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Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, volume XLII*
jul. de 1943

Resta-nos Baltazar Fernandes, cuja biografia vamos esmiuçar, não sem antes despedir-nos de Parnaiba. Em 6 de julho de 1634 Suzana Dias ditou ao juiz João Mendes Geraldo as suas últimas vontades, presente o vigário João Pimentel, Gabriel de Lara, João Álvares Moreira, e outros muitos. Parece que toda a gente se acercou da matrona “enferma em sua cama”. Encomendou a Deus e aos santos sua alma, desejava ser enterrada na igreja desta vila de que meu filho é padroeiro. Do primeiro matrimônio tivera sete filhos os quais todos eram herdeiros de seus bens. Do segundo, com Belchior da Costa, não lhe ficou herdeiro, mas ao casar-se Domingos Fernandes com a filha deste, dera-lhe a legítima do pai. Além disso dotara duas filhas de Belchior da Costa, e ao filho Manuel sustentara em casa até o casamento. A boa senhora criara tambem duas orfãs, filhas naturais de Pedro Fernandes, fazendo-as herdeiras neste testamento, e já nada devia à que casara com Manuel Coelho. Tambem nada devia da legítima paterna às suas quatro filhas Custódia, Ângela, Benta e Augustinha a quem havia feito os dotes. André Fernandes devia fazer casar sua sobrinha Custódia Dias, filha de Ângela. Pagar-se-iam uma cavalgadura à filha Benta, e mil réis a Augustinha. Os índios que ficavam como André Fernandes — diz ela — “estavam em minha casa pelo bom tratamento que lhes fiz e não por direito que eu tivesse neles e por ser de sua vontade vão para a casa de meu filho”; que lhes ensinaria a doutrina, encaminhando-os ao serviço de Deus. Acalmava, assim remorsos de conciência à hora das contas, mas prolongava a escravidão dos que para isso arrancados foram às selvas. Em 2 de setembro de 1634, João del Campo y Medina, redigiu em puro castelhano o termo de testamenteiro a favor de Baltazar Fernandes, “testamentero de su madre defunta que Dios aya por ser verdad y en todo el tiempo constar, firmo este de my nombre. ”Em 30 de junho de 1635, reunidos os três irmãos André, Baltazar e Domingos assinaram o termo de composição amigavel para pagamento das dívidas maternas. André Fernandes em 1641, 8 de janeiro, dotou Suzana Dias, filha de Baltazar, com 40 peças de gentio da terra, um curral de gado de Taquarivaí e “dez peroleiras de vinho de sua vinha”. Igual foi o dote de Custódia Dias, outra filha de Baltazar. Baltazar ainda estava em Parnaiba e em 6 de maio havia dotado a sua filha Maria de Proença, com muitas cabeças de gado, um cavalo, [p. 211]uma rasquinha, “um pequeno sítio na Ilha de S. Sebastião, próximo do arrecife junto à barra de um rio. ”Domingos fundava a capela de Nossa Senhora da Candelária de Itú, cerca de 1645. Morreu em 1652. André Fernandes parece que não voltou ao sertão. Morreu em 1641, com a idade de 63 anos. Sozinho, Baltazar Fernandes resolveu abandonar de vez a sua grande casa de Parnaiba e residir definitivamente nas terras já suas e onde se afazendara pelo menos desde 1634. É muito possível que o desejo de imitar a André e Domingos levasse Baltazar a fundar uma capela onde lhe sobrassem sufrágios após a morte. Entreviu certamente a importância do local que tão bem conhecia: verdadeira boca de sertão, pela paragem de Sorocaba se atingia por terra o antigo Guairá e os campos de Curitiba, onde a pecuária começava a dar mostras do futuro. O atual sul do Brasil era um livro aberto para aquela gente parnaibana: Gabriel de Lara, presente em 1634 junto ao leito de Suzana Dias, lá estava em Paranaguá, enquanto outro parnaibano, Baltazar Carrasco dos Reis iniciava o povoamento de Curitiba. Em 1645, ele, os genros e os filhos se transportaram para o lugar chamado Sorocaba, a légua e meia do Itavovú ou São Felipe, para onde em 1611 D. Francisco de Sousa permitira se transportasse o pelourinho que em 1600 erguera no Araçoiaba. Nascido em 1579 ou no máximo 1580, Baltazar Fernandes estava pois com 65 anos de idade. Era ainda um homem forte, por sem dúvida. Fundador na idade em que merecia o descanso. Cerca do ano de 1600 casou-se Baltazar Fernandes com Maria de Zúnega, nascida na Vila Rica de Guairá, filha de Bartolomeu de Torales e de Violante de Zúnega. O casamento de Baltazar precedeu de 30 anos a transmigração das famílias do Guairá para São Paulo. É um verdadeiro romance de aventuras este namoro a tantas léguas, de um bandeirante com uma, digamos, sul-americana. Vê-se com nitidez a união simbólica das duas raças ibéricas no coração da América. Raças que o caldeamento com os guaranís renovou em proporções gigantescas. Desse matrimônio nasceu em Vila Rica Maria de Torales, que se casou com outro vilarriquenho: Gabriel Ponce de Leon e com ele e outros parentes se transplantou para São Paulo antes de 1634 e depois de 1630. Baltazar ficou certamente em Vila Rica os curtos anos ou talvez meses de seu casamento. A filha, tão cedo orfã, só se

DATA:01/07/19430 fontes

lentemp:3-2-78

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