Topônimos indígenas do estado de São Paulo: Cartografias e InterpretaçõesLuciene Cristina Risso segunda metade do século XX, o crescimento populacional e mudanças legislativas promoveram uma nova onda de emancipações, quando leis mais flexíveis facilitaram a criação de municípios (São Paulo, 2025). Como consequência, a maior parte dessas localidades recebeu nomes em língua portuguesa. Os topônimos indígenas possuem um papel significativo, com forte presença entre os séculos XVI e XVIII, evidenciando uma resistência linguística no processo de nomeação. Já a escassez de nomes de origem africana, ao qual foram Cubatão e Caconde, reflete a marginalização dessa herança cultural. Segundo Nunes (2002), a palavra Cubatão remonta ao termo cubata, de base árabe-africana ou afro-árabe, que significa “rancho”, acrescido da desinência portuguesa de aumentativo “-ão”, formando Cubatão, ou “rancho grande”. O termo alude ao antigo rancho de tropeiros existente às margens do rio Cubatão desde o início da ocupação da região. Esse costume, de origem africana e afro-árabe, gerou a designação de “cubatões” para portos fluviais onde se amarravam embarcações como chatas, batelões, canoas e catraias – o que explica sua ocorrência em diversos pontos do estado e do Brasil (Nunes, 2002, p. 28). A palavra Caconde, segundo Adriano Campanhole (1979, p. 130) pode ter raízes indígenas e africanas. Na vertente africana, o nome está relacionado com uma povoação da antiga África Portuguesa Ocidental (atual Angola), chamado Caconda, sendo o termo associado à presença de populações quilombolas, formadas por negros chamados “Cacundas”. Assim, embora o foco principal deste trabalho seja a toponímia indígena, é importante reconhecer que a paisagem toponímica paulista carrega múltiplas camadas de influência cultural, muitas vezes apagadas ou não reconhecidas oficialmente, mas que merecem ser resgatadas e investigadas em estudos futuros. Os topônimos municipais de origem indígenaDentre os 238 municípios nomeados em línguas indígenas, 202 correspondem ao Tupi Antigo e à Língua Geral Paulista (84, 87%), incluindo 19 inadequados na contagem. Ademais, 13 municípios possuem topônimos em Guarani, quatro em línguas do tronco Macro-Jê, oito híbridos e 11 considerados inadequados no Guarani, Macro-Jê e em outras línguas (Figura 2). O Quadro 1 apresenta os topônimos de origem indígena identificados nos mapas produzidos. A diferenciação entre os topônimos em Tupi Antigo/Língua Geral Paulista até os séculos XIX e XX foi realizada pelos autores com base nos critérios estabelecidos na metodologia. Os topônimos de origem no Tupi Antigo/LGP (XVI a XIX): originados em contexto das línguas faladasOs topônimos entre os séculos XVI e XIX estão associados principalmente à história colonial e, após a Independência em 1822, aos contextos Imperial e Republicano. Quando os colonizadores chegaram, em meados do século XVI, no território designado a Portugal pelo Tratado de Tordesilhas, a área que hoje corresponde ao estado de São Paulo, abrangia as capitanias de São Vicente e Santo Amaro, habitadas por uma diversidade de povos, grupos e línguas indígenas. As línguas Tupiniquim e Tupinambá, ambas pertencentes ao grupo Tupi Antigo, eram amplamente faladas no litoral, justamente porque esses povos possuíam uma GEOUSP, São Paulo, v. 29, n. 3, e-234093, 2025. 11RISSO, L. C. ; CASTRO, J. F. M. [p. 10]origem indígena, majoritariamente em Tupi Antigo e Língua Geral Paulista (LGP). 8 Embora as nomeações possam ser vistas como um reconhecimento das culturas indígenas, elas mascaram de certa forma, a violência ocorrida no oeste paulista como escrito no item “Os topônimos de origem no Tupi Antigo/LGP (Século XX): originados em contexto de não falantes”. Ao mesmo tempo, o mapeamento permitiu identificar lacunas significativas, como a escassez de topônimos associados ao Guarani e principalmente às línguas do tronco Macro-Jê (Figura 7), mesmo em regiões historicamente habitadas por esses povos (item “Topônimos da Língua Guarani e de línguas do Tronco Macro-Jê”). Vale destacar que, devido à dicotomia colonial entre Tupi e Tapuia, os povos classificados como Tapuia foram os que mais sofreram violências. Foram proibidos de falar suas línguas, submetidos a processos de aldeamento e escravização, além de forçados a adotar o Tupi Antigo e a Língua Geral Paulista como meio de comunicação. Dessa forma, a marginalização desses povos, cujas línguas e culturas foram sistematicamente reprimidas desde o período colonial, ajuda a explicar a escassez de topônimos pertencentes ao tronco linguístico Macro-Jê. A cartografia, nesse sentido, funcionou como uma ferramenta crítica de leitura do território, revelando desigualdades históricas na distribuição simbólica dos nomes. Reconhece-se, porém, que os mapas apresentados são estáticos e representam apenas uma etapa inicial. Futuras análises poderão lançar mão de Sistemas de Informação Geográfica (SIG) dinâmicos e interativos. Em resumo, o mapeamento inédito dos topônimos indígenas paulistas permitiu visualizar sua distribuição geográfica e compreender como as culturas indígenas influenciaram e nomearam o território. A distinção dos topônimos entre os períodos históricos aprofundou a compreensão das transformações culturais e linguísticas ocorridas ao longo do tempo, evidenciando os processos de apagamento e resiliência das línguas indígenas no estado de São Paulo. Considerações FinaisOs topônimos são marcadores da presença indígena, constituindo uma parte viva da história, da geografia de São Paulo e do papel do indígena ao longo da História, e não apenas na fase inicial da colonização, como destacou Monteiro (2001). A cartografia inédita dos topônimos indígenas nos municípios paulistas representou um primeiro passo para entender as contribuições indígenas do estado de São Paulo. Além de tornarem visíveis os topônimos indígenas ao localizá-los no mapa, contribuíram para identificar padrões, lacunas e relações históricas envolvidas. No caso da toponímia paulista, observou-se a escassez de topônimos de origem africana, representados apenas por Cubatão e Caconde, o que reflete a marginalização dessa herança. Esse aspecto demanda investigações mais aprofundadas em pesquisas futuras, com o objetivo de compreender melhor a relação entre a territorialidade afrodescendente e a nomeação dos espaços. A pesquisa conferiu visibilidade espacial às nomeações indígenas associadas a diferentes etnias, à história por trás dessas designações e às disputas linguísticas resultantes da imposição do 8 Como visto nos resultados, alguns dos topônimos criados no século XX foram formulados de forma híbrida e inadequados como classificou Navarro (2021). GEOUSP, São Paulo, v. 29, n. 3, e-234093, 2025. 24RISSO, L. C. ; CASTRO, J. F. M. [p.
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