*As tamboladeiras paulistas do século XVII, 1982. Eduardo Etzel 1982, sexta-feira
Na famosa coleção Cinzano de vidros viu-se (fig. 5) uma trompa rython em vidro do século I, cuja legenda diz: “Entre os primeiros Rhyta havia exemplares em prata do período Achaemenid Persa. Os gregos fizeram estes vasos em metal precioso e olaria, mas os romanos foram os primeiros a fazer trompas de vidro. ” (fig. 5). Sempre presente nas celebrações sociais, o vinho e as águas fortes foram sendo bebidos e com eles o costume dos recipientes que obrigavam a um consumo total do seu conteúdo. Ainda não havia o requinte da taça de champanhe com seu pé para uma celebração tranquila como competia a uma sociedade sofisticada e sedentária dos séculos mais recentes. A rudeza e a alacridade presidiam as libações alcoólicas dos antigos. Esta a meu ver a possível evolução do rython dos gregos. Paralelamente a este conhecimento, surgiram a partir de Belmonte as explicações do significado e da utilidade das tamboladeiras. Não se conhecem ainda inventários do século XVII, a não ser os de São Paulo, assim o assunto fica restrito aos bandeirantes e em torno deles vamos buscando esclarecimentos sobre as tamboladeiras. Revendo os 41 volumes dos Inventários e Testamentos paulistas encontrei, entre os 544 inventários transcritos, 96 (17, 6%) com menção a tamboladeiras, estas em número de 181 peças todas de prata. A primeira aparece num inventário de 1616 e a última noutro de 1729. Pode-se assim dizer que são comprovadamente peças do século XVII e do início do XVIII. Estas citações dos 96 inventários podem ser assim discriminadas: 53 vezes uma única peça; 23 vezes 2 peças; 11 vezes, 3; 2 vezes 4; 3 vezes, 5 peças; 2 vezes 6 e finalmente no inventário de Ana Alvarenga, em 1648, e no de Domingos da Silva Bueno, em 1681, 7 tamboladeiras. Foram geralmente 1 ou 2 em 76 inventários (79, 1%); 3 em 11 (11, 4%) e excepcionalmente em número de 4 a 7 (9, 3%). Creio que foram objetos pouco frequentes (17, 6%) cujo uso teria sido para celebrações com o vinho como também para tisanas aos doentes, como afirma Reinaldo dos Santos. As tamboladeiras sendo de prata estiveram presentes nos inventários, geralmente ricos, de defuntos que deixaram bens móveis de uso doméstico a serem divididos. Mas ao que parece seu número foi proporcional à riqueza. Os dois inventários com 7 tamboladeiras foram de ricos espólios, um de 1:022$790 Rs. e outro de 4:340$000 Rs. O tamanho das tamboladeiras também variou das pequenas e leves às grandes e pesadas. As mais comuns e grandes, entre 200 e 400 gr. a maior pesando 432 gr. As médias entre 90 e 150 gr. e as pequenas geralmente com 40 a 50 gr. chegandoArte Hoje. “Os Copos como Espelho Social”. Ano 1, n. º 2, março 1979, pp. 44 a 46. Rev. Inst. Est. Bras. (24) 1982. Se quiser, posso:normalizar o texto (ortografia atual), resumir academicamente, ou formatar para publicação (ABNT, Word, PDF, etc. ). [p. 19] AS TAMBOLADEIRAS PAULISTAS DO SÉCULO XVII 23Outro aspecto que pede esclarecimento é o tamanho dessas peças. Se pesavam 24, 5 gr, 28, 6 gr, 35 gr, 42, 9 gr e 50 gr teriam que ser peças muito pequenas mesmo com uma chapa de prata fina, pois haveria sempre um limite de espessura do metal para a estabilidade do objeto. Compare-se o peso da tamboladeira de 24, 5 gr, 28, 6 gr, 35 gr e 42, 9 gr com a coroa da fig. 6 que pesa 47 gr e pode-se fazer uma idéia do tamanho efetivo destas pequenas tamboladeiras. Estas peças pequenas não são exceção e sim bastante freqüentes quando as tamboladeiras são em maior número ou mesmo únicas nos inventários. Qual o significado dessa diferença de tamanho? Acreditando-se que elas serviam para um rito de brinde com vinho seriam as pequenas para vinhos licorosos, como os nossos cálices? Ou seriam elas usadas segundo o tamanho para homens, mulheres e crianças? E quando únicas e pequenas para que serviriam?Outro aspecto a ser registrado: os copos são raríssimos nos inventários, ao contrário das tamboladeiras. Não seriam estes utensílios usados para dessedentar visitas e viandantes além das reuniões com saudações com vinho? Quanto à sugestão de Reinaldo dos Santos de servirem para caldo aos doentes teriam elas que ser do modelo com asas, pois de outra forma não seria possível segurá-las com líquido quente dentro. Parece certo que as nossas tamboladeiras não tiveram asas, pois se as tivessem seriam mencionadas, como ocorreu três vezes. Este fato parece indicar a modéstia destes objetos, simples copos de prata lisa para bebidas frias ficando o requinte não tanto na forma (asas ou gomos), mas no simples fato de serem numerosas nas casas abastadas e feitas de prata, metal precioso e raro, muito estimado na ostentação dos antigos por causa da abundância que havia entre os invejados vizinhos castelhanos. Assinalei o inventário em que foram pesadas a tamboladeira e a salva juntamente²². A redação da avaliação diz: “Uma tamboladeira grande de prata com salva do mesmo (metal) que tudo pesou duzentas e quatro oitavas” (994 gr). Seria um conjunto, como acontece com os de gomil e bacia? Tudo indica que sim, pois em Santos e Quilhó²³ vê-se uma taça de duas asas (tamboladeira) grande com a salva do mesmo estilo, com gomos, do final de XVII, ao passo que no nosso caso o inventário é de 1729. Também quero registrar que não se encontram terrinas nos inventários, somente pratos. As tamboladeiras grandes poderiam ter sido usadas como tal, sendo tardiamente substituídas pelas de louça, uso muito mais lógico do que o de servirem para uma libação comunitária em celebração, como as loving cups e os tumblers ingleses. Afinal não nos esqueçamos da vida simples e espartana de nossos ancestrais do século XVII e também da capacidade de líquido de uma tamboladeira grande como ocorre com a da fig. 2 de 1200 cc. ²² Idem. ²³ SANTOS, Reinaldo. QUILHÓ, Irene. ob. cit. p. 93, fig. 101. [p. 23] Um último argumento baseado nos inventários: a primeira tamboladeira mencionada foi no inventário de Francisco de Almeida, em 1616 (14) ao passo que o primeiro objeto de prata mencionado foi citado em 1599, um dedal(25). Esta tamboladeira de 1616 foi seguida de outra somente três anos depois, em 1619. Mas o detalhe curioso é que estas duas primeiras tamboladeiras tinham asas: “1 tembladeira de prata com azas em mil e duzentos reis” e outra em 1619 no inventário de Isabel Sobrinha: “1 tembladeira de prata de duas azas”²6. Depois, somente em 1642 aparece “Hua tambolladera de prata grande com sua aza” pesando 12 patacas (115, 9 gr. )27. Acredito que a 2ª tamboladeira de 1619 veio de Portugal porque na mesma relação consta “1 cadeia de ouro que está marcada com um fuzil (contraste do ourives) a donde está um fio azul com a marca real”. Ainda nesta relação há “1 taça de pé alto lavrada e dourada”28. São duas peças que não mais aparecem nos inventários, presumindo eu sua origem da Metrópole como também a tamboladeira de duas asas, como aliás são as reproduzidas por Reinaldo dos Santos. Concluo que as primeiras tamboladeiras paulistas são portuguesas e iguais às aqui reproduzidas, com fundo plano portanto. A partir dessa época as tamboladeiras foram feitas pelos nossos ourives de prata, aqui presentes desde 1598 como se vê no inventário de Isabel Felix quando aparece “Miguel Vaz Lobo ourives de prata” comprando peças (escravos). A moda das tamboladeiras logo se generalizou com os cabedais que iam crescendo. Antes de 1616 é evidente a pobreza do povo com bens móveis ligados à subsistência, predominando o estanho (1599 – uma taça de estanho; 1605 – uma “tijela” de estanho)(29), latão, cobre, ferramentas e animais. A tamboladeira, objeto de certo padrão econômico, foi crescendo em número segundo a riqueza da época. É para mim evidente que sendo as primeiras com suas asas e fundo plano as seguintes simplificadas e de tamanhos vários foram também de fundo plano, nada tendo que ver nem com os tumblers nem comos costumes ingleses ou alemães. Aqui foi tudo primitivo e com uma pobreza que foi cedendo aos poucos, estabelecendo assim usos e costumes estáticos e modestos onde a tamboladeira foi o único objeto próprio para conter líquidos. Não vejo como partindo da tamboladeira com asas e fundo plano a evolução fosse para o objeto de fundo redondo. Não há lógica nesta possibilidade. Notas:14 Inventários e Testamentos. Vol. 5, p. 135. 25 Idem, vol. 1, p. 293. 26 Idem, vol. 5, p. 280. 27 Idem, vol. 28, p. 234. 28 Idem, vol. 5, p. 280. 29 Idem, vol. 1, pp. 189 e 404 [p. https://brasilbook.com.br/imagensx/12880
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