando a cada instante que as vagas despedaçassem o navio, porque perto da terra são ellas muito maiores do que no alto mar, longe da terra.Durante a noite tínhamos nos abastado tanto, que de manhã não enxergámos mais a terra. Somente muito depois, appareceu ella a vista, mas a tempestade era tamanha, que pensamos não resistir. Então aquelle que já tinha estado alli pretendeu reconhecer S. Vincente e aproámos para lá.Uma grande neblina, porem, nos não deixou reconhecer benf a terra e tivemos de alijar tudo que era pesado para alliviar o navio. Estávamos com muito medo, mas avançámos pensando encontrar o porto, onde moram os portuguezes, mas enganámo-nos.Ouando então a neblina se levantou um pouco, deixando ver a terra, disse Romão que se lembrava de que o porto estava na nossa frente e bastava dobrar o rochedo para alcançar o porto por de trás.Fomos alli, mas quando chegamos só vimos a morte, porque não era o porto, sendo obrigados a virar para a terra e naufragar. As ondas batiam contra a terra, que era medonho e rogámos a Deus que salvasse a nossas almas, fazendo o que os marinheiros fazem quando estão para naufragar.Ouando chegamos ao logar onde as vagas batiam em terra a dias nos suspendiam tão alto como si estivéssemos sobre uma muralha. O primeiro baque sobre a terra já despedaçou o navio Alguns saltavam no mar e nada vam para a costa, outros alli chegavam agarrados aos pedaços do navio.Assim Deus nos ajudou a chehaor vivos á terra, continuando o vento e a chuva, que quasi nos regelava. [História verídica e descrição de uma terra de selvagens nus e cruéis, comedores de seres humanos, situada no Novo Mundo da América, desconhecido antes e depois de Jesus Cristo e desconhecido aqui nas terras de Hessen até dois anos atrás, visto que Hans Staden, de Homberg, em Hessen, o conheceu por experiência própria e agora publica esse livro com as suas impressões.]
foi publicada a segunda edição na língua inglesa. Pouco depois, em 1848, o relato foi publicado em língua alemã em Dresden e Leipzig, atual Alemanha.A edição em português ocorreu em 1942, na Coleção Brasiliana, intitulada Viagens no Brasil: principalmente nas províncias do norte e nos distritos de ouro e do diamante durante anos 1836-1841, da Companhia Editora Nacional.No ano de 1856 foi publicado o relato Life in Brazil; or, a journal of a visit to the land of the cocoa and the palm de Thomas Ewbank ela Harper & Brothers, Nova York, sendo lançada também na Inglaterra. Nos Estados Unidos houve uma edição em 2005.No Brasil, o relato em português foi publicado com o título A vida no Brasil: ou Diário de uma visita ao país do cacau e das palmeiras, em 1973, pela editora carioca Conquista, em dois volumes.O relato de Henry Walter Bates foi publicado em 1863, em dois volumes, com o título The naturalist on the River Amazons, a record of adventures, habits of animals, sketches of Brazilian and Indian life, and aspects of nature under the Equator, during eleven years of travel by Henry Walter Bates, em Londres pela John Murray. A segunda edição ocorreu um ano depois, com supressão de algumas partes pelo autor, seguida por mais de dez edições na língua inglesa em Londres e nos Estados Unidos. No Brasil O naturalista no Rio Amazonas foi editadoem 1944 pela Editora Nacional.
Em 1869, Richard Burton publicou a primeira edição de Explorations of the Highlands of the Brazil; with a full account of the gold and diamond mines. Also, canoeing down 1500 miles of the great River São Francisco, from Sabará to the Sea by Captain Richard F. Burton, F.R.G.S., etc., em Londres por Tinsley Brothers, em dois volumes. A obra recebeu destaque em finais do ano passado e foi publicada em Nova York no centenário da primeira edição, e nos últimos dezesseis anos teve três edições nos Estados Unidos.
No Brasil, a primeira edição de Viagens aos planaltos do Brasil: 1868, em três volumes,ocorreu no ano de 1941 pela Companhia Editora Nacional, que publicou a segunda edição em 1983. Houve uma edição em 2001 pelo Senado Federal intitulada Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho, volume único.
Em São Paulo, a Tip. Allemã de H. Schroeder publicou Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gaston e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba de John James Aubertin no ano de 1866.
Nesse mesmo ano foi traduzido para o inglês pelo autor e publicado em Londres pela Bates, Hendy & Co. com o título Eleven day’s journey in the Province of Sao Paulo, with the [p. 10]
Outro ponto, o parâmetro comparativo do algodão brasileiro e do norte-americano. A produção dos Estados Unidos figura como indicadora de qualidade e produtividade, em vista do país ter sido o maior fornecedor do mundo, e é trazida pelos viajantes quando desejam estimular a produção no Brasil, em especial, utilizando dados fornecidos por conhecedores do ramo.Nesse sentido, Richard Burton traz as considerações de um renomado pesquisador da cultura algodoeira, Major R. Trevor Clarke96 para quem “Aqui [no Brasil] o algodão tem mais penugem que o habitual; 600 quilos darão 250 de fibra limpa, ao passo que no Alabama são necessários 750 quilos. Em geral, o replantio do arbusto é feito em seu quarto ano”.97 E J. J. Aubertin traz a experiência dos americanos sulistas Dr. Gaston, Dr. Shaw e Major Mereweather, a quem ele acompanhou durante a passagem deles pela Província de São Paulo:Eramos cinco pessoas. Tres Americano sulistas, dr. Gaston, dr. Shaw e o major Mereweather, que ião fazer sua viagem prolongada, na exploração de districtos um pouco remotos, sob a direcção do sr. Engenheiro Bennaton, para esse fim nomeado; e, sendo informado dos seus preparativos, logo me aggreguei a elles, não menos por sympatia para com a antecipada immigração americana, como tambem pelo desejo de visitar em sua companhia algumas plantações de algodão, e tirar algumas instrucções de sua experiencia pratica, a respeito de uma cultura que, sendo hoje estabelecida na província, não póde deixar de influil-os cabalmente na resolução que definitivamente tenhão que tomar.98Durante a permanência na província paulista, o grupo visitou a região de Itu, Salto, Porto Feliz e Sorocaba, daí J. J. Aubertin seguiu para a capital paulista e eles continuaram viagem com destino à Itapetininga. As observações de diferentes aspectos da lavoura algodoeira e o processamento do algodão fizeram os norte-americanos considerarem o clima paulista adequado à produção e benéfico o fato de não haver mudanças bruscas na temperatura, como a ocorrência de geadas, possibilitando maior tempo de conservação do algodoeiro.99Esses dados são agregados por J. J. Aubertin àqueles fornecidos por produtores paulistas de que “emquanto o alqueire norte-americano, dando bem, produz de cem até cento e dez ou talvez 96 Richard Trevor Clarke (1813-1897) – “Army officer and horticulturalist. Major in the Northampton and Rutland Infantry Militia, 1862. Bred nearly thirty new varieties of begonias and many new strains of cotton. Awarded a gold medal by the Cotton Supply Association of Manchester. Member of the Royal Horticultural Society; served on the council and scientific committee for many year; awarded the society’s Veitchian medal, 1894”. BURKHARDT, Frederick et al (Ed.). Charles Darwin. The Correspondence of Charles Darwin (1866). Cambridge: Cambridge University, 2004, p. 502, vol. 14.97 BURTON, Richard Francis. Viagem de canoa de Sabará ao Oceano Atlântico..., op. cit., p. 29. [nota 3]98 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gastón e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba. São Paulo: Typ. Allem[p. 159]
Os esforços de J. J. Aubertin devem ser compreendidos dentro desse contexto, em que ele se coloca como defensor da produção algodoeira paulista e atua em diferentes direções. No Brasil, escreveu para diversos periódicos nacionais e correspondeu-se com diferentes figuras da política brasileira para lhes solicitar o envolvimento com a lavoura algodoeira capaz de colocar São Paulo em posição favorável no mercado inglês, tal como fez o inglês em carta ao Comendador Fideles Prates:
Usai, vos peço, nesta vespera de uma nova semeadura, a vossa bem conhecida influencia entre os vossos amigos, e dizei aos cultivadores do algodão que redobrem os seus esforços na nova plantação, porque pela colheita futura é que se diciderá definitivamente a importante questão se a provincia de S. Paulo pode ou não pode occupar uma posição positiva nos mercados de Manchester.104
Aos agricultores interessados, ele também procurou difundir noções sobre a técnica de cultivar o algodão herbáceo e publicou folhetos sobre a cultura do algodão.105 Essa política de difundir informações sobre o cultivo foi uma atividade constante da associação inglesa, mesmo após o fim da guerra norte-americana.
No plano internacional, empenhou-se em apresentar os algodões paulistas de boa qualidade na Exposição Internacional de Londres, de 1862, com o objetivo de mostrar os atributos do produto. Também foi intermediador entre Manchester Cotton Supply Association e órgãos brasileiros; em duas ocasiões, nos anos de 1862 e 1865, J. J. Aubertin solicitou à associação britânica que enviasse algodão herbáceo ao Ministério da Agricultura e à Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional.106 Em diferentes momentos enviou para a Inglaterra amostras do algodão paulista, em geral, com boas avaliações dos correspondentes.J. J. Aubertin arquitetou ações no Brasil ligadas aos interesses ingleses baseadas em informações colhidas por ele na província ou com base na experiência de nacionais e, principalmente, de norte-americanos, com o propósito de deixar claro as potencialidades de São Paulo e convencer os potenciais produtores paulistas. Para aqueles que mesmo assim estivessem em dúvida, ele escreve:
Deveras, já é tarde demais para duvidar do algodão de São Paulo; mas se ainda ha descrentes, apenas apello para os dous srs. Cultivadores que acompanhei, major Mereweather e dr. Shaw. Ambos elles me repetirão muitas vezes, que melhor algodão que aquelle que nos vimos não desejavão ver; que nas suas proprias plantações e com todos os seus meios perfeitos não costumavãoproduzir melhor. 107
Seus esforços renderam-lhe o reconhecimento da associação inglesa, que o condecorou com uma medalha de ouro, e o governo brasileiro honrou-o com o hábito da Imperial Ordem da Rosa. Nos veículos de informação brasileiros, nos quais tanto escreveu, vemos o reconhecimento de seus pares, como E. Hutchings, outro entusiasta da lavoura algodoeira em terras paulistas e intermediário entre a associação e o Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas:
Hoje, considerado, como um genero de exportação, o algodão, e sua cultura, é um dos factos estabelecidos na historia da provincia, e eu me aproveito desta occasião para patentear a gratidão que todos temos.Quem sabe, o que ha de mostrar-se nos anos que vem? Quasi todas as condições de prosperidade estão unidas nesta provincia; - Um clima sem rival, uma terra cheia de riquesa, e uma natureza, cuja uberdade é espantosa. Tudo isto aqui, e no outro lado do Oceano, a Inglaterra, offerece tudo quanto seja possivel afim de attrahir para lá, os productos da provincia, e com as devidas providencias, e constancia em trabalhar, tudo será possivel, e, sem esta, nada.Campinas, Mogy-mirim, Limeira e outros lugares vão caminhando na cultura do café, e o publico, bem como os particulares, são beneficiados. Parece que, para Sorocaba, resta ainda este outro manancial de prosperidade; - a cultura do algodão, e não ha homem ou natural, ou estrangeiro na provincia, que não abençoará a empresa.[...] Caminho da Luz, S. Paulo Agosto de 1865[...] E. Hutchings108
Evidentemente, tais esforços foram no sentido de produzir algodão adequado às necessidades da indústria inglesa. Foi estimulado o plantio da semente de Nova Orleans, em solicitação de uma circular da Manchester Cotton Supply Association109 e houve uma modificação na postura do produtor brasileiro: “O tipo de algodão tradicional no Brasil era o arbóreo mas o mercado consumidor passou a condicionar a produção ao tipo herbáceo dos 107 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo..., op. cit., p. 16.108 HUTCHINGS, E. “Aos Redactores do Diario de São Paulo”. Diario de S. Paulo, São Paulo, 11 agosto 1865, ano I, nº 10, p. 2. Em outras atividades, além do algodão: E. Hutchings foi um dos secretários da Comissão Julgadora de um concurso para criadores de animais pensado por J. J. Aubertin, tesoureiro do evento. O Comendador Fideles Nepomuceno Prates aparece como um dos Juízes. “Concurso industrial”. Correio Paulistano, Estados Unidos. As variedades mais procuradas eram a U[p. 161, 162]