Era o dia 9 de fevereiro quando se entabolou o famoso tratado d´armistício com a presidência da província, com quem os revoltosos por meio de seu chefe, o senhor brigadeiro Tobias de Aguiar, tratam de potência a potência, d´igual a igual. k2503»As condições impostas pelo senhor brigadeiro Tobias em nome do partido foram as seguintes:
1° - Não consentir o presidente no desembarque de tropa alguma nos portos da província, exceto as que fossem destinadas para o Rio Negro, e por Paranaguá somente.
2° - Conservar todos os empregados existentes, exceto aqueles que desobedecem formalmente.
3° - Demitir imediatamente o comandante da guarnição da capital, escolhendo outro oficial da confiança dos paulistas.
4° - Não adiar em hipótese alguma á Assembléia Provincial.
5° - Comprometer-se o presidente a procurar com eficácia a remoção para fora da província do indivíduo que ocupada a vara de juiz do cível.
Fosse o desejo de acalmar os ânimos, fosse a imperiosa necessidade de achar uma tangente por onde pudesse o presidente sair do estado aflitivo em que se achava, fosse finalmente a necessidade de contemporizar por momentos, para melhor preparar-se e poder resistir com vantagem á torrente revolucionária, que cada vez se tornava mais ameaçadora, o Barão de Monte Alegre, presidente da província, aceitou, e obrigou-se a cumprir as condições impostas pelos revoltosos.
N´esses tempos de atraso, eram difíceis as comunicações com a Côrte, as quais se faziam por meio de dois vapores da carreira, e com grandes intervalos; entretanto era tal a atividade e o amor ao partido do prestante paulista e distinto chefe do partido liberal d´esta cidade o senhor comendador Antonio Martins dos Santos da saudosa memória, que á chegada de qualquer vapor procedente da Côrte, expedia ele imediatamente um estafeta que caminhando dia e noite, chegava sempre a Capital muitas horas antes do correio, conduzindo os jornais da côrte, as cartas reservadas que não podiam ser confiadas ao correio, e as mais minuciosas informações dos atos e tendências do ministério.
No dia 10 de fevereiro, de manhã, foram os liberais informados de que a comissão fora repelida pelo governo, com fútil pretexto de ser a representação concebida em uma linguagem descomposta, e em termos desabridos!
A indignação subiu ao ponto, em presença d´esse novo desatino, que vinha aumentar os motivos de queixa dos paulistas e de todo o Império, contra aquele ominoso ministério.
Linguagem descomposta!
Ha porventura na representação que o público conhece, um pensamento, uma frase sequer de desrespeito a augusta pessoa de S. M. o Imperador a quem era dirigida?
Queria porventura o governo, que a Assembléia Provincial de São Paulo, humilhando-se fizesse ainda o panegirico d´esse gabinete que ela se propunha á arguir de traição ao país e ao Monarca?!
Pretendiam os régulos, que oprimiam o país por uma série não interrompida de desatinos e de crimes, que as vítimas usassem de uma linguagem submissa e aviltante em relação aos seus verdugos?!
O comportamento do ministério de 24 de março com a deputação paulista, que tinha á sua frente um dos mais conspícuos e importantes senadores do Império, o senhor Nicolau Pereira Campos Vergueiro [Páginas 75, 76, 77 e 78]
Retirada do brigadeiro Tobias e Conferencias na cidade de Itú sobre os distúrbios havidos em Sorocaba
A chegada do brigadeiro Tobias á cidade de Itú inesperadamente, e quando os ânimos se achavam ainda debaixo da pressão da centelha elétrica que tinha percorrido a província inteira, produziu um verdadeiro calafrio. [Página 81]
Entre os cidadãos ali reunidos acha-vam-se o tenente-coronel José Joaquim de Lacerda, e o ourives Francisco Cam-polim. Lacerda e Campolim, eram dois dos mais affeiçoados amigos do briga-deiro Tobias, e o primeiro até associado em negocio de tropas da provincia doRio Grande do Sal, e do. Estado Orien-tal, para esta provinda e outros pontos do Império.
Campolim outro amigo pessoal do brigadeiro Tobias, e admirador cias eminentes qualidades que adornavam aquel-le distincto chefe de partido, foram os que n´essa occasião usaram da mais ener-gica e violenta linguagem, para demo-verem o brigadeiro Tobias da idéa de abandonar o movimento que elle repu-x X tava estragado e perdido.
Compromettida assim, tão inesperada-mente aquella importante localidade, onde o brigadeiro Tobias tinha a maior parte de seus parentes e numerosos ami-gos, Lacerda no calor da discussão ousou declarar ao chefe liberal, que o seu com-portamento retirando-se do theatro dos acontecimentos, quando elles assumiam o seu caracter mais grave, seria por mui-tos interpretado por uma verdadeira traição ; accrescentando ainda com a o / maior imprudência Francisco Campolim, as seguintes palavras:
"E não sei se a vida de V. Exca. ficará em muita segurança, depois d´este fato!"
Tobias de Aguiar, homem de um gênio e caráter violento, recebeu aquelas audaciosas proposições, com toda a calma; e depois de alguns momentos de reflexão respondeu:
"Se o que os amigos querem, é o concurso dos meus esforços, e o comprometimento da minha pessoa, não recuarei, e estou pronto á acompanhal-os entregando-me de bom grado á sorte que couber a todos!"
foi publicada a segunda edição na língua inglesa. Pouco depois, em 1848, o relato foi publicado em língua alemã em Dresden e Leipzig, atual Alemanha.A edição em português ocorreu em 1942, na Coleção Brasiliana, intitulada Viagens no Brasil: principalmente nas províncias do norte e nos distritos de ouro e do diamante durante anos 1836-1841, da Companhia Editora Nacional.No ano de 1856 foi publicado o relato Life in Brazil; or, a journal of a visit to the land of the cocoa and the palm de Thomas Ewbank ela Harper & Brothers, Nova York, sendo lançada também na Inglaterra. Nos Estados Unidos houve uma edição em 2005.No Brasil, o relato em português foi publicado com o título A vida no Brasil: ou Diário de uma visita ao país do cacau e das palmeiras, em 1973, pela editora carioca Conquista, em dois volumes.O relato de Henry Walter Bates foi publicado em 1863, em dois volumes, com o título The naturalist on the River Amazons, a record of adventures, habits of animals, sketches of Brazilian and Indian life, and aspects of nature under the Equator, during eleven years of travel by Henry Walter Bates, em Londres pela John Murray. A segunda edição ocorreu um ano depois, com supressão de algumas partes pelo autor, seguida por mais de dez edições na língua inglesa em Londres e nos Estados Unidos. No Brasil O naturalista no Rio Amazonas foi editadoem 1944 pela Editora Nacional.
Em 1869, Richard Burton publicou a primeira edição de Explorations of the Highlands of the Brazil; with a full account of the gold and diamond mines. Also, canoeing down 1500 miles of the great River São Francisco, from Sabará to the Sea by Captain Richard F. Burton, F.R.G.S., etc., em Londres por Tinsley Brothers, em dois volumes. A obra recebeu destaque em finais do ano passado e foi publicada em Nova York no centenário da primeira edição, e nos últimos dezesseis anos teve três edições nos Estados Unidos.
No Brasil, a primeira edição de Viagens aos planaltos do Brasil: 1868, em três volumes,ocorreu no ano de 1941 pela Companhia Editora Nacional, que publicou a segunda edição em 1983. Houve uma edição em 2001 pelo Senado Federal intitulada Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho, volume único.
Em São Paulo, a Tip. Allemã de H. Schroeder publicou Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gaston e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba de John James Aubertin no ano de 1866.
Nesse mesmo ano foi traduzido para o inglês pelo autor e publicado em Londres pela Bates, Hendy & Co. com o título Eleven day’s journey in the Province of Sao Paulo, with the [p. 10]
Outro ponto, o parâmetro comparativo do algodão brasileiro e do norte-americano. A produção dos Estados Unidos figura como indicadora de qualidade e produtividade, em vista do país ter sido o maior fornecedor do mundo, e é trazida pelos viajantes quando desejam estimular a produção no Brasil, em especial, utilizando dados fornecidos por conhecedores do ramo.Nesse sentido, Richard Burton traz as considerações de um renomado pesquisador da cultura algodoeira, Major R. Trevor Clarke96 para quem “Aqui [no Brasil] o algodão tem mais penugem que o habitual; 600 quilos darão 250 de fibra limpa, ao passo que no Alabama são necessários 750 quilos. Em geral, o replantio do arbusto é feito em seu quarto ano”.97 E J. J. Aubertin traz a experiência dos americanos sulistas Dr. Gaston, Dr. Shaw e Major Mereweather, a quem ele acompanhou durante a passagem deles pela Província de São Paulo:Eramos cinco pessoas. Tres Americano sulistas, dr. Gaston, dr. Shaw e o major Mereweather, que ião fazer sua viagem prolongada, na exploração de districtos um pouco remotos, sob a direcção do sr. Engenheiro Bennaton, para esse fim nomeado; e, sendo informado dos seus preparativos, logo me aggreguei a elles, não menos por sympatia para com a antecipada immigração americana, como tambem pelo desejo de visitar em sua companhia algumas plantações de algodão, e tirar algumas instrucções de sua experiencia pratica, a respeito de uma cultura que, sendo hoje estabelecida na província, não póde deixar de influil-os cabalmente na resolução que definitivamente tenhão que tomar.98Durante a permanência na província paulista, o grupo visitou a região de Itu, Salto, Porto Feliz e Sorocaba, daí J. J. Aubertin seguiu para a capital paulista e eles continuaram viagem com destino à Itapetininga. As observações de diferentes aspectos da lavoura algodoeira e o processamento do algodão fizeram os norte-americanos considerarem o clima paulista adequado à produção e benéfico o fato de não haver mudanças bruscas na temperatura, como a ocorrência de geadas, possibilitando maior tempo de conservação do algodoeiro.99Esses dados são agregados por J. J. Aubertin àqueles fornecidos por produtores paulistas de que “emquanto o alqueire norte-americano, dando bem, produz de cem até cento e dez ou talvez 96 Richard Trevor Clarke (1813-1897) – “Army officer and horticulturalist. Major in the Northampton and Rutland Infantry Militia, 1862. Bred nearly thirty new varieties of begonias and many new strains of cotton. Awarded a gold medal by the Cotton Supply Association of Manchester. Member of the Royal Horticultural Society; served on the council and scientific committee for many year; awarded the society’s Veitchian medal, 1894”. BURKHARDT, Frederick et al (Ed.). Charles Darwin. The Correspondence of Charles Darwin (1866). Cambridge: Cambridge University, 2004, p. 502, vol. 14.97 BURTON, Richard Francis. Viagem de canoa de Sabará ao Oceano Atlântico..., op. cit., p. 29. [nota 3]98 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gastón e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba. São Paulo: Typ. Allem[p. 159]
Os esforços de J. J. Aubertin devem ser compreendidos dentro desse contexto, em que ele se coloca como defensor da produção algodoeira paulista e atua em diferentes direções. No Brasil, escreveu para diversos periódicos nacionais e correspondeu-se com diferentes figuras da política brasileira para lhes solicitar o envolvimento com a lavoura algodoeira capaz de colocar São Paulo em posição favorável no mercado inglês, tal como fez o inglês em carta ao Comendador Fideles Prates:
Usai, vos peço, nesta vespera de uma nova semeadura, a vossa bem conhecida influencia entre os vossos amigos, e dizei aos cultivadores do algodão que redobrem os seus esforços na nova plantação, porque pela colheita futura é que se diciderá definitivamente a importante questão se a provincia de S. Paulo pode ou não pode occupar uma posição positiva nos mercados de Manchester.104
Aos agricultores interessados, ele também procurou difundir noções sobre a técnica de cultivar o algodão herbáceo e publicou folhetos sobre a cultura do algodão.105 Essa política de difundir informações sobre o cultivo foi uma atividade constante da associação inglesa, mesmo após o fim da guerra norte-americana.
No plano internacional, empenhou-se em apresentar os algodões paulistas de boa qualidade na Exposição Internacional de Londres, de 1862, com o objetivo de mostrar os atributos do produto. Também foi intermediador entre Manchester Cotton Supply Association e órgãos brasileiros; em duas ocasiões, nos anos de 1862 e 1865, J. J. Aubertin solicitou à associação britânica que enviasse algodão herbáceo ao Ministério da Agricultura e à Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional.106 Em diferentes momentos enviou para a Inglaterra amostras do algodão paulista, em geral, com boas avaliações dos correspondentes.J. J. Aubertin arquitetou ações no Brasil ligadas aos interesses ingleses baseadas em informações colhidas por ele na província ou com base na experiência de nacionais e, principalmente, de norte-americanos, com o propósito de deixar claro as potencialidades de São Paulo e convencer os potenciais produtores paulistas. Para aqueles que mesmo assim estivessem em dúvida, ele escreve:
Deveras, já é tarde demais para duvidar do algodão de São Paulo; mas se ainda ha descrentes, apenas apello para os dous srs. Cultivadores que acompanhei, major Mereweather e dr. Shaw. Ambos elles me repetirão muitas vezes, que melhor algodão que aquelle que nos vimos não desejavão ver; que nas suas proprias plantações e com todos os seus meios perfeitos não costumavãoproduzir melhor. 107
Seus esforços renderam-lhe o reconhecimento da associação inglesa, que o condecorou com uma medalha de ouro, e o governo brasileiro honrou-o com o hábito da Imperial Ordem da Rosa. Nos veículos de informação brasileiros, nos quais tanto escreveu, vemos o reconhecimento de seus pares, como E. Hutchings, outro entusiasta da lavoura algodoeira em terras paulistas e intermediário entre a associação e o Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas:
Hoje, considerado, como um genero de exportação, o algodão, e sua cultura, é um dos factos estabelecidos na historia da provincia, e eu me aproveito desta occasião para patentear a gratidão que todos temos.Quem sabe, o que ha de mostrar-se nos anos que vem? Quasi todas as condições de prosperidade estão unidas nesta provincia; - Um clima sem rival, uma terra cheia de riquesa, e uma natureza, cuja uberdade é espantosa. Tudo isto aqui, e no outro lado do Oceano, a Inglaterra, offerece tudo quanto seja possivel afim de attrahir para lá, os productos da provincia, e com as devidas providencias, e constancia em trabalhar, tudo será possivel, e, sem esta, nada.Campinas, Mogy-mirim, Limeira e outros lugares vão caminhando na cultura do café, e o publico, bem como os particulares, são beneficiados. Parece que, para Sorocaba, resta ainda este outro manancial de prosperidade; - a cultura do algodão, e não ha homem ou natural, ou estrangeiro na provincia, que não abençoará a empresa.[...] Caminho da Luz, S. Paulo Agosto de 1865[...] E. Hutchings108
Evidentemente, tais esforços foram no sentido de produzir algodão adequado às necessidades da indústria inglesa. Foi estimulado o plantio da semente de Nova Orleans, em solicitação de uma circular da Manchester Cotton Supply Association109 e houve uma modificação na postura do produtor brasileiro: “O tipo de algodão tradicional no Brasil era o arbóreo mas o mercado consumidor passou a condicionar a produção ao tipo herbáceo dos 107 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo..., op. cit., p. 16.108 HUTCHINGS, E. “Aos Redactores do Diario de São Paulo”. Diario de S. Paulo, São Paulo, 11 agosto 1865, ano I, nº 10, p. 2. Em outras atividades, além do algodão: E. Hutchings foi um dos secretários da Comissão Julgadora de um concurso para criadores de animais pensado por J. J. Aubertin, tesoureiro do evento. O Comendador Fideles Nepomuceno Prates aparece como um dos Juízes. “Concurso industrial”. Correio Paulistano, Estados Unidos. As variedades mais procuradas eram a U[p. 161, 162]