cipalmente num país onde nunca se fizeram trabalhos dessa natureza e que depende de produtos estrangeiros para cada detalhe da fabricação e. cada cadinho empregado nas enormes instalações da Fábrica". Dêste relato se depreende que, apesar da má vontade do Ministro de quem dependia, o Major Bloem levou a melhor e conseguiu impor-se. Sua situação deve ter melhorado no ano posterior à visita de Kidder, isto é, em
1840, pois, decretada a maioridade de D. Pedro II, os liberais voltaram ao poder. Consta, com efeito, que êle foi subsequentemente agraciado com a imperial Ordem do Cruzeiro, tendo-lhe sido igualmente prometida a promoção para o posto imediatamente superior, como recompensa dos seus esforços, da sua perseverança na emprêsa que lhe fôra confiada. Infelizmente os liberais foram de novo apeados do poder, e é de acreditar que à queda do seu Ministério se seguissem as derrubadas da praxe. O Major Bloem não foi substituido porque o govêrno conservador não pôde certamente encontrar um técnico capaz de sucedê-lo. Chega-lhe assim, de novo, a vez de ser tolerado. E confirma-se desta forma a opinião de Kidder sôbre os inconvenientes dos monopólios governamentais no terreno da atividade industrial. XIV — O Ipanema e a Revolução Liberal de 1842Em menino, ouvi dizer mais de uma vez que a Menina Santo de Campo Largo morreu no mesmo ano da revolução de Tobias. — Quem era essa Menina Santa? perguntaria naturalmente o leitor. Permita-nos, pois, uma breve digressão, que não será inútil. Servirá para atenuar a aridez da nossa crônica sôbre o Ipanema. A Menina Santa não é uma entidade de todo lendária. Filha de Bernardino Rodrigues Claro e sua esposa Ana de Oliveira Prestes, ela nasceu, lá por volta de
1820, no bairro de Campo Largo, quando êste ainda se integrava
[p. 66]no município de Sorocaba. Em Sorocaba foi ela batisada pelo respectivo pároco, Padre Antonio Ferreira Prestes, recebendo na pia batismal o nome de Maria do Lado. Reza a tradição que, menina ainda, Maria do Lado caiu enfêrma e passou de cama o resto da vida, como Santa Leduina de Schiedam. Muito piedosa, obteve de seus pais que lhe armassem na alcôva um altar, em cujo centro havia diversas imagens bastante tôscas mas que faziam o encanto das suas horas de soledade
(30). Maria do Lado rezava muito e mal se alimentava, sendo êsse talvez o ponto de partida da sua fama de santidade. Segundo o testemunho de sua mãe, tinha visões maravilhosas, que ela própria relatava aos seus visitantes embevecidos. Corre como cousa certa que ela profetizou a revolução de 42 e quiçá as nossas guerras de hoje, pois falava de carros de fogo que voavam. Era isso no tempo das grandes feiras de Sorocaba; nada mais natural que o nome de Maria do Lado chegasse ao sul do país e que um ou outro tropeiro de tropa solta a invocasse nas suas aperturas, fazendo-lhe promessas. O que é fato averiguado é que, graças aos presentes oferecidos a Maria do Lado, seus pais viviam sem sofrer grandes necessidades. Finalmente, a jovem vidente faleceu a 15 de fevereiro de
1842, na idade de 20 anos, e depois de ter sido solenemente encomendada pelo Vigário de Campo Largo, foi sepultada no cemitério da respectiva freguesia. Até aqui temos a história, talvez um tanto romanceada. Depois dela vem a lenda: Certa noite os despojos da santa campolarguense foram retirados da cova e levados para Roma, onde estão guardados como relíquias. Fechemos agora o parentesis da digressão, dizendo que o Vigário de Campo Largo se viu envolvido na revolução predita por Maria do Lado. A bernarda saiu à rua a 17 de maio de
1842 e logo(30) — Esse altar existe ainda e tem passado de mão em mão, talvez já um tanto desfalcado. O último detentor que conheci foi o Snr. Batista de Camargo Pinto, já falecido. — 67 —
[Boletim do Departamento,