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autor:08/02/2024 04:44:00
CARTA DE BALTHAZAR FERNANDES (233), DO BRASIL, DA CAPITANIA DE S. VICENTE DE PIRATININGA AOS 5 DE DEZEMBRO DE 1567.

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    5 de dezembro de 1567, terça-feira
    Atualizado em 25/02/2025 04:41:34
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DEZ.
05
HOJE NA;HISTóRIA
49

Acabaram-se já, por bondade de Deus Nosso Senhor, de cumprir os desejos de nossos Padres e Irmãos que estão por esta íosta do Brasil com a vinda e visitação do nosso padre Ignaciod Azevedo (234); ficam tão consolados todos, assi do bom exemplo que com suas boas obras lhes deu particular e geralmente, como com declarar as Constituições e Decreto da Congregação, modo de viver da Companhia, que não era cá tão praticado como lá, que una você dizem toãosBenedictus Dominus Deus Israel, quia visitavit plebem suam, por ser tão grande o desejo que tinham de sua vinda e chegada, o qual creio que redunda em grande gloria de Nosso Senhor e do bem das almas de casa e fora, e conversão do Gentio, e finalmente de toda a terra.

Tem já tudo visto, excepto Pernambuco, onde estavam dousPadres quando chegámos á Bahia, e havendo elle de correr ascapitanias que estão pela costa abaixo com o Padre Provincial,deixou ordenado que fossem outros dous Padres para lá emquanto elle não fosse (235), pela necessidade em que parece que estava a terra delles e mais para levarem os avisos necessários, pois que se havia de passar um anno ou mais, como já é passado, sem poder ir lá, porque se navega por esta costa com monções.

Chegámos a esta derradeira capitania de S. Vicente pela quaresma de 1567, na semana de Lázaro. E emquanto nella esteve foi ao campo a uma casa que lá temos, que se chama Piratininga, onde ha conversão de Gentio. Estavam nella dous dos nossos Padres; foi também á outra povoação que se chama Itanhaem, que é visitada dos nossos quando podem, onde também ha Gentio.

E foi por vezes a Santos, que é perto de S. Vicente povoação deBrancos, a pregar e a outros negócios; estaria nesta capitania tres ou quatro mezes, onde acabou de concluir com o padre Luis da Grã, Provincial, e o padre Manoel da Nobrega todo o essencial que convinha á visitação, deixando em escripto tudo o que se determinou acerca do que pareceu que convinha, cujo treslado ficava em cada capitania assi do que convinha para a mesma casa da tal capitania, como para todas as capitanias e provincia queagora temos, em logar de avisos, que guardamos como obediência..

Partiu-se desta capitania pera o Rio de Janeiro, de onde tinhamos vindo com o padre Luiz da Grã e o padre Manoel da Nobrega, e o tempo que chegou a esta capitania véspera de Santiago, onde chegaram todos a salvamento; mas dahi, querendo partir pera a bahia de Todos os Santos e outras capitanias, tresvezes commetteram-no por mar, sem poderem passar Cabo Frio, com ventos contrários e tempestades, e determinando-se a esperar pola monção que vem em Março, todavia o padre Ignacio de Azevedo tinha tão grandes desejos de passar, que mandou o Governador, que está também no Rio, fazer uns bordos a um caravelão que navega bem pola bolina, com 20 ou 30 remos, pera assim poder passar o Padre, e também pola necessidade que havia de passar este caravelão a dar rebate ás capitanias que acudissem ao Rio com mantimentos, por se começar a sentir falta delles.

Do estado em que o Rio está, creio que será V. R. sabedorpor outras: por isso não escrevo isso largamente. A somma dissoé estar o Governador em paz com o Gentio da terra, e os Francezes estão botados já fora delia por guerra, ainda que todavianão deixam de vir algumas naus ao Cabo Frio a fazer suas fazendas e levar brasil, contra quem não pôde ir a nossa armada(ainda que pequena) pólos tempos contrários. Faz na cidade doRio quanto pode.

Li em uma carta que de lá veiu, que havia jánelle 150 e tantos mercadores e que os mais dedes tinham já suasmulheres. A terra é das boas que ha no Brasil; tem muito brasil,algodão e pôde ter muito assucar como o prantarem, e muito mantimento, e muitos legumes, e muitas carnes, como gado vacum,que já ha principio delle, e tem muito pescado e bom, e tudo odemais que é necessário pera a vida, está em bom sitio e tem bonsares.

Os que ficamos nesta capitania de S. Vicente e em Piratininiga sujeitos ao padre Joseph (236) por Superior, somos quatro Padres e um Irmão, Adão Gonçalves (237) se: Gonçalo deOliveira, Affonso Braz, o irmão João de Souza (238) e os outros4 padres Vicente Rodrigues, por Superior, Manoel de Chaves,Manoel Viegas e eu no campo em Piratininga, que está algumas18 ou 20 léguas pelo sertão dentro, por mui áspero e trabalhoso caminho, que tem uma serra grande de passar, a qual é tão alta que faz outra região e campo differente de S. Vicente:

é terracomo essa do Reino, fria e temperada, dá-se nella vinho, azeitesi houver muitas oliveiras, havendo já mostras disso; dá pão comolá, si o semearem, mas é tão bom o mantimento desta terra quenão alembra o pão do Reino; ha muito gado vacum, que cadaanno vem com fruito, por onde se multiplica muito sem trabalho algum por haver muito pasto nos campos, que são mais grandes que os de Santarém, que são de quem nos quer.

Finalmente é esta terra das boas que ha no Reino, e se dará nella, segundo parece, quanto se lá dá: é uma grande magua ver tanta e tão boa terra perdida, não havendo quem na habite, nem cultive. Ao redor deste Piratininga uma duas e tres léguas ha seis aldêas dè índios da terra, afora outras casinhas que estão por diversas partes, dos quaes uns são christãos e outros não.

O nosso exercicio dos que estamos aqui é o mesmo que lá ha,guardando nossas constituições e regras e os avisos que nos deixou o padre Ignacio e o modo de viver da Campanhia, trabalhando cada um de se ajudar dos meios que ella nos dá pera alcançar seu principal fim, com que Deus Nosso Senhor seja maisglorifiçado em nossas almas e nas dos próximos, principalmentenas deste pobre e desemparado Gentio.Dous dos Padres entendem em visitar e ensinar estas aldêas,indo cada somana a uma, uma vez ou mais vezes, e dormindo láuma noite ou duas, como a necessidade pede. O tempo que láestão lhes ensinam a doutrina e as cousas da Fé, e se lhes dánoticia em praticas assim geral como particularmente e para istose tange primeiro nossa campainha chamando-os á doutrina, quese lhes ensina ao pé da cruz.

Este Gentio, assi como é grosseiro de entendimento e bruto,assim não tem malicia, porque, com andarem todos nus assi homens como mulheres, naturalmente nem-um pejo têm, nem reinamalicia nellas e são tão innocentes nesta parte, que parece quevivem no estado da innoceneia; e si alguns têm muitas mancebas,é por serem Principaes, com grande casa, e terem muitos filhos.E está-lhe isto tão encaixado na cabeça que difficultosamentese lhes tira. Querem que lhes façamos todos os filhos e filhaschristãos, e elles mesmos também; mas largarem as mancebas elargarem seus costumes gentilicos e aprenderem as cousas necessárias como são grandes, difficultosamente querem. Os ritos queha entre elles são: terem mancebas, crerem muito seus feiticeiros,de tal maneira que ainda que lhes preguemos contra as mentirasdos seus pagezes quanto se pôde dizer, si um pagez lhe diz umasó palavra em contrario, aquella crêm mais e seguem que quantonós dizemos, e si vão a alguma guerra com grandíssimos trabalhos, si lhe diz um pagez que se tornem ou hão de morrer, oüque dêm guerra ainda que todos morram nella, hão de crêl-o. Omodo que estes feiticeiros (239) têm de os curar é chuparem-nos,mettendo em cabeça ao doente que lhe tirou de dentro do corpouma grande mentira, que lhe mostram, scilicet: uma palha oulinha ou outra cousa que querem. E o doente cuida que fica sãoe lhes dá por esta cura quanto querem e pedem.

Estão tão casados com os vinhos que bebem que logo estão um dia e uma noite continuadamente a beber, ou mais, até que já a natureza não pôde, que parece impossivel poder-se-lhe tirar ou moderar, e quando bebem estes vinhos se empennam de pennas vermedias e amarellas, fadando e gabando-se de suas valentias, contando e fazendo nisto grande matinada.

Os que estão por aqui junto de nós, a quem nós visitamos, algumas cousas destas não fazem, e si o fazem é por detraz e ás escondidas, comonas feitiçarias e outras superstições, principalmente já não matam os seus contrários que tomam em guerras em casas; mas osque estão pelo sertão mais dentro, onde nós não imos o fazem etêm nisto posto sua felicidade, que tomam nisso nomes (240) *decobras, e pássaros, e rãs, e baratas e outros peiores como titulode muita honra e fidalguia, e os que entre elles não têm aindanome desta maneira, si toma algum não deixará de o matar nascordas no meio do terreiro, conforme a seus costumes, ainda quelhe dêem uma casa cheia de resgate, búzios e contas, (241) que édinheiro que corre nesta terra. Mas por esses e outros peceadosenormes que ha entre elles, ha também castigos de Deus NossoSenhor.

É gente pobríssima, que assi como não trazem sobre ocorpo nada, assim não têm nada; ha grandes fornes e elles tãomal apercebidos do necessário que não curam sinão do que teme sente. Ha de quando em quando grandes mortandades entreelles, como aconteceu pouco tempo ha, que pedaços lhe cahiam decarne com grandes dores e um cheiro peçonhentissimo.Dizem e affirmam isto por verdade, que ha nas mattas unsdiabos a que elles chamam Curypyrans (242), que matam a muitos delles e ouvem as pancadas e não vêm quem lhes dá, e assificam logo muitos mortos e lhes apparecem, segundo elles dizemvisões, que depois morrem disso.Um homem branco nosso amigo e digno de fé, que foi muitopelo sertão dentro a resgatar com elles cera, redes e peças, noscontou que andando pera matar um menino, tamaninho que otraziam no collo correndo toda aldêa com elle, pedindo-lhes muito que lho vendessem pera o tirar dessa extrema necessidade e não querendo, lhes pediu que lhe deixassem fazer christão, o que elles não recusaram. Mataram-no depois de feito christão, e aconteceu que a casa do Principal da aldêa, que era grande, ardeu toda, não se sabendo como, e ella só no meio das outras, e o 4 8 5 BALTHASAR FERNANDESmesmo Principal cuidando nisto morre subitamente, porque são mui sujeitos á malenconia (243). Como adoecem são desemparados dos mesmos seus e morrem ao desemparo.

Acerca do fruito que fazemos na conversão deste desemparado Gentio creio que é grande diante de Deus Nosso Senhor-,tomando a.. . secca e nua de todas as partes, de maneira que delles não temos outra cousa sinão ter muita paciência em os soffrere trazer o coração no céo andando pola terra, passando por suascasas e deitando mão delles nos trabalhos e perigos de vida emque se acham, nos quaes principalmente parece que os toca NossoSenhor, e de seus filhos bautisando-lh os e doutrinando-lhos,principalmente dos filhos daquelles que estão seguros de não tornarem ao certão a viverem conforme a seus costumes, e aos outros e a todos in extremis, que isto é o que ganhamos andandosobre elles.

E a doutrina e ensino que lhes damos servem de estarem melhor apparediados pera esta hora, dando-lhes noticia da Fé, dizendo-lhes mal de seus peceados, que elles hão de avorrecer sobretudo por amor de um Sancto e Summo Bem que ha de ser sobre tudo amado. E já pôde ser que isto lhes aproveite tanto que os alumie Nosso Senhor no tempo dos perigos, porque creio verdadeiramente que entre elles ha de haver alguns que Nosso Senhor tenha predestinados pera si, e outros porventura que cuidaram que não ha mais que fazer, não lhes cahira tão boa sorte como a estes, cujo signal se viu em muitas obras marav7lhosas que Deus tem feitas cá pólos nossos, das quaes não faço menção nesta.

Somente direi aqui o que me aconteceu, que ha quatro diasque cá estou, ao qual dou muitas graças a Deus Nosso Senhor,sendo indignissimo disso, e querendo-se elle servir de um tão vilinstrumento como eu sou cá nestas partes.

Indo com outro Padre em companhia a umas aldêas, no caminho nos deram novas em como estava uma índia já de diaspera morrer, já sem falia, que não era christã.

Chegando-nos,bradamos por ella; parece que tornou a viver e fallou-nos e pediu com muita instância que a bautisassemos: apparelhada o melhor que pudemos, bautisei-a; dahi a nada deu a alma a seu4 86 LXI. - , CARTA DE S. VICENTE (1567)Creador, por onde senti uma consolação tão grande em minhaalma que parece que a tinha Deus assim esperando por nós peraque por meio do bautismo lhe desse sua gloria. Fui a outro comoutro companheiro muito á pressa estando pera morrer; apparelhámol-o e casamol-o primeiro em lei da natureza, porque nãoera christã a com quem elle estava, e depois de bautisado, dahia pouco tempo morreu.

O mesmo digo de outros dous adultos que bautisei in extremis, que morreram. Destes tinha muito que escrever si faliara* dos nossos Padres, mas porque não são bautismos solemnes cá celebrados, sel-o-hão diante do Supremo Juiz e de todo o mundo, como eu espero, e ainda que cá se não achem as pedras preciosas em minas publicas e polas praças, acha-se todavia quem nas sabe buscar varrendo a casa ainda que seja entre o cisco e no monturo, a qual aehada por bem empregado hei de vender tudo, deixar a pátria, passar os mares; desta ha muitas nestas terras perdidas, esmaltadas com o sangue de Jesus Christo, assi pera nós como pera os que de lá vierem, si cavarmos bem e buscarmos onde as ha.

Nosso Senhor nos dê sua graça com que imitemos aquelle que tomou sua ovelha perdida ás costas e sobre seus hombros, tomando nós ás costas e sobre nossos hombros estas que por cá andam perdidas e na bocca do lobo, pera que as tragamos ao seu curral e se faça unum ovile et unus pastor, pera o qual eu peço para mim e para os meus Padres e Irmãos que cá andamos sua benção e sermos encommendados em seus santos sacrificios e orações.

Do Brasil, da capitania de S. Vicente de Pyratininga, aos5 de Dezembro de 1567.



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[21815] “Um índio principal que veio aqui de mais de cem léguas, a converter-se à nossa santa fé, morreu com sinais de bom cristão”
15/03/1555


Jornal Correio Paulistano
Data: 10/10/1918
10/10/1918


ID: 12839



EMERSON


05/12/1567
ANO:42
  testando base


Sobre o Brasilbook.com.br

foi publicada a segunda edição na língua inglesa. Pouco depois, em 1848, o relato foi publicado em língua alemã em Dresden e Leipzig, atual Alemanha.A edição em português ocorreu em 1942, na Coleção Brasiliana, intitulada Viagens no Brasil: principalmente nas províncias do norte e nos distritos de ouro e do diamante durante anos 1836-1841, da Companhia Editora Nacional.No ano de 1856 foi publicado o relato Life in Brazil; or, a journal of a visit to the land of the cocoa and the palm de Thomas Ewbank ela Harper & Brothers, Nova York, sendo lançada também na Inglaterra. Nos Estados Unidos houve uma edição em 2005.No Brasil, o relato em português foi publicado com o título A vida no Brasil: ou Diário de uma visita ao país do cacau e das palmeiras, em 1973, pela editora carioca Conquista, em dois volumes.O relato de Henry Walter Bates foi publicado em 1863, em dois volumes, com o título The naturalist on the River Amazons, a record of adventures, habits of animals, sketches of Brazilian and Indian life, and aspects of nature under the Equator, during eleven years of travel by Henry Walter Bates, em Londres pela John Murray. A segunda edição ocorreu um ano depois, com supressão de algumas partes pelo autor, seguida por mais de dez edições na língua inglesa em Londres e nos Estados Unidos. No Brasil O naturalista no Rio Amazonas foi editadoem 1944 pela Editora Nacional.

Em 1869, Richard Burton publicou a primeira edição de Explorations of the Highlands of the Brazil; with a full account of the gold and diamond mines. Also, canoeing down 1500 miles of the great River São Francisco, from Sabará to the Sea by Captain Richard F. Burton, F.R.G.S., etc., em Londres por Tinsley Brothers, em dois volumes. A obra recebeu destaque em finais do ano passado e foi publicada em Nova York no centenário da primeira edição, e nos últimos dezesseis anos teve três edições nos Estados Unidos.

No Brasil, a primeira edição de Viagens aos planaltos do Brasil: 1868, em três volumes,ocorreu no ano de 1941 pela Companhia Editora Nacional, que publicou a segunda edição em 1983. Houve uma edição em 2001 pelo Senado Federal intitulada Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho, volume único.

Em São Paulo, a Tip. Allemã de H. Schroeder publicou Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gaston e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba de John James Aubertin no ano de 1866.

Nesse mesmo ano foi traduzido para o inglês pelo autor e publicado em Londres pela Bates, Hendy & Co. com o título Eleven day’s journey in the Province of Sao Paulo, with the [p. 10]

Outro ponto, o parâmetro comparativo do algodão brasileiro e do norte-americano. A produção dos Estados Unidos figura como indicadora de qualidade e produtividade, em vista do país ter sido o maior fornecedor do mundo, e é trazida pelos viajantes quando desejam estimular a produção no Brasil, em especial, utilizando dados fornecidos por conhecedores do ramo.Nesse sentido, Richard Burton traz as considerações de um renomado pesquisador da cultura algodoeira, Major R. Trevor Clarke96 para quem “Aqui [no Brasil] o algodão tem mais penugem que o habitual; 600 quilos darão 250 de fibra limpa, ao passo que no Alabama são necessários 750 quilos. Em geral, o replantio do arbusto é feito em seu quarto ano”.97 E J. J. Aubertin traz a experiência dos americanos sulistas Dr. Gaston, Dr. Shaw e Major Mereweather, a quem ele acompanhou durante a passagem deles pela Província de São Paulo:Eramos cinco pessoas. Tres Americano sulistas, dr. Gaston, dr. Shaw e o major Mereweather, que ião fazer sua viagem prolongada, na exploração de districtos um pouco remotos, sob a direcção do sr. Engenheiro Bennaton, para esse fim nomeado; e, sendo informado dos seus preparativos, logo me aggreguei a elles, não menos por sympatia para com a antecipada immigração americana, como tambem pelo desejo de visitar em sua companhia algumas plantações de algodão, e tirar algumas instrucções de sua experiencia pratica, a respeito de uma cultura que, sendo hoje estabelecida na província, não póde deixar de influil-os cabalmente na resolução que definitivamente tenhão que tomar.98Durante a permanência na província paulista, o grupo visitou a região de Itu, Salto, Porto Feliz e Sorocaba, daí J. J. Aubertin seguiu para a capital paulista e eles continuaram viagem com destino à Itapetininga. As observações de diferentes aspectos da lavoura algodoeira e o processamento do algodão fizeram os norte-americanos considerarem o clima paulista adequado à produção e benéfico o fato de não haver mudanças bruscas na temperatura, como a ocorrência de geadas, possibilitando maior tempo de conservação do algodoeiro.99Esses dados são agregados por J. J. Aubertin àqueles fornecidos por produtores paulistas de que “emquanto o alqueire norte-americano, dando bem, produz de cem até cento e dez ou talvez 96 Richard Trevor Clarke (1813-1897) – “Army officer and horticulturalist. Major in the Northampton and Rutland Infantry Militia, 1862. Bred nearly thirty new varieties of begonias and many new strains of cotton. Awarded a gold medal by the Cotton Supply Association of Manchester. Member of the Royal Horticultural Society; served on the council and scientific committee for many year; awarded the society’s Veitchian medal, 1894”. BURKHARDT, Frederick et al (Ed.). Charles Darwin. The Correspondence of Charles Darwin (1866). Cambridge: Cambridge University, 2004, p. 502, vol. 14.97 BURTON, Richard Francis. Viagem de canoa de Sabará ao Oceano Atlântico..., op. cit., p. 29. [nota 3]98 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gastón e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba. São Paulo: Typ. Allem[p. 159]

Os esforços de J. J. Aubertin devem ser compreendidos dentro desse contexto, em que ele se coloca como defensor da produção algodoeira paulista e atua em diferentes direções. No Brasil, escreveu para diversos periódicos nacionais e correspondeu-se com diferentes figuras da política brasileira para lhes solicitar o envolvimento com a lavoura algodoeira capaz de colocar São Paulo em posição favorável no mercado inglês, tal como fez o inglês em carta ao Comendador Fideles Prates:

Usai, vos peço, nesta vespera de uma nova semeadura, a vossa bem conhecida influencia entre os vossos amigos, e dizei aos cultivadores do algodão que redobrem os seus esforços na nova plantação, porque pela colheita futura é que se diciderá definitivamente a importante questão se a provincia de S. Paulo pode ou não pode occupar uma posição positiva nos mercados de Manchester.104

Aos agricultores interessados, ele também procurou difundir noções sobre a técnica de cultivar o algodão herbáceo e publicou folhetos sobre a cultura do algodão.105 Essa política de difundir informações sobre o cultivo foi uma atividade constante da associação inglesa, mesmo após o fim da guerra norte-americana.

No plano internacional, empenhou-se em apresentar os algodões paulistas de boa qualidade na Exposição Internacional de Londres, de 1862, com o objetivo de mostrar os atributos do produto. Também foi intermediador entre Manchester Cotton Supply Association e órgãos brasileiros; em duas ocasiões, nos anos de 1862 e 1865, J. J. Aubertin solicitou à associação britânica que enviasse algodão herbáceo ao Ministério da Agricultura e à Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional.106 Em diferentes momentos enviou para a Inglaterra amostras do algodão paulista, em geral, com boas avaliações dos correspondentes.J. J. Aubertin arquitetou ações no Brasil ligadas aos interesses ingleses baseadas em informações colhidas por ele na província ou com base na experiência de nacionais e, principalmente, de norte-americanos, com o propósito de deixar claro as potencialidades de São Paulo e convencer os potenciais produtores paulistas. Para aqueles que mesmo assim estivessem em dúvida, ele escreve:

Deveras, já é tarde demais para duvidar do algodão de São Paulo; mas se ainda ha descrentes, apenas apello para os dous srs. Cultivadores que acompanhei, major Mereweather e dr. Shaw. Ambos elles me repetirão muitas vezes, que melhor algodão que aquelle que nos vimos não desejavão ver; que nas suas proprias plantações e com todos os seus meios perfeitos não costumavãoproduzir melhor. 107

Seus esforços renderam-lhe o reconhecimento da associação inglesa, que o condecorou com uma medalha de ouro, e o governo brasileiro honrou-o com o hábito da Imperial Ordem da Rosa. Nos veículos de informação brasileiros, nos quais tanto escreveu, vemos o reconhecimento de seus pares, como E. Hutchings, outro entusiasta da lavoura algodoeira em terras paulistas e intermediário entre a associação e o Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas:

Hoje, considerado, como um genero de exportação, o algodão, e sua cultura, é um dos factos estabelecidos na historia da provincia, e eu me aproveito desta occasião para patentear a gratidão que todos temos.Quem sabe, o que ha de mostrar-se nos anos que vem? Quasi todas as condições de prosperidade estão unidas nesta provincia; - Um clima sem rival, uma terra cheia de riquesa, e uma natureza, cuja uberdade é espantosa. Tudo isto aqui, e no outro lado do Oceano, a Inglaterra, offerece tudo quanto seja possivel afim de attrahir para lá, os productos da provincia, e com as devidas providencias, e constancia em trabalhar, tudo será possivel, e, sem esta, nada.Campinas, Mogy-mirim, Limeira e outros lugares vão caminhando na cultura do café, e o publico, bem como os particulares, são beneficiados. Parece que, para Sorocaba, resta ainda este outro manancial de prosperidade; - a cultura do algodão, e não ha homem ou natural, ou estrangeiro na provincia, que não abençoará a empresa.[...] Caminho da Luz, S. Paulo Agosto de 1865[...] E. Hutchings108

Evidentemente, tais esforços foram no sentido de produzir algodão adequado às necessidades da indústria inglesa. Foi estimulado o plantio da semente de Nova Orleans, em solicitação de uma circular da Manchester Cotton Supply Association109 e houve uma modificação na postura do produtor brasileiro: “O tipo de algodão tradicional no Brasil era o arbóreo mas o mercado consumidor passou a condicionar a produção ao tipo herbáceo dos 107 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo..., op. cit., p. 16.108 HUTCHINGS, E. “Aos Redactores do Diario de São Paulo”. Diario de S. Paulo, São Paulo, 11 agosto 1865, ano I, nº 10, p. 2. Em outras atividades, além do algodão: E. Hutchings foi um dos secretários da Comissão Julgadora de um concurso para criadores de animais pensado por J. J. Aubertin, tesoureiro do evento. O Comendador Fideles Nepomuceno Prates aparece como um dos Juízes. “Concurso industrial”. Correio Paulistano, Estados Unidos. As variedades mais procuradas eram a U[p. 161, 162]