308 DIRECTORIA GERAL DE ESTATISTICA------------------------------------------------------------------------escala; não ataca a floresta paulatinamente e aos bocados; bate-a em cheio e em grande, abrindo-lhe clareiras formidaveis, sobre as quaes faz ondular o oceano verdejante dos caféssaes. Não entra a selva, modesto e humilde, armado do seu machado e da sua foice, acompanhado da familia, como um pequeno proprietario; invade-a, senhorialmente, como a invadia outr'ora, acaudilhando um numeroso exercito de batalhadores, armados já agora, não de arcos, espadas e mosquetes, mas de instrumentos e utensilios aptos para o desbaste, a monda, as carpagens. Começam os paulistas o seu assalto á floresta pelas collinas e taboleiros que circumdam o valle amplissimo do Mogy-guassú, cuja mattaria devastam rapidamente; entram o valle do Rio Pardo e o cobrem de cafesaes; buscam as chapadas e encostas florestaes do Tieté e extendem por ellas os seus latifundios verdejantes; e voltam-se, por fim, pelo velho caminho de Sorocaba, para o valle do Paranapanema, que vão enchendo de fazendas e povoações florescentes. Não ha exemplo de mais vasta e poderosa expansão agricola, operada em tão curto espaço de tempo. Em dez annos, de
1890 a
1900, elles desbastam, mondam e cultivam mais de um milhão de hectares, conquistados á matta virgem, plantam para mais de setecentos milhões de cafeeiros, inundam com uma avalanche de mais de dez milhões de saccas os entrepostos de Santos e os mercados do mundo. Na sua esteira victoriosa seguem legiões e legiões de trabalhadores; só na região do Mogy-guassú, do Pardo e do Tieté, accumulam centenas de milhares de colonos italianos. Surgem, nos mais remotos rincões bravios, como nascidos de improviso, povoados, villas, cidades opulentas: e Jahú, Baurú, Pirajú, Araçatuba, Rio Preto se assentam onde ha trinta annos atrôava a floresta o boré do selvagem. Os trilhos da Mogyana, que já se extendem por Goyaz, os estão levando pelo mesmo caminho, trilhado pelos contemporaneos do Anhanguéra; emquanto que a Noroéste os projecta pelos valles do baixo Tieté até os sertões meridionaes de Matto Grosso, que já começam a invadir, de assalto, repellindo a mattaria a golpes de machado e a tiros de carabina o bugre recalcitrante. Para os lados do sudoeste a corrida é ainda mais impetuosa; pelo traçado da Sorocabana e da S. Paulo-Rio Grande, depois de inçarem de latifundios agricolas e pastoris os valles do Paranapanema e dos seus affluentes, estão senhoreando rapidamente os vastos sertões septentrionaes do Paraná, em cujas solidões desbastadas já começam a branquear, em florada, os caféssaes. Esse formidavel assalto á floresta tem dous batedores originaes: o "bugreiro" e o "grilleiro". Um e outro se completam e são creações desse mesmo espirito de conquista a todo transe, que caracteriza a nossa moderna expansão para o oéste. O bugreiro surge nas zonas de attrito do civilizado com a nossa selvageria remanescente: no Paraná, em Santa Catharina e, principalmente, no Paranapanema e no traçado da Noroeste. É um descendente degenerado do primitivo mameluco das bandeiras: tem a deshumanidade e a ferocidade deste, mas não a bravura cavalheiresca e a impetuosidade bellicosa. É traiçoeiro, subrepticio, colleante, friamente perverso. Está mais bem armado do que o seu ancestral de ha trezentos annos, mas não ataca o inimigo ao trom da guerra: é sobre as cabildas adormecidas, na tranquillidade das altas madrugadas, que elle e a sua