Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo* 1 de agosto de 1972, terça-feira
Seja-nos permitido citar, em abono desta assertiva, a Ata da Câmara da Vila de São Paulo, de 7 de julho de 1591, que faz referências a tribos concentradas nas vizinhanças da vila de Piratininga, para futuro ataque contra a mesma. Lá estão citados: Enxoás, Mairairas, Tapoaçabis, Tetaribas, Iabacerus, Açaguacerús, Cuikaguorimis. Grupos tupis? Não Tupis? Não o sabemos. [Página 5 do pdf] Partiu de São Paulo, em agosto, a grande expedição de Raposo Tavares contra o Guairá. Constava de quatro companhias, uma das quais sob seu direto comando e as outras chefiadas por Pedro Vaz de Barros, Brás Leme e André Fernandes, de Parnaíba, respectivamente. A de Raposo Tavares tinha por alferes Bernardo Sanches de Souza e como sargento-mor Manuel Morato Coelho. Comandava a vanguarda Antônio Pedroso de Barros e a retaguarda Salvador Pires de Mendonça. Formando sistema com esta expedição existia outra tropa com Mateus Luís Grou à frente. Eram todos conhecidos como intrépidos sertanistas, e exímios apresadores de nativos. Comandavam brancos, mamelucos e nativos. Seguiu a expedição pelo velho caminho nativo do Peabiru (ou caminho de São Thomé) que levava aos Campos Gerais: Pinheiros, Apotribu, Quitaúna, Barueri, Araçoiaba, Pequiri, Iguaçú. Nos campos do Iguaçú, ultrapassando o Tibagi, a vanguarda da expedição levantou paliçada nas vizinhanças de redução de Encarnação. E ali permaneceram em sondagens, sem atacar, como em armistício, durante 4 meses (outubro de 1628 a fevereiro de 1629). O ataque às reduções começou pela redução de Sto. Antônio (30 de janeiro de 1629), cuja destruição e captura do gentio — cerca de 2. 000 almas — assinalam o início da conquista do Guairá. Seguiu-se a queda de S. Miguel (23 março), de Jesus Maria, onde, diz crônica, que, inquirido pelo padre Cristóvão de Mendonça sobre as razões do assalto, Raposo Tavares respondeu: «Temos de expulsar-vos duma terra que é nossa e não de Castela. »Ampliada a vários setores — Caairu, Ibiaguira — a ofensiva, caíram Encarnação, S. Paulo, Arcanjos, São Tomé e outras reduções mais e as que restaram desfizeram-se ante o recuo jesuítico. As povoações civis dos espanhóis, Vila Rica e Ciudad Real, sobre o Paraná, foram evacuadas, também sob pressão dos bandeirantes que, finda a ofensiva, retornaram a Piratininga, com levas de prisioneiros. Chegariam ao povoado em de 1629. De 1629 a 1632, novas investidas, cuja participação direta de Raposo Tavares é discutível, o que não altera a sua posição de planificador, organizador e chefe incontestável da guerra às reduções castelhanas, em multiplicação na região paraguaia, em pleno expansão na foz e no curso do Paranapanema e que ameaçavam ultrapassar a raia portuguesa e chegar ao Atlântico. Isto significava sério perigo para todo o «hinterland» da Capitania de São Vicente. A prevalecer esta demarcação estaria o atual Estado de S. Paulo reduzido a cerca de um terço do seu atual território e, para o sul, a região correspondente aos demais estados teria permanecido incorporada à coroa espanhola. Asfixiante insegurança para os paulistas representava o conceito dos jesuítas espanhóis sobre os limites de Espanha e Portugal na América meridional. Ante a urgência de deter seu extraordinário impulso de expansão, inevitável era o conflito, de que resultou a manutenção da soberania portuguesa e, em particular, a da Capitania de São Vicente, sobre grande área territorial: a primeira garantia da manutenção do recuo do meridiano para oeste e das futuras reivindicações territoriais do uti possidetis naquela região, um século após, ao firmarem Portugal e Espanha, em 1750, o Tratado de Madri. Quanto ao saldo material da bandeira de 1628 teria dado para abastecer de mão de obra, se não com abundância, pelo menos com relativa suficiência, lavouras e engenhos do Rio de Janeiro, da Bahia e talvez de Pernambuco. Em 1635 apenas dois anos estabelecidos na bacia do Jacuí, defrontaram-se os jesuítas espanhóis com os bandeirantes. [Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, 1972. Página 101]Como no Guairá, representavam aqueles missionários séria ameaça à exploração da região pelos paulistas já de longa data habituados a traficar os miseráveis carijós. [p. https://brasilbook.com.br/imagensx/13227
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